sábado, 3 de novembro de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #71

Poucas bandas terão dado mais substância ao conceito de ecletismo do que os The Flaming Lips. The Soft Bulletin (1999) ofereceu-lhes o que há muito mereciam, uma plateia extensa. E não deixou de ser curioso verificar, por esses tempos, que nos concertos da digressão que então os trouxe ao Sudoeste podia juntar-se todo o tipo de gente. Justificava-se o alarido, tal a magistralidade do produto. Sendo absolutamente experimental num contexto noise-rock, é provavelmente o mais amistoso dos seus registos. As orquestrações que envolvem as melodias oferecem à textura pop das canções uma falsa grandiosidade. Nada de épico há aqui. Pelo contrário, temos uma refinada e acutilante ironia sobre a salvação do mundo e a humanização dos heróis. Já depois da ciência ter ganho território a Deus, na era da tecnologia – e os The Flaming Lips têm sabido usar-se dela como ninguém – a salvação reside, muito provavelmente, na capacidade de resistir aos desenganos com doses generosas de sentido de humor. Poções mágicas não haverá, nem heróis de banda desenhada reparam o mundo. Talvez possa ajudar a capacidade de rirmos de nós próprios e de não nos deixarmos levar no êxtase das nossas conquistas.  Há algo de sinfónico nestas composições, um pouco à semelhança do que várias bandas fizeram quando trouxeram para dentro de formações tipicamente rockeiras os contributos da chamada música erudita. O que aqui impressiona e se diferencia é a capacidade de manter o ruído onde ele parece extinto, como uma espécie de nervura que revigora o romantismo dos floreados.

2 comentários:

Felipe Terra disse...

Obrigado por me apresentar The Flaming Lips...
Não os conhecia...

hmbf disse...

de nada