Quando o filme de Oliver Stone apareceu, fui vê-lo uma meia
dúzia de vezes. Gamei os cartazes afixados nas vitrinas do cinema lá da terra. Andava
deslumbrado com a recriação do mito, sem ter a mínima noção do quão falhada era
aquela obra. Para um jovem que passava tardes inteiras a traduzir An American
Prayer, o percurso dos The Doors levado à tela tinha algo de miraculoso. Hoje,
o milagre transformou-se num produto banal. O encanto perdeu-se. Mas há uma
cena que guardo com inexplicável fulgor. Jim e Pam vão dar uma festa, estão
ambos alucinados. Meteram ácidos. Ela está rodeada dos papéis dele, tenta
organizar o caos, queixa-se do desleixo do amante e diz-lhe, num tom quase
maternal, que ele devia ordenar os escritos. Jim alheia-se, foge à questão, faz
umas parvoíces. Até que chega à festa uma das suas mais ameaçadoras amantes.
Jim provoca, Pam perde as estribeiras. O pato que estava a assar no forno acaba
espezinhado, a festa termina, excepto para meia dúzia de amigos bêbedos que
não se importam de comer carne amassada pelas solas do Rei Lagarto. Acaba tudo
num incêndio provocado pelo poeta, com a sua amante enclausurada num
guarda-fatos. Hoje diríamos que é uma cena de violência doméstica entre amantes
alucinados. Mas é mais do que isso, é uma mulher à procura de um fio condutor
para o caos. O que ressalta da cena é a imagem de Pam perdida num labirinto de
papéis, escritos desorganizados, aleatórios, o pântano dos poetas onde
frequentemente se afundam vidas inteiras. Gosto muito daquela cena. Acho que
tem algo de revelador. Quando escrevi este poema, acho que era nessa cena que
estava a pensar.
terça-feira, 28 de maio de 2013
segunda-feira, 27 de maio de 2013
RESPEITO
A vertigem do sucesso não o corrompeu em nenhum momento?
Não. Em casa da minha avó paterna havia na parede um pequeno azulejo com o escrito: "A lisonja é a pior das amabilidades". Sempre o vi sem dar muita atenção e mais tarde acabei por o perceber. Depois das palmas, depois do público, quando já se acabou tudo, volto ao palco para desfazer a loja e penso: tudo isto é efémero. Essa consciência, esse alerta, sempre tive. Caímos em vaidades, é bom para o ego ouvir coisas boas, sou abordado na rua com coisas muito tocantes, mas tenho a consciência que é preciso ter cuidado. No outro dia um taxista disse-me: "Sabe, aquela sua canção 'Toda a gente passou horas em que andou desencontrado, como à espera do comboio na paragem do autocarro'. Senti-me tantas vezes na vida assim"; disse aquilo um bocado amargurado e eu não estava nada à espera de ouvir. Tenho um grande respeito.
Sérgio Godinho, em entrevista para a Revista, Expresso, 25 de Maio de 2013.
domingo, 26 de maio de 2013
TOMA O COMPRIMIDO
Leio no Expresso que a nova edição do DSM – a Bíblia das
chamadas doenças mentais – acrescenta 18 novas doenças às cerca de 280 que já
haviam sido formalizadas. Lê-se aquilo e fica-se preocupado. Eu, pelo menos,
fico. Ir ao psiquiatra não chega, temo necessitar de internamento urgente. Sou
uma espécie de colónia de doenças mentais. Como em excesso pelo menos uma vez
por semana, logo padeço de uma binge eating disorder; acumulo compulsivamente
vários objectos, nomeadamente livros, CDs, DVDs, logo sofro do distúrbio de
Hoarding; frequentemente arranco pequenos pedaços de pele dos pés, o que
manifesta uma perturbação obsessivo-compulsiva com a designação de
skin-picking. Mas, pior que tudo, porque, lá está, para lá do pior há sempre o
péssimo, possuo dificuldades persistentes no uso social de formas verbais e não
verbais de comunicação, ainda que não consiga entender minimamente o que esta
porra significa. Sofro de uma desordem de comunicação social. Um dia,
para espanto de todos, chegaremos à conclusão de que a normalidade não existe,
só a loucura, só a doença, só a dor. Ou então teremos uma edição actualizada do
DSM com a descoberta das descobertas, a mania para ver doenças mentais onde elas
não existem. Podem chamar-lhe perturbação obsessivo psiquiatrizante.
