domingo, 30 de junho de 2013
sábado, 29 de junho de 2013
STRANGER ON THE RUN (1967)
O actor Sal Mineo, que em Cheyenne Autumn (1964) encarnou
o papel de um jovem índio irreverente, é a ponte de que me sirvo para chegar a
Stranger on the Run (1967). Os dois filmes estão em margens opostas. A grande produção
de Ford nada tem que ver com a obra desenrascada de Don Siegel (1912-1991),
realizador habituado aos baixos orçamentos da chamada série B. Mas
Stranger on the Run é revelador de uma competência inquestionável. Siegel, que
orientou Eastwood em Dirty Harry (1972) e John Wayne no seu acto derradeiro
(The Shootist, 1976), faz-se aqui valer de um outro grande actor, Henry Fonda,
e da música do compositor Leonard Rosenman (com um currículo invejável de
bandas sonoras para filmes diversos). São estes os dois elementos mais
interessantes de um filme que, se bem sei, foi pensado para televisão, mas
consegue superar em múltiplos aspectos inúmeras produções medíocres exibidas na
grande tela. Comecemos por sublinhar o empréstimo de Rosenman a uma história
repleta de tensões onde a música desempenha um papel preponderante. Observe-se, escute-se:
Esta sintonia entra a acção e a música que a ilustra é um dos argumentos fortes de Stranger on the Run. Por vezes, somos
levados a crer que os rostos dos actores, a postura que adoptam, estão a ser conduzidos
por um maestro de batuta na mão. Não se trata de uma característica irrelevante,
sobretudo se tivermos em conta as limitações do realizador na escolha dos
adornos. Uma boa banda sonora é um recurso extraordinário, consegue
disfarçar a escassez de meios que separam as grandes produções dos filmes de
baixo orçamento. E um excelente actor também ajuda. Henry Fonda é esse
actor que transforma um argumento simples numa narrativa exemplar,
carregando aos ombros um elenco menor mas com algumas curiosidades. Sal Mineo,
acima mencionado, é uma delas. A outra é Michael Parks, num papel
secundaríssimo, recentemente reencontrado em Django Unchained (2012). Anne
Baxter, neta de Frank Lloyd Wright, é o rosto
feminino desta história de homens que,
não por acaso, tem no centro das atenções uma misteriosa mulher. Henry Fonda é Ben
Chamberlain, vagabundo viciado em uísque que chega a uma cidade ferroviária isolada no
meio do nada com a missão de encontrar Alma Britten e levá-la para junto do
irmão. Esta promessa por cumprir revela-se pesada quando Chamberlain se apercebe
do mistério que envolve o nome de Alma. Numa cidade onde parece haver mais lei
do que pessoas, é de estranhar a opressão e o medo que todos cala e afasta
sempre que o nome de Alma Britten é pronunciado. Violada e esfaqueada por um
dos ajudantes do delegado, Alma vive
isolada numa pequena barraca onde Chamberlain chegará deparando-se com o seu
corpo já sem vida. Assistiremos então a uma perseguição com fundamentos
similares aos de filmes como The Fugitive: um inocente em fuga, falsamente
acusado de um crime que não cometeu, é perseguido pelos autores desse mesmo
crime. Porém, não estaremos apenas perante a história de um homem que procura
provar a sua inocência, mas também de um ser humano que procura recuperar a sua
dignidade. O resgate de Alma transforma-se, então, no resgate da alma. Em sentido paralelo, assistimos ao desmoronar da fachada que encobre
os podres da lei naquela cidade mesquinha. A queda de um edifício moral
rudimentar vai sendo acompanhada pela ascensão de uma vida recuperada. O vagabundo que chega à cidade rastejando na poeira levanta-se do chão e vê
tombar à sua volta o poder podre que ali governava. Don Siegel filma e monta
com uma competência inegável as cenas desta narrativa simples, mas eficaz,
deixando ainda espaço para pormenores simbólicos como a presença de um velho
ajudante do delegado que descobre para já nada servir ou o deslumbramento de um
jovem que, contra a vontade da mãe, quer usar um distintivo, deparando-se no
final com a debilidade moral daqueles que o exibem. Stranger on the Run é sobre homens que se encontram a si próprios, homens que deixam de ser estranhos para si próprios.
terça-feira, 25 de junho de 2013
INCONSTANTE VENTO
De passeio pelas velharias, encontrei um pequeno volume, datado de 1941, com as Sátiras de Nicolau Tolentino (1740-1811), esse que dizem ter inspirado o poeta Alexandre O’Neill. Estava marcado a 2€. Fui para pagá-lo com uma nota de 10€, mas como o sucateiro não tinha troco ficou-me com as moedas que trazia na carteira. Custaram-me as Sátiras 0,87€. No prefácio, Rodrigues Lapa diz o seguinte: Até à sua morte, em 22 de Junho de 1811, Tolentino levou uma vida tranqüila e apagada, apenas cortada de um ou outro sobressalto, como foram as invasões francesas. As suas obras poéticas corriam já o mundo, em cópias manuscritas. Lembrou-se de as imprimir à custa do Estado. Recomeçou as suas choradeiras em verso a êste e àquele, alegando agora as suas dívidas. O certo é que conseguiu uma vez mais o que queria: em 1801 saíu a edição, em dois volumes. Ladino como era, negociou logo a propriedade da obra, que não lhe custara vintém, pela soma exagerada de 4.800.000 réis! Inocêncio da Silva, que dá esta informação, nota que o pobre Bocage vendera em 1791 a propriedade do tomo I das suas Rimas por 48.000 réis. Ora, há que aprender com Tolentino. Continua Rodrigues da Lapa: Para viver, só um recurso: bajular os grandes, os senhores da vélha fidalguia que detinham o poder. Assim se formou a raça de poetas parasitas, que já vinha do século XVII e alastrou por todo o século XVIII. Como há vírus inextinguíveis, pelo séc. XIX continuaram, no XX se instalaram e no XXI permanecem bajulando a troco por vezes de migalhas, outras vezes de cargos, outras tantas de meros encómios que garantam, pelo menos, lugar cativo na primeira fila da plateia. Com uma diferença, foi-se-lhes o estro e mais não sabem escrever do que decalques sem mestria. Ora tomem lá do Tolentino:
Vai, mísero cavalo lazarento,
pastar longas campinas livremente;
não percas tempo, enquanto to consente
de magros cãis faminto ajuntamento.
