domingo, 31 de março de 2013

− QUANDO DORMEM




Todas as pessoas são crianças quando dormem.
Nenhuma guerra as assola então.
Abrem as mãos e respiram
naquele ritmo sossegado que o paraíso lhes concedeu.

Vincam os lábios como pequenas crianças
e abrem ligeiramente as mãos,
soldados e estadistas, senhores e escravos.
As estrelas ficam de guarda
e uma neblina cobre o céu,
breves horas em que ninguém fará mal a ninguém.


Se ao menos pudéssemos falar uns com os outros então,
quando os nossos corações são flores semiabertas.
As palavras seriam espalhadas
pelo vento como pólen.
- Deus, ensina-me a linguagem do sono.


Rolf Jacobsen (1907-1994)

Versão de HMBF.

sábado, 30 de março de 2013

DIES ILLAE




O grande enxame de estrelas no céu torneará teus pés como joias,
                Senhor,
e as montanhas ficarão diante de ti como soleiras,
no dia em que todas as coisas se libertarem das suas leis,
quando os pássaros forem só uma canção, e a cascata uma luz branca
e a floresta e o oceano e o sono uma só coisa: música profunda.
No dia em que as aves migratórias – corações humanos –
regressarem  ao seu Maio esquecido.
 

Que me dirás então, Deus Sabaote:
Sê um bocado de barro na estrada
ou, Sê uma flor na minha floresta?


Rolf Jacobsen (1907-1994)


Versão de HMBF.

A MORALIDADE DA PROFISSÃO DAS LETRAS

Dar ao público o que ele não quer, mas esperar ser sustentado: temos aí uma estranha pretensão, contudo não invulgar, sobretudo entre os pintores.
Robert Louis Stevenson
 
Quem se detenha no título deste ensaio, não deixará de se espantar. Primeiro por nele ser admitida uma profissão das letras, depois por pressupor-se nessa profissão uma moralidade. O ensaio data de 1881, os tempos eram outros, mas Robert Louis Stevenson (1850-1894) mantém-se actual. Ainda que o conceito de profissão das letras nos pareça vago, sobretudo num país como o nosso, ele faz sentido onde as letras podem ser tomadas com a seriedade de outros negócios. A urgência de uma moralidade na profissão, que já então suscitava debate, é outra história. Basta ler A Informação, de Martin Amis, para se compreender que também neste negócio, o das letras, a moralidade tem tectos falsos e fronteiras relativas. Mas essa é uma realidade que, apesar de tudo, está distante da nossa, pois por cá o amadorismo e a diletância, no pior e no melhor dos sentidos, vão como que garantindo um certo desprendimento que mantém o negócio em território paralelo. Perdem os autores, explorados até ao tutano das palavras, ganham, quando ganham, os editores, as distribuidoras, os retalhistas (que já nem se resumem a esse sôfrego espaço das livrarias, pois por todo o lado se vêem livros à venda como outrora se viram tremoços). O cenário é apenas similar ao experienciado por Stevenson, pese embora o facto de no que à porcaria diz respeito haver sempre pormenores que nunca mudam. E esses pormenores fazem a diferença. Disto não pode ser abstraída a natureza humana, retratada pelo autor, na sua essência, nessa magistral efabulação intitulada The Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde. A bipolaridade da personagem tipifica o pensamento de Stevenson nos mais variados temas, não sendo excepção os três ensaios coligidos neste pequeno volume da colecção Pulsar (Deriva, Dezembro de 2012). No primeiro, que dá título ao volume, subentende-se o esforço colocado na defesa de uma literatura rigorosa que não se faça depender, exclusivamente, das ambições lucrativas. Entenda-se aqui o lucro em termos meramente materiais, pois outros há que ultrapassam a configuração salarial. Passam por valores igualmente viciantes como os do reconhecimento, da fama, da promoção académica, da afirmação pessoal, da pura vaidade. Isto torna actualíssimo o principal desejo do autor de An Inland Voyage: «Melhor fora que os nossos templos serenos estivessem vazios do que cheios de padres vendilhões e embusteiros» (p. 17). A expressão “templos serenos” é denotativa do lugar em que Stevenson colocava a sua actividade, olhando para a literatura de um modo que as práticas actuais não se esforçam para desmentir. Stevenson acreditava na função educativa das letras, encarava-o como uma missão, preocupando-se pois em estabelecer uma separação clara entre uma literatura preocupada em instruir e outra meramente ocupada em agradar. Não obstante, admitirá, com laivos de ironia: o fim de toda a arte é agradar e o primeiro dever de um indivíduo é ganhar o seu sustento (cf. p. 40). Note-se que a crítica do entretenimento não deixa de ser curiosa num autor cujos méritos, muitas vezes, não foram elevados a outros patamares. Talvez existisse nesta postura uma necessidade de afirmação, algo que o leva a concluir ser intelectual o primeiro dever de qualquer um que queira escrever. No entanto, essa necessidade é colocada de lado quando critica a parcialidade do jornalismo, reivindica a busca da verdade, preocupa-se em atribuir às letras uma utilidade que será sempre mal paga. E conclui: «Na literatura como na conduta, nunca podemos esperar proceder com correcção exacta. Tudo o que podemos fazer é procurar a máxima certeza; e para isso há apenas uma regra. Nada que possa ser feito devagar deve ser feito à pressa» (p. 28). É esta a ferida que um texto escrito há 130 anos melhor abre, pois exige-nos que pensemos a nossa relação com o tempo e como a mesma determina tudo o que fazemos, mesmo quando o fazemos contra o tempo, indiferentes à utilidade dos ofícios pagos ou à atribuição de um salário. Talvez o acto de escrever, que na Carta a um Jovem Cavalheiro que se Propõe Enveredar pela Carreira das Artes é separado das «profissões rotineiras» e colado à «vocação», se tenha transformado numa espécie de ritual com direito a fazer parte de uma comunidade restrita. O elogio, os encómios, a popularidade (sempre relativa), pagam a jorna. Evocada, ontem como hoje, a cegueira da «grande massa do público», pouco mais nos resta. Robert Louis Stevenson não teve que se queixar senão de uns desgraçados pulmões, o que lhe valeu repouso eterno nas ilhas do Pacífico. Do mal, o menos. Sem ceder à mediocridade, foi popular. Nele, o idealismo encontrou o realismo e este assentou no regaço daquele. Mesmo tendo em conta uns parcos 44 anos de vida, não foi extensa a sua produção. Velejar, afinal, era mais útil do que escrever.

