quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A TESOURA DO TEMPO

Ao distinguir a montagem tradicional da montagem digital, o cineasta Claude Chabrol afirma que «a beleza da montagem ‘real’ reside no facto de o erro poder ser irreparável; então, reflectimos antecipadamente». Esta necessidade de antecipar a reflexão à acção, tendo em vista evitar erros irreparáveis, como que desaparece com as possibilidades de manipulação oferecidas pelo digital. O que as novas tecnologias trouxeram à arte e, por consequência, à vida foi uma aparente descontracção. Digo aparente porque, na realidade, ela desaparece quando nos confrontamos com o erro e, porque desaprendemos a arte da reflexão, ficamos sem saber como nos comportar no confronto com as falhas. Podemos supô-lo reparável, mas os seus efeitos são imprevisíveis. O autor de Le Beau Serge acrescenta: «Com o suporte digital vamos ainda mais longe: um tipo fica sozinho em frente à sua máquina. / Depois, hoje em dia, tudo é complicado pelo frenesim da velocidade». O sublinhado é meu. Perante um tempo encurtado pela velocidade, a reflexão perde espaço e oportunidade. O pensamento desenraíza-se, inutiliza-se, descaracteriza-se. No palco da vida, o principal é estarmos aptos a desempenhar com agilidade um papel meramente técnico. É isso que esperam de nós, não esperam reflexão nem o ócio que a possibilitam, não esperam espírito crítico, esperam espírito prático. Ora, sem pretender dramatizar em demasia o problema, creio que estamos a caminhar para uma situação preocupante. A era moderna, caracterizada por um predomínio da razão face à ‘emoção’, tomando esta por fonte de erros, trouxe-nos a um estado em que o erro parece não existir perante a possibilidade de ser disfarçado. É a era das ilusões, a aparência reina sobre a evidência, torna-se ela mesma, maquilhada ou despudoradamente crua, o essencial. O virtual é real, o real perde interesse no infinito charco hipotético do virtual. Isto leva a um certo infantilismo colectivo, onde ninguém é responsável por nada porque as acções não tiveram a alicerçá-las a reflexão, foram apenas ecos vazios de uma vontade irreflectida, foram virtuais. Veja-se como reage (não reagindo) a população ao triste espectáculo das autárquicas que se avizinham. Pelas redes sociais, as pessoas entretêm-se com a comédia de cartazes ridículos, momentos de campanha inacreditavelmente absurdos, sem se darem conta de que a realidade é outra coisa bem diferente desta comédia constante. A realidade é que parte da coisa pública, parte deveras importante nas nossas vidas reais, ficará entregue nas mãos de gente cujo engenho para fazer passar uma mensagem é, no mínimo, inexistente. Pode alguém assumir bem um cargo político sem saber sequer fazer passar uma mensagem? O público diverte-se com a sua própria desgraça. Daí que não admire este massacre a que temos vindo a ser sujeitos por governos corruptos. Ele só é possível porque o povo lhe vai sendo indiferente, adormecido que anda com o festival de ilusões em que a vida se transformou. A indiferença vem do laxismo inspirado por essa perigosa noção de que tudo é disfarçável e remediável, de que o erro, afinal, a prejudicar prejudicará pouco porque nós nem sequer estamos próximos de ser por ele atingidos. Mas estamos. Mesmo que não queiramos, estamos no centro da arena, bem no meio do circo, e estamos como meros caniches amestrados. Que sejamos ou não aplaudidos é indiferente, o importante é sofrer o menos possível com as vergastadas do domador. Ou então fazer um esforço para que nem tudo seja em vão. Fazer um esforço.

2 comentários:

Luis Eme disse...

sim.

concordo com muito do que escreveste, Henrique.

parece que se caminha para a banalização de tudo, até da vida...

Marina Tadeu disse...

1. No caso das autárquicas, o riso pra mim é o triunfo da fome por bolo amandado à cara. Que esforço a fazer senão abrir a boca? Reflectir é tarefa tão abrangente que me escapa, sim. Sempre desconfiei dos iluminados que só elites propõem. Fico-me pelo instinto. Tão irracional como o de um caniche amestrado. Tão primário que me leva a suspeitar que a tirania de hoje não é assim tão diferente da de ontem, ou não ficava o vassalo sozinho face ao arado do suserano?

2. Ouvi dizer que um povo acordado tende a canibalizar o bolo, geralmente em linchamentos ou, se portugueses, em berreiro alarve. Depois elege um pai sem maneiras à mesa só para o ver arrotar a sua postazinha de pescada. Para um animal acossado, acordai é hino a pedir canção de ninar.

3. No meio do lixo virtual que diariamente consumo e para que diariamente contribuo, pois me agrada esse vácuo que tudo absorve e em que nada fica, encontrei no outro dia uma proposta formidável de um tal Alexandre Dale, que nunca me viu mais gorda, nem precisa: uma demissão de todos os portugueses que ainda têm emprego. Sem invocar mais valias, ideologias de qualquer espécie, ou greves gerais afiliadas a sindicatos com a respectiva cotação de corrupçãozinha, Alexandre subverteu as regras do jogo identificando sem maneirismos onde o poder “da coisa prática” reside.

4. Repare como digo “amandado” para me sentir mais do povo... É que tenho de ir pintar paredes para cima e para baixo para ganhar uns cobres. Amestrada, sim, que alívio!