Esta sela, teu único ornamento,
para sinal de minha dor veemente,
de torto prego ficará pendente,
despojo inútil do inconstante vento.
Morre em paz, que, em havendo algum dinheiro,
hei-de mandar, em honra de teu nome,
abrir em negra pedra êste letreiro:
«Aqui piedoso entulho os ossos come
do mais fiel, mais rápido sendeiro,
que fôra eterno, a não morrer de fome».
UM RABO DE IDEIAS GENIAIS
Camarada Van Zeller, isto não é um lamento, nem sequer é um
desabafo. Isto é uma constatação. Um tipo levanta-se às 8h para estar no
trabalho às 9h. Chega a casa pelas 21h, depois de um dia intenso a responder às
solicitações do público, dos chefes, dos parceiros, dos colegas. É assim
diariamente, a troco de menos de 1000€ por mês (o vencimento base está longe
disto). Depois chega a casa, quer descansar, deita-se um pouco, folheia as
notícias e dá com as novidades: Executivos dum grande banco falido riam-se a combinar quanto dinheiro iam pedir (e jamais devolver) ao Estado. Portanto, o
desconforto recrudesce no estômago, sobe à garganta, um tipo quase que vomita. Contém
o vómito, engole em seco e pensa: andamos a trabalhar uma vida inteira para
quê? Para que os CEOs, os administradores, os executivos possam comprar iates, possam
levar a família – se a não venderam já - de férias às Caraíbas, possam fechar
um restaurante só para eles enquanto se riem dos burros que os carregam e
explicam uns aos outros as manhas do negócio: não se
pode deixar os contribuintes perceberem que nunca vão recuperar o que é deles.
Para este estado de degradação, onde quem detém o poder já provou não o exercer
com ética, muito menos com moral, eu só encontro uma solução: encarcerar os
indivíduos para a vida inteira, deixando uma corda pendurada no teto de modo a
que eles se deitem e acordem todos os dias a olhar para aquela corda. Depois é
ter esperança de que lhes reste alguma dignidade dando uso à corda. Mas como os
nossos governos não estão empenhados em varrer do mundo esta horda de
flibusteiros, cretinos, vigaristas, ladrões, esta corja que mata mais e mais
lentamente do que qualquer Hitler da História da humanidade, como os nossos
governos mais facilmente usam exércitos inteiros para travar manifestações do
povo desesperado, roubado, enganado, traído, não é de esperar que a solução
apresentada venha a vingar. Constatado o facto, caro Van Zeller, melhor é
fazer como o macaco, tapar os olhos, os ouvidos, o nariz, a boca e o cu
de onde saem ideia magníficas, fazendo de conta que foi só mais um dia mau. Amanhã,
às 9h, lá estaremos a contribuir para o bem-estar do patronato a troco desse
luxo que é poder dizer que se tem trabalho.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
AEROPORTO DE MILÃO - MALPENSA
Aeroportos são terra de ninguém,
os corredores, as naves para lá das vidraças,
os mesmos restaurantes fast food
com ementas iguais em todo o mundo,
e as escadas rolantes a arrastar
não se sabe para onde
a gente derreada
que enche as salas de espera
e sujeita os serviços de higiene
a constantes avisos amarelos
à porta dos lavabos
e a alterações nas pautas de registo.
Quem pense no destino metafísico
da humanidade
escrita com maiúscula de Deus,
future só que bichos somos
quando andamos em sítios tão assépticos,
longamente pensados por
equipas de arquitectos e peritos
de grandes companhias,
e, como isto, imagine
que o volume de urina e fezes
foi cuidadosamente calculado e falhou,
vendo-se cada vez mais avisos de limpeza
na terra de ninguém, cheia de gente
que tem o mesmo ciclo digestivo
e embarca a toda a hora,
enquanto outra vai chegando e não dá vazão
ao sistema de esgotos, planeado
para os aeroportos quando eram soberanos
como a dívida pública
dos países mais pobres que hoje enviam
nuvens de expatriados pelo céu
às pistas de aterragem,
em companhias low cost,
disfarçados de ricos e libertos,
e belas raparigas
com malinhas de rodas atrás delas,
nascidas em subúrbios tristes,
em terras de ninguém como a que pisam.
os corredores, as naves para lá das vidraças,
os mesmos restaurantes fast food
com ementas iguais em todo o mundo,
e as escadas rolantes a arrastar
não se sabe para onde
a gente derreada
que enche as salas de espera
e sujeita os serviços de higiene
a constantes avisos amarelos
à porta dos lavabos
e a alterações nas pautas de registo.
Quem pense no destino metafísico
da humanidade
escrita com maiúscula de Deus,
future só que bichos somos
quando andamos em sítios tão assépticos,
longamente pensados por
equipas de arquitectos e peritos
de grandes companhias,
e, como isto, imagine
que o volume de urina e fezes
foi cuidadosamente calculado e falhou,
vendo-se cada vez mais avisos de limpeza
na terra de ninguém, cheia de gente
que tem o mesmo ciclo digestivo
e embarca a toda a hora,
enquanto outra vai chegando e não dá vazão
ao sistema de esgotos, planeado
para os aeroportos quando eram soberanos
como a dívida pública
dos países mais pobres que hoje enviam
nuvens de expatriados pelo céu
às pistas de aterragem,
em companhias low cost,
disfarçados de ricos e libertos,
e belas raparigas
com malinhas de rodas atrás delas,
nascidas em subúrbios tristes,
em terras de ninguém como a que pisam.
Nuno Dempster, in Elegias de Cronos, Artefacto, Junho de 2012, pp. 41-42.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
RESPEITOSAMENTE
Querido Van Zeller, de forma breve e respeitosamente, estou ao teu lado para te servir e servir os teus projectos. Utiliza-me como te convier e como convier ao teu projecto. Se me utilizares, necessito de ti como guia e do teu apoio: sem a tua condução poderia ser ineficaz, sem o teu apoio seria pouco credível. Com imensa admiração, HMBF. Por hoje é só.
