quinta-feira, 18 de julho de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #89



Sucede-me várias vezes dar por findo um dia de trabalho e questionar-me: que vais ouvir hoje, Henrique? A pergunta pode parecer simples, mas é mais complexa do que aparenta. Ouvir alguma coisa no fim de um dia de trabalho é, ao mesmo tempo e em proporções diversas, uma expurgação, um medicamento, uma recompensa. Chamemos-lhe reforço. Calhou que hoje me apetecesse voltar a ouvir o CD que os Wordsong dedicaram à poesia de Al Berto (2003). Neste caso com colaborações externas de J. P. Simões, João Peste, Tó Trips, entre outros, os Wordsong têm um corpo fixo onde sobressai a voz de Pedro d’Orey. Recorrendo a colagens e a arranjos instalados entre a pop de inclinação electrónica e o Jazz, conseguem oferecer à poesia de Al Berto uma paisagem musical adequada. O registo vocal de Pedro d’Orey, que não se limita a dizer o texto de um modo indolente, optando antes por recriá-lo com variantes fonéticas excêntricas e alucinantes, faz emergir nas palavras de Al Berto uma plasticidade que por vezes parece adormecida sob o manto prosaico do discurso. Escute-se, por exemplo, A Cabeça de Vidro, lido sobre programações típicas do universo trip-hop e uma trompete que por ali divaga sem preocupações formais, e percebemos estar perante um trabalho exigente de representação do texto poético. O registo é dramático, na medida em que nos coloca na plateia a olhar para um palco onde a palavra é reinventada. Ouvi-los é como ir ao teatro.

2 comentários:

Saturnine Luna disse...

adoro o autor e fiquei deslumbrada com o que li

hmbf disse...

Fixe.