terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O HOMEM DA VIDA MISERÁVEL

Ninguém entende porque leva o homem uma vida tão miserável. Dizem que não tinha precisão, num pretérito nada convincente. Mas eu olho para ele e julgo compreender a razão que o leva a trazer todas as feridas abertas. Tentou várias vezes cicatrizá-las, muitas milhas afastado de si próprio. Vendeu os ossos, hipotecou os músculos, cambiou a pele em mercados distantes. Contaram-me que andou perdido em desertos e oceanos e florestas e bosques e selvas e cordilheiras e vastos campos imaginários. Adormeceu há muito debaixo de uma ponte turbulenta, tentando porventura conciliar o paradoxo das margens. Concebeu teses e teorias e teoremas deveras confusos e inacessíveis, acomodou-se no seu covil de dúvidas e incertezas. Mas eu olho para ele e vejo apenas em cada uma das suas feridas abertas o desencanto das pedras. Desconfio que se tenha convencido, há muito, de que não vale a pena andar com as mãos livres quando tudo nelas é já o ferro de um grilhão invisível. Ter-se-á fundido, muito provavelmente, com as grades que se lhe intrometem entre as retinas e o mundo. No fundo, o homem leva uma vida miserável para não matar quem o rodeia. Mais do que para não se matar, é para não matar quem o rodeia que ele se consente miserável. Não por medo dos outros nem por medo de si próprio, como diz quem o vê enquanto mata o seu próprio tempo miserável. Apenas para não ferir de morte o inferno que o rodeia. Ah, por vezes vejo na tristeza que aureola o homem miserável uma luz brilhante. Noto, se me permitem, um sorriso constante na sua indolência. Um sorriso louco. Ele deixa a solidão florescer como quem semeia sangue na sua própria sombra. Vislumbro na sua incomensurável indescritível indelével tristeza um sol que brilha em noites frias de Novembro. Ele sorri-me numa linguagem que todos à minha volta interpretam sombria, como se existisse algum hermetismo no seu caminhar. Sempre que vejo passar o homem, sempre que o vejo curvado perante as mãos que por vezes se detém observando, lembro-me de um dia ter ficado uma tarde inteira a olhar embevecidamente um charco. E pensar que naquele charco medravam os peixinhos cor de laranja que eu pescava no rio da minha terra, hoje minado de silvas e lixo. Que bem me parece o homem da vida miserável, indiferente a quem o traia, a quem o abandone, a quem o inveje, a quem o tema. Rezo por ele, sempre que por mim passa carregando os sacos vazios da vida.

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