domingo, 27 de janeiro de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #80

No “libreto” que acompanha esta edição da obra integral de Nick Drake (1948-1974), lê-se a páginas tantas que a música do songwriter britânico é de tal modo bela que nos faz sentir vergonha da fealdade do mundo. Não é exagero. A música de Drake reflecte a estatura do seu autor, olha-nos do alto de uma solidão cuja sensibilidade e fragilidade nada têm que ver com a arrogância dos mensageiros da verdade. As canções de Nick Drake transpiram dúvida, caminham lado a lado com a insegurança e a incerteza dos homens que se perdem numa floresta. Talvez cheguem a julgar-se a salvo da completa perdição quando deparam com uma nesga de luz intrometendo-se através da cabeleira das árvores, mas essa suposição nunca se impõe aos outros como uma verdade revelada. É íntima, intransmissível. Melancolia é a palavra que mais vezes encontramos associada às canções de Five Leaves Left (1969), um conjunto de composições para viola acústica e piano, acompanhadas por arranjos de cordas barrocos e, por vezes, uma conga ou uma flauta. A música é uma espécie de tapete sobre o qual repousa uma voz aveludada, encantadora, mas indisfarçavelmente nostálgica do que sabe nunca vir a ser. Bryter Layter (1970) introduz uma secção de sopros, almeja ritmos mais luminosos e chega a ser auto-irónico em breves momentos (Poor Boy é o mais evidente). Tinha tudo para ser o sucesso que nunca foi, atirando Nick Drake para o fundo de uma depressão da qual não conseguiu sair. É verdade que as canções anteriores, os poemas que as suportam, indiciavam uma personalidade onde o ânimo não era a característica mais evidente, mas o insucesso comercial de Bryter Layter, sobretudo num escritor de canções que agonizava no contacto directo com o público, foi uma machadada final. Pink Moon (1972), gravado em apenas duas noites, com Drake fazendo-se acompanhar ora da sua viola acústica, ora de um piano, encerrou uma carreira que em tudo se confunde com a vida do autor. Desespero é outra palavra muitas vezes associada às canções de Nick Drake, um escritor que nunca chegou a encontrar sentido para uma vida artística marcada pela incompreensão de um público mais interessado em pipocas e pastilha elástica do que na expressão autêntica das emoções. Time of No Reply é póstumo, só entra nas contas de quem estiver disposto a deixar-se assustar por uma lua cor de rosa.

2 comentários:

A VIDA NUMA GOA disse...

Bom encontrar, ler isso.

Escrevi sobre o Nick aqui:

http://avidanumagoa.blogspot.com.br/2009/12/nick-arvores-ingratidao.html

hmbf disse...

obrigado