quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #77


Um qualquer acto falhado que ainda estou para entender levou-me a omitir Valtari, dos islandeses Sigur Rós, neste pessoalíssimo balanço de 2012. Não o ter encontrado nas tradicionais e patéticas listas de melhores do ano, disseminadas pela imprensa escrita, weblogs e afins, avivou-me a memória. É provável que a música dos Sigur Rós seja já parte tão integrante da minha vida que nem me lembre dela quando é para me lembrar de alguma coisa. Suponho que aconteça com toda a gente este estranho fenómeno de só nos lembrarmos do que é muito nosso quando, por alguma razão, deixa de o ser. O único comentário a Valtari que me recordo de ter escutado ou lido, não posso precisar, foi o de que se tratava de um álbum chato. Talvez não tenha sido este o epíteto, mas a ideia que me ficou foi essa. A música chata dos Sigur Rós transporta-nos para universos transcendentais, difíceis de aceitar a quem não tenha dentro de si qualquer predisposição mediúnica. Os sons que se escutam neste registo, como nos anteriores da banda, provêm deste mundo, mas transportam-nos para um outro, não oposto a este, mas dele diferente, como sempre faz a melhor arte. Ao contrário de alguns projectos congéneres movendo-se naquilo que se convencionou chamar de post-rock, os Sigur Rós enjeitam paisagens urbanas decadentes, com edifícios em ruínas, preferindo embarcar em navios fantasma numa viagem levitante com momentos épicos e oscilações de volume de acordo com as marés. Esta viagem é íntima, penetra nas coisas como o tempo na carne, movimenta-se no interior da matéria trazendo à superfície, sob a forma de som, uma realidade desconhecida e misteriosa. Tem o dom, por assim dizer, de reproduzir mistérios que nenhuma ciência explica. É arte. Daí que, no seu decurso, escutemos vários sons perfeitamente identificáveis, embora por vezes improváveis, acompanhados pela lentidão das cordas e uma quase estática melodia fluindo do motor mais típico da música dita popular. Porque a música dos Sigur Rós não é projectada pelos instrumentos, ela flúi dos instrumentos como se estes fossem uma fonte natural de sons, melodias, ritmos. O melhor de 2012 estará invariavelmente ligado a este Valtari, por mais que demorem certas pessoas a perceber o quão chata é a beleza.

1 comentário:

PJ Nelson disse...

Triste é outro epíteto com que, por vezes, designam a arte, como se o que é belo possa ser triste.