O ALEIJÃO
No Atual, sem consoante muda, Pedro Mexia regressa a esse
crime de lesa língua que dá pela designação embusteira de Acordo Ortográfico. Embusteira
porque não há, nunca houve, nunca haverá acordo. Do texto, destacaram a
frase que a seguir se reproduz: «Foi-se tornando claro como água que o “acordo”
ortográfico não é um acto cultural. É um acto político…» Pedro Mexia escreve de
acordo com a antiga ortografia, ou seja, em desacordo com o Acordo. Faz muito
bem. Mas no principal caderno do Expresso, a citação volta a ser reproduzida nestes modos: «Foi-se tornando claro que o acordo ortográfico não é um ato cultural,
é um ato político». Saiu aleijada a citação, desrespeitada a vontade do
cronista.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
RAPAZ DE 16 ANOS DESTRÓI DOUTORADA EM DIRECTO
O título deste post reproduz a forma como tem vindo a ser
apresentado nas redes sociais o fragmento do Prós & Contras que opôs um
jovem empreendedor de 16 anos à historiadora Raquel Varela. É um título que diz
muito sobre o que andamos a discutir, nomeadamente sobre a reacção da plateia
ao aplaudir o argumento simplista do jovem Martim: «Mais vale ter o ordenado
mínimo do que estar desempregado». Não me preocupam as palmas. Afinal, os
portugueses são capazes de aplaudir o Tony Carreira, jovem empreendedor que fez
fortuna a plagiar melodias alheias, oferecem a um político medíocre como Cavaco
20 anos de poder e elegem um ditador como o “maior português de sempre”, ao
mesmo tempo que engordam a audiência de lixo televisivo como o Big Brother e
perpetuam nos tops de vendas porcarias como O Céu Existe Mesmo ou As Sombras de
Grey. Os portugueses são muito dados a aplaudir. Mas neste caso aplaudem algo
mais grave do que parece.
Sem querer especular sobre as razões de cada um para
a simpatia demonstrada por mais este tesourinho deprimente da televisão
portuguesa, devo dizer que olho para o título supracitado e tremo de déjà vu. O
que ali está implícito é aquele gostinho saloio de menosprezar o saber e o
conhecimento. Afinal, um puto deu uma abada a uma doutorada. Viva! Isto lembra-me
os alunos que durante dez anos de docência me foram abrindo os olhos, dizendo
que não gostavam nem queriam estudar porque tinham um irmão licenciado no
desemprego. Logo, estudar não servia para nada. Quando aplaudimos este vídeo
devemos ter consciência do que estamos a aplaudir, porque o eco desse aplauso
mais uma vez nos obriga a colocar a pergunta fundamental: que país queremos? Eu
quero um país onde o conhecimento seja valorizado, onde o saber seja
valorizado, onde a cultura seja valorizada, onde o empreendedorismo seja
valorizado. Mas o empreendedorismo não é bom nem mau em si mesmo, como outra
coisa qualquer à excepção do mal que é sempre mau.
E isto os portugueses sentem alguma
dificuldade em entender, como certamente terão dificuldade em perceber que a
doutorada destruída por um rapaz de 16 anos é igualmente empreendedora. É
empreendedora na sua área, a do conhecimento, a do saber, a da investigação.
Certo que isso não importa. No país em que vivemos, cada vez mais essas são
áreas inúteis, porque as pessoas estão interessadas, sobretudo, em contas
bancárias recheadas. O culto da superficialidade e do tudo vale representado, a
título de exemplo, no lixo televisivo é disso prova. Assim como a popularidade
de porcarias várias que nos permitem alimentar ilusões. Olhem-se as bancas da
imprensa escrita com sentido crítico. A figura do intelectual enxovalhado, mais
ainda se tiver sido por um fedelho imberbe, excita os portugueses. E isto
não tem nada que ver com a importância do empreendedorismo, muito menos num
país onde muitos dos que aplaudem o rapaz quase de certeza nunca mexeram uma
palha para fazer o que quer que fosse de verdadeiramente empreendedor. É humano
que assim seja.