P.S.: perante isto, pergunto-lhe: que nome hei-de dar a uma vaca leiteira que estou a pensar comprar no Mercado de Santana?
domingo, 16 de junho de 2013
CHEYENNE AUTUMN (1964)
Nunca é demais lembrá-lo, a ocupação da América do Norte pelos europeus resultou numa chacina dificilmente imaginável. Os índios viram os seus territórios ocupados, as suas tradições apagadas, o seu modo de vida completamente arruinado pela chegada do velho ao novo mundo. A este declínio chamamos progresso, um progresso sempre indiferente aos seus danos colaterais, ou seja, as pessoas indefesas. Chamamos também a marcha da civilização, uma marcha que outra coisa não foi senão o espezinhamento de culturas diferentes da nossa. Expulsos das suas terras e enclausurados em reservas, foram os índios da América do Norte vítimas das traições e das injustiças sobre as quais se ergueu o chamado mundo moderno. Desesperados, incapazes de se subjugarem ao infortúnio, muitos deles matavam os filhos e suicidavam-se em massa. A colonização europeia reduziu, em poucos anos, uma população índia de cerca de dez milhões a menos de um milhão em 1900. As epidemias, a guerra, o negócio das peles (com o extermínio dos búfalos, principal fonte de sobrevivência de muitas comunidades indígenas) são hoje as principais causas apontadas para este declínio, mas sabe-se também que alguns comandantes mandavam distribuir aos índios mantas contaminadas com sarampo. Sem defesas contra os vírus europeus, rapidamente morriam. Um genocídio sem precedentes, disfarçado com soluções convencionais como a criação de reservas e suas escolas com o objectivo declarado de “matar o Índio… e conservar o homem”. Os Cheyenne, uma das tribos das florestas, caçadores de búfalos e nómadas, habitaram as zonas hoje conhecidas como Minnesota e Wyoming. Em 1864, foram vítimas de um massacre e declararam guerra definitiva ao homem branco. Fortemente debilitados face ao poderio militar norte-americano, resistiram, uniram-se a outras tribos e ganharam várias batalhas, embora o seu fim estivesse mais que decretado. John Ford (1894-1973) prestou-lhes homenagem num comovente épico onde a coragem, a perseverança, a honestidade, a honradez, são as principais características evocadas duma tribo constantemente ludibriada por um poder única e exclusivamente interessado em reforçar ainda mais o seu poder. A ganância do homem branco, que, como sabemos, será a breve trecho o castigo maior dos seus próprios vícios, ganhou sobre a humildade daqueles povos, que, também eles com suas lutas, sabiam viver em conformidade com a Natureza não ambicionando mais do que o necessário à sua sobrevivência. Ford começa a sua homenagem numa reserva instalada em pleno deserto, para onde estes povos das florestas do Norte haviam sido deslocados. É um dia especial, aguarda-se a chegada de altos representantes da governação norte-americana. Aqueles homens, mulheres e crianças poderão, finalmente, mostrar as condições miseráveis em que sobrevivem. Mas os homens importantes não chegam, decidindo os índios iniciar uma marcha, uma outra marcha, na direcção das suas terras de origem. Todo o filme de Ford é uma perseguição desta derradeira marcha, com vários elementos dramáticos a marcarem o ritmo e a renovarem o interesse sobre algo que, afinal, já todos sabemos como irá terminar. O episódio é histórico, tem no seu centro Dull Knife, o chefe dos Cheyenne do Norte, que dirigiu o regresso dos pouco mais de 300 sobreviventes da sua tribo à sua terra natal. Sendo fiel à realidade, o mestre do western envolve o episódio de ambientes ficcionais onde o homem branco e as suas instituições são retratadas com uma impressionante severidade crítica. Wyatt Earp, aqui interpretado por James Stewart, aparece episodicamente num contexto onde sobressai o desvario das populações nas cidades modernas, atravessadas por comboios, ou “cavalos de ferro”, provavelmente os mesmos dos quais os passageiros se divertiam a abater búfalos pelo caminho. Há na comitiva indígena uma criança que mata o tempo a desenhar numa pequena ardósia os búfalos que nunca viu e os comboios que já observou. Com ela segue a instrutora branca –Carroll Baker - que resolveu juntar-se aos índios desde a partida da reserva, deixando para trás o pretendente Capitão Thomas Archer (Richard Widmark), a quem cabe recapturar a tribo desobediente. Os bons sentimentos da professora e do capitão, assim como, no final, do Secretário do Interior, amenizam o retrato, mas não disfarçam a tomada de posição do realizador num épico que é, também, uma pungente elegia pelo Índio norte-americano.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
«forçado a uma existência de miséria e reduzido ao presídio e às grilhetas»
Fábrica de Braço de Prata, 2012. Lisboa.
AQUELE HOMEM desejou-me longa vida...
De que serve ao prisioneiro vida prolongada?
Não é a morte melhor p'ra quem padece
E sente sem fim a vida atormentada?
E se outros esperam descobrir o amor
Meu único fito é encontrar a morte...
Deverei viver p'ra minhas filhas ver
Rotas, famintas, no vaivém da sorte?
Serviçais daquele cuja maior missão
Seria, tão-somente, anunciar-me
Afastar gente que me embaraçasse
Ou cavalgar, para, preparar-me
Tropas alinhadas, quando o pendão se levantasse,
Exausto de correr à frente e atrás
Se a desordem na fila se mostrasse?
O voto que alguém sinceramente faz
É feito p'ra valer, se de alma pura:
Possa aquele homem bom ser premiado
Que a vida lhe dê maior doçura.
Minh'alma achou conforto no que lhe foi dado
E na certeza de que nada dura.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Al-Mu'tamid.
Texto: Al-Mu'tamid.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
«Si uccise mediante barbiturici in una sera di dicembre del 1938, nel prato antistante l'abbazia di Chiaravalle. La famiglia negò la circostanza «scandalosa» del suicidio, attribuendo la morte a polmonite...»
Calçada do Ferragial, Lisboa. 2012.
(...)
Solitudine e pianto -
solitudine e pianto
dei làrici.
solitudine e pianto
dei làrici.
(...)
