quarta-feira, 3 de julho de 2013

RESSUSCITAR


Andrea Mantegna, Cristo Morto (finais do século XV)


Vários elementos compõem uma paisagem, geralmente associáveis aos sentidos que a retêm. Assimilamos cheiros, sons, imagens, mas não provamos nem tocamos na paisagem. A paisagem dos meus dias está obsidiada por um ruído permanente de música para elevadores; os cheiros são diversos, misturam detergentes com perfumes, óleo de fritar com esgoto, o cheiro de poções mágicas para dores musculares, cremes que disfarçam estrias e rugas. Absorvo inconscientemente tudo isto, ao mesmo tempo que me entra pelos olhos gente diversa. Algumas pessoas falam alto demais, outras escondem o olhar, as pessoas são muito diferentes umas das outras, embora se comportem segundo convenções. Tenho reparado nas tatuagens, marcas que me parecem nódoas porque sob elas geralmente vislumbro apenas uma entediante banalidade. Nem sempre é assim, mas quase sempre o é. Reparo também na postura, na pose a que saltos gigantescos obrigam, gerando estranhas formas de caminhar, rabos empinados, pernas menos longas do que parecem. A aparência reveste os homens pelo discurso, o modo como se inclinam sobre o vazio, as mãos atrás das costas ou o aspecto falsamente descontraído com que proferem lugares comuns como se estivessem a dizer verdades profundas a que mais ninguém tem acesso. Quanto tempo perdemos por dia com diálogos absolutamente inúteis? Conversa fiada? Quanto tempo despendemos com trocas de palavras para encher chouriços? Porque não nos contenta o silêncio ou a simpatia convencional dos cumprimentos? Apesar de tudo, na minha paisagem também cabem o nevoeiro matinal, o queixume de uma gaivota no regresso a casa, as paredes tingidas de mensagens rasgadas por fendas irreparáveis, a simpatia de um sorriso sincero, aquele cão que entrou no shopping contra a vontade dos seguranças que prezam pela higiene do mais porco e imundo dos lugares desta infame cidade. Ao final do dia, ansiamos apenas pelo corpo morto de cristo sobre a nossa própria cama. Ali estendemos os nervos e de olhos fechados pensamos o quão agradável seria não sermos acordados para o jantar.

1 comentário:

Katy Single disse...

Gostei desse blog, ao ler os posts, quase, quase que sentimos os tais cheiros e toda essa descrição envolvente...é muito original e diferente da maioria dos blogs que por aí andam...parabéns bj K*