DEMISSÃO

 
 
Camarada Van Zeller, depois de uma semana inteira a vomitar, devido a desarranjos provocados pelas sinecuras da Presidência do Conselho de Ministros, eis que me ergo do torpor revigorado pela luz da manhã e respondo, finalmente, a este nobre desafio: porque deve o actual Governo demitir-se? Julgo que o actual Governo deve demitir-se pela mais evidente das razões, não está a cumprir o programa pelo qual foi eleito. Constatamo-lo diariamente, embora não tenhamos perdido tempo a ler o programa. Limitámo-nos a tomar de exemplo as boas práticas do Ministro Relvas e solicitámos uns créditos na Junta de Freguesia, o que faz de nós, mais que não seja, cidadãos suficientemente esclarecidos quanto à respeitabilidade dos programas eleitorais.
Pegando na comichão de Jorge Ortiga, venerável arcebispo de Braga, diria que o Governo deve demitir-se porque:
   consente que muitos seres humanos continuem a ser vítimas da miséria social, da violência doméstica, da escravatura laboral, do abandono familiar, do legalismo da morte (gosto especialmente do tom medieval da expressão), da corrupção judicial, das mortes inocentes na estrada, das mentiras dos astrólogos (morte à Maya), do desemprego (por acaso, a astrologia não é mau empreendimento), de uma classe política incompetente e do monopólio dos bancos. Julgo que também não tenha feito grande coisa para combater a pedofilia na Igreja, a corrupção no Vaticano e os regimes de excepcionalidade garantidos pelas concordatas. Mas isto sou eu a falar, enquanto compro uma velinha no santuário de Fátima e ninguém me passa factura.
Contra um Governo cúmplice deste estado social e desta degradação moral, eu sublinho a solução de Ortiga: Jesus. A solução para a miséria social está em Jesus, assim como a solução para o legalismo da morte e a sinistralidade nas estradas. Jesus é a salvação, Jesus ao poder. Não descansarei enquanto não vir Jesus no interior do meu frigorífico.
 "O que importa é vencer, nem que seja por meio a zero"
 

Porque um Jesus dentro do frigorífico faz milagres, multiplica-se como o pão e o vinho, é como Sócrates a dar o salto por cima. Imaginem só se desse por baixo. Esse autêntico libertador do povo, Jesus, há-de livrar-nos, mais que não seja, de Coelho, Gaspar & Relvas, assim como das taxas abusivas, dos suicídios crescentes, das depressões exponenciais, das negociatas com o António Borges, dos modelos germânicos, das verdades, das meias verdades e das falsidades totais, meias, parciais, a um terço, de Sócrates. Jesus há-de livrar-nos do regresso do Jorge Coelho (mais um para encher a coelheira) à actividade política, assim como do retorno de Sócrates ao comentário televisivo.
Jesus, leitor de Marx e fã de Pascal, guiará as massas entre os destroços da Europa. Urge, pois, que nos voltemos para Jesus e oremos por um futuro mais justo e mais próspero. Quem ora seus males espanta. Não é bem assim, mas o efeito é o mesmo. E Jesus merece que “voltemos a voltar-nos” para ele, um pouco como Sócrates a dar saltos por cima, Vítor Gaspar a preparar-se para explicar a sétima avaliação a 5 de Abril (devia antecipar a coisa para o dia das mentiras, que assim como assado tinha desculpa), e Coelho a dar mais um passo na direcção do ajustamento. Desça pois Jesus dos Céus e venha em nosso socorro, que já esperança alguma resta nestes que sobre a Terra nos vão vigarizando diariamente.

quinta-feira, 28 de março de 2013

THE SONS OF KATIE ELDER (1965)

Confessava-me ontem um amigo que nunca foi especial apreciador de western por julgá-lo um género demasiado óbvio. São assim as pessoas sofisticadas, preferem o que não compreendem ao que julgam compreender. Estou a provocar, como é… óbvio. Mas tome-se de exemplo um filme como The Sons of Katie Elder (1965). Obviamente, trata-se da história de quatro irmãos que tentam descobrir porque foi o pai assassinado e morreu a mãe na miséria. Todos os filmes, mesmo quando parecem menos inteligíveis, têm no subsolo motivos igualmente básicos. Não obstante, os motivos não esgotam as acções e estas, mesmo quando parecem óbvias, resultam inevitavelmente do entrecruzamento complexo de vários elementos.
Henry Hathaway (1898-1985), que já aqui referimos a propósito de True Grit, o filme que valeu a John Wayne um Oscar, está longe de ter sido um realizador ingénuo. Os seus filmes contam histórias aparentemente simples, é certo, como simples, afinal, são todas as histórias da vida, mas não será por acaso que os surrealistas, isso mesmo, se interessaram tanto por alguns dos seus filmes - Peter Ibbetson (1935) à cabeça -, sendo Os Quatro Filhos de Katie Elder um dos momentos altos da sua vasta cinematografia. Num elenco onde pontificaram o inevitável John Wayne e Dean Martin, parelha inesquecível de Rio Bravo (1959), voltamos também a encontrar Dennis Hopper. Seja como for, a presença mais activa no filme é Katie Elder, personagem representada apenas pelo nome e pelas evocações efectuadas ao longo da narrativa.
Figura ausente, nesse sentido oposto ao que normalmente nos leva a considerar uma coisa presente, Katie Elder determina a acção. Ela é a principal referência dos quatro filhos, John, Tom, Matt e Bud, que se reúnem, passados dez anos de separação, para o funeral da mãe. Não sei se isto, por si só, garante a The Sons of Katie Elder uma complexidade que o resgate da mediania, mas é, certamente, um pormenor que faz a diferença. Katie Elder não é um fantasma, não é um ídolo nem tão-somente uma referência simbólica, ela é o espaço do inconsciente que se manifesta nas dúvidas, nas hesitações, nos receios, na revolta e nas angústias dos quatro filhos. Nós nunca a vemos, mas ela está sempre lá. Homens rudes, rijos, personificações do antigo Oeste, os quatro filhos de Katie deixam cair a máscara quando se lhes coloca o imperativo de honrarem a memória da mãe.
Toda a gente na cidade de Clearwater recorda Katie como uma mulher lutadora, justa e bondosa. Toda a gente na cidade de Clearwater se cala quando surgem sobre a mesa as razões da sua morte, o seu fim solitário, separada dos filhos que defendeu e desculpou até ao último dos seus minutos, a viver miseravelmente numa casa emprestada, depois de haver perdido para os Hastings, numa transacção com contornos por esclarecer, o próspero rancho onde criou a família. Todos estes mistérios vão sendo esclarecidos “paulatinamente”, não sem que vários conflitos sejam travados e o pior do ser humano surja sobre a tela como a nódoa sobre a mesa. O que torna o filme especial não é o que ele mais tem de comum com outros do género: os tiroteios, a acção, as manigâncias, os negócios obscuros, os cenários, a música épica. O que torna este filme tão especial é de outra ordem.
Se bem nos atentarmos, a questão essencial aqui retratada é a questão das expectativas. No momento da verdade, marcado pela morte da mãe, o que se espera de nós? Que continuemos a fugir como sempre fugimos? Que procuremos a verdade? Que enfrentemos o inimigo ou que soçobremos às suas mãos? Espera-se que honremos os mortos como nunca honrámos os vivos? Espera-se que mudemos, que permaneçamos indiferentes aos outros, que arrumemos as nossas incertezas e respondamos às dúvidas que nos assolam? Espera-se que atiremos para cima dos outros a culpa que recai sobre os nossos ombros ou que assumamos a responsabilidade pelas nossas decisões? Neste sentido, todo o filme é como que uma sessão terapêutica onde John, Tom, Matt e Bud são deitados no divã da verdade e forçados a encarar as suas próprias fraquezas, os seus vícios e defeitos, as suas ambiguidades. E esta é uma questão intrinsecamente humana, porventura óbvia, demasiado óbvia, para quem não pretenda atacá-la sem subterfúgios nem dissimulações.