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Antonia Pozzi.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
MANICÓMIO
Fica-se tonto só de ler as gordas: ministério convoca todos os professores para estarem nas escolas no dia da greve aos exames, multado em 1300 euros por insultar e mandar Cavaco trabalhar, Santander vendeu nove swaps altamente especulativos, Carolina Patrocínio celebra despedida de solteira com as amigas, Governo reserva 900 milhões para liquidar contratos swap, EDP avança para Tribunal para suspender pagamento de sete milhões aos clientes, Messi acusado de fraude fiscal, previsões do Borda D'Água levam ministro da Economia à gargalhada, homem que recebeu transplante de duas pernas foi amputado, Passos diz que há dinheiro agora, mas só paga em Novembro, Poiares Maduro considera que RTP não é comparável com televisão grega, manifestantes e polícia de choque concentrados em frente à TV pública... O país e o mundo, a 12 de Junho de 2013.
" regressou a Ponta Delgada, suicidando-se no dia 11 de setembro de 1891, com um ou dois tiros, num banco de jardim junto ao Convento da Esperança"
Santos, Lisboa. 2012.
DESESPERANÇA
Vai-te na asa negra da desgraça,
Pensamento de amor, sombra duma hora,
Que abracei com delírio, vai-te, embora,
Como nuvem que o vento impele... e passa.
Que arrojemos de nós quem mais se abraça,
Com mais ânsia, à nossa alma! e quem devora
Dessa alma o sangue, com que mais vigora,
Como amigo comungue à mesma taça!
Que seja sonho apenas a esperança,
Enquanto a dor eternamente assiste,
E só engane nunca a desventura!
Se em silêncio sofrer fora vingança!...
Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,
Talvez sem esperança haja ventura!
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Antero de Quental.
terça-feira, 11 de junho de 2013
O DIREITO AOS EXAMES E O DEVER DA GREVE
Camarada Van Zeller, estava eu a aprontar-me para mais
uma revisitação cinéfila quando, impedido de caminhar pelo peso na consciência,
resolvi escrever-lhe esta missiva na melhor das intenções. Estive para fazê-lo
no Domingo, depois de ter ouvido a intelectual Clara Ferreira Alves dizer que os
professores tinham razão mas estava completamente contra a greve porque os
direitos dos alunos deviam prevalecer. Raciocínio fodido. Desde logo porque, de
uma assentada, ficámos a saber que não basta ter razão para justificar uma
reivindicação, que há certas formas de luta cuja justiça se avalia não pelos
motivos mas pelos efeitos e, por fim, que entre os direitos dos professores e
os direitos dos alunos se estabelecem intrincadas hierarquias. A partir
de hoje um direito deixa de ser um direito, passa a ser um direitinho se sobre
ele pesar um direitão. Eu, que fui professor do público e do privado, buli a
recibo verde sem ver compensadas horas de apoio escolar, vigilância de exames,
reuniões de avaliação e etc, muitas vezes falei contra a classe. Tenho esse mau
feitio. Mas hoje, agora, neste momento, estou em perfeita sintonia com os
docentes. Tivesse eu uma filha, dir-lhe-ia junta-te à luta dos teus
professores. A luta deles é a tua luta. Os seus direitos são os teus direitos. O
direito a uma escola pública de qualidade, com professores competentes, exigentes,
socialmente reconhecidos pelo bem tremendo que têm a oferecer a uma sociedade
claudicada por tecnocratas e intelectuais de algodão doce e mão debaixo do queixo.
Está visto, não precisamos de mais exemplos, que quando toca a agir o intelectual
enfia o rabinho entre as pernas e zarpa para porto seguro. Apela à indignação,
mostra-se deveras enraivecido e agastado, mas sempre no conforto da secretária
onde dá corda à pluma caprichosa da hipocrisia. Os direitos dos alunos devem,
então, prevalecer sobre os direitos dos professores? Ok. Relvas, o aluno
exemplar, não diria melhor. Fosse este o limite da justiça que fundamenta o
protesto, caro Van Zeller, e dificilmente teríamos hoje um mundo tão
civilizado, de alunos empenhados em lutas estudantis, erguendo ao alto hip hip
hurras de satisfação enquanto na tenda o Quim Bairros mama nos peitos da
cabritinha. Questiono-me, porém, desde quando realizar um exame final é um
direito? E admitindo andar muito torto, pergunto-me igualmente quantos alunos
não estariam na disposição de prescindir de certos direitos? Em prol, claro
está, do direito a uma educação justa, livre e imparcial. Considerando a
discussão inútil e o debate inglório, ergo-me cheio de dores na direcção do
televisor e ligo o aparelho. Alguém compara a greve dos professores em época de
exames a deixar um paciente abandonado numa sala de urgências, numa
hiperbolização extraordinário dessa entidade doentia que dá pelo nome de aluno
(o paciente) e da doença terminal que são os exames. Remova-se o cancro de uma
vez, portanto, porque os direitos do doente prevalecem sobre os direitos do
doutor e é até provável que prevaleçam sobre os direitos da doença. Resta-nos,
camarada Van Zeller, orar a Nossa Senhora de Fátima pelo bom tempo, pelas boas
avaliações da troika e por comparações menos parvas, na esperança de que a
cabeça dos alunos não seja tão obtusa quanto a destes intelectuais de pacotilha
com revoluções de papa no currículo. Juntem-se, ó alunos, aos vossos professores.
Façam todos greve aos exames e mostrem ao que estamos: um ensino público de
qualidade. Pudessem, em paralelo, os doentes fazer greve à doença!
