sexta-feira, 21 de junho de 2013

MONGES SEM MOSTEIRO

Os 125 anos de Pessoa fizeram-me revisitá-lo através de alguns (do)comentários celebrativos. Num deles, o enfoque dado à relação com Ofélia motivou-me sorrisos. Pessoa teria uma consciência da predestinação que lhe permitiu antever uma certa incompatibilidade da vida familiar com a escrita. A literatura, assim dita grosso modo, exigia-lhe uma dedicação total, absoluta, não lhe deixando tempo para casos amorosos e dispêndios caseiros. Do mesmo modo pensava Kafka, para quem uma vida usurpada da escrita se afigurava insuportável. Chegou este a pensar suicidar-se, pressionado para tomar conta dos negócios familiares, casar, ter filhos, seguir o trilho dos homens vulgares. No seu campo de incompatibilidades, Pessoa e Kafka não estão sozinhos. Direi mesmo que eles próprios são uma vulgaridade insofismável. Invulgar foi, por exemplo, Jorge de Sena, autor de uma obra extraordinária que o não impediu de fazer uma “catrefa” de filhos. É provável que o apoio de Mécia tenha sido determinante. Sophia também se queixava do tempo, da paz e do sossego que a família lhe roubava, deixando-lhe meros instantes para essa epifania que era a maiêutica do poema. Ora, talvez Pessoa tivesse sido muito mais desassossegado do que o livro de Bernardo Soares permite supor se a relação com Ofélia se tivesse consumado, e muitos pequenos “pessoas” de carne e osso tivessem sido gerados e paridos. Pessoa e Kafka são ascéticos. Mas o ascetismo deles é literário, diabólico. Há precisamente 100 anos, Kafka escrevia nos diário:
 
1913
21 de Junho.
O mundo prodigioso que tenho na cabeça. Mas como me libertar e libertá-lo sem me dilacerar? E antes de ser mil vezes dilacerado do que retê-lo em mim ou enterra-lo. Estou aqui para isso, dou-me perfeitamente conta.
 
Há nesta afirmação a consciência de uma inevitabilidade, de um destino, de uma predestinação, a consciência da escrita como missão que lhe oferece sentido à vida, que se transforma na sua própria vida. O mundo prodigioso de Kafka foi vomitado nos contos, nos romances incompletos, nos diários; o mundo prodigioso de Pessoa desdobrou-se me inúmeros heterónimos, em géneros diversos. Ambos esvaziaram-se para o interior das respectivas arcas, outorgando ao futuro os conteúdos das suas inquietas cabeças. Nada disto foi feito em solidão, num recolhimento eremita, mas dolorosamente conciliado com empregos insuportáveis, o sustento indispensável a uma barriga consolada. Nenhum deles se transformou verdadeiramente num artista da fome, jejuando para cima de 40 dias consecutivos. O jejum destes dois foi de outra ordem. Tome-se atenção, por exemplo, ao modo como Kafka se refere ao distanciamento familiar:
 
Da maneira como vivo em casa podem pelo menos tirar-se conclusões. Pois bem, no meio da minha família, entre os melhores e os mais ternos entes, vivo mais estranho do que um estranho. No decurso destes últimos anos, não troquei vinte palavras por dia com minha mãe, não troquei mais do que saudações com meu pai. Quanto às minhas irmãs casadas e aos meus cunhados, nunca lhes dirijo a palavra, apesar de não estar zangado com eles. O motivo é simples, nunca tenho a menor coisa a dizer-lhes. Tudo o que não é literatura me aborrece e me é detestável porque me importuna ou entrava, ainda que seja hipoteticamente.
 
A família era-lhe um entrave à literatura, ele coloca-se num plano distinto e distante do núcleo familiar estrito. Nada tinha a dizer a uns e pouco a outros, ele era, na sua própria concepção, um estranho entre os demais, que porventura não o entendiam e não o aceitavam tal como ele era. Que podemos pensar hoje disto, nós que escrevemos, temos família e entregamos parte considerável dos bens mais preciosos das nossas vidas, a saúde e o tempo, ao trabalho insuportável de todos os dias? De escrever não morremos, não tanto como padecemos de ninguém ler nas nossas palavras o quanto dói a indiferença a que estamos condenados. Mas não é desejável, nem justo, nem sequer expectável que da nossa família e dos nossos amigos pretendamos fazer leitores ou cúmplices dos nossos pequenos crimes literários. Os familiares e os amigos são o que são, familiares e amigos. Esperar que nos entendam enquanto escritores é quase um anacronismo. Da minha mulher espero amor e filhos e ternura, não espero uma leitora interessada e empenhada. Também não sinto incompatibilidade entre ter quem me ame e a quem amar e a prática da escrita, nem sequer vislumbro entrave. Não tanto quanto o trabalho o é. Por vezes, antes pelo contrário, torna-se tema, fomenta o espírito, gera dúvidas, obriga a soluções. Sinto, porém, que correr à velocidade da luz fragmentos de vidas alheias gostando de tudo mais ou menos, por simplesmente esperar que também os outros gostem da nossa nova imagem de perfil, não é solução recomendável para os problemas que aqui se nos colocam. Diz-se que o hábito não faz o monge, o ensimesmamento também não garante o escritor. Pessoa e Kafka foram enormes e admiráveis, viveram dentro de um escafandro, mergulhados no fundo de um mar de conjecturas, exercícios lógicos e divagações. Uma vida de plantar batatas e distribuir milho pelas galinhas, com água fresca nas manhãs tórridas de verão e o calor da lenha nas noites frias de inverno, é um valor incalculável quando pensamos em vidas assim. Não sendo a escrita incompatível com o fervor das fogueiras, também o não é com os vulcões adormecidos ou activos da vida doméstica.

3 comentários:

Luis Eme disse...

concordo.

Pessoa podia ser na mesma um excelente poeta, mas não se desdobraria tanto, não exploraria tantos os seus "eus".

hmbf disse...

Olá Luís. Já fizeste capas de livros? Há dias, estava com um livro na mão com capa de Luís Eme. Será o mesmo?

Luis Eme disse...

já, Henrique, mas coisas quase artesanais.

também já fizeram duas capas com fotografias minhas...

mas só vendo. :)