terça-feira, 4 de junho de 2013

TROPHONIUS


As cavernas subiram à superfície, com suas montras disfarçadas e um interior demoníaco. Quem por elas passa não nota no esqueleto emparedado, porque passa de olhos postos mais na maquilhagem do que no rosto. Haveria de rir-se o arquitecto de Delfos, se subisse hoje a avenida onde a espaços vamos tendo desfiles de moda popular e manifestações autorizadas. Basta abrir os olhos para que nos assalte a melancolia. Fôssemos cegos, talvez pensássemos de outra forma. Assim, vamos andando nas cavernas com a ilusão de caminharmos à superfície. Apressados, distraídos, consumidos pela permanente falta de tempo. Eis o programa, facilmente desmontável: ocupam-nos os segundos, aceleram a realidade, para que nada nos afecte. Tudo em vão. De um instante para o outro a notícia afoga a notícia, o presente se torna passado, os temas misturam-se e deixam-nos sem tema. A nossa fraqueza está na pressa com que andamos, baratas tontas atrás de nada, convocando enfeites, efemérides, ajuntamentos em torno da mais redundante frivolidade. É como se quiséssemos ser impotentes, não resistindo ao convite, cedendo ao banal, abraçando a estupidez com a graça dos pobres de espírito. Foi Nietzsche o profeta deste tempo suado, onde quem trabalha se precipita numa ausência total de profundidade e quem não trabalha se empenha em fugir da profundidade com medo, talvez, de se sentir só.

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