O empreendedorismo é sempre discutível. Não me alongarei no
empreendedorismo, mas gostava que recordassem este artigo sobre Prémios de inovação e empreendedorismo. Ali está, por
exemplo, a famigerada empresa A Vida é Bela, que em 2005 recebeu o Prémio
Gesventure, conseguindo assim «visibilidade junto dos bancos, dos clientes e
dos fornecedores». O que entretanto se viu já pertence à história. Outro exemplo do que podemos esperar do empreendedorismo cego ficou recentemente patente numa derrocada no Bangladesh. Mas adiante, que
o problema do argumento lançado pelo jovem empreendedor no programa que agora
estimula o debate é de outra dimensão. O Martim diz que mais vale o ordenado
mínimo do que estar desempregado. Ou seja, mais vale pouco do que nada. O Martim
até pode estar certo, mas este tipo de argumento é perigoso. Sobretudo se for
esvaziado de reflexão e sentido crítico, transformando-se numa bandeira que
permitirá, por exemplo, dar razão a quem defende a sensatez de se baixar o
salário mínimo.
Porque não? Havendo quem se disponha a trabalhar por menos, e
há sempre quem se dispõe a trabalhar por menos, porque não baixar o salário
mínimo? As pessoas que aplaudem o Martim certamente não aplaudiriam com a mesma
efusividade o imigrante empreendedor que vem para Portugal trabalhar em
quaisquer condições que lhe sejam oferecidas. Mas ele, o imigrante, nada tinha de onde veio. É
melhor pouco do que nada. No limite, trabalhar a troco de arroz é melhor do que
não ter arroz para comer. É isto que torna o argumento do Martim estúpido, mas
mais estúpidas ainda as pessoas que defendem argumentos destes. Porque a gente
sabe bem que para além do mau há sempre o pior, mas isso não invalidade que o
mau seja mau. E voltamos à questão essencial: que mundo queremos? O mundo
acrítico e simplista do Martim, onde mais vale viver miseravelmente do que não
viver, ou o mundo exigente da Raquel, onde a vida não faz sentido sem os mínimos
de qualidade que a exploração laboral a toda a hora ataca?
WHY IS BLINDNESS HOLY?
Parede, Cascais. 2010.
Realize that the eyes actually are two soft globes floating in bone.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: James Douglas Morrison.
domingo, 19 de maio de 2013
THE WILD BUNCH (1969)
Em 1969, os americanos carregavam sobre os ombros o
massacre do Vietname. Os movimentos de protesto contra a guerra cresciam e
manifestavam-se na rua, os hippies celebravam a paz, o sexo e o amor no festival
de Woodstock. Sam Peckinpah (1925-1984), o renegado de Hollywood, metia toda essa agitação num western. The Wild Bunch é uma representação do mundo caótico que então se
vivia, disfarçado pelos elementos de época que um filme do género exige. Começa
com um grupo de supostos militares a chegar a uma cidade no sul do Texas,
enquanto a Liga Anti-Alcoólica se manifesta num dos seus comícios e as crianças
se entretêm entregando escorpiões à voracidade de um formigueiro. Estes planos
iniciais são reveladores de um enquadramento histórico que extravasa as
fronteiras do tempo. Não é difícil supor os efeitos que terão exercido sobre
quem os viu pela primeira vez na américa de 1969.
Em breve ficaremos a saber
que os supostos militares são, afinal, uma quadrilha que se prepara para
assaltar a Administração dos Caminhos de Ferro. Quando se apercebem da
emboscada que fora organizada para os capturar, dão azo a um massacre que
apanhará tudo e todos no fogo cruzado entre as duas partes. No lado da
quadrilha, encontraremos William Holden, Ernest Borgnine (vimo-lo em Johnny
Guitar), Edmond O’Brien (o inesquecível jornalista de The Man Who Shot Liberty
Valance), Warren Oates (mais tarde aparecerá no magnífico Badlands, de Terrence
Malick), Ben Johnson (já falámos dele a propósito de filmes como Rio Grande,
Shane e Hang ‘em High) e o actor porto-riquenho Jaime Sánchez. Do outro lado,
entre os homens dos Caminhos de Ferro e um bando heterogéneo de caçadores de
prémios, pontifica Robert Ryan (entra no filme Day of the Outlaw, de André De
Toth). A chacina a que assistimos na primeira sequência do filme marca o início
de um cinema sem pudor na representação da violência.
