domingo, 28 de abril de 2013

UM SECTOR EM CRESCIMENTO


Camarada Van Zeller, se há sector produtivo do qual nos devemos orgulhar esse sector é o da imbecilidade. Nesta matéria, julgo ser consensual vivermos um momento de produção excedentária. Resta-nos aprender a retirar valor de tão vasta argumentação sem pés nem cabeça (e, já agora, sem aquele mínimo de lógica que leve, pelo menos, a dar o chamado benefício da dúvida). Tomem-se de exemplo as mais recentes declarações do embaixador do famigerado programa Impulso Jovem, para quem, e passo a citar, «muitos dos que estão desempregados estão desempregados porque, ponto número um, não querem trabalhar e, ponto número dois, são maus a fazê-lo». Ponto número três: excluem-se destas contas todos quantos seguiram os bons conselhos do Primeiro e zarparam na demanda de um futuro que os livre de virem a ser apontados pelo competentíssimo Miguel. Não nos esqueçamos de que este mestre do coaching à la carte tem no seu vasto curriculum a oferta da fronha a um programa engendrado por um ex-Ministro trabalhador, sério, empreendedor, competente que, por acaso, só por acaso, foi impelido a demitir-se das suas funções dias depois de ter estado ombro a ombro com Gonçalves a apresentar soluções para o desemprego. Que o então Ministro Relvas tenha ficado desempregado é da ordem da chamada ironia do destino. Desconfiamos que não será por pouco tempo, até porque Relvas, ao contrário de muitos, quer trabalhar e é bom a fazê-lo. Tão bom, que para ele Gonçalves agiu pro bono publico. Não fez como essa cambada de trabalhadores que exploram os patrões batendo punho ao preço da uva-mijona. Queira Deus Nosso Senhor que Miguel Gonçalves nunca emigre e que as suas palavras não ajudem a estimular os indicadores das exportações. Era bom e agradável que este produto nacional ficasse apenas entre portas, para bem de todos quantos ainda conservam vestígios de vergonha na cara. Se chega lá fora, a argumentação de Miguel Gonçalves é capaz de vir a motivar uma providência cautelar. Imaginamos o que perderiam milhares de jovens que tanto têm a ganhar com a imbecilidade do Miguel. Digo isto porque se uma das razões para o desemprego ser elevado em Portugal é as pessoas não quererem trabalhar ou serem más a fazê-lo, admitimos que não sejam diferentes as razões para o desemprego ser astronómico noutros países. Espanha tem já mais de seis milhões de preguiçosos, gente que ou não quer trabalhar, porque está ocupada a dormir a sesta, ou não sabe fazê-lo, porque só sabe dormir a sesta. Oremos, camarada Van Zeller, para que Miguel Gonçalves aprenda rapidamente as virtudes da sesta. Enquanto dormir não proferirá baboseiras. E assim como assado sempre refrescará as ideias, ainda que o melhor fosse mesmo congelá-las.

sábado, 27 de abril de 2013

O SUICIDA




E isto, senhoras e senhores, que de facto eu não estou
a dirigir, foi durante os últimos minutos o escritório
desse homem desconhecido. Ali temos as contas
na bandeja, a cinza no cinzeiro, memorandos cinzentos
empilhados junto ao cinzeiro, caixas de arquivo em fila, o júri
parcial da sua correspondência sem resposta
balançando sob o pisa-papéis  à passagem da briza
que vem da janela por onde ele partiu; e aqui está o receptor
avariado que nunca foi concertado e o bloco de apontamentos
com o seu último esquiço, que tanto pode ser uma úlcera
no seu aparelho digestivo como o labirinto florido
onde se terá perdido deliciosamente até ter tropeçado
súbita e finalmente consciente de tudo quanto lhe faltou
num poço coberto de malvas. A ponta do lápis
obviamente se quebrou; porém, quando abandonou esta sala
por artes mágicas ou simples evaporação,
àqueles que o conheceram pela confusão gerada na rua
este homem de sorriso tímido deixou para trás
qualquer coisa que ficou intacta.


Louis MacNeice (1907-1963)


Versão de HMBF.

