domingo, 20 de janeiro de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #79


Nem só de grunge e acid house se alimentou o início da década de 1990. Nas ruas de Londres, três estudantes de canto exerciam a voz com versos respigados no romanceiro das ilhas. Madra (1991), inteiramente à capela, marcou a diferença. Logo no ano seguinte, as Miranda Sex Garden cresceram em número e meios. À voz, juntaram-se os instrumentos típicos de uma banda rock (bateria, guitarra, baixo) e o toque clássico do violino e do violoncelo. Iris (1992) foi o pórtico de um longa duração altamente recomendável, de seu título Suspiria (1993). Passados vinte anos sobre a primeira audição, Suspiria mantém-se enigmático como um velho arcano por decifrar. O canto remete-nos para tempos imemoriais, com uma componente gótica cuja tonalidade recria o imaginário medieval dos cultos profanos. À semelhança do escutado em alguns álbuns dos Dead Can Dance ou em bandas arraigadas ao folclore nórdico, como uns Hedningarna, as Miranda Sex Garden cultivam imagens mitológicas violentas e tentadoras, desafiando a elegância de uma matriz contemplativa. Neste Suspiria, ateiam a fogueira à volta da qual exorcizam espíritos perversos e alimentam a carne. São épicas quando se dobram sobre si próprias e mergulham nas funduras do ser que suspira por uma manifestação libertadora, trazendo à superfície os terrores e os recalcamentos que a alma enjeita à carne. Socorrem-se de ferramentas várias como guitarras ensurdecedoras, instrumentos de sopro em delírio, estilhaços literalmente repercutidos contra mantos de som obscuros. Percorrido o inferno, penetrado o ser em busca de si próprio, o álbum termina com uma apaziguadora revelação – uma versão límpida, translúcida, de My Funny Valentine.

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