terça-feira, 29 de outubro de 2