THE TIN STAR (1957)



Por falar em Anthony Mann (1906-1967), justamente considerado por críticos e historiadores um dos mestres do western, a par de John Ford (1895-1973), reparei que ainda não referi nenhum dos seus filmes nesta digressão. Muitas vezes obnubilado pelo sucesso crítico dos seus pares, Anthony Mann deixou-nos um legado impagável no domínio do western. Clássico dos clássicos, ofereceu ao género uma luminosidade capaz de sintetizar em breves planos-sequência os grandes temas. É o que sucede no início deste The Tin Star (ridiculamente editado em Portugal com o título Sangue no Deserto), quando um homem chega a uma cidade transportando um cadáver. A cidade pára para o observar, as pessoas olham-no com desconfiança e desprezo, algo atónitas, enquanto a câmara nos mostra o braço retesado do morto caindo sobre o dorso do cavalo. O homem que o transporta atravessa a cidade, não com indiferença, mas com determinação, atraindo sobre si todas as atenções. Sabemos, a partir desse momento, que se instalará uma tensão entre ele e a comunidade onde acabara de chegar. E é essa tensão que dominará a narrativa. O forasteiro é Morgan Hickman (Henry Fonda), caçador de prémios que larga no posto do inexperiente sheriff Ben Owens (Anthony Perkins) o cadáver de um fora-da-lei sobre o qual recaía um razoável prémio de captura. Ficaremos então a saber que naquela cidade os caçadores de prémios não são bem-vindos, preferindo-se aquilo a que os homens do poder chamam de julgamentos justos. Acontece também que o foragido capturado é familiar de Bart Bogardus (Neville Brand), um indivíduo racista e radical que disputa com Ben Owens o lugar de sheriff. Entre eles, uma diferença de carácter essencial. Bart Bogardus pretende ser sheriff para disparar sobre quem entender, anseia pelo poder com a intenção de o exercer arbitrariamente. Ao contrário de Ben Owens, para quem a justiça está acima do poder. Mas Ben é ingénuo e inexperiente, confia na estrela que traz ao peito como se ela fosse suficiente para merecer o respeito e o civismo da comunidade. É um idealista entre brutos que foram educados a odiar os índios, a temer a diferença, a manipular as massas em benefício próprio. Morgan Hickman desempenhará um papel importantíssimo no meio desta contenda, servindo-se da sua experiência para abrir os olhos a Ben Owens e refrear os ânimos de Bogardus. Mas esta simplicidade narrativa esconde no seu âmago uma dimensão ética muito mais profunda. As sequências finais, em que Bogardus reúne metade da cidade para capturar mortos ou vivos, o que significa mortos, os irmãos McGaffey (um deles é Lee Van Cleef), e o sheriff Ben Owens se vê sozinho reclamando uma captura que garanta aos criminosos a justiça dos tribunais contra a justiça popular, revelarão uma inflexão no comportamento de Morgan Hickman que o recolocará perante a comunidade. Daí que o filme termine com Morgan abandonando a cidade sob o cumprimento dos populares com quem se cruza, depois de a ela ter chegado numa situação completamente adversa. Digamos que a vitória do bem sobre o mal neste western simples não é meramente retórica, pois na sua clareza Anthony Mann ergue uma reflexão sobre a solidão dos homens que lutam por uma sociedade mais justa. Esta espécie de homenagem à coragem, determinação e integridade do sheriff é, igualmente, um retrato impiedoso da volatilidade das massas e uma crítica manifesta ao poder que actua invariavelmente em função das conveniências, largando os ideais na penumbra. Há um aspecto convencional neste filme que cativa, por nele a mensagem política ser transmitida com a evidência do bom exemplo. O resto é ritmo, puro ritmo, que haveremos de perseguir noutros westerns do mesmo realizador.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

REFLEXOS




O espelho em cima da lareira reflecte o quarto
reflectido na janela; olho para o espelho à noite
e vejo dois quartos, um onde a esquerda é direita
e o outro, para lá da janela reflectida, correcto,
mas aí eu fico de costas para as minhas costas. O
candeeiro surge três vezes no espelho, duas na janela,
o fogo no espelho fica a duas salas da janela,
o fogo na janela fica a uma sala do terraço,
o meu quarto real está entalado entre manipulações
da noite da luz do vidro e em ambas as direcções
consigo ver as luzes da rua através e além dos reflexos
no exterior onde as divisões interiores encalharam,
onde talvez um táxi atravesse a estante com livros
que não são para ler e estão junto ao fogo
que não dá calor e é transposto pela minha secretária
onde não poderei escrever já que não sou canhoto.

Louis MacNeice

Versão: HMBF

"On returning home she put on her mother's old fur coat, removed all her rings, poured herself a glass of vodka, locked herself in her garage, and started the engine of her car, committing suicide by carbon monoxide poisoning".


Monte Abraão, Queluz. 2010.
 
THE BALLAD OF THE LONELY MASTURBATOR
 
The end of the affair is always death.
She’s my workshop. Slippery eye,
out of the tribe of myself my breath
finds you gone. I horrify
those who stand by. I am fed.
At night, alone, I marry the bed.
 
 
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Anne Sexton.

terça-feira, 23 de abril de 2013

sábado, 20 de abril de 2013

A GUNFIGHT (1971)

O Dicionário de Cinema de Jean Tulard deu uma ajuda. Na entrada dedicada a Lamont Johnson (1922-2010) lê-se o seguinte: «Mais conhecido pela sua atividade na televisão do que no cinema, Johnson assinou alguns filmes interessantes. O Duelo era um western cativante: dois matadores falidos organizavam um duelo em uma arena, do qual o vencedor embolsaria os lucros. Pouquíssimas vezes o fim do Oeste dos caubóis e dos fora-da-lei foi evocado com tanta melancolia». Está percebido que O Duelo é título da versão brasileira. Em Portugal, o filme aparece com um nome mais sofisticado: Um de Nós Tem de Morrer. Gunfight no original, esta obra de Lamont Johnson está repleta de curiosidades. Por exemplo, os dois protagonistas são Kirk Douglas e Johnny Cash. Não é a primeira vez que encontramos alguém do universo musical norte-americano no centro de um western. Colocando de lado bandas sonoras inesquecíveis, como as de Ennio Morricone para Sergio Leone, as de Elmer Bernstein para, entre outros, Henry Hathaway ou as de Richard Hageman para John Ford, recordamos a presença do malogrado cantor Ricky Nelson em Rio Bravo e a de Bob Dylan em Pat Garrett and Billy the Kid. São dois momentos altos de uma relação, nem sempre feliz, entre os mundos da canção e da interpretação. Neste caso, a presença de Johnny Cash, sempre vestido de preto da cabeça aos pés, cai que nem uma luva na figura do pistoleiro arruinado e só. Com um argumento escrito pelo experiente Harold Jack Bloom (nomeado para um Oscar, em 1954, pelos diálogos do excelente The Naked Spur, de Anthony Mann), Gunfight amealha pontos na coerência narrativa e num elenco que assegura a cada um dos papéis uma personificação fiel. O cliché inicial, do forasteiro solitário, empoeirado, negro e misterioso, a chegar a uma cidade perdida na fronteira com o México, é desfeito na primeira cena em que Kirk Douglas aparece (tenta descansar num quarto assaltado pelo ruído das máquinas numa serração instalada nas imediações). Percebemos que já não estamos propriamente no Velho Oeste, ou seja, numa imagem clássica, primitiva e tradicional do Oeste representado nos filmes de Ford e Hawks. Will Tenneray (Kirk Douglas), um velho pistoleiro que ganha agora a vida como atracção num bar local, fecha desesperadamente as janelas, bebe água, observa o filho (curiosamente o jovem Eric Douglas, filho de Kirk na vida real) a espalhar cartazes de uma tourada, discute com a mulher, abraça-a, lamenta-se do cansaço. Ainda que conservando os resquícios de um tempo perdido, este Oeste é novo e decadente. Os seus mitos acabam desmentidos pelas fraquezas dos heróis, são atracção nocturna, comediantes, servem de entretenimento para cowboys embriagados. Ao mesmo tempo que Will Tenneray se queixa do cansaço, Abe Cross (Johnny Cash) chega à cidade arrastando o seu cavalo coxo. Vítima do veneno de uma cobra, o cavalo acabará por sucumbir. O seu enterro tem uma densidade metafórica difícil de reproduzir por palavras. O que ali vemos a ser enterrado não é apenas um cavalo, é todo um modo de vida. A Tenneray e Cross, reconhecidos como os mais rápidos pistoleiros do Oeste, restam as recordações, aproximam-se julgando-se ambos mortos, apertam as mãos, sorriem, encolhem os ombros. Mas logo Tenneray se lamenta: «Quando fingimos muito tempo, esquecemo-nos daquilo em que nos tornamos. Até que nos vemos espelhados no outro». E é ao ver-se espelhado em Cross que Tenneray se apercebe da sua ruína. Já não é o ruído que o assalta, mas também o tédio, a frustração, a nostalgia. O olhar destes homens é sobretudo nostálgico. O acordo a que chegam para superarem a falência em que se encontram é já o gesto limite numa sociedade onde o espectáculo dita as regras. A morte do Old West é dramaticamente transposta para uma arena onde deveriam estar touros e toureiros. Jenny (Karen Black), a rameira que satisfaz Cross, queixa-se do público, diz que Abe e Will não se enfrentariam se não houvesse quem pagasse para ver. Mas há. Há um público sedento de sangue, prestes a assistir à morte enquanto se embriaga, ri, boceja, para no final abandonar o ringue em silêncio. É uma sequência que merece ser revista:




Lamont Johnson oferece-nos dois finais com dois possíveis vencedores. Desvia-nos a atenção de uma crítica evidente à sociedade do espectáculo, tal como a pensaram Jean Baudrillard e Guy Debord. Para ele não é tão importante representar o entretenimento acéfalo das massas como acaba por ser a evocação de um mito, a do pistoleiro solitário, errante, nómada, inquieto, herói que ainda hoje persegue a história da América como uma sombra.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

ALGUMAS PESSOAS




Algumas pessoas
saem da nossa vida, algumas pessoas
entram sem convite
na nossa vida e sentam-se,
algumas pessoas nela
caminham calmamente, algumas pessoas
oferecem-te uma rosa
ou compram-te um carro novo,
algumas pessoas
ficam muito próximas de ti, algumas pessoas
que esqueceste por completo,
algumas pessoas, algumas pessoas
são tu próprio,
algumas pessoas
nunca viste de todo, algumas pessoas
comem espargos, algumas pessoas
são crianças,
algumas pessoas sobem ao telhado,
sentam-se à mesa,
descansam nas redes, passeiam com guarda-chuvas
vermelhos,
algumas pessoas observam-te,
algumas pessoas nunca notaram em ti, algumas pessoas
querem dar-te a mão, algumas pessoas
morrem durante a noite,
algumas pessoas são outras pessoas, algumas são tu mesmo, outras
não são,
algumas são.


Rolf Jacobsen (1907-1994)


Versão de HMBF.

terça-feira, 16 de abril de 2013

MENTIRAS & DIAMANTES



Não há nada que se compare aos livros de José Rentes de Carvalho (n. 1930) na literatura portuguesa contemporânea. É preciso recuar a Eça de Queirós (1845-1900) para lhe vislumbrar um vínculo à ficção produzida em Portugal. Mentiras & Diamantes, o mais recente romance, aí está para o comprovar. A nota ao leitor reclama o carácter ficcional da obra, adverte-nos sobre o eventual abuso de um desnecessário processo de identificações, mas se há característica cativante neste livro, como, de resto, nos outros do mesmo autor, é a curiosidade de tipo jornalístico que lhe subjaz. José Rentes de Carvalho respiga nos factos as suas fantasias, mas não se fica por relatá-los, oferece-lhes a poesia de um olhar sagaz, desmonta-os, baralha-os, mistura-os numa urdidura onde vamos descobrindo tempos diversos e uma vontade de semear pistas sobre uma ética que rejeita leituras literais da acção humana. Não encontramos entre as personagens do autor gente apenas boa ou má. Encontramos gente onde os defeitos revelam as virtudes e as virtudes fazem sobressair os defeitos, encontramos falsos heróis assaltados pela dúvida, tormentos passados, memórias, recalcamentos, gente de carne e osso afirmando-se num plano da realidade que enjeita hipérboles, pelo menos tanto quanto declara fragilidades universais. Parece-me sintomático que a haver alguma moral neste livro, ela nos seja oferecida nas palavras recordadas de um morto, personagem ausente, pai de Jorge Ferreira, dito “conde”, proprietário de uma quinta algarvia que está no centro da trama. Cito: 

«Num momento alto de zanga, o pai tinha-lhe uma vez gritado que a vantagem das pedras, que ele com tanta dedicação estudava, era não falarem nem mexerem. As pessoas falavam, mexiam, atraiçoavam, roubavam, e isso era a vida, o dia-a-dia. Os tolos e os ascetas podiam dar-se ao luxo da torre de marfim, mas a existência era no rés-do-chão, com lama, fedores, golpes baixos, pontapés. Não havia aí bons e maus, porque conforme a ocasião, o interesse, a ganância, todos eram uma coisa e outra» (p. 249).

Poderão alguns considerar desencantada a perspectiva. Será, se por desencanto entendermos a maturidade de quem já não vai em cantigas ou se deixa iludir pelos amanhãs que cantam. A personagem do conde Jorge Ferreira é, toda ela, nas suas amarguras e traumas, nas marcas que transporta no corpo, no sangue e na alma, um estigma deste desencanto. Por isso se reserva, por isso se cala, por isso a depressão o atormenta. É uma personagem que nos perseguirá, martirizada pelos chamados excessos da revolução com consequências que estamos longe de conseguir imaginar. O autor não tece considerações sobre o assunto, apenas nos mostra, como quem revê o filme, o mundo como ele é: contraditório, problemático, paradoxal, violento, cruel. Mas ao lado desta crueldade, ele coloca momentos de um enlevo incomparável.
J. Rentes de Carvalho arrasta para a história o tráfico de diamantes, tema que lhe oferece ritmo e intriga, provocando no leitor desconfiança, curiosidade, suspense, mas o que verdadeiramente importa neste Mentiras & Diamantes é o encontro entre Jorge e a inglesa Sarah Langton. Os dois contrastam ao mesmo tempo que se aproximam. Ela procura o risco, ele anseia pelo recato, ela busca acção, ele pede sossego. São polos, ou talvez nem tanto, de uma teia onde se intersectam as vontades, os desejos, os anseios de pessoas diversas, advogados perversos e feitores fiéis que nem cães (enorme personagem, a do feitor Samuel), gente vulgar e mesquinha, intriguista ou patuscamente bisbilhoteira e tipos ardilosos, arrivistas, malandros das mais alta e baixa esferas, numa geografia que extravasa fronteiras (à semelhança do tráfico, aliás) e viaja por Portugal como quem, por artes mágicas, consegue deslocar-se à raiz de um povo, de uma nação.
Felizmente, não ouvirei dizer deste romance que é uma parábola da situação portuguesa actual . O cliché acaba desmentido pela universalidade das personagens. As referências lá estão, aos casos maiores («Isaltino, o Loureiro, o BPN, o Vara – que em rapaz se lembrava de ter visto ao balcão da Caixa, em Mogadouro – os submarinos, as PPP…», p. 110), aos media, ou até, num rasgo auto-humorístico hitchcockiano, a «um livro com um título esquisito, Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia» (p. 285). Aqui, a situação actual portuguesa é relativizada pela grandeza de um encontro universal. Daqui a uns anos, ninguém se lembrará do BPN (em boa verdade, poucos se lembrarão já), mas muitos se excitarão com o mergulho de Sarah no Douro, o passeio ao Carrascalinho ou simplesmente se divertirão com os boatos, as cenas de sexo, violência, fúria, ódio, náusea e traição que ocupam estas páginas.  Por mim falo, o conde persegue-me, não me larga. Mais ainda que Sarah. Não sei porquê, não percebo, mas não resisto a partilhar parte de um diálogo que devo ter lido, nos últimos dias, uma dezena de vezes: 

- Estive em Amsterdam. Fui a Londres, de corrida, na semana passada dei-me uns dias de preguiça em Marraquexe. Mandei-lhe uma mensagem, lembra-se?
- Bela cidade. Marrocos é ainda a minha paixão. Quem sabe se não será o lugar da minha velhice.
- Marrocos?
- Sim. Fui feliz em lugares que a outros nada dirão. Bîr Moghreïn, Tindouf, os oásis. Tenho saudade daquele céu, o brilho das estrelas é lá tão diferente. Em certas horas digo-me que vou, que devo ir. E continuo aqui.
- Porquê?
- Coisas que me prendem. Um certo cansaço, também. Medo de recomeçar.
- A melancolia da alma portuguesa.
- Talvez. E desencanto. Cobardia. Produtor de vinhos estava longe de ser o meu sonho, nem eu acreditaria que fosse o meu destino. Lidar com certa gente também não é ocupação que eleve o pensamento ou afine a sensibilidade.
Noite de alma, a temperatura uma carícia, em parte nenhuma ruído, os cães, deitados no chão, pareciam dormir. 

J. Rentes de Carvalho, in Mentiras & Diamantes, Quetzal Editores, Abril de 2013, pp. 205-206.

domingo, 14 de abril de 2013

FRENTE FRÍO

 
Av. Marechal Gomes da Costa, Lisboa. 2012.
 

Tengo eczema en el alma.
La regaría con ácido muriático,
con un poco de seconal o de paciencia.
No quiero que sea de nailon,
ni que me la pongan a bailar
entre un billar y otro. No que se me escurra.
Así podrida la quiero.
Que se me pegue al cuerpo.
Quizá yo pueda ver un paisaje, un día.
Lloro despacio; pero una lluvia de enero
añoro: sí, sí, que borre mi tristeza -
un manto, un paño para taparme el rostro.
No tengo megáfono ni coturnos;
no puedo ser una máscara.
Se me sacude el cuerpo; tiemblo,
me mortifico. Qué es esto que viene por mí -
me anega en lágrimas pardas cual el fango
que dice: «Todavía, todavía». Soy
acaso un mono trágico -
eso es: soy sólo un mono trágico
que no tendría que ver con la gramática.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Ángel Escobar Varela.


OS AMIGOS SÃO PARA AS OCASIÕES

Não há volta a dar-lhe. No mesmo palco, a actriz contracena com a ministra. O seu Governo é uma porcaria, só a senhora é que escapa. A senhora é uma raridade, um caso isolado. Também admiro muito o seu trabalho. No talk show seguinte, comenta-se a remodelação. Indirectas, cuidados, paninhos quentes. O cuidado com que Daniel Oliveira se refere a Pedro Lomba é comovente. O país é pequeno, ninguém gosta de ferir o amigo com quem jogou o berlinde nem a namoradinha de escola. Conhecemo-nos todos uns aos outros. Ninguém nos paga para não sermos hipócritas, previdentes, dissimulados.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

ENFIM O SILÊNCIO




Tenta acabar de imediato
com os gestos deliberadamente provocatórios e as estatísticas de vendas,
almoços de domingo e fornos a gás,
acabar com os desfiles de moda e os horóscopos,
paradas militares, concursos de arquitectura
e o tumulto das luzes dos semáforos.
Liberta-te de tudo isso e prepara-te
para terminar com as festas e a remota possibilidade
de ganhares na lotaria,
índices do custo de vida e análises da bolsa de valores,
porque é muito tarde,
é demasiado tarde,
acaba com isso e vem para casa
para o silêncio que enfim
te encontrará como sangue quente a pulsar na testa
e como um trovão pelo caminho
e o bater das horas em relógios enormes
que fazem os tímpanos vibrar,
porque as palavras já não existem,
não há mais palavras,
de agora em diante toda a conversa terá lugar
com as vozes das pedras e das árvores.

O silêncio que vive na erva,
na raiz de cada lâmina
e no espaço azul entre as pedras.
O silêncio
que se segue aos tiros e ao canto dos pássaros.
O silêncio
que cobre o cadáver como um cobertor
e aguarda na escada até que todos se vão.
O silêncio
que pousa como um pequeno pássaro entre as tuas mãos,
o teu único amigo. 


Rolf Jacobsen (1907-1994) 


Versão de HMBF.

terça-feira, 9 de abril de 2013

« she committed suicide by hanging herself by her shoelaces in a bathroom at London's King's College Hospital»


Ponta Delgada, Açores. 2012.
 