segunda-feira, 10 de junho de 2013
DAY OF THE OUTLAW (1959)
Nascido na Hungria, André de Toth (1912-2002)
assinou os primeiros filmes como Tóth Endre. Na verdade, o seu verdadeiro nome
era Sâsvári Farkasfalvi
Tóthfalusi Tóth Endre Antal Mihály. Quem quiser, que se atreva a pronunciá-lo. Formado
em Direito, enveredou pelas artes dramáticas como actor. Só mais tarde se
dedicou ao cinema, escrevendo argumentos, representando e editando, trabalhando
como assistente de realização. Realizou alguns filmes antes do início da
Segunda Grande Guerra, acabando por fugir para Londres em 1940, onde trabalhou
com Alexander Korda, e emigrando, dois anos depois, para os EUA. Nos states,
André de Toth percorreu todos os géneros, do thriller ao western, do cinema de
aventuras ao fantástico. Nunca almejou tanto reconhecimento como outros realizadores
da sua geração, mas alguns críticos não hesitam em colocá-lo entre os
melhores. Day of the Outlaw (1959) é um western admirável, até pela sua
localização geográfica incomum. A acção decorre no estado do Wyoming, que tem
como capital, refira-se, a cidade de Cheyenne. Contudo, este filme, intitulado
Homens de Gelo na “versão portuguesa”, não é incomum apenas pela localização
geográfica da acção. Em 1959, De Toth contava já com uma mão cheia de westerns
no currículo: The Indian Fighter (1955, com Kirk Douglas e Walter Matthau), The
Bounty Hunter (1954), Riding Shotgun (1954), Thunder Over the Plains e The
Stranger Wore a Gun, todos com Randolph Scott. São obras que lhe garantiram uma
experiência patente no filme de 1959. O primeiro aspecto que sobressai
em Day of the Outlaw é o enquadramento paisagístico. Estamos num
cenário distante das paisagens áridas e empoeiradas do deserto. Aqui a neve
predomina, os cavalos caminham lentamente, enterram-se no gelo, os homens
respiram com dificuldade, agasalham-se, há um frio constante que fortalece o
ambiente enregelado estabelecido entre as personagens. A montanha espreita no
horizonte, com seus mistérios impenetráveis. Ali fixados, naquele covil outrora
ocupado por bandidos, uma comunidade tenta erguer-se. No centro da acção
encontramos uma contenda entre agricultores e cowboys (querela clássica entre modos de vida sedentários e nómadas). Mas Blaise
Starrett não disputa apenas o direito às terras com os agricultores que as
querem vedar com arame farpado. Representado por Robert Ryan, o Deke Thornton
que veremos em The Wild Bunch (1969), este cowboy carrega sobre os ombros o
fardo de um amor extraviado. Nele se misturam remorso, raiva e um sentimento de
injustiça que procura resolver sem ferir a antiga amada, agora nos braços do
seu maior rival. Quando estes se aprontam para um duelo decisivo, são
inesperadamente surpreendidos pela chegada à cidade de uma quadrilha liderada
por um famoso desertor da cavalaria. Burl Ives é o capitão Jack Bruhn, que
controla os seus homens com a rigidez e a eficácia de um militar. Entre Starrett
e Bruhn acaba por estabelecer-se uma relação estranha. Ambos guiados por
códigos de honra peculiares, cabe-lhes, por um lado, refrear as paixões de um
bando de homens em fuga, sequiosos de mulheres e de álcool, e, por outro lado, controlar
o medo instalado entre uma população subitamente deslocada de um conflito
interno para um cenário onde a maior ameaça provém do exterior. A cumplicidade
gerada entre Blaise Starrett e o capitão Jack Bruhn só não é absurda porque
percebemos em ambos uma consciência do destino que o filme se encarrega de
adiar sucessivamente. De resto, o ritmo narrativo de André de
Toth respeita estes adiamentos, estas suspensões, sugerindo-nos a todo o
instante hipóteses nunca concretizadas, possibilidades nunca verificadas. O
duelo que não acontece, a mulher que não é violada, o amor que não se materializa,
a fuga que não chega a dar-se, o tiro que não chega a ser disparado, insinuam
uma frustração e um desencanto que o cenário repleto de neve cristalizam com expressividade
notável. Metáfora convincente de um mundo perdido, Day of the Outlaw é uma das melhores ilustrações que o
cinema nos pode oferecer sobre o que podia ter sido e não foi porque, lá está,
ninguém ousou dar o passo decisivo. Blaise Starrett deu-o porque não podia
deixar de o dar, tinha essa falha para resolver consigo próprio. Agradecidos
lhe estamos:
DESEJO DE SE TORNAR ÍNDIO
Alcântara, Lisboa. 2011.
Oh, se fôssemos índios, já preparados e, em cima de um cavalo que corre, inclinados contra o vento, estremecêssemos repetidamente sobre o solo que treme até largarmos as esporas porque nunca houve esporas, até deitarmos fora as rédeas porque nunca houve rédeas e quase não víssemos a terra à nossa frente revelar um prado ceifado e liso, agora que o cavalo perdeu o pescoço e a cabeça.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Franz Kafka.
sábado, 8 de junho de 2013
SERVIDÕES
Não se deixa fotografar, não dá entrevistas, raramente publica. Dir-se-á que não aparece, mas está sempre entre quem o leia - como uma espécie de Deus ou de demónio, uma sombra cuja voz nos persegue. Há palavras que são só dele (“as mães”, “os selos”, “orvalho”), envergonhamo-nos de as pronunciar. Talvez por isso esgote em dois dias. Uma primeira edição de Herberto Helder tem um valor incalculável nos alfarrabistas. O último livro, publicado há duas semanas e esgotado em três dias, já anda a ser vendido na candonga a mais do triplo do preço de capa. Um cliente comprou-me nove, fazendo questão de reforçar que mais houvesse mais compraria. Herberto tornou-se investimento material, negócio, o que nada nos diz sobre a sua poesia mas muito revela acerca da poesia no actual mundo português. Do outro não falo que não conheço. A poesia é um animal em vias de extinção, os poetas são dentes de marfim. Tem ainda Herberto uma outra particularidade, é endeusado por quem escreve contra ele, copiado por muitos, decalcado sem vergonha, e divinizado por quem afirma a pés juntos ser a poesia do tipo da sua (mais ou menos) o embuste dos presunçosos. “É o maior poeta vivo”, afirmam todos aqueles quantos estão em mãos da misteriosa fita métrica do génio. Tudo isto é desprezível, ou seja, o fenómeno nada tem que ver com a escrita, o poder da linguagem, a força do ritmo, nada tem que ver e ameaça, como sempre faz, desfigurar a beleza do “poema puro”. O fenómeno é a “merda” onde chafurdam as moscas quotidianas, os "burrocratas" da "vida administrativa". Há que enxotá-las e fazer como se não existissem, é o melhor remédio. Concentramo-nos na escrita, nas palavras, e nela nos isolamos como quem procura refúgio da banalidade dos dias. Mas dizer palavras, neste caso, é um eufemismo. Na poesia de Herberto Helder cada palavra é uma nota musical, e ainda que as torrentes metafórica e imagética sejam agora barradas pelo tom intimista, não deixa de assim ser também quando ele parece estar a escrever-nos mais para os olhos do que para os ouvidos. Há neste livro uma vontade de mostrar o que pode ser mostrado do interior de uma cabeça, uma cabeça complexa, feita de memórias (lembradas e esquecidas) e de experiências (inventadas e vividas). A prosa de índole biográfica que abre Servidões (Assírio & Alvim, Maio de 2013), livro todo ele contaminado pela biografia, oferece-nos um olhar sobre a infância que é também “prefácio e posfácio” de uma continuidade criativa aqui revelada: «Quando os lemos lado a lado, a todos estes poemas, sabemos estarem eles entregues ao serviço de uma só inspiração» (p. 15). Subentende-se a ideia que fundamenta o título. O poeta é um servo da palavra, seus poemas estão ao serviço de uma só inspiração. Vida e poesia confundem-se, mormente na sua brevidade, o gerúndio arrasta o tempo no espaço como pelos dias se arrasta a vida. Não me recordo de muitos poemas de Herberto onde o quotidiano entre tão destemidamente como nos poemas de Servidões. A “vida administrativa” e seus “burrocratas” entram num contexto testamental, pois é impossível ler estes poemas sem notar neles esse sentimento de uma morte próxima que a dobra dos oitenta anos faz estremecer. Daí a dúvida existencial que surge num poema onde ao ofício cantante se sobrepõe o ofício de viver (Pavese): «estou aqui para quê porquê e como? / e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça, / e restam apenas estas linhas como sinal do medo: / pó, poeira, poalha» (p. 51) A morte que ecoa e paira sobre cada página não enjeita uma paisagem onde o novo se encontra com o velho, o vivo com o morto, Eros com Tanatos, e a brevidade do poema representa, claro está, a brevidade da própria vida, uma pequenez onde cabe o mundo inteiro, porque o mundo é pequeno e ínfimos são os homens, esse mundo que é o nosso, a linguagem, o mundo do poeta que canta: «dos trabalhos do mundo corrompida / que servidões carrega a minha vida» (p. 19). Que remates carregam estes dois versos às portas de um poema onde a morte iminente pede resumo? Não há exame de consciência nem confissão, há antes uma espécie de oferenda que se confunde com o lamento do índio a invocar as forças da Natureza no alto da sua dor não académica. Desde sempre se vislumbra na poesia de Herberto Helder esta consciência de uma pureza primitiva que transcende as formas da civilização ocidental. A voz que ressoa é a voz de uma entrega, como a voz do delírio que solta o corpo das formas, o liberta das leis, e desse modo o consubstancia. Servidões é a súmula que a vida exigia e o ofício de vivê-la consente, um livro entre os melhores que Herberto Helder escreveu, senão o melhor, porque nele os véus são rasgados e as imagens ganham uma força orgânica, de bronze, que a técnica esculpe (Giacometti em epígrafe) com rigorosa paixão:
cheirava mal, a morto, até me purificarem pelo fogo,
e alguém pegou nas cinzas e deitou-as na retrete e puxou o autoclismo,requiescat in pace,
e eu não descanso em paz nas retretes eternas,
a água puxaram-na talvez para inspirar o epitáfio,
como quem diz:
aqui vai mais um poeta antigo, já defunto, é certo, mas em vernáculo e tudo,
que Deus, ou o equívoco dos peixes, ou a ressaca,
o receba como ambrosia sutilíssima nas profundas dos esgotos,
merda perpétua,
e fique enfim liberto do peso e agrura do seu nome:
vita nuova para este rouxinol dos desvãos do mundo,
passarão a quem aos poucos foi falhando o sopro
até a noite desfazer o canto,
errático canto e errado no coração da garganta,
canto que o trespassava pela metade das músicas
- e ao toque no autoclismo ascendia a golfada de merda enquanto as turvas águas últimas
se misturavam com as águas primeiras
sexta-feira, 7 de junho de 2013
[irmãos humanos que depois de mim vivereis,]
irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavore stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda - trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que há-de medrar melhor na memória do mundo
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavore stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda - trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que há-de medrar melhor na memória do mundo
Herberto Helder, in Servidões, Assírio & Alvim, Maio de 2013, pp. 90-91.
SARDINHADA
Camarada Van Zeller, hoje é um dia triste. Um rapaz
morreu. Foi esfaqueado até à morte por causa de um fio de ouro. Há dias, no
mesmo local, um outro foi espancado quase até à morte por causa de uns óculos
de sol. Quem mora nas imediações diz que é frequente a pancadaria, as pedradas,
as ameaças. Fica tudo junto a uma escola, onde os alunos se refugiam munidos de
facas. A gente sabe que rixas entre alunos sempre existiram, a gente sabe. Mas
hoje nada do que a gente sabe nos conforta. Antes pelo contrário. A gente até
sabe que se não soubéssemos nada seríamos mais felizes. Por isso imaginamos uma
mochila às costas e uma longa caminhada na direcção do interior abandonado, onde
só os milhafres nos avistam. Imaginamos uma tenda de pedra, os frutos que a
terra dá, sem redes, sem cabos, apenas a luz do fogo e o calor da madeira a
arder. Talvez isolados deste mundo onde uns se matam por causa de óculos de
sol, outros são aplaudidos por causa de lugares comuns, outros se entretêm com faits
divers, outros se distraem com os mergulhos do José Castelo Branco, outros se
isolam na casa, outros alimentam as emoções com as histórias da Fernanda
Serrano e do Giane e do Vujicik, outros olham para o tempo e lamentam o clima
alterado enquanto ligam o motor do carro, outros simplesmente passeiam sonhos e
ilusões no Facebook, procurando conforto para os dias, amigos virtuais,
buscando o consolo dos gostos e das mensagens positivas, exibindo o melhor
perfil na esperança de um elogio, com o ego de pantanas e a solidão em alta, talvez
isolados deste mundo, dizia, consigamos reaprender a respirar. Porque, neste
momento, sentimo-nos sufocados. Assistimos a um teatro repetitivo e entediante,
já visto, estudado, sabido, o teatro que o Vittorio de Sica tão bem encenou no seu
Ladrões de Bicicletas. É o teatro dos pobres que se revoltam contra os
desenrascados e dos miseráveis que odeiam os pobres e dos indigentes que
invejam os miseráveis, enquanto a indiferença, o comodismo, a letargia e o
alheamento de quem tem neurónios e podia mexer-se no sentido de um mundo melhor
engrossa, com a sua estúpida cumplicidade, as contas bancárias dos
exploradores. Talvez na esperança de um reconhecimento, de uma promoção, no
limite de uma cunha, pelo bom comportamento demonstrado, talvez na esperança de
que o respeitinho lhes traga proveito, as maiores vítimas desta tragédia
deslocam-se para a plateia e assistem sentados ao desmoronar do cenário. Não se
sentindo a raiva e o ódio que a injustiça justificava, somos levados a pensar
que talvez não estejam assim tão mal os portugueses. Se calhar até estão bem,
se calhar estão confortáveis. Enquanto pingar na conta o subsídio, poderão
comer sardinhas, dividi-las por três e pagar a prestação do MEO. Veremos como
será quando deixar de pingar na conta o subsídio. Ou então não veremos. Com sorte
estaremos já na aldeia abandonada do interior, e aí nos queixaremos das lutas
entre formigas por uma migalha de pão. Mas vêm-nos aos olhos as filhas. Que
futuro para elas? O futuro delas. Será legítimo arrastá-las para o nosso
desespero? Será correcto amarrá-las à nossa saturação? Que futuro para as filhas?