quarta-feira, 27 de março de 2013

ODES


Um livro de poemas cujo primeiro verso é «que se fodam» (p. 9) diz logo ao que vem. O leitor sensível pode ficar sem vontade de, mais que não seja, avançar um pouco nas páginas. Arrumará o livro na prateleira, degustará uma canja de galinha enquanto folheia o jornal e descobrirá a ligeireza popstar dos poetas depressivos da nação. Faz mal. Se quiser dar-se ao trabalho de folhear as Odes, de João Bentes, poderá verificar a diversidade de sujeitos a quem aquele primeiro verso é merecidamente dedicado. E não é com ironia que vislumbramos até uma certa delicadeza no gesto, independentemente das acções de promoção com que hoje se salda uma atitude poética de se estar na vida que não se resume a escrever livros, publicá-los, dar entrevistas, ser convidado para o Correntes d’Escritas, ir à Madeira ou à Colômbia com o cartão do clube na carteira. Organizadas em três conjuntos – Transporte (2008), Odes (2010), REP (2011) -, estas canções sugerem um ritmo para o qual a lira já não basta. O discurso voluntariamente distorcido dá guarida ao ruído, deixa-se embalar pelas pulsações, traz o coração à garganta, fervilha com a razão contestatária de um “gangsta rap” esclarecido. Noutro sentido, podemos dizer que estas odes são neo-triunfais. Recuperam a torrencialidade de um Álvaro de Campos e a exaltação de um Almada Negreiros, estando igualmente contaminadas pelo desencanto e pelo desassossego. Mais contido na forma que os mestres modernistas, João Bentes mantém um discurso informal, explosivo, directo, consciente de uma urgência interventiva que a poesia não pode excluir. Não oferece títulos aos poemas (entendam como quiserem) e limita-se a pontuá-los na medida de necessidades expressivas básicas e correntes. Distante da comunidade lisboeta, coloca no centro das suas atenções a paisagem algarvia. É muito pertinente esta opção, não só pela ligação às origens geográficas, mas por poder ser hoje o Allgarve um símbolo da degenerescência portuguesa que nos trouxe ao estado de histeria nacional em que vamos andando, paradoxalmente, cada vez mais conformados com a miséria alheia. Nenhum dos males modernos escapa a estes poemas que, por vezes, se limitam a inventariar podres num discurso sufocado pela actualidade política e social. Há um tom de sermão que talvez fosse escusado - «escutem devotos viriatos niilistas / rendidos à vida pela grande honra dos capitais / há centenas de satélites com toda a informação precisa / que só lá andam graças a um parafuso português» -, mas quando o poema resvala em sentidos que pressupomos autobiográficos ganha uma força impressionante. Não resisto a transcrever a estrofe inicial de um longo poema incluído na primeira parte do livro: «vim atado à minha mãe com meias voltas no cabeço / julgo que esteja extinto o primeiro peixe que apanhei / quando a água benta me bateu na testa disse areia / no primeiro dia de escola fiz-me condutor de barcos / mais tarde ensinaram-me todos os olhos da amêijoa / o que ganhei foi a deformação do anelar e do mindinho / mais a hipótese de uma hérnia no meio das costelas / e quando o lingueirão se tornou demasiado escasso / disseram-me que isto não era vida para ninguém» (p. 20). Parece-me óbvio o que afasta esta poesia das secretárias onde se olha o mundo sentado à janela. A autenticidade que emerge nestes poemas torna-os legítimos, ao mesmo tempo que nos garante um testemunho onde mais do que uma construção artificial da realidade temos uma expressão do mundo nas experiências de um corpo. Vejam como termina o poema: «e foi preciso morrer-me o pai / para regressar à seiva do meu ser / afastar-me lentamente das coisas deste mundo / até conseguir a melhor forma de não querer / com a frieza de me despojar de todos e de tudo / para que apenas tenha o que sempre houve antes / que é esta terra onde vivo e que também é minha / onde recuso a vossa estranha liberdade / levanto forte e alto o duro braço da poesia» (p. 24). Sem ter no horizonte os resumos da FNAC, João Bentes colecciona nestas odes momentos de intensidade diversa. É verdade que estando estes poemas contaminados por uma animosidade evidente, deixam-se por vezes cair num lodo onde o supérfluo teima manchar o resultado final do discurso. Aconteceu o mesmo com muita da poesia vinda a lume na Geração Beat, a qual encontra nestas odes momentos de digna representação. Mas esperando que o autor não me leve a mal, parto algumas estrofes de uma destas Odes e pergunto-me, pergunto, se isto não é do melhor que a poesia portuguesa nos ofereceu nos últimos tempos:
 
(…)

eu não consigo arrumar-me nesta vida e ter coisas
razão pela qual já só me resta não ter vergonha
e rir-me do que posso na paciência dos meus versos
 
(…)
 
eu não faço nada à pressa porque o meu amor é de vagar
mas são em mim as muitas forças do desejo
que o amplo mar oferece a quem contempla
 
(…)

 
em mim o mar transporta todas as ondas
o verde das árvores desponta radioso completo
todas as estrelas cintilam misteriosamente os céus

acontece como a música desprende-te vai longe
não temas porque tudo já foi antes de ti
um rejubilar incomensurável do universo
 

(…)
 
Resta dizer que o livro termina com a palavra mudança. E um ponto de exclamação.

«oh meu algarve cimentado em prol da luxúria verdejante dos resorts»


oh meu algarve cimentado em prol
da luxúria verdejante dos resorts
deu-te deus um mar azul e tépido
onde lavas a cara à sombra das concessões
nos três meses que te salvam da fome

oh meu algarve ardente consumista
constrói aquários para os peixes doutra vida
e asseados museus de falido artesanato
lagoas do mais barato álcool
para os filhos delinquentes dos bifes
que entreténs na eternidade das tuas areias

oh meu algarve diamante bruto
reino da imóvel especulação
não és mais que golfe e hotéis inacessíveis
levantando o grosso cheque do futuro
entre as nalgas dos que mimam
projectos de ordenamento litoral

oh meu algarve desta gente tão contente
estás na crista da onda higienista
tens o oiro do caviar esfacelando-te as ventas
e um caranguejo do lodo  murraceiro
protegido nos alguidares da reserva natural

oh meu algarve limpo e desenvolvido
estância balnear dos pródigos sobrinhos
que agitam as velas do progresso
aqui na praia dos meus avós
e me chamam de clandestino

oh meu algarve impressionista e trágico
estão a enterrar-nos contigo
em todas as cidades de ti já extintas
és destino do pedante útil ao servilismo

oh meu algarve branco esquizofrénico
infecto burguês viciado decrépito
estás para além do resto do reino
tens o sol ardente dos caprichos
o vasto mar escondendo-te o lixo

oh meu algarve
adeus


João Bentes, in Odes, 4 Águas Editora, Dezembro de 2012, pp. 12-14.

terça-feira, 26 de março de 2013

segunda-feira, 25 de março de 2013

VALA COMUM


Em Março de 1981, Paulo da Costa Domingos publicou na Frenesi, com capa de Victor Silva Tavares e uma fotografia de Paulo Nozolino, o título Vala Comum. Trinta e dois anos passaram sobre essa edição, quase tantos quantos são os anos contados por manuel a. domingos (n. 1977). Dá-se agora a coincidência de manuel a. domingos escolher para título do seu último livro a mesma expressão que deu título à obra de Paulo da Costa Domingos: Vala Comum (Medula, Março de 2013). O apelido dos autores, o mês da edição, o título, são demasiadas coincidências para não considerarmos aqui a forte possibilidade de uma qualquer conjugação astral responsável pelas ocorrências. Embora os livros se distanciem no conteúdo, aproximam-se também no carácter de edições quase caseiras, contracorrente, por assim dizer, em número de exemplares reduzido e de circulação comercial restrita. Sucede que se o primeiro era de poesia, revista posteriormente sob a forma aqui partilhada, é o segundo de prosa. Isto quer dizer apenas que são livros muito diferentes quer no conteúdo, quer na forma, não o sendo assim tanto, porventura, na atitude subjacente à sua concepção. Colocadas de lado quaisquer leituras comparadas, podemos, no entanto, vislumbrar um elo informal entre as duas publicações, e esse elo informal é o de uma assimilação natural das fontes, sem uma intenção epigonal ou sequer uma influência consciente de si mesma. Tendo-se confessado admirador da obra de Paulo da Costa Domingos, é até bastante provável que manuel a. domingos nunca tenha visitado a Vala Comum daquele. Resta saber se alguma vez visitou a sua própria Vala Comum. E aqui entramos no livro agora publicado, um exercício exegético autobiográfico onde o autor discorre, em cinquenta páginas, sobre assuntos mais ou menos “íntimos e partilháveis”. Das origens familiares, mantendo a mãe de fora, mas chamando o pai à liça, à formação política, da educação à formação cultural, da descrição de cenas absolutamente pueris à manifestação directa dos ódios de estimação, são vários os momentos onde o autor se expõe de um modo quase confessional, com uma escrita onde a ironia, o humor e a descontração disfarçam algumas debilidades narrativas. O autor assume contradições, coloca-se no centro da sua própria ironia, desimportantiza-se ao mesmo tempo que se transforma em personagem, contracena consigo próprio como quem se vê ao espelho deixando os outros ouvir o monólogo que mantém em silêncio. Curioso que um livro escrito durante três anos, segundo informa o próprio autor, possa ler-se em trinta minutos, correndo o leitor o risco, porém, de se deixar ludibriar pelo ritmo. É que tal como a poesia de manuel a. domingos revela mais no que fica por dizer, também este sermão às nuvens nos circunscreve a perspectiva com a ilusão de tudo mostrar. Esta ilusão torna-nos desconfiados quando no centro do discurso descobrimos uma tendência aforística que oscila entre a coloquialidade de um pensamento vulgar e estereotipado - «não precisamos dos filósofos para nada. São uma boa cambada de inúteis» (p.29), «vivemos numa Democracia frouxa, que trata a escumalha com paninhos quentes» (p. 46) – e o suposto cinismo de um olhar algo desencantado - «Segundo alguns, a História é feita de vencedores e de vencidos, mas apenas escrita pelos vencedores. E nós, como todos sabemos, estamos num país cheio de vencedores. Daí a nossa História ser tão complicada» (p. 10), «É claro que as máquinas digitais vieram democratizar a fotografia. Como é óbvio a democratização de algo nem sempre é uma coisa boa e isso aconteceu com a fotografia: qualquer um pode ter acesso a uma máquina fotográfica digital e armar-se em Robert Capa» (p. 13). Parece-me que estas oscilações de tom, não obstante a futilidade dispensável de algumas alusões, estão de acordo com uma dimensão dramática que o texto pretende assumir. Daí termos falado anteriormente em palco e monólogo, pois facilmente imaginamos este texto levado à cena e representado enquanto um homem faz a barba, bate uma, mija sentado, acções quotidianas comuns que necessitam de ser revistas à luz da sua real importância inspiratória. Quem dizia que as melhores ideias lhe surgiam durante o banho?

VALA COMUM


Entrando pelos olhos «a pé e de alma descuidosa»
Troquei o shampoo por qualquer químico activo e efervescente
Queria
Que me levasses no coração pelo Universo
Uma nave só de pele rançosa
Lepra progredindo
Um ódio crescente «seguiremos sempre lado a lado por todo o tempo que vivermos?»
«Dou-te a minha mão» o músculo que agora repugna
Pelos olhos a náusea da memória
E as superfícies encarquilhadas do Ser
Levá-las-ás entrando pelo olho do Universo!?
Queria
Um frigorífico um programa de máquina de lavar uma culpa
Um passaporte químico e a tal neve de pele poderosa «por todo o tempo» dá-me a tua mão
Levá-la-ás!? qualquer coisa realmente sórdida: quartos para alugar e a melodia do fim da estrada larga
«Há ali sentir demais...» «Que nenhum filho da puta se me atravesse nos teus versos como a multidão aos encontrões»
Entra pelos olhos o pó e o ruído deste saguão aqui «por todo o tempo que vivemos?» e o óleo e o cheiro a fritos
Dos teus Uni-versos por mim
Por dentro do quero dizer por baixo da pele que troquei: shampoo o tal químico activo e emoliente como a bolsa
Do líquido amniótico
Queria que me lavasses só a pele cancerosa
Usasses em mim o teu programa progredindo
Ora no Universo ora na guerra ora nas superfícies ocultas
Com violeta de genciana
Deixa sobre a mesa de cabeceira o dinheiro pústulas de ódio
Um salário
Qualquer coisa realmente
Qualquer coisa realmente proparoxítona por assim dizer mesquinha: um pacto
Mas não na nave do Amor aí não cometas o crime
Entrando pelo olho «a pé» «aos encontrões» até ao caroço são do Universo
Dá-me realmente a tua mão cheia
De lítotes e subentendidos ruídos
Soprados
Saxofónicos
Afinal comete o crime
Passa-me à máquina estas crostas saem estes rumores do asfalto de todas as estradas ulceradas d'oiro
Doce Amor por qualquer programa químico activo dos teus versos óleo que queime lenta-mente
Fim

Paulo da Costa Domingos, in Carmina 1971-1994, Edições Antígona, Lisboa, 1995, pp. 18-19.

domingo, 24 de março de 2013

RANCHO NOTORIOUS (1952)




Mais conhecido por filmes tais como os da “saga” Dr. Mabuse (1922, 1933, 1960), a alegoria futurista Metropolis (1927), incursões pelo mundo do crime – M (1931) – ou o magnífico Man Hunt (1941), Fritz Lang (1890-1976) foi também um apreciável realizador de westerns. Nascido em Viena, estudou pintura, viajou imenso, combateu na Primeira Grande Guerra e tornou-se cineasta após uma primeira experiência como argumentista. O talento de Lang foi rapidamente reconhecido, acabando a ser convidado por Goebbels para dirigir a indústria cinematográfica alemã. Então casado com a escritora Thea Von Harbou, filiada no Partido Nazi, Lang separou-se e fugiu para Paris. Aí filmou Liliom (1934), o único filme da chamada fase francesa que, no Brasil, levou o curioso título Coração de Apache. Já nos EUA, Fritz Lang começou a filmar um conjunto variado de filmes onde a situação da Segunda Grande Guerra aparecia de modo mais ou menos implícito. Fury (1936), com Spencer Tracy, marcou um ponto de viragem na sua carreira de méritos não reconhecidos de imediato. Foi por essa altura que se apaixonou pelo western, filmando The Return of Frank James (1940), com Henry Fonda, e Western Union (1941). Mas o melhor dos seus westerns surgiu em 1952, com Marlene Dietrich no papel principal e um elenco masculino onde brilharam igualmente Arthur Kennedy e o galã Mel Ferrer. Rancho Notorious (1952) é um western notável, onde se reúnem os condimentos que consolidaram o nome de Fritz Lang como um dos melhores realizadores de todos os tempos. Vern Haskell (Arthur Kennedy) é um cowboy em busca de vingança, depois de a sua amada ter sido vítima de tentativa de violação e assassinada na sequência de um assalto ao local onde trabalhava. A apenas oito dias de se casarem, cumprindo desse modo o primeiro passo para uma vida de sonho, este casal ocupa no filme o lugar de um tema caro a Fritz Lang: a impossibilidade do paraíso, constantemente ameaçado pelo mal, pelo crime, pela violência, pelas forças obnóxias do Inferno. Não existindo indícios de maniqueísmo moral nos filmes de Fritz Lang, parece-nos óbvio que o seu realismo se incline mais para uma perspectiva pessimista do mundo. Os bons vencem, mas em termos relativos, ou seja, enquanto vítimas usurpadas do sonho e da felicidade, vingados, por vezes, mas moralmente desfeitos. Cavalgando sozinho de cidade em cidade, Haskell cruza-se com várias pistas que apontam invariavelmente numa mesma direcção: Chuck-a-Luck. Jogo de sorte, Chuck-a-Luck é igualmente o nome de um lugar, um rancho dirigido por Altar Keane (Marlene Dietrich), a mulher que todos recordam como rainha de cabaré. Unida ao fora da lei Frenchy Fairmont (Mel Ferrer), Altar Keane é agora a gestora desse rancho onde se refugiam todos os criminosos das redondezas. Aproximando-se de Fairmont, Vern Haskell conseguirá entrar em Chuck-a-Luck (onde encontrará o homem que matou a sua amada e poderá vingar-lhe a morte abrupta). Mas ainda que todo este plano possa parecer simples, a realidade, mais uma vez, desmentirá o sonho e a ilusão. Há em praticamente todos os filmes de Fritz Lang um impasse entre aquilo que se projecta e o que a realidade afirma, uma espécie de complexo onde as forças oponentes saem ambas derrotadas pelas consequências dos seus actos. É por isso que Haskell pergunta a Altar Keane o que vê quando olha para as divisões do rancho, um quarto ou uma morgue, um jardim ou um cemitério. Encontramos algo de semelhante entre o rancho dirigido por Altar Keane e o sallon de Vienna, no Johnny Guitar (1954) de Nicholas Ray (1911-1979). São ambos espaços de angústia onde o sonho se desencanta. Por vezes, a música ressoa e as paredes estremecem de alegria. Mas essa alegria é momentânea.  Os segredos aí guardados, os mistérios aí protegidos, vêm à tona, emergem do inconsciente onde estavam arrumados e desordenam o espaço, instaurando o caos e arrastando na sombra as suas próprias vítimas. Chuck-a-Luck cola-se à memória como Rosebud, enigmas onde a sorte e o jogo nos enviam para tudo o que poderia ter sido não tivesse acontecido ao contrário do que os homens sonharam. É por isso que a grande deixa deste Rancho Notorious surge nas palavras de Altar Keane, quando esta diz a Vern Haskell: «Gostava que te fosses embora e voltasses há dez anos atrás». Como se fosse possível fintar o destino, não ser a vida contingente, um jogo de sorte ou azar.

sábado, 23 de março de 2013

UM SONHO SOBRE A LUA

Fui eu Matilde
a primeira
pessoa
a chegar à Lua.

Antes era um sonho
por concretizar,
um desejo a realizar.

Cheguei lá
logo vi
imensas coisas
a estudar,
tanto para investigar.

A Lua era cintilante
e ainda mais brilhante.

Impressionei-me,
com certeza,
com aquela grande beleza,
mas lá, quando estudei,
percebi com mais clareza

era o Sol que
lhe dava essa beleza.
Para mim, foi grande
a surpresa.

Foi o que mais me
impressionou, mas não fiquei
por ali, e descobri
buracos na Lua: o que
faz isto aqui?
Logo percebi:
eram meteoritos que
ali tinham batido
e, enfim, as suas marcas
ficaram aqui.

Mas ainda aqui não falei
do que senti:
quando lá cheguei
senti-me rainha,
concretizei
o desejo de descobrir
e investigar,
e assim senti música
dentro de mim,
alguém a cantar
para me fazer sonhar
que um dia
este sonho
há-de se realizar.

Depois de tudo investigar,
pus-me a cantar de tanta alegria ter.
Tão cansada fiquei
que adormeci.
E assim
este sonho chegou ao fim.


Matilde, 9 anos.

terça-feira, 19 de março de 2013

PAI

Eu amo-te mais do que amar.

Beatriz, 6 anos

segunda-feira, 18 de março de 2013

AS RECORDAÇÕES DE EDNA




Sam Savage (n. 1940) não é tão conhecido como outros escritores norte-americanos contemporâneos, algo que se aceita se tivermos em conta a atitude reservada do autor. Aqui e acolá, muito a espaços, vamos encontrando uma referência, uma pequena entrevista, fragmentos de conversas, passagens efémeras por encontros sem grande aparato. Começou a escrever tarde, depois de uma experiência frustrada no mundo académico e uma vida inteira a sobreviver dos mais diversificados ofícios. Só em 2005 se reaproximou das letras, com a publicação de um livro intitulado The Criminal Life of Effie O. O reconhecimento internacional surgiu no ano seguinte com o magnífico Firmin: Adventures of a Metropolitan Lowlife. Firmin chegou a Portugal em 2009, com a chancela da Planeta, a mesma editora que no ano seguinte publicou O Grito da Preguiça (The Cry of the Sloth: The mostly tragic story of Andrew Whittaker, being his collected, final, and absolutely Complete Works, 2009) e agora este As Recordações de Edna (no original, simplesmente Glass). Já este ano, Sam Savage editou The Way of the Dog. São, deste modo, três os livros de Savage publicados entre nós.
O acolhimento do autor em Portugal tem sido modesto, facto que apenas reforça a nossa convicção de que se trata de um autor a todos os títulos excepcional. Caso contrário, já o público ou a crítica ou os dois em uníssono tinham feito a festa, lançado os foguetes e apanhado as canas. Sobre Firmin escrevi aqui, tendo posteriormente dedicado um post a O Grito da Preguiça. Como sou preguiçoso, lanço-me agora à tarefa menor de escrever meia dúzia de linhas sobre um livro que nos inspira, pelo menos, um milhão de pensamentos. Desta feita, Savage respiga para personagem central do seu tratado uma mulher idosa, viúva de um escritor mediano, a quem é solicitado um prefácio curto para a reedição do único livro com algum sucesso do falecido marido. Edna, a viúva, hesita, acabando por propor não um prefácio curto, mas um livro autónomo: «que, embora contivesse muita coisa sobre Clarence, não seria apenas acerca dele, mas também acerca da minha vida antes e depois, porque ninguém podia aspirar a conhecer Clarence sem isso» (p. 22).
Se há pouco chamei tratado a este livro, como poderia chamar aos outros do mesmo autor, é porque estas obras analisam, de facto, a natureza humana, desmontando-a e voltando a montá-la com a configuração de uma manta de retalhos. À semelhança do que sucedia em O Grito da Preguiça, As Recordações de Edna é um aglomerado de pensamentos dispersos, reflexões, revisitações, páginas soltas, memórias, onde a personagem central vai revelando os aspectos mais singulares da sua existência sem que neles esvazie a sua própria referencialidade. Cansada, saturada, sempre em perseguição do silêncio, declaradamente infeliz e solitária - «Nem sequer é solidão, é pior do que solidão, é uma mente cheia de coisas» (p. 182) -, a velha Edna revisita situações, viagens, lugares, traça um perfil impiedoso do falecido marido enquanto vasculha a mente, vê-se ao espelho, escreve ao acaso, deixa-se interromper pelos afazeres domésticos e comezinhos, transporta-os para dentro do texto e enfrenta-nos com parágrafos absolutamente reveladores:
«Há uma incongruência. Talvez os acontecimentos sejam demasiado grandes para as palavras. A guerra é demasiado grande para elas, as palavras são como insectos minúsculos que batem contra a vidraça (a «janela da mente») ao tentar sair e lá fora o mundo é grande e tumultuoso. Ou talvez seja ao contrário: as palavras é que são demasiado grandes; algumas palavras são demasiado grandes. A palavra «amor» é demasiado grande. Se calhar, a palavra «Clarence» também é demasiado grande. Eu achava que o sofrimento quotidiano silencioso, incoerente, da vida comum era demasiado grande. Agora acho que as palavras são demasiado grandes para ele. Não há palavras triviais o suficiente para dizer como ele é terrível» (p. 163).
Procurando equilibrar-se entre o tédio da vida doméstica, com as plantas e os animais da vizinha Potts para tratar, e o lado explosivo das recordações, é no gesto mecânico de bater as palavras à máquina, é nesse gesto obsoleto, que Edna resiste ao declínio total. Revendo a vida com esse gesto antiquado, ela parte o vido à moldura e revela-se sem subterfúgios nem abrigos. Fica exposta e desnudada, a sua autenticidade denuncia uma erosão que está tanto no mundo como em si própria, porque, afinal, a paisagem que ela nos descreve não pode ser entendida sem que ela se nos revele, como ninguém pode aspirar a conhecer Clarence sem conhecer a vida de Edna antes e depois de Clarence. Há uma unidade na manta de retalhos que é, no fundo, a unidade possível de vislumbrar entre todos os elementos que compõem uma paisagem, uma unidade que apenas se descobre quando partimos o vidro à moldura. Talvez seja injusto terminar com uma alusão a Winesburg, Ohio, mencionado por Edna mais do que uma vez no decorrer da costura. Mas é esse livro de Sherwood Anderson a referência que melhor nos pode servir aqui de comparação.

sábado, 16 de março de 2013

ESCRITA CRIATIVA

 
Camarada Van Zeller, respeitando e fazendo fé dos mais modernos estímulos ao empreendedorismo, resolvi pensar, criar, estruturar, promover e propor o meu próprio Curso de Escrita Criativa. Esqueça o Chagas e o Sena e demais formadores congéneres. O meu curso é mais económico, mais rápido e muito mais eficaz. É um curso de escrita criativa instantâneo. Serve-se no café da manhã, nuns pacotinhos semelhantes aos do açúcar. Lá dentro, vem um pó mágico com sabor a Mocambo. Quem não gostar do sabor, pode misturar com açúcar. Não prejudicará a aprendizagem, embora a escrita possa vir a resultar ligeiramente light. Como saberá o camarada, nos tempos que correm a agilização da escrita não será defeito. Antes pelo contrário, resulta num emagrecimento da leitura. Esta dieta torna a leitura mais leve, sedutora, saudável. Tudo isto muito limpo, digesto e, como disse, económico. Cada pacotinho deste Curso de Escrita Criativa custará 1€, incluindo portes de envio. Poderão os interessados encomendar desde já, deixando endereço postal onde pretendam receber este meu curso. Atenção: os pacotes são invisíveis. O formando recebê-los-á julgando que os não recebeu, abri-los-á supondo que os não abriu, ingeri-los-á crendo que os não ingeriu. Mas quando começar a escrever após a experiência, concluirá que toda a sua desconfiança era infundamentada. Nesse momento o formando será um escritor de corpo e alma, sentirá até um ligeiro formigueiro subindo-lhe pela coluna vertebral até à zona do cachaço. É o chamado formigueiro do escritor. Hemingway sentiu-o, Camilo igualmente, Mishima não menos. Esta é uma nova técnica, inspirada na previdência do Ministro Vítor Gaspar. Como o camarada terá notado, apesar do aparente desastre que nos vem abalroando, nós estamos no bom caminho. Podemos não ver o caminho, mas ele está lá. E nós nele, caminhando no rumo certo como as mais laboriosas e reverentes formiguinhas. Assim este meu Curso de Escrita Criativa, que estou certo poderá agradar a todos quantos amem a nobre arte da escrita... criativa.

quarta-feira, 13 de março de 2013

LEAF-HUTS AND SNOW-HOUSES


A poesia prega-nos partidas. Para onde quer que nos viremos, lá surge ela num rosto até então desconhecido. E quando menos esperamos, um novo nome se apresenta em línguas que não dominamos. Há as traduções, as versões, as traições... felizmente. De outra forma, não me seria possível contactar com os universos de Hans Børli, Erling Kittelsen e, mais recentemente, Olav Håkonson Hauge (1908-1994). Dos três, o segundo foi aquele que menos me tocou. Por detrás das suas palavras supus um conhecimento que não tenho. É quase impossível entendê-lo sem antes ter lido muita da literatura invocada nos seus versos. Mas Børli e Hauge aproximam-se com outra facilidade do que julgo ser uma leitura legítima, a de quem por simplesmente viver pode deixar-se apanhar pelas breves reflexões desenhadas no poema. São poetas concentrados na literatura universal da vida. Como anteriormente referi, Hans Børli foi lenhador durante muito tempo. Curiosamente, o mister de Olav H. Hauge era a jardinagem. Nasceu e viveu toda a vida em Ulvik, sendo esta, segundo quem sabe, uma das regiões mais belas da Noruega. A antologia organizada e traduzida para inglês pelo poeta escocês Robin Fulton (1937), recolhe parte da produção poética de Hauge cultivada entre 1946 e 1980. Não é por acaso que aplico aqui o verbo cultivar. Estes são, de facto, poemas semeados diariamente - «I want to write a poem every day, / every day. / That should be easy enough» (p. 105) -, extraídos de um contacto permanente com a natureza onde adquirem forma como pequenos registos de uma passagem. Leaf-Huts and Snow-Houses contempla sete dos seus livros, o primeiro dos quais, intitulado Embers in the Ashes (Glør i oska), foi publicado em 1946. Os poemas de Hauge são curtos, lembrando por vezes alguma da poesia oriental que o poeta norueguês tanto admirava. Evocam, entre outros, poetas tais como Ch’ü Yüan, Li Po, T’ao Ch’ien, Lu Chi e Bashô, embora a poesia do norueguês resista a comparações com qualquer um deles por ser inerente ao seu próprio tempo e ao seu próprio espaço. Deste modo, se por vezes parece contemplativo, Hauge logo nos surpreende com um singelo rasgo de ironia ou uma imagem mais melancólica e desencantada. Para dentro dos poemas chama tanto a fauna como a flora locais, dando uma especial atenção aos ciclos que marcam a passagem do tempo. Uma imagem recorrente é a do ramo, ora desnudado, ora em flor, um ramo seco caído no chão ou o ramo que simplesmente precisa de ser podado. Este corpo surge como uma espécie de extensão da vida humana no mundo natural, reflecte, à maneira de exemplo, a fragilidade dos homens e a efemeridade da vida. Os rios, as árvores, a neve, o gelo, os penhascos e desfiladeiros, as montanhas, o fogo e as rochas, o mar, o vento, os fiordes, são detalhes da paisagem que sugerem reflexões muito precisas e concisas sobre o humilíssimo lugar do homem na vastidão do mundo. A própria opção pelo poema curto, muitas vezes numa verticalidade que lembra o tronco de uma árvore, ou o caule de uma planta, remete para esta relação com o mundo natural onde o poeta não busca tanto descrever a paisagem como acaba por se descobrir a si próprio naquilo que a paisagem lhe revela de si. Olav H. Hauge, também ele tradutor de poetas, aos quais dedicou poemas (Bertolt Brecht, Georg Trakl, William Blake, Gérard de Nerval, Paul Celan, Guillevic…), tinha da poesia uma concepção optimista, tomando-a por uma espécie de refúgio que o isolava (não direi protegia) das ameaças exteriores, as quais, como sabemos, são quase sempre humanas. Terminarei com um dos seus poemas mais emblemáticos, onde esta concepção se materializa num tom tão nostálgico quão esclarecedor:






CHOUPANAS E CASAS DE NEVE





Não me exigem muito
estes versos, apenas
algumas palavras amontoadas
ao acaso.
Penso
porém
que é agradável
escrevê-los, por
breves instantes
tenho algo como uma casa.
Lembro-me das choupanas
que construíamos
quando éramos pequenos:
entramos e sentamo-nos
a escutar a chuva,
sentimo-nos sós na floresta,
pingos no teu nariz
e no teu cabelo –
Ou casas de neve pelo Natal,
entramos e
fechamos o buraco com uma saca,
acendemos a candeia e por lá ficamos
nas noites frias.

Olav H. Hauge, in Leaf-Huts and Snow-Houses, trad. Robin Fulton, Anvil Press Poetry, 2010.

terça-feira, 12 de março de 2013

STARE MIASTO



(zona histórica de Varsóvia)


Sentes-te envergonhado aqui.
De que débil nação
provéns tu?
Um povo livre há um século
que nem sequer uma catedral
reconstruiu, quanto mais a sua língua.

Um povo orgulhoso lembra os seus tiranos.
E Sigismund Vasa
está de volta à Praça Zamkowy com a sua coluna.

Não foi para honrar reis e patriarcas
que reconstruiram a cidade pedra a pedra,
mas antes as mãos anónimas que por eles
escravizadas ainda encontraram júbilo na obra.

Olav H. Hauge, in A Few Blades of Grass (1980)
Versão de HMBF

segunda-feira, 11 de março de 2013

«...apartamento dos pais, no oitavo andar de um edifício da rua Tonelero, em Copacabana...»

Ponta Delgada, Açores. 2012.

PRIMEIRA LIÇÃO

Os gêneros de poesia são: lírico, satírico, didático, épico,
ligeiro.
O gênero lírico compreende o lirismo.
Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, sincero e
pessoal.
É a linguagem do coração, do amor.
O lirismo é assim denominado porque em outros tempos os
versos sentimentais eram declamados ao som da lira.
O lirismo pode ser:
a) Elegíaco, quando trata de assuntos tristes, quase sempre a
morte.
b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres.
c) Erótico, quando versa sobre o amor.
O lirismo elegíaco compreende a elegia, a nênia, a endecha, o
epitáfio e o epicédio.
Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes.
Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta.
Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado.
Endecha é uma poesia que revela as dores do coração.
Epitáfio é um pequeno verso gravado em pedras tumulares.
Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma
pessoa morta.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Ana Cristina César

domingo, 10 de março de 2013

RIO GRANDE (1950)




Qualquer que seja a perspectiva, facilmente se conclui que a História dos Estados Unidos da América (do Norte) confunde-se com a cinematografia de John Ford (1894-1973). A Trilogia da Cavalaria é um desses momentos, na sua vasta obra, em que se torna evidente a função historiográfica do cinema. Mas esta função historiográfica não é preponderante, na medida em que se permite ultrapassar pela exploração psicológica das figuras representadas. É assim com a ambição e o ressabiamento do Tenente Coronel Owen Thursday (Henry Fonda), em Fort Apache (1948), como com a coragem, determinação e entrega do Capitão Nathan Brittles (John Wayne), em She Wore a Yellow Ribbon (1949). Não respeitando uma sequência cronológica, os três filmes encontram-se ligados por múltiplos aspectos. Por um lado, a omnipresença de actores como John Wayne (símbolo, por excelência, da americanidade) e do inglês Victor McLaglen (como que fazendo justiça às origens britânicas do mestre); por outro, a reincidência de alguns actores na trilogia (John Agar nos dois primeiros; Ben Johnson nos dois últimos, curiosamente no corpo de uma personagem com o mesmo apelido: Tyree). Podemos induzir que estas repetições, acompanhadas de uma evolução reflectida nas patentes dos militares em cena, fazem recair sobre a figura de John Wayne o centro das atenções. O primeiro e o terceiro filmes da trilogia foram filmados a preto e branco. Apenas o segundo é a cores. No entanto, é no segundo dos filmes que a personagem interpretada por John Wayne aparece mais madura, com madeixas brancas no cabelo, viúvo, no estatuto de capitão. E se no primeiro e no terceiro filmes tem um apelido similar, no segundo Kirby York(e) transforma-se em Nathan Brittles. Não sendo a mesma personagem, pelo menos em nome, poderia ser o mesmo homem. Assim somos levados a acreditar, também, por se passarem as três narrativas num mesmo espaço geográfico, ao longo de uma mesma época, posterior à Guerra da Secessão, em que a Cavalaria fazia recair as suas preocupações sobre grupos de índios que não se conformavam com as imposições da “governação branca”. A verdade é que na filmografia de John Ford encontramos muitos exemplos onde o que parece não é, sendo que o oposto também se verifica. O olhar que perpassa nos seus filmes está mais concentrado na dimensão humana das personagens do que numa eventual esquematização narrativa, reverente a pressupostos históricos, culturais e políticos. Rio Grande é, neste contexto, um filme extraordinário. Nele encontramos um militar rigoroso e absolutamente dedicado ao sucesso das suas missões, colocando a Cavalaria acima da família e dos interesses pessoais. O condimento que apimenta o drama surge quando o seu filho surge como recruta no regimento. Mas a tensão não se fica por aqui. Logo de seguida, aparece a mãe do recruta Jeff Yorke com a intenção de o poupar à vida militar. O drama familiar assim incutido toma conta da narrativa, relevando para segundo plano outras leituras possíveis. Rio Grande impõe-se como uma versão do complexo de Édipo, com um jovem rapaz a querer afirmar-se aos olhos do pai, reclamando o seu respeito, esforçando-se por merecer a sua consideração. Jeff criou dentro de si a imagem do pai-herói e quer responder-lhe com determinação, embora a mãe tente adverti-lo de que para ser um grande soldado tem um homem que se tornar uma muralha de solidão. Esta mesma muralha impede Kirby Yorke de manifestar os seus afectos quer pelo filho, quer pela mulher, embora eles sejam perceptíveis em momentos de dissimulada preocupação e esgares de ternura levados pela sombra. A presença de Kathleen e Jefferson no acampamento abrem na vida do Tenente Coronel Kirby Yorke a ferida que, no fundo, lhe permitem ser homem para lá da Cavalaria. A flecha que Jeff extrai do peito do pai, no termo de um conflito com um grupo de Apaches que haviam raptado as crianças do acampamento, é a imagem poderosíssima de uma leitura alternativa do complexo edipiano. Mais do que matar o pai, Jeff salva-o da morte. E este gesto valerá tanto dentro de si como qualquer outro que pudesse marcar a sua afirmação, a sua libertação de um elo protector que acabava por diminuí-lo enquanto ser autónomo, livre, independente. Aquela flecha é o milímetro de cordão umbilical que lhe faltava cortar para ser livre. Kirby Yorke percebe-o, por isso pede ao filho que extraia a flecha como se ele fosse um qualquer outro dos soldados do seu regimento. Sabendo que, no entanto, não é um qualquer outro. É o seu filho.

AMANTE

Não hesitou em pedir o divórcio, ao perceber que a mulher estava apaixonada pelo telemóvel.

"Cincuenta pastillas de Seconal sódico le interesan como un símbolo..."

Ponta Delgada, Açores. 2012.


entrar entrando adentro de una música al suicidio al nacimiento


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Alejandra Pizarnik

quinta-feira, 7 de março de 2013

MOCA

Camarada Van Zeller, nasci numa terra que ficará eternamente associada às mocas. Lá em casa evitávamos o assunto, por terem alguns costados amigos ficado maltratados com a medicina do objecto. A verdade é que os fascistas usavam-nas para afugentar comedores de criancinhas e estes delas se serviam para arrumar de vez com os acólitos de Salazar. Ficou o trabalho por fazer, num caso e no outro, porque entre o ir e vir da moca folgaram, não os lombos, mas a vontade. De passeio entre o povo, uns entoando cantigas revolucionárias, outros colados ao slogan ensaiado, muitos, demasiados, mudos & calados como as pedras, ocorreu-me esta ideia maravilhosa: precisamos de mais mocas. Vai daí, subi ao Bairro Alto. E só hoje de lá desci, tão alucinado que andei nos últimos dias com as mais extraordinárias visões. Vi o salário de Ricardo Salgado cair 31% em 2012. Agora apenas aufere 552 mil euros por ano, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Deve fartar-se de trabalhar, o desgraçado. E vi o economista Salgueiro defender um plano de emergência para desempregados, que passe, a título de exemplo, pela limpeza das matas e das ruas. Cenário mais eloquente não me ocorre para os desempregados portugueses. Poderão também sentar-se à porta de um banco a engraxar sapatos. Quem sabe não venham a cruzar-se com as solas rotas de Salgado & Salgueiro, podendo então cuspi-las e dar bom uso à graxa com que meio mundo se desenrasca neste plutocrático regime. Mas não vi apenas Salgado empobrecer e Salgueiro propor, vi também um grupo de reformados indignados manifestando, civilizadamente, a sua indignação. São um grupo de ex-banqueiros, com reformas entre os 1350€ e os 7500€, sendo que um deles, o cabecilha, aufere uma pensão mensal de 14 mil euros. Vi-os indignarem-se contra o saque fiscal que lhes leva as reformas vergonhosamente baixas, colocando-os numa situação de sacrifício que não estará longe da mais insustentável pobreza. Salgado, Salgueiro e Pinhal eu vi, não querendo acreditar no que meus olhos viam depois de ter descido a Avenida da Liberdade preso a uma tremenda consternação. Já não sei, camarada, se é da moca ou ingenuidade. Será estupidez? Depois de tudo isto eu ver, vi ainda o Primeiro-ministro, com um fuinha sentado a seu lado, dizer que tudo está a fazer para que eu seja feliz, enquanto o seu Ministro das Finanças se dirige ao melhor povo do mundo com a mais estafada das imagens: “somos um povo de marinheiros capaz de superar as maiores tormentas”. Chegado aqui, interrogo-me: mas quem cala definitivamente esta gente? No meio do caos, no mais fundo da fossa, rodeado de excrementos, atolado em porcaria, concluo que o pior desta crise tem sido trazer à superfície esta gente, a sua forma de pensar, os seus anseios, as suas convicções. Saber que esta gente existe e manda não é apenas deprimente, é um descalabro emocional que me deixa sem qualquer esperança no futuro. Já nem nas mocas acredito, muitas seriam necessárias para acabar o serviço que, pelos vistos, nem a meio ficou. Esta gente existe, foi esta gente que nos trouxe onde estamos, é esta gente que se contorce em propostas para nos retirar de onde nos colocou, como quis, quando quis, porque quis. Esta gente é um facto, pensa, fala, age. E o povo que ora sai à rua patrocinou durante décadas a existência desta gente com a sua indiferença, com o seu desapego, com a sua letargia. Quer apostar comigo, camarada Van Zeller, que este será o mesmo povo que, depois de suportar Salazar durante 50 anos e Cavaco durante 20, irá masoquistamente voltar a legitimar no poder esta companhia de ignóbeis actores?