 
A
 não me digas não, não me podes dizer não, é um alívio amar outra vez e deitar-me na cama e ser abraçado e beijado e adorado e o teu coração saltará quando ouvir a minha voz vir o meu sorriso sentir a minha respiração no teu pescoço e o teu coração baterá quando eu te quiser ver e minto-te desde o primeiro dia e uso-te e fodo-te e despedaço-te o coração porque antes tu despedaçaste o meu e amas-me cada vez mais e a tua vida é minha e morrerás sozinha porque eu ficarei com o que quiser e depois vou-me embora sem te ficar a dever nada está sempre ali esteve sempre ali e tu não podes negar a vida que sentes que se foda essa vida que se foda essa vida que se foda essa vida agora perdi-te
 
B
TENS-ME
 
 
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Sarah Kane

sexta-feira, 5 de abril de 2013

SULSCRITO #4


Sulscrito - Revista de Literatura
N.º 4, Abril de 2013
Direcção editorial de Fernando Esteves Pinto e Vítor Cardeira
4águas editora, Tavira


Redondo vocábulo, pp. 45-48.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

CARACOL




Pequeno, pacífico vagabundo das lâminas d’erva
de trompete às costas e longos chifres
como antenas a este e oeste
de um cantor cego que,
respeitosamente,
beija a terra. 
Ele aparta, cuidadosamente,
cada lâmina, escuta com prudência
cada perigo iminente. E então toca
a canção jovial da erva
com a sua trompete. 
Sem abrigo, pequeno
eterno amigo na erva, esse que vagabundeia
num beijo.


Rolf Jacobsen (1907-1994)

Versão de HMBF.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

EL DORADO (1966)




O humor é um dos elementos mais subvalorizados no western. No entanto, tem sido tão recorrente no género como qualquer outro elemento. Mestre John Ford (1894-1973) nunca prescindiu das suas figuras picarescas, dos “gags” inofensivos, de algumas personagens cuja presença não era senão pausar a tensão entre sequências. Sem nos distraírem do essencial, estas personagens permitem momentos de descontracção numa paisagem geralmente agressiva e árida. Howard Hawks (1896-1977), especializado na chamada comédia ligeira, conseguiu em alguns dos seus filmes um equilíbrio inigualável entre os pólos trágico e cómico da existência. Em El Dorado (1966) recupera a figura do Sheriff alcoólico, que já conhecíamos de Rio Bravo (1959), destroçado por uma paixão falhada e pela traição de uma jovem mulher.
Os heróis de Hawks são homens humanamente falíveis, débeis, perdidos algures num pântano de dúvidas, dilemas, arrastados pelo vício de que são as principais vítimas. Há qualquer coisa de romântico nestas figuras autodestrutivas. Tanto o Robert Mitchum de El Dorado como o Dean Martin de Rio Bravo (na realidade, era apenas delegado) encarnam na perfeição essa imagem cativante do homem responsável pela lei que se encontra desorientado. Eles são, ao mesmo tempo, o caos e a ordem, a coragem e o abandono, mais desistidos de si próprios do que da missão para a qual foram eleitos. A sua poesia é a dos anti-heróis. Têm, por isso, tanto de trágico como de cómico. São trágicos porque sofrem e fazem sofrer, cómicos porque o seu sofrimento nos parece anormal. Fazem-nos sorrir de ternura.
Não admira que Hawks os exponha ao lado de mulheres fatais, mesmo que não tenham sido essas a causa do desassossego que os assola. Note-se o quão eróticas são as gargalhadas de Charlene Holt, muitas vezes filmada em trajes menores, ou quão sensual se apresenta a cabeleira desgrenhada de Michele Carey. De resto, o tiro que esta dá pelas costas a John Wayne é um dos momentos mais simbólicos da obra de Hawks. Misógino ou simplesmente romântico, Hawks atribui às mulheres um poder que relativiza nas personagens masculinas. Elas são determinadas e raramente vacilam no eixo das suas decisões, eles enredam-se em incertezas que os tornam ambíguos e cheios de perplexidades.
É esta a dimensão mais relevante de El Dorado,  filme onde um Sheriff alcoólico e um pistoleiro a soldo, amigos de longa data com percursos de vida diferentes, mas não antagónicos, unem-se em defesa dos mais fracos num conflito que opõe dois rancheiros. A eles junta-se um jovem de nome impronunciável, conhecido por Mississippi, que não sabe disparar uma arma mas é um sinal de modernidade entre duas figuras clássicas.  James Caan (o actor de que toda a gente se recordará como o escritor torturado de Misery – O Capítulo Final) é o jovem de serviço que vai recitando um poema de Edgar Allan Poe ao longo do filme, numa cidade com um nome que sugere um tesouro por encontrar. Talvez esse tesouro seja o da verdade e da justiça, talvez seja a água que os rancheiros disputam, talvez seja o cabelo de Michele Carey ou as gargalhadas de Charlene Holt. Ou talvez seja, tão-simplesmente, o fim de um ciclo representado nas personagens de John Wayne e Robert Mitchum, o começo de um outro na personagem de James Caan.
Passado e futuro reproduzem-se noutros rostos deste western tragicómico, como testemunho de um tempo onde os homens ainda tentavam encontrar-se a si próprios. E esse era, ao fim e ao cabo, o seu maior tesouro.

terça-feira, 2 de abril de 2013

IMPULSO JOVEM


Camarada Van Zeller, o distinto ministro Adjunto foi à loja dos trezentos, vulgo YouTube, escolher o rosto para o programa Impulso Jovem. Podia ter ido à loja dos chineses, correndo o risco de nos deixar com os olhos em bico. Deixou-nos apenas atordoados. Miguel Gonçalves, também conhecido no seu núcleo de amigos mais chegados por speedy Gonçalves, é um fenómeno que convém acompanhar. Diogo Morgado bem pode encarnar a figura de Jesus Cristo, que jamais chegará aos pés deste idealista revolucionário de Braga (vide facebook). Com um aspecto menos sexy, mais chunga, lembra Frank T. J. Mackey, a personagem de Magnólia interpretada por Tom Cruise. Tem um discurso positivo, motivador, estimulante, agressivo, comercialmente eficaz, mas não se livra de julgarmos que tem mau hálito sempre que o ouvimos chibatar a procrastinação nacional. Miguel Gonçalves é um poeta do empreendedorismo, nisso Relvas teve olho. Está para o empreendedorismo como Zezé Camarinha para o engate. É um tangas bem calibrado. Mesmo, mesmo, mesmo à medida de Relvas, a «pessoa trabalhadora, rápida, diligente, que anda com uma velocidade acelerada, sempre andou» (Cf. Helena Roseta) e que tira cursos como quem troca de camisinha. Relvas podia ter pensado, sei lá, no Tó Jó, na Fanny, na Erica Fontes (não é certo que não tenha pensado), no menino Gil, na Maria Armanda, no Tino de Rans, no Saúl, no Zé Maria, no mais jovem deputado da nação, eu sei lá… Podia ter escolhido de entre um milhão de cromos o cromo mais disponível para aceitar tão nobre desafio, ainda por cima de borla (como o Estado gosta e o Vítor Gaspar anseia). Foi logo escolher este speedy Gonçalves, o jovem que deve servir de exemplo a todos os jovens que o Primeiro-ministro tem impelido para a emigração. Miguel Gonçalves será, então, o rosto por detrás da precariedade, dos estágios não remunerados, dos salários mínimos, de um exército de licenciados que para pouco mais servem do que para repor as prateleiras da Sonae e engraxar os sapatos ao Camilo Lourenço. De facto, um programa apostado em combater o desemprego entre os mais novos carece de irreverência. Carece, nomeadamente, de quem não tenha outra mensagem para fazer passar senão a de que, e passo a citar, importar bater punho. Bater punho é, pois então, o que se espera dos desempregados portugueses enquanto não houver vacas para satisfazer com a arte presidencial da ordenha. Bem sucedido na arte de palestrar, Miguel Gonçalves terá em Miguel Relvas um patrono à altura e Relvas terá em Gonçalves o filho com que sempre sonhou. Não duvidamos de que Relvas se farta de bater punho. Tem cara disso. E não duvidamos também que tenha queimado as pestanas a estudar nos intervalos da venda de pipocas à entrada da extinta Feira Popular.