Que sonhos? Que esperança? Nós que estudámos, que lemos, que nos cultivámos,
nós que andámos com os ombros carregados de ideias e fizemos as loucuras que a
vida nos merece, nós que ainda hoje pedimos um pouco mais de nada que torne
grato o andarmos por aqui, queremos o quê para as nossas filhas? Eis as
respostas às nossas dúvidas: O FMI prepara-se para reconhecer que cometeu erros
grosseiros na ajuda à Grécia. O índice de suicídio na Grécia subiu 40% desde o
início da crise. O Ricardo Salgado diz que os portugueses preferem o subsídio
de desemprego. O Primeiro-ministro sugere aos portugueses que emigrem. O
Ricardo Salgado ganha 548 mil euros por ano. A Carris ganhou 15 milhões
cortando nos salários e aumentando bilhetes. A Carris perdeu 17 milhões com os
swaps. Os portugueses não sabem o que são swaps. Não consta que a administração
da Carris tenha sido demitida e julgada por gestão danosa. O Governo quer que
passe a ser publicado na página de Internet da Inspecção-Geral de Finanças os
nomes dos beneficiários de vários apoios públicos. O Governo não quer acabar
com o sigilo bancário e divulgar os nomes dos portugueses que beneficiam de
contas offshore. O banco BPN representará um encargo líquido de 3405 milhões de
euros para os contribuintes portugueses. Os
investigadores do caso CTT suspeitam que na venda de um edifício dos Correios
em Coimbra foi entregue aos ex-administradores Carlos Horta e Costa e Manuel
Baptista um milhão de euros, que terá passado pelo BPN rumo a paraísos fiscais.
CTT encerram 60 estações em apenas cinco meses. Não o maçarei mais. O
rol de crimes sem julgamento e de vigaristas à solta, de criminosos promovidos
e bem pagos é infindo. Ninguém tem mão nisto. E sabe o camarada Van Zeller
melhor do que eu que a culpa de tudo isto, porque há sempre um bode sobre quem
a culpa deve recair, é da Raquel Varela e dos pretos que se esfaqueiam por causa
de um par de óculos de sol. Quem não tem culpa alguma são os portugueses, que
só anseiam por um dia de sol sob o qual possam assar as suas sardinhas.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
BILLY TWO HATS (1974)
Pode parecer contraditório chamar para uma lista de
primeira safra mais um western secundário. Cometi anteriormente o crime com um
filme onde me referi a Rambo. Ora, Billy Two Hats (1974) foi realizado por Ted
Kotcheff (n. 1931) – a quem devemos First Blood (1982), o primeiro da saga que
imortalizou Sylvester Stallone. Neste
caso, estamos longe de um exercício onde a acção parece ser o fim último da
narrativa. Chato’s Land não é um filme de diálogos nem de deslumbramentos
morais. Antes pelo contrário, é um filme onde o ritmo se sobrepõe a todas as
outras componentes. Já Billy Two Hats tem uma dimensão exageradamente sentimental
que nos distrai, a espaços, dos antagonismos que as personagens instigam.
Gregory Peck é Arch Deans, um velho fora da lei em fuga
na companhia de um jovem mestiço. Foram cúmplices no assalto a um banco. Perseguidos
pelo Sheriff Henry Gifford (Jack Warden), acabam separados depois do mestiço
ser capturado. Arch fica com o dinheiro e consegue escapar, mas regressa para
salvar Billy Two Hats da forca. Gifford não compreende nem aceita este gesto.
Como pode um fora da lei, a salvo dos tribunais e com o lucro de um crime nos
bolsos, voltar atrás para salvar um mestiço? O racismo do Sheriff Gifford,
sublinhado em múltiplas cenas, não é o mais importante. De resto, estamos num
cenário pintado pela degenerescência moral dos intervenientes. Os índios que
aparecem já não são índios, são o resquício de uma cultura perdida no vício do
álcool. Os búfalos que ocupavam a pradaria, movimentando-a no horizonte como um
mar negro, desapareceram. Billy não sabe sequer o que é um búfalo. E os brancos
ali instalados já só têm memória do que perderam. Deus mandou-os dominar
todos os animais à face da terra e eles obedeceram. São o rosto de um mundo
novo onde a pureza, a inocência e até a ingenuidade deixaram de fazer sentido.
