terça-feira, 23 de abril de 2013

DIA MUNDIAL DO LIVRO E DOS DIREITOS DE AUTOR

É sintomático de uma sociedade sonâmbula que o segundo objecto da celebração seja geralmente omitido dos festejos, festejando-se apenas o livro enquanto resquício de uma mitologia romântica que a realidade há muito se encarregou de desmentir. Na verdade, estamos a festejar um produto de consumo. Um certo lirismo pode pretender disfarçar a realidade, falando do livro como quem fala de um ser vivo, exaltando as virtudes desta ferramenta do espírito e promovendo a sua aparência excepcional. Mas há muito que o livro perdeu tal excepcionalidade, vulgarizando-se como os tablóides, disseminando-se pelos mais diversificados postos de venda como um qualquer outro produto da magnífica sociedade de consumo em que vivemos. Nos Correios ou nas livrarias, nos supermercados ou nas estações de serviço, em feiras de velharias ou nas feiras de gado, nos quiosques, distribuídos com jornais ou transformados em brinde, encontramos livros. Encontramo-los à venda, com um preço, ora mais elevado, ora desinflacionado, conforme os ditames do mercado e as necessidades de quem o comercializa. Para o leitor o livro é, sem dúvida, precioso, nomeadamente para o leitor que aprecia, ama, aprendeu a viver de mão dada com os livros. Outros haverá que se estão nas tintas, compram livros para oferecer porque é uma prenda que nunca compromete, decoram as estantes de casa, entretêm-se a passar o tempo com o matiz borrado dos escaparates. Olhamos para os tops, e encontramos o Papa Francisco ao lado de literatura soft porno, as dietas milagrosas rivalizando com livros de economia, os relatos das desgraçadinhas lado a lado com uma ou outra ficção estimável. Isto dá-nos um retrato do público que temos, dos seus anseios e das suas preocupações. É um público diversificado e eclético que tanto oferece audiências ao Big Brother como se comove com a vida da Fernanda Serrano, que tanto perde tempo a ver o Querida Júlia como a tentar perder peso em 31 dias. Eis o livro transformado em mero consumível, produto que se leva para casa como quem leva um detergente. A sua utilidade é a dos passatempos. Não há romantismo algum nisto quando nos apercebemos que por detrás disto há um enorme negócio, o negócio que consegue transformar Os Lusíadas em contos infantis à semelhança de um peeling patrocinado por uma clínica de cirurgia estética. Chegamos, então, aos direitos de autor. Estes sim, deviam ser reflectidos, falados, debatidos, celebrados, discutidos, lembrados não com efemérides inúteis mas antes com gestos reivindicativos e revolucionários. Porque o autor é a maior vítima do negócio, vendo os seus direitos constantemente desrespeitados por quem se aproveita de um trabalho que ou não é de todo remunerado ou simplesmente o é em condições indigentes. Sem autores, jamais haverá livros. O que temos hoje é a vergonhosa situação de por vaidade ou pseudo-estatuto, por vontade de afirmação ou simples estupidez, assistirmos aos autores pagando para o serem, não se importando de acabar explorados por quem ganha com o negócio. Já largamente afastados dessa ideia peregrina da profissão das letras, os autores portugueses não são, porém, um conceito abstracto. São gente de carne e osso, que respira e come, que precisa de viver e que merece ser respeitada, não só pelos seus leitores, mas, sobretudo, por quem edita, distribui e comercializa o produto do seu trabalho. Verificamos que há muito a condição contratual, existindo contrato, mais que não seja de boca, para os pagar é simplesmente publicá-los. Deste modo, os direitos do autor reduzem-se a um único direito: o autor ser aquilo que é. O direito do autor é ser autor. Hoje, por certo, muita gente falará sobre os livros da sua vida, serão promovidos eventos e muitos autores deslocar-se-ão aos mais diversos locais para falarem das suas obras, os leitores partilharão nas redes sociais as suas leituras, descarregarão livros inteiros na Net sem pagarem um cêntimo por isso. Que seja, no mínimo, lembrado que os livros não caem do céu, não surgem do nada. Para que um livro chegue ao consumidor final são necessários imensos intervenientes, do autor ao editor, do paginador ao gráfico, do distribuidor ao transportador, do livreiro ao revendedor. Estamos a falar de um produto de consumo que dá trabalho, não estamos a falar de um milagre do génio da lamparina que nos serve para exibirmos estantes apetrechadas e cultura literária.

2 comentários:

Isabel Castanheira disse...

Um homem com frio que faz uma análise a frio de uma realidade quase gelada.
Cumprimentos
Isabel Castanheira

hmbf disse...

Cumprimentos.