sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O HOMEM DA VIDA MISERÁVEL

Não consigo imaginar o homem da vida miserável entre quatro paredes. Nem colando bolor às paredes, nem forrando de musgo as quatro paredes. O mais que consigo é imaginar o mundo inteiro como quatro paredes de uma casa imensa onde circulam seres tão vagos quanto eu e tu, caro leitor. Se imagino o homem da vida miserável entre quatro paredes, vejo um macaco arrancado à floresta, ainda inquieto e desintegrado, andando de um lado para o outro batendo no peito a irrequietude que o acossa. No entanto, ele parece viver permanentemente entre quatro paredes. Mesmo quando bofa ou desmaia ou suspira, mesmo quando expira o tédio dos velhos que lavram as terras e das varejadeiras. Ele parece viver entre quatro paredes como se as quatro paredes fossem o seu próprio corpo, ele vive fechado dentro de si próprio. Por vezes salta para fora de si com a luz rompendo dos céus nublados nas manhãs de Dezembro, com o cheiro das queimadas, com as marés vivas em dias de Agosto, com um bando de gaivotas desenhando no céu a tempestade dos mares, com um banho de chuva acidental, com o canto das aves cujo nome despreza, com uma flor inesperada, com tudo o que seja assimétrico como o seu próprio rosto. Simplesmente detesta museus, cemitérios jardins, a organização do mundo levada a cabo pelo desprezo dos homens, a busca da simetria no que nasceu assimétrico e caótico. As quatro paredes do seu corpo são povoadas de pensamentos desorganizados, de uma desorientação voluntária sem regras nem normas nem leis, apenas e tão-só com teses e teorias e teoremas deveras confusos e inacessíveis. Por outro lado, pergunto-me se consigo imaginar o homem da vida miserável fora de quatro paredes. E sinto-me subitamente perdido num labirinto de emoções, sensações, agitações com arestas deterioradas pela passagem de corrosivas ventanias. Fora de quatro paredes, somos todos tão indefesos e previsíveis, tão inseguros, medíocres, que chega a ser masoquista olhar-MO-nos nessa pobre condição. Somos frágeis, débeis, somos o grito que a rua reclama, o sistema consente mas o medo trava bem no meio da garganta. E logo fugimos para dentro, onde o conforto surge da segurança que sentimos porventura gerada na ilusão de que estamos mais seguros permanecendo dentro de nós próprios. Não sei o que sentirá o suicida, simplesmente rezo por ele - sempre que por mim passa carregando os sacos vazios da vida.

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