A paisagem que Kotcheff nos propõe, na linha do primeiro
Rambo, é a de um certo peso moral, a consciência de se fazer parte de uma
civilização erguida sobre débeis alicerces, perdida num labirinto de
contradições que a tornam alvo fácil de críticas e ódios. Era assim em 1974
como o é ainda hoje. Repare-se que o filme se concentra na relação de amizade
entre Arch e Billy Two Hats, reservando para este um protagonismo que está
longe de ser imaculado. O mestiço é o resultado de um cruzamento entre modos de
vida supostamente antagónicos. Na cabeça do Sheriff Henry Gifford é isso que
eles são, modos de vida antagónicos e inconciliáveis. Mas o amigo de longa data
que lhe dá guarida vive com uma índia e entre os brancos negoceiam-se mulheres,
fabricam-se casamentos e relações como quem produz sabonetes. Há muito do
antigo Oeste no Novo Mundo das tecnologias baratas.
O que me atrai neste filme não é, pois, a sua
dimensão exageradamente sentimental (a última cena, com Arch Deans já morto, a
ser sepultado nos troncos de uma árvore seca, chega a ser patética), mas sim a
capacidade que Ted Kotcheff revela de com uma história simples fazer uma
espécie de exame de consciência do chamado mundo civilizado. Assistimos à
caminhada de Billy para o futuro, na companhia da jovem que um marido violento deixou
para sempre tartamuda, e lembramo-nos do rosto furibundo do Sheriff Gifford,
deveras parecido com o de Marinho Pinho num recente Prós & Contras. Aquele
rosto é o de um mundo desequilibrado, desesperado nas suas certezas, sem espaço
para a diferença nem simpatia pela alteridade. É um mundo sem búfalos que a
ganância, a avidez e a usura mataram. É a antecipação do mundo mesquinho em que
vivemos, um mundo de explorados agradecidos, de canalhas promovidos e de gente
ordinariamente satisfeita com a vulgaridade dos dias.
terça-feira, 4 de junho de 2013
GUARANY
Numa carta a Jorge de Sena, com a data de 10 de Junho de 1963, Sophia queixa-se dos problemas familiares, da exaustão, das tarefas domésticas esgotantes. Conta que começou a escrever um poema, mas foi interrompida e desistiu. Tentou novamente, mas estava cansada demais. Só no dia seguinte, depois de deixar a cozinheira na praça e ter fugido para um café, é que finalmente o poema lhe saiu. Lugares de refúgio, os cafés são as capelas dos poetas. De Bocage a Pessoa, deste aos surrealistas, o que não falta na poesia portuguesa é a celebração do café enquanto espaço onde a humanidade se concentra e o poema nasce.
Joana Serrado (n. 1979) evoca Cesariny (e Sá-Carneiro) à entrada do seu Guarany (4Águas editora, Outubro de 2012), título que remete para um café histórico da cidade do Porto. A poesia de Cesariny tem uma relação mitológica com os cafés, pelo que os versos de autografia (Pena Capital) reproduzidos em epígrafe são como que uma divisa na “epopeia dos cafés” levada a cabo por Joana Serrado. Diga-se, antes de mais, que não estamos na presença de uma poesia conformada nem de uma voz convencional. Neste livro, a autora extrema o que os títulos anteriores indiciavam: uma atitude distante do facilitismo rítmico e do registo prosaico, de urbanas depressões empasteladas, que caracteriza muita da poesia portuguesa corrente.
A estrutura enigmática do índice baralha a lógica, mas não desordena as páginas. Oferece-lhes, pelo contrário, uma cadência que transforma Guarany numa peça musical (não é por acaso que o livro termina com um caderno de música onde as notas são substituídas por palavras manuscritas, opção que resulta, igualmente, numa das mais expressivas “homenagens” a Cesariny feitas por um poeta da chamada nova geração). No entanto, o mote introduzido pela autografia de Cesariny, seguido da autonecrografia de Serrado, manifesta uma degeneração do espaço e do tempo a que não é possível ficar alheio.
Cesariny pergunta: «Onde está o homem que era um chevrolet / casado com uma vírgula de amianto?». Joana lamenta: «Dói-me a cidade que escolhi para morrer. / Não tenho lugar para escrever um poema de amor». Entre a dúvida de um e o lamento do outro instala-se um diálogo desconfortável, representado pela imagem do café fechado para obras, fechado para férias, fechado ao domingo, indefinidamente fechado. Esta imagem desoladora é a da suspensão de um lugar (o tal refúgio) onde o poema (o tal poema) seria possível, pelo que Guarany questiona, na sua essência, as possibilidades da poesia e, por consequência, a possibilidade do amor.
Assistiremos, então, a uma viagem interior com paragem em cidades facilmente identificáveis no percurso biográfico da autora. Nascida em Aveiro, estudou em Coimbra, Porto, Berlim e Groningen. Vive em Oslo. De uma nostalgia romântica a um discurso escatológico, sobretudo quando se refere aos tempos de Coimbra, esta digressão (talvez fosse mais correcto chamar-lhe peregrinação) em busca de um lugar que torne possível o poema de amor alterna com aforismos sobre as Maneiras de Amar da mística Hadewijch de Antuérpia (ou Hadewijch de Brabante). A busca coincide com um mergulho no caos das memórias, das sensações, das experiências, mas emerge, misticamente, na simplicidade de uma caligrafia infantil, com a reprodução de um testamento escrito quando a autora tinha apenas 10 anos de idade.
Há neste percurso, obviamente, a presunção de uma chegada que, já agora, vislumbramos frequentemente na poesia de Herberto ou na prosa de Llansol, a chegada a uma morada reveladora que aproxima a mundanidade à mística, esbate fronteiras, liberta a linguagem e possibilita o ser. Mas esta chegada é sempre uma nova partida, pois corresponde a um processo infindo de aprendizagem onde a escrita ganha a forma acidental da própria vida:
tus dedos en mis vísceras
Doem-me os cafés da minha cidade
os que fecham ao domingo
os que fecham para obras
os que fecham para férias
os que fecham indefinidamente
os que fecham por fechar
os que não precisam de fechar e se trespassam trespassando-nos.
Sei que vou morrer com eles
sei que vou morrer sem eles.
Sei que o teu corpo é um corpo perecível
corruptível.
Sinto a tua morte nos meus ossos
e não consigo salvar-te.
Sinto a tua frigidez
a tua alvura apodrecida
a maneira como os teus maxilares se adormecem um no outro.
Só o perfume das violetas que brotam do teu corpo me faz respirar.
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