quinta-feira, 27 de junho de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #88


Astral Weeks (1968) tem uma vantagem sobre inúmeros álbuns de canções, não há nele um centésimo de segundo que o tempo torne vulgar. Sem melodias facilmente trauteáveis, a cada nova audição tudo se renova e diferentes sensações emergem. Quatro canções ultrapassam os seis minutos, o que as torna, desde logo, inconvencionais. Van Morrison rememora, evoca desejos e imagens, conta histórias, refaz a chamada canção de amor apoiando-se nos blues. Mas não lhes é submisso. Estão lá a nostalgia, a melancolia, o desterro, mas também está um deslumbramento quase bucólico. Morrison acrescenta aos blues um ritmo ao mesmo tempo celebrativo e danado, acompanhado por violino, contrabaixo (a linha de Cyprus Avenue é genial), flauta, vibrafone, numa reunião onde o espírito em vigor é o do improviso (sem que de improviso estejamos realmente a falar). As raízes irlandesas fazem-se notar tanto nos acompanhamentos, sobretudo no violino, como no tom de voz enrugado. O conjunto reflecte uma autenticidade rara em discos do género. Diz-se que foi registado em menos de dois dias. Não mais pede a eternidade do que dois dias de génio.

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