sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O HOMEM DA VIDA MISERÁVEL


Não se admirem de que por vezes o homem da vida miserável se sinta ridículo, ridículo por não ter vida e ser essa a vida que leva. Gasta as solas parado, a olhar teias de aranha penduradas nas paredes, a imaginar partidas nunca concretizadas, regressos sempre por consumar. Ele cansa-se de cansar quem o rodeia, mas nada pode contra os factos. Os factos têm uma força indelével. Os factos fazem cair pedras do céu, compõem os telhados das casas com rugas e cicatrizes, abrem fendas nas paredes, surpreendem sonâmbulos em ritmo onírico. E o homem da vida miserável tem qualquer coisa de sonâmbulo, mas nada de onírico. Acorda todos os dias a desejar uma morte súbita, indolor, porque nele não existe a coragem que pendura corpos no tecto onde as aranhas constroem suas casas. Nele existe apenas um homem a apodrecer lentamente, ao ritmo das horas. Bebe, bebe muito, bebe até ao ponto de à sua frente se formar um arco-íris, até ao ponto de poder olhá-lo por breves instantes que valem uma vida inteira, ou um bando de gaivotas bravas sobrevoando os mais horríveis prédios da cidade, ou o vento cuspindo água contra os vidros das janelas, alguém tentando equilibrar-se com um inútil chapéu-de-chuva na mão. O homem da vida miserável adormece ao som das tempestades, decretando rubros alertas no imo dos nervos. Depois nada acontece, nem trovoada, nem relâmpago, apenas as mesmas tépidas praias desertas de sempre. E eu rezo pelo homem, sempre que por mim passa carregando os sacos vazios da vida.

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