segunda-feira, 11 de março de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #83


Para o Saikiran Datta



Tenho pela Índia um amor distante, por nunca haver pisado aquelas terras e imaginá-las tão macias que me doem os pés de não as ter pisado. Fumo, caminho, sento-me, à sombra de um mapa onde possa ver a configuração luminosa dos poetas, da música, da cultura. E trago nos nervos incenso que me abstrai do mundo. Tenho pela Índia uma devoção não consumada, sem mitos nem falsos deuses. Sei que facilmente pintamos a miséria com dourados, facilmente emolduramos a fome num exotismo ideal, sei de tudo isso e, no entanto, conservo pelas turvas águas do Ganges uma luminosidade incandescente. Ali vejo flutuarem corpos mortos, mas dessa morte nada me fica senão um acto consumado. Não dramatizo o medo, quando penso na Índia, nos seus poetas, nos seus músicos, no seu Taj Mahal. Pandit Ravi Shankar é, há muito, espírito presente nestas quatro paredes onde todos os dias me deito, todos os dias acordo. Não me chegou de colaborações pop, nem de duetos sinfónicos, usurpações ocidentais de um som inebriante. A cítara de Shankar foi-me dada a ouvir, primeiro, pelos reparos da vida, posteriormente pela paixão e, por fim, numa casa de olhos fechados e nariz desentupido, quando praticava yoga para desenganar as estúpidas dores e angústias da idade. Raga Jogeshwari não é sequer das suas gravações mais consideradas pela crítica ocidental. Três peças, a terceira partida em duas partes, para cítara e percussão, onde o fervor dos solos rápidos, improvisados, rápidos, muito ao gosto da nossa trémula sociedade, foram substituídos por uma quietude que nos é estranha, tão estranha, que inquieta. É isso o que mais me perturba quando ouço, e não digo escuto, a cítara de Pandit Ravi Shankar, ou seja, inquieta-me o seu sossego. Eu queria ser assim. Deixo o incenso queimar. Tudo passa.

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