quinta-feira, 18 de outubro de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #69


O relativo sucesso que os Dead Combo alcançaram, ao aparecerem recentemente num programa de Anthony Bourdain, é inteiramente merecido e chega tarde. Falamos de uma daquelas bandas que tivesse nascido nos states, há muito encheria coliseus em Portugal. Acompanho-os desde Vol. 1 (2004). Praticamente restringidos à guitarra eléctrica de Tó Trips e ao contrabaixo de Pedro V. Gonçalves, praticam uma música essencialmente instrumental de inclinação elegíaca e com fortes ligações à tradição portuguesa. Não obstante, percebe-se uma assimilação melódica capaz de reunir a uma mesma mesa as composições de Ennio Morricone para westerns e a guitarra portuguesa de Carlos Paredes, o registo mais pop de uns saudosos Morphine (escute-se o tema Polaroid Omelete e os Três Miseráveis Saxes Barítonos) e a desconstrução da tradição bluesística levada a cabo por Tom Waits, algumas derivações (provavelmente involuntárias) dos primeiros Fleetwood Mac e o lirismo sedutor dos The Shadows. Mas esta mesa é uma mesa de poker, onde nos olhares cruzados das fontes insinua-se um bluff constante. Porque há nesta assimilação a capacidade de, sabotando as fontes, compor melodias simples à base de guitarras com imensa reverberação e um imaginário nocturno, nostálgico, tipicamente lusitano, mas igualmente moderno. A música dos Dead Combo é, por isso, assaz sugestiva visualmente, podendo nela serem observadas tanto as ruas de uma cidade envelhecida como as estradas poeirentas que atravessam o deserto… a caminho do México. Boa viagem, encontrar-nos-emos no futuro.

Sem comentários: