sábado, 13 de abril de 2013

O CU DE GWYNETH PALTROW E HÉLIA CORREIA



Na Revista, do Expresso, um perfil intimista de Hélia Correia, quatro páginas antes de uma fotografia de Gwyneth Paltrow acompanhada de uma citação: «Disse-lhe: sabes, o meu traseiro não está assim tão mal para os 40 anos, pois não? E ela disse-me: não está mal nem para uma stripper de 22». É assim o mundo actual, tudo se mistura, funde e confunde. O meu traseiro é que não aguenta. Hélia Correia afirma que esta não é uma época para os poetas, o consumismo estrangulou a criatividade, embora vislumbre pontos luminosos ao fundo do túnel: «A Internet criou uma ágora que tem de ser ocupada, um espaço onde a polícia não coloca as botas». Não é exactamente assim, sabe-o quem frequente a ágora como quem respiga pérolas. No fundo de conchas imensas, escondidas entre uma imensidão de lixo, lá aparecem. Mas não é fácil encontrá-las, os polícias encarregam-se de dificultar a busca gerando obstáculos pelo caminho, formando as suas redes, protegendo-se com os mesmos muros que foram, ao longo dos séculos, separando as águas: elites para um lado, massas para o outro. Neste sentido, pouco terá mudado. A ilusão de que alguém se faz ouvir no meio da verborreia e do ruído não disfarça a indisfarçável monotonia dos acessos, dos likes, dos elos ou links, das caixas de comentários preventivamente filtradas, de um debate outrora vivo e estimulante, agora reduzido à retórica de galhardetes trocados com o cinismo balofo das bocas, sem interlocutores, meros foguetes que se disparam para o ar por desabafo, sem convicção. E debaixo do fogo-de-artifício, a morte da poesia. Resta saber se por causas naturais, suicídio ou assassínio. Eu tendo a inclinar-me para um pouco das três, se é que alguma coisa pode morrer por três razões ou mais. A poesia, na sua excepcionalidade intrínseca, merece a anormalidade. Terá morrido de velhice, à medida que foi perdendo o vigor, as capacidades, tornando-se lenta e imperceptível, resmungando com o mundo para dentro, com grunhidos saturados. Ou então mataram-na, reiterada e persistentemente, os carrascos da dúvida que desde há muito usam a batina da normalidade para afugentar a liberdade e o delírio. A palavra poética não convém à era tecnológica, excepto para anúncios publicitários e nos remates do discurso político. Fica bem uma tirada, digamos, mágica. Sempre teve certa utilidade a beleza, deslumbra os néscios, cativa os parvos, engana os toscos. Ao serviço dos poderes, a poesia acaba condecorada. Aceitar a condecoração é tão-somente enterrá-la mais um pouco, pois sempre foi da sua natureza afrontar o poder, provocar as consciências, baralhar as fórmulas, desorientar os mapas, desnortear os egos. O que agora se vê, neste tempo que não está para os poetas, é, precisamente, o contrário de tudo o que a poesia sempre foi, mesmo quando em torno de uma mesa, numa sala vazia, meia dúzia de carpideiras velam o corpo da defunta com recitais, debates, celebrações, estimáveis e amigáveis, fraternos enterros. Suicidou-se a poesia? Talvez. Depois de um threesome fotografado a cores, em pose popstar, é bem provável que tenha metido a corda ao pescoço, tenha saltado de um oitavo andar, para debaixo de um comboio, engolido cinquenta comprimidos de seconal sódico ou simplesmente dado um tiro na testa. Se esta não é uma época para os poetas, não estamos certos de que não seja à medida dos flibusteiros armados ao vate. É uma época dada a todo o tipo de exibicionismo, onde o livro se faz acompanhar do perfil, o perfil da fotografia. A ágora que nos salvará é uma arena onde a cada segundo caem palavras tão fecundadoras como chuva sobre o mar, onde se partilham poemas lidos à velocidade da luz, onde os ponteiros do relógio, ao invés de pararem, aceleram e o coração corre atrás do prejuízo numa ânsia de chegar a horas ao último verso, vídeos luminosos, álbuns de fotografias cinzentas, nostálgicas, melancólicas, com uma ruína escorrendo dos pixels como entre os morangos escorre o chantili. Todo este plástico pode ser muito estético, haverá nele uma ingenuidade mais ou menos evidente, seduz como um resquício, uma pegada, ossos encontrados ocasionalmente no decorrer de uma obra. Já não é poesia, é uma coisa institucionalizada, um mau negócio do qual se fazem revistas, editoras, livrarias ensimesmadas e tão atreitas ao consumo como qualquer outra mercadoria. Insiste-se no mau negócio pela mesma razão que se fazem bandas de garagem, é um pretexto de convívio com a solidão por alvo, uma tentativa de aproximação das pessoas que descobrem entre elas uma inclinação comum. Ora, a poesia, quando era viva, não tinha na sua raiz outro elemento que não fosse essa solidão que agora se procura combater. Uma solidão muito anterior aos grupos que rebentava em linguagens únicas, próprias, tantas vezes indecifráveis, onde o inexprimível era revelado como um ritmo, um fôlego, respiração. Que tal ainda vá acontecendo momentaneamente é um milagre. Devemos considerá-lo uma aparição, a alma da morta que se mostra ao vidente. Coisa rara nesta época onde o traseiro de Gwyneth Paltrow está ao nível do perfil da poet(is)a.

9 comentários:

nAnonima disse...

gosto de te ler e gostei deste post em particular.

MJLF disse...

e que tal ressuscitar a poesia, visto que o mundo não está bom, mas também nunca foi bom ;)

hmbf disse...

Estou mais numa de regar os túmulos a ver se os mortos crescem e dão frutos.

Claudia Sousa Dias disse...

A poesia de Hélia é tão boa quanto o traseiro de Paltrow? Quem me dera um elogio desses...LOL!

hmbf disse...

De livros nada percebo, mas quanto a cus tenho olho afinado.

Se dúvidas houver:

http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2010/08/adoecer.html

http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2012/09/a-terceira-miseria.html

Claudia Sousa Dias disse...

dois belíssimos textos.

hmbf disse...

Ora, ora, dois belíssimos livros. ;-)

hc disse...

esquecendo a troca de galhardetes do costume (e que me trouxe aqui): este texto é magnífico. parabéns, e obrigado

hmbf disse...

Qual troca de galhardetes?