Chamaram a
Peckinpah o “poeta da violência” por causa dos planos em câmara lenta, com
gente a ser baleada, cavalos espezinhando pessoas, indivíduos projectados
contra os vidros das montras, carruagens descontroladas abalroando tudo e
todos, animais e homens tropeçando uns nos outros. Tarantino há-de ter visto
estes filmes de frente para trás e de trás para a frente. Mas a violência da
primeira sequência, que atingirá depois níveis soberbos em cenas inesquecíveis
como a de uma ponte a ser implodida com o exército montado a cavalo no centro e
os cavalos caindo ao rio no meio de destroços, não é uma violência gratuita,
cujo principal objectivo seria entreter instintos sanguinários. Antes pelo
contrário, os massacres na obra de Sam Peckinpah são testemunhos de uma crueldade
que a realidade se encarrega de suavizar. Está neles implícita uma perspectiva
do mundo onde o bem e a moral acabam geralmente estilhaçados.
Por outro lado,
trata-se de uma violência que serve de paisagem dramática para enfatizar outras
dimensões da natureza humana. Houve quem se tivesse referido a The Wild Bunch
como um épico dos fracassados, expressão que de algum modo sintetiza toda a
obra de Peckinpah. Repare-se como neste filme a tensão exercida entre a
personagem de William Holden (Pike Bishop, líder saturado e envelhecido de uma
quadrilha ultrapassada pelo tempo) e a de Robert Ryan (Deke Thornton,
ex-companheiro de Pike dividido entre capturar o antigo camarada ou regressar à
prisão de Yuma) colocam em evidência temas como a amizade, os elos de
confiança, a lealdade, o sentido da fidelidade entre os homens, as vantagens da
união perante a ameaça da desintegração de um grupo, num velho Oeste em
acelerada mudança, um velho Oeste às portas do século XX com generais corruptos
passeando-se em veículos de quatro rodas movidos a gasolina e metralhadoras
fazendo a vez de brinquedos nas mãos dos adultos.
Empurrados para o Norte do
México, estes antigos libertários geram em nós a simpatia que normalmente nos
inspiram os objectos caducos, arcaicos, obsoletos. Tentam resolver num último
golpe as suas necessidades, o cansaço impele-os para uma retirada que eles não sabem onde os levará. Eles são o último reduto de um mundo onde uma certa
ingenuidade semeia valores incorruptíveis, valores como a lealdade. Por isso
caminham no sentido contrário da salvação quando já tudo fazia prever o
sucesso, a retirada, e em silêncio optam por um último combate, um combate
derradeiro, que tem na sua origem um
valor que resume, afinal, a identidade de cada um dos homens enquanto partes
integrantes de um grupo. As anilhas já não são de ferro, já não são
os frustrantes despojos de um malogrado assalto. As anilhas, agora, são o
sentido de tudo para quem nunca reconheceu na vida outro sentido que não fosse
esse que o conceito de amizade compreende.
