segunda-feira, 3 de setembro de 2012

FÉRIAS

Nas férias o coração pára
a respiração habita as sombras
e dá vida às pedras
Por isso saem mais lentas
as palavras
vazias como um céu limpo
nas madrugadas do meio-dia

Os campos ganham a cor do vento
dançam o seu assobio
e atrás dele vamos
como animais selvagens
sem rumo nem mapas
Apenas a direcção do acaso

Porque nas férias o tempo espreguiça-se
sobre a erva
e os dias são puxados pelas nuvens
como pelos burros eram outrora
por estes dias
puxadas as carroças

O espaço enche-se de um silêncio
murmurado pelas coisas breves
Homens dando as mãos
sobre o tampo de uma mesa
a toalha posta, o lume ateado
para que tenham sentido
as pinhas oferecidas pelos pinheiros
aos tapetes do Verão

Nas férias apenas sabemos que estamos vivos
quando o desejo clama por nós
nas pálpebras de um cavalo manso

E então fotografamos a paisagem
como quem cinzela o nome
nos ombros de um sobreiro
E dizemos que passam rápido os dias
é efémera a alegria

Tantos meses de clausura
para que ganhem sentido estas horas
Eu sinto a solidão das férias
sempre que pouso o cansaço na terra húmida
e caminho docilmente na berma dos carreiros
à procura de uma esquina incógnita
onde possa dizer:
o vento na ramagem
um cão de guarda
as rolas em fuga
as vacas pascendo
o mar para lá das arribas
distante
uma mulher que canta
os motores do avião
num céu inacessível
um cavalo algures
talvez na imaginação
pássaros de várias cores
plantas, flores
grilos e cigarras
um gato de atalaia
uma chuva de pirilampos
e a criança que cumprimenta
o desconhecido que passa





eis os sons que nos agradam

1 comentário:

Simone Teodoro disse...

Sempre senti nas férias um misto de alegria efêmera e tristeza... E é exatamente por causa das clausuras necessárias para que cheguem os dias tão breves de descanso.
Malas,carros estacionados à beira das praias... E toda aquela beleza da juventude ali, tão explosiva...
E um difícil sentimento de tragédia na atmosfera.