domingo, 18 de agosto de 2013

TOLERÂNCIA ZERO

Vivo no país onde certamente haverá mais pessoas chamadas Doutor, reparto o meu tempo entre a Gronelândia e os Mares do Sul. Se vou a um supermercado, evito as caixas self-service. Gosto de desejar bom trabalho a quem me atenda. Não tenho Via Verde no carro e, dêem-me essa possibilidade, jamais preferirei a saudação das portagens automáticas à humana antipatia de um portageiro mal-humorado. Os tempos modernos de Chaplin aí estão. O trabalhador compete com a máquina no campeonato da utilidade. Ser-se útil é ser-se funcionário. Detectada uma avaria, substitui-se a máquina avariada por uma nova, manda-se a máquina velha para a reciclagem, ou seja, o Centro de Emprego. Avarias de fabrico não são toleradas, a manutenção é feita à base das chamadas acções de formação que permitem garantir a justeza da tolerância zero perante o erro. O funcionário não deve falhar, não pode falhar, pesa sobre ele a necessidade da perfeição. Caso contrário, o seu destino será o das coisas inúteis. É gado, mero gado. Na hierarquia das empresas, o funcionário tem sobre ele o peso da perfeição. O seu trabalho é vigiado, medido, avaliado, todos os seus passos são cronometrados, não há margem de erro, havendo será mínima. Acima dele, a margem de erro torna-se elástica porque acima dele é mais difícil encontrar alguém que diga: a partir de agora não tolerarei erros. Num país com tanta gente chamada Doutor há que fundamentar a perfeição. Para que inventámos o conceito de tolerância zero senão para que tudo funcione? Ando pelas ruas da minha cidade, algures entre a Gronelândia e os Mares do Sul, a constatar que alguma coisa não funcionou nos prédios emparedados, nas casas abandonadas, nas lojas devolutas, no vazio das ruas históricas e na tristeza conformada dos resistentes. O que ali não funcionou prospera na mediocridade dos shoppings com suas caixas self-service, na via verde do desemprego e da precariedade, na exploração gananciosa do mercado de trabalho, na incúria do desempregado que prefere a saudação da portagem automática ao mau humor do portageiro. Enquanto utente deste hospício só posso confessar que não suporto sorrisos de plástico, a estúpida maquilhagem de uma sociedade cada vez mais asséptica e assimétrica. A desigualdade. Enquanto funcionário, só posso tentar não falhar. Vivo nesta contradição de ter que adorar o erro não o suportando. Sou gado, uma máquina-gado.

4 comentários:

Anónimo disse...

Gostei muito.

Rui Pedro.

Marina Tadeu disse...

Força Minotauro. O desajuste é talvez o de ter nascido com o corpo de um touro e a cabeça de um homem.

hmbf disse...

Cá estamos, nos labirintos humanos da consciência.

Ivo disse...

"Se vou a um supermercado, evito as caixas self-service. (...) Não tenho Via Verde no carro e, dêem-me essa possibilidade, jamais preferirei a saudação das portagens automáticas à humana antipatia de um portageiro mal-humorado."
Menos mal, pensava eu que era a única pessoa a fazê-lo. Acrescento: não tenho facebook.