HIPOPÓTAMOS EM DELAGOA BAY
Hipopótamos em Delagoa Bay (Abysmo, Março de 2013) foi escrito entre Agosto de 2010 e Fevereiro de 2011, no âmbito de uma Bolsa Criar Lusofonia 2010. O autor pôde deslocar-se a Moçambique, recolhendo in loco os cheiros, as histórias, os falares, organizados num pertinente glossário final, que povoam as 268 páginas do romance. Mas mais importante, pôde tomar o pulso a um país com o qual os portugueses mantêm uma relação histórica complexa. Entre as fotografias iniciais, de Jorge Aguiar Oliveira, e a citação derradeira de José Mário Branco, Carlos Alberto Machado (n. 1954) desbrava-nos o caminho da presença portuguesa em Moçambique desde os tempos da conquista à pós-independência. As fotografias de Jorge Aguiar Oliveira reproduzem uma paisagem que o tom da prosa intensifica, mostram-nos ruínas, destroços, resquícios de uma presença humana e animal entretanto transformada em lixo. Há nelas um reflexo que o título da obra induz, clarificado nas páginas finais quando dois protagonistas desta história dialogam:
Ainda há hipopótamos na baía? –
não, não, fugiram –
como nós, por «entre os torpes, fumegantes destroços do império» -
Entre aspas, versos de Rui Knopfli (n. 1932 – m. 1997), poeta nascido em Moçambique mas com um inegável sentimento de expatriação. Ao longo do livro, são várias as evocações de personalidades históricas, «figuras, factos e entidades», posteriormente elencadas, numa perspectiva que a citação final pedida de empréstimo a José Mário Branco sintetiza: «Houve aqui alguém que se enganou». Carlos Alberto Machado organiza o romance em partes relativamente breves, encimadas por títulos entre parêntesis retos onde vamos antevendo o percurso do apelido Quaresma nas terras de Moçambique. O tom é bastante crítico e, de certo modo, elegíaco. Logo no início, a cidade de «Maputo que já foi Lourenço Marques» é-nos introduzida através do «cheiro violento expulso de um contentor de lixo esventrado por “famélicos da terra”» (p. 15). Mas o que torna o retrato verdadeiramente nauseabundo não são as imagens dos destroços, não é a degradação e a ruína que enformam a paisagem, nem tanto a degeneração de um nome, Quaresma, desde a chegada dos portugueses a África até ao abandono, depois da independência. O que torna o retrato nauseabundo é a percepção da hipocrisia e do logro que a palavra Revolução encerra, com as suas principais chagas, o medo e o ódio, desveladas pela guerra, pela exploração, pela maldade. Os heróis e os mártires que a toponímia procura imortalizar são tratados com distância pelo autor, o qual vagueia pelas ruas buscando nas sombras a razão de ser de um nome: «Uma pátria é um caixote cheio de nomes. Vermes que nunca morrem. Alimentam-se uns aos outros» (p. 29). Uma pátria também é um caixote cheio de expatriados, um lugar onde a chacina pontua a história e a riqueza de uns poucos se constrói sobre a miséria dos povos. Daí que haja no conceito de Revolução uma ambivalência irresolúvel, dois rostos numa mesma face, por assim dizer, para um nome que se farta de desenhar cicatrizes na esperança. A família com raízes alentejanas que o romance acompanha em terras de Moçambique, numa escrita onde se misturam géneros mas não se perde o fio à meada, permite-nos quebrar a moldura ao retrato e deixar a paisagem expandir-se, alcançando, desse modo, uma panorâmica ampliada, porventura menos sectária, sobre os deves e haveres da relação entre os dois povos que, afinal, se revelam um só como uma só é toda a humanidade. Temos ali gente que partiu de Portugal para o ultramar, outra que nasceu já em território africano e nunca pisou a terra do Portugal europeu, outra que se viu obrigada, por contingências diversas, a emigrar de cá para lá, de lá para cá, gente parida e crescida numa duplicidade identitária sem solução. O desenraizamento é a consequência última que a Revolução não resolve, um desenraizamento íntimo e profundo que pouco terá que ver com o desenho artificial das fronteiras num mapa, mas tudo tem que ver com as fronteiras delineadas na consciência dos homens. O desencanto que ressoa em Hipopótamos em Delagoa Bay é lúcido, é o desencanto dos desenganados, das vítimas do jogo político e do abandono a que são votados os povos, tratados como lixo pelo poder que arquitecta as ruínas e as quedas dos impérios. Melhor fora que continuássemos a poder ver hipopótamos na baía, sem nome nem ansiedade, sem medo nem feridas por sarar. Isso sim, seria verdadeiramente revolucionário.
terça-feira, 14 de maio de 2013
LIMITES DE DIGNIDADE
No mesmo dia ficamos a saber que a Angelina Jolie substituiu as mamas que Deus lhe deu por umas artificias. Tenho pena, gostava
de contemplar as outras no plasma cá de casa. Mas compreendo. Sem as mamas
antigas (custa-me referir-me a elas nestes termos), Angelina baixou as
probabilidades de vir a contrair cancro da mama de 87% para 5%. É uma decisão
preventiva que devemos respeitar. Tendo essa possibilidade, porque não? Eu há
muito me convenci ter uma fatalidade destas escrita nas estrelas. O meu avô
materno morreu de cancro, julgo que no cérebro. Se pudesse, também eu substituía o
meu cérebro por um artificial. E fazia o mesmo com os pulmões. Metia uma
pele nova, etc. Se pudesse, substituía-me preventivamente. Como não posso,
sonho... com as mamas antigas da Angelina e com a substituição do Governo, do Presidente
da República, da Presidenta da Assembleia da República, etc. Até me custa
referir o nome de Cavaco num post onde começo a falar das mamas da Jolie,
mas depois de ficar a saber que para o Presidente da República do meu país a sétima avaliação da troika é inspiração de Nossa Senhora de Fátima só me ocorre
pensar no bom que seria se este cancro, há vinte anos a corroer o meu país,
fosse definitivamente removido do corpo do Estado. Bastava meter uma coisa insuflável no lugar. Fazia menos estragos e era mais saudável, porque, de
facto, há limites de dignidade que não convém ultrapassar.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
APARIÇÕES
Camarada Van Zeller, eis que chegamos ao bendito 13 de
Maio. É verdade que ainda hoje sofremos a síndrome messiânica do rei
desaparecido, aquele por quem esperamos e não volta, o salvador da pátria que, provavelmente,
se ficou pelas terras do deserto a pastar escorpiões. Ainda assim, o nosso país
é dado a aparecimentos. Pena que aprendamos tão pouco com eles. Lá para as
minhas bandas, certo dia apareceu Nossa Senhora a pairar sobre uma oliveira. O
Carlos Alberto, que a viu, tinha então onze anos e, se bem sei, desde esse dia
tornou-se vidente. Morreu novo. O meu pai conta-me que chegou a ir em
peregrinação ao local onde o Carlos Alberto viu aparecer uma luz radiante. Subiu
aos telhados, esfregou os olhos, não viu nada do que toda a gente afiançava
ver. A frustração foi tão grande que a minha avó levou-o em consulta. A
uma vidente. Quando não vemos o que os outros vêem, devemos consultar videntes.
Os oftalmologistas servem para tratar cataratas. Essa tal vidente não só curou
o meu pai dos olhos, como também de terríveis males de olhado. São milagrosos,
os banhos de argila na Nazaré, onde, lá está, um dia apareceu Nossa Senhora a
D. Fuas Roupinho. A luz que apareceu na Asseiceira foi identificada como pertencendo
ao espírito de Maria, mãe de Jesus, um espírito muito dado a mostrar-se pelas
aldeias do meu país. Aparece sempre muito belo e luzidio. Não sei de aparições
em que Nossa Senhora, seja ela da Nazaré, de Fátima ou da Asseiceira, se tenha
mostrado esfarrapada, como provavelmente viveu e morreu. As santas,
normalmente, choram lágrimas de sangue e emitem espantosos raios de luz. Nunca
se peidam e, desconfio, nenhuma delas é menstruada. Isto chateia-me, gostava
que as aparições tivessem o toque naturalista da poesia contemporânea. A minha
avó também se referia muitas vezes à Santa da Ladeira do Pinheiro. Julgo que de
vez em quando visitava-a para ser benzida. A Santa da Ladeira dava bons
conselhos, embora não esteja provada a influência das suas capacidades mediúnicas
na construção do jazigo milionário onde se encontra sepultada. Há uma relação
estranha entre a capacidade de contactar com os mortos e a saúde das contas
bancárias. Estou mesmo em crer que os mortos são um factor produtivo
extraordinário no nosso país. O Ministro da Economia devia pôr os olhos nisto,
visse ele alguma coisa. Ou então podia ir a Fátima a pé, acendia uma vela pelos
portugueses, comia um pastel de nata, orava ao Senhor que concedesse a Gaspar o
dom da mediunidade. O Gaspar devia ler os livros do Allan Kardec, todo o
Governo devia fazer um estágio na Federação Espírita Brasileira para aprender
como se metem os mortos a produzir quando dos vivos não podemos esperar mais do
que um estado de espírito zombie, apático e indiferente. Tenho a certeza de que o Carlos
Alberto, os três pastorinhos e a Santa da Ladeira têm muito a ensinar, com o
seu exemplo, aos políticos portugueses. O povo seguiu-os, ouvia-os, respeitava-os.
Se bem repararmos, figuras de Estado como Salazar ou mesmo Cavaco têm qualquer
coisa de videntes. Por isso o povo os segue, os ama, os respeita e os escuta.
Os devotos de Salazar, assim como os devotos de Cavaco, não olham para eles
como políticos. Não vêem homens pragmáticos, vêem antes videntes, médiuns,
espíritas, alguém que consegue falar com os mortos exercendo sobre os vivos o
poder das aparições. Os célebres tabus de Cavaco equivalem aos segredos de Fátima,
são revelações aparentemente banais capazes de nos distrair da realidade
enquanto esta vai sendo ajustada às necessidades do consumo. Os políticos
portugueses têm que assumir definitivamente uma outra atitude. Não pode ser só
a Ministra da Agricultura a rezar para que chova, tem que ser o Passos Coelho a
entrar em transe, a falar com Deus na demanda da salvação onde ela pode ser vislumbrada. Isto é, no mundo
dos mortos. No mundo do António José Seguro.
sábado, 4 de maio de 2013
LIVRO DA LUZ
A relação entre as artes plásticas e a poesia é frequente, tendo alcançado pontos de encontro estimulantes no domínio da chamada poesia experimental. António Poppe (n. 1968) vem das artes plásticas, embora o seu trabalho revele um interesse multidisciplinar que logra assimilar diversos processos expressivos no corpo de uma mesma obra. É um poeta experimental no sentido em que toda a poesia resulta de uma experiência, mas seria redutor tentar circunscrevê-lo aos ecos de uma corrente mais linear do que se possa supor. Com um livro de poesia publicado há 13 anos – Torre de Juan Abad (Assírio & Alvim) -, regressou à publicação com este Livro da Luz (Documenta, Dezembro de 2012). Alvo de uma edição rigorosa, Livro da Luz é, em si mesmo, uma obra de arte. A reprodução fac-similada, em mais de 150 páginas, do terreno original onde desabrocharam os poemas do livro, encanta-nos e sugere-nos um olhar expansivo sobre o que temos em mãos. A escrita de António Poppe não resulta de uma fusão, como facilmente seríamos tentados a pensar, entre materiais plásticos e sonoros, entre a imagem e a palavra, pelo menos não tanto quanto cresce como um corpo único onde diferentes camadas se sobrepõem. Neste sentido, o poeta coloca-se no lugar demiúrgico do artífice que serve de veículo entre o Criador e o criado. Aos observarmos estas colagens, geralmente evocativas de ambientes multiculturais e primitivos, verificamos que elas estabelecem uma relação germinativa com a palavra. Percebemos as fontes, o imaginário absorvido, assimilado, o encontro inesperado do diverso, como dizia Llansol, o momento fecundador de um ser que crescerá como um corpo onde a carne de sobrepõe ao osso e a pele se sobrepõe à carne. A página apresenta-se, deste modo, como um fragmento da Terra revelador da origem, pois a partir desse fragmento conseguimos aceder ao gene fecundador do ser. Folheando serenamente estas páginas, como que absorvemos um ritmo que, afinal, é o elemento essencial desta poesia. O ritmo é o do coração, um ritmo primordial que faz tudo rebentar da vibração cósmica. Daí a recorrência à imagem da corda, como a outras igualmente simbólicas, onde o mundo se representa não em acordo ou desacordo com um ideal filosófico, político, religioso, mas antes sob a forma de uma celebração da vida e dos seus ciclos. Há um aspecto curioso no título do livro que não podemos deixar de notar. Luz é não apenas o substantivo cuja etimologia remete para clarividência, revelação, criação, mas também o nome da filha do poeta (uma das duas pessoas a quem o livro é dedicado, sendo a outra o pai do autor). Ao chegarmos aos poemas aqui reproduzidos na sua forma mais convencional – três cantos e doze canções – deparamo-nos com um círculo, símbolo universal da passagem do tempo, dos ciclos da vida, representação do mundo e das etapas de aperfeiçoamento interior. São poemas que mantêm uma relação estreita com esta noção de circularidade, evocando constantemente, através do uso de palavras como ovo, semente, espiga, matriz ou do verbo florescer, o momento da criação e o desenvolvimento do gerado numa comunicação que tudo liga a tudo. De resto, o canto três revela um procedimento criativo que, mais adiante, no poema presente à nascença, pode ser resumido no verso «a espontaneidade mágica das crianças». Este procedimento criativo como que reflecte o processo das colagens, abrindo-se a voz do poeta a outras vozes que na sua se tornam presentes. O próprio faz questão de nomeá-las no final do livro, esclarecendo, na nota explicativa sobre o CD que acompanha a edição, que «a espontaneidade convoca as fontes em contacto do próximo ao próprio – as inseparáveis vozes de volta». Este movimento circular, lá está, aproxima a fonte daquele que nela bebe, como o absoluto que habita o ovo no canto um, o mar que também nada no canto dois ou a ave que inventa o voo no poema kora solo ascende levi. Ao dizer os seus poemas, António Poppe improvisa sobre eles, deixa-se assaltar pelo acaso, mas não perde o domínio da voz. A versão fixada das palavras talvez possa contradizer esse riso espontâneo da criação que os materiais visuais também convocam, mas é possível que sem ela o espontâneo não pudesse afirmar-se. É, por assim dizê-lo, a contraluz que justifica a luz, num jogo de opostos onde nada se opõe, tudo se reúne.
NÃO SE MORRE DE VERDADE
Para o Rui Costa
Começou com um sinal ao lado dos teus óculos escuros, Não,
o princípio foi um rebordo à noite onde quiseste ensinar-me
a soletração de versos, Não, reinicio: o pequeno almoço
num café pequeno numa rua comprida com pernas para o mar
e dom rodrigos enxovalhos de lustro postos à mesa, Não
há-de ter sido só quando esticámos as mãos e elas escorregaram
e nos encostámos aos peitos os dois chocalhavam tu riste-te eu
fiz-me de parva, Se calhar foi aí porque escrevemos sobre isso
entendendo cada um à sua maneira como sempre se
fez, Eu adverti logo aliás não tinha nenhuma esperança
que viéssemos a coincidir alguma vez e tu achaste claro
muito bem feito porque assim queríamos constantemente
aprofundarmo-nos sempre aos apalpões a ver onde derretia
quando lá no fundo doía não encaixarmos perfeita
mente, Só que sim é um privilégio acontece menos
vezes do que os dedos encontramos alguém
a quem queiramos continuar a bater como
disseste que me fazias a vida toda quando apertaste por
baixo dos meus braços a resistência dos materiais, E há-de
ter sido gentileza não justificares apesar do orgulho
de cumprir proezas não contamos os princípios nem os fins
fico pois à espera que apareças atrás de um sms com uma tarte
de maçã encostada ao focinho, Que não te cansa o jogo de fazeres
todos os gestos importantes entre portas para depois te pores ao
fresco como se nada fosse e largas daqui porque tens um handicap
muito menor e patas maiores e queres ver outros bichos cheios
de perguntas, Por mim punha era o vestido de Espanha para
rodopiarmos aos casais de sucesso entre os bem-pensantes com
licença vou escrever sobre os teus livros todos muitos palavrões
Margarida Vale de Gato, revista Golpe d'asa, nº2, encarte, p. 31, Clepul e Golpe Edições, Novembro de 2012.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
HAXIXE E BAILARINAS RUSSAS
Nadine Labaki propõe soluções simples para problemas
complexos. No filme Et maintenant on va où?
(2011), uma aldeia dividida por cristãos e muçulmanos inflamados descobre as
vantagens da comunhão quando as mães, cansadas de chorar a morte dos filhos,
resolvem oferecer aos homens do local uma noite de farra com bailarinas russas
e bolos de haxixe. Na manhã seguinte, ao acordar da ressaca, os homens cristãos
encontram suas mulheres convertidas ao islamismo e os muçulmanos espantam-se de
ver suas companheiras muçulmanas com as cabeleiras ao vento. Parece-me uma
excelente sugestão. Infinitamente melhor seria o mundo, se os inimigos
soubessem sentar-se a uma mesa partilhando bolinhos de haxixe, encantados pelo
ventre de bailarinas russas.
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