terça-feira, 9 de abril de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #85


Agora que já tudo foi feito, todas as melodias descobertas, todos os riffs desenhados, pouco mais resta ao rock’n’roll do que ser honesto. Os britânicos TOY elegeram essa honestidade como matriz das suas composições, não disfarçam influências, uma inclinação deliciosa para o estilo agridoce das guitarras distorcidas com sintetizadores esvoaçantes e uma secção rítmica eficiente em histeria moderada. Têm qualquer coisa de nostálgico, mas não deixam de olhar o futuro desassombradamente. Deixam as cordas reverberar o espaço, dão eco ao silêncio e aproveitam o ruído com sensibilidade estética. Quando aceleram as pulsações, contêm-se o suficiente para não provocar ataques cardíacos às modulações. Têm o estilo das miúdas vestidas de preto com sonhos psicadélicos, são atraentes e raramente se perdem nos labirintos urbano-depressivos da música dita decadentista (versão oral da decadência). Conseguem, inclusive, ser empolgantes, sobretudo quando mergulham no reflexo da lua sobre as águas (isto é, quando cedem à paixão sem perder as rédeas ao desejo). Escute-se um tema como o instrumental Drifting Deeper e perceber-se-á que ouviram o melhor post-rock dos anos noventa. Torna-se óbvio, também, que mais facilmente deliramos nós ao ouvi-los do que eles enquanto actuam. Mas quando já tão raramente nos entusiasmamos com uma banda de guitarras, convém manifestar esse entusiasmo. Sob pena de, ao não o fazermos, passarmos ao lado do que de melhor a cultura popular esconde.

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