terça-feira, 24 de setembro de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #93


Os Nine Inch Nails (NIN) tiveram, senão outros, pelo menos o mérito de tornar popular o rock industrial, subgénero do rock dito alternativo. Em si, isto pode parecer uma contradição. Não é. Quando a contracultura extravasa as fronteiras do nicho onde germinou não se transforma necessariamente em erva daninha. Assim sucedeu com o projecto de Trent Reznor, um tipo que, para todos os efeitos, devemos considerar visionário. A diferença dos NIN está em conseguirem reproduzir melodias agradáveis no meio de muita distorção, transformando o lixo em arte, manipulando o ruído e elevando-o a uma condição harmónica digerível. Guitarras heavy, batidas electrónicas aceleradas, exaustivo trabalho de estúdio. Produzido em coadjuvação com o experientíssimo Alan Moulder, chamando por vezes Steve Albini ao nervo rítmico, The Fragile (1999) é um álbum duplo onde se tornam evidentes o solipsimo criativo de Reznor e uma poética musical ao mesmo tempo hipnótica e electrizante. As canções erguem-se de escombros melódicos, emergem da ruína e adquirem um ritmo contagiante, evocando criaturas em busca de um último reduto, de um refúgio mais regenerador do que protector. Ao voltar a escutar os dois CDs lembrei-me d’Os Viciosos de Abel Ferrara, alegoria vampírica sobre uma sociedade degenerada, vítima das suas próprias utopias. São imagens expressivas de um século exangue, princípio de um outro, o nosso, o actual, que teima em não endireitar-se. Na sua origem, o imaginário deste projecto, como o de outros por este inspirado, distancia-se da desumanidade de uns Ministry por recuperar para o fôlego das máquinas um temperamento gótico e uma postura romântica deveras apreciáveis. Daí o sucesso e a popularidade. Inteiramente merecidos, diga-se.

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