quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

VAZIO

Sexo, sexo, sexo, à minha volta só se fala de sexo. Livros sobre sexo, filmes sobre sexo, o sexo na televisão, na publicidade, nos corredores do poder, nos palcos, no teatro da vida e até no teatro da morte. O sexo travestido de comédia, o sexo transvertido de tragédia. Sexo. O sexo e a noite, gente meticulosamente produzida em silêncio à espera de ser seduzida entre ruído. Gente que sai de casa para se sentir querida, desejada, seduzida. Gente que adora, anseia e se inflama com um elogio, mesmo que o saiba fátuo; com um galanteio, mesmo que o perceba cínico; com a lábia dos sedutores, mesmo que a pressinta, julgue e creia superficial, banal, fútil, porque o que interessa é sentirmo-nos apetecidos e cobiçados. Dietas, ginásios, corpo. Cultiva-se o corpo, disfarçam-se as rugas, esconde-se a flacidez. Dissimulam-se os anos, a idade, o terror do tempo, com a hipocrisia de quem não se quer ver a um espelho tanto quanto pretende mostrar-se a esse mesmo espelho. Porque chegadas à minha idade, as pessoas não se querem ver, fogem de se ver, preferem embustear-se na ânsia, talvez, de se verem resgatadas do tempo. E a futilidade de tudo isto aflige-me, constrange-me, deixa-me a pensar que talvez devesse ter optado por um outro tipo de vida. Talvez devesse enfiar um capuz na cabeça e dedicar-me à metafísica, talvez devesse enclausurar-me num mosteiro ou tornar-me eremita numa capela, quem sabe, no alto de uma montanha ou numa cabana, quem sabe, no meio do deserto. Aflige-me a futilidade desta gente, o modo como hipocritamente se insinuam nas redes sociais e dão o primeiro passo no universo da realidade, muito cuidadosamente, como se estivessem a pisar a lama de um pântano onde se sentem inseguras. Aflige-me o medo que se lhes descobre nos olhos, a sensação de pecado que se lhes esconde nos silêncios, a culpa, a vergonha, o pudor omitido sob os disfarces, e recolho-me, só, estupidamente só, a um canto sombrio, com o pensamento nos meus botões. Afinal o que buscam estas pessoas? O que pretendem elas? O que procuram? Talvez procurem o que todos procuram, ser felizes. Talvez procurem o que todos procuram, prazer. Talvez julguem que tanto a felicidade como o prazer são dádivas da alegria, da experiência da alegria, do riso, do toque, da foda, talvez nelas tudo se resuma a uma equação química, a uma agitação hormonal, a um ser sentido mais do que sentir-se, porque o sentido, afinal, é não haver sentido algum. Todas as possibilidades se abrem neste cenário. O tímido masturba-se, o destemido seduz, o pecador flagela-se, o presunçoso lê Freud e perora sobre o que lê elaborando teses. «É inútil tudo, é inútil tudo, é inútil tudo», dizia Álvaro de Campos, enquanto coçava os pentelhos e traduzia Omar Khayyam, que, alguns séculos antes, havia já constatado: «a tua vida não terá sido útil se tiveres enxertado no teu coração a rosa do Amor ou se tiveres procurado ouvir a voz de Alá ou ainda se tiveres empunhado a tua taça sorrindo ao prazer». Omar, Omar, tivesses tu vivido em pleno século XXI e certamente não falarias assim. Mais que o vinho, mais que as rosas, mais que o haxixe, mais que o teu Alá, encontram hoje os seres utilidade onde tu não vislumbrarias senão futilidade, porque para a gente de hoje tudo o que puder disfarçar o reflexo do corpo no espelho é útil, tudo o que puder fintar a verdade é útil, a mentira é útil, não no sentido em que Platão lhe admitia utilidade, mas, mais do que nesse sentido, no sentido em que a verdade é constrangedora, incómoda, inconveniente, inútil. E a verdade que todos querem disfarçar é esta: não valemos nada, existirmos ou não é indiferente; daí que, existindo, tudo seja concebível e aceitável, desde que não procure negar o vazio em que existimos.

6 comentários:

heartixt disse...

Sigo o blog com grande interesse há vários meses,estou geralmente de acordo com a sensibilidade política, cultural, ética, ou lá que seja, e hoje fiquei surpreendido com esta indignação 'sexual'.
A resposta para tanta admiração é, de resto dada no próprio texto: "....Talvez julguem que tanto a felicidade como o prazer são dádivas da alegria, da experiência da alegria, do riso, do toque, da foda, talvez nelas tudo se resuma a uma equação química, a uma agitação hormonal, a um ser sentido mais do que sentir-se, porque o sentido, afinal, é não haver sentido algum...".
É isso mesmo. E qual é o mal. Por que razão tudo isso é fútil? O sexo não é nem nunca será fútil.
Já quanto à 'dissimulação' não poderia estar menos de acordo. Classificar de dissimulação por se seguir os conselhos de beleza de Ovidio é exagero. Classificar de 'mentira' porque não se assume uma verdade kantiana, é outro exagero.
Generalizar e concluir que "não valemos nada e existirmos ou não é indiferente", é mais do que exagero, é injusto. Deste niilismo pode enfermar o autor da 'reflexão', mas não os 'reflectidos', pois estes agem de modo contrário à conclusão...Na verdade só me parece que mostram achar que valem, que existem, que desfrutam. Vazio? Quem?

Abraço

euexisto disse...

grande crónica. estou siderado. só um pormenor ali no texto que lhe escapou: "tronar-me eremita".

Anónimo disse...

Isso tudo parece-me falta de sexo.

jp disse...

"E a verdade que todos querem disfarçar é esta: não valemos nada, existirmos ou não é indiferente; daí que, existindo, tudo seja concebível e aceitável, desde que não procure negar o vazio em que existimos."

Nem mais. Rir ao espelho faz bem.

rapaz disse...

há quem queira jogar o jogo, por nada mais querer, há quem sinta o jogo desprezível, por mais querer.
No sexo, na amizade, no dia-a-dia, no ser, na existência.

'há lá coisa mais excitante que o lugar comum!' Baudelaire

Anónimo disse...

Om dat de werelt is soe ongetru / Daer om gha ic in den ru
("Because the world is perfidious, I am going into mourning").