terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #82


No início da década de 1990, quando metade do mundo regozijava com guitarras eléctricas e camisas aos quadrados, descobrindo a outra potencialidades que as novas tecnologias ofereciam à escrita de canções, duas jovens britânicas pegaram nas respectivas guitarras acústicas e escreveram uma dúzia de canções inolvidáveis. Pooka, o nome por detrás do qual se esconderam Sharon Lewis e Natasha Jones, tão depressa desapareceu como desatentamente surgiu. Produzido por John Coxon (Spiritualized, Spring Heel Jack…), o álbum homónimo é uma pérola de que não reza a história. Estávamos em 1993, a atenção melómana recaiu sobre outras paisagens. Passados vinte anos, ocorre-nos pensar que tivemos todo este tempo um pequeno diamante em mãos. Como não somos egoístas, partilhamo-lo. Essencialmente acústico, Pooka reproduz ambientes quase pueris com o recurso singelo a arranjos onde podemos escutar vários instrumentos em graciosa sintonia. Por vezes, as cordas recorrem a um delay que embala o saxofone, o piano ou a harmónica. Aqui e acolá, um arranjo mais ousado inflaciona o entusiasmo. Mas, no geral, o ritmo das Pooka é bluesy o bastante para nos deter a euforia. Mesmo em temas como Rolling Stone, quando a distorção se intromete para esticar os nervos à paixão, a música do duo britânico reconforta mais do que desassossega. No entanto, a agressividade com que por vezes se recorre ao slap na guitarra sugere uma inquietação que o conteúdo lírico reforça. A própria recolha induz um estado de degradação melódica indisfarçável: do dedilhado clarividente e contido da primeira canção, ao histerismo libertador do último tema. Happiness at last, sem regras nem rede. Apenas som. E uma vontade imensa de voltar a percorrer todas estas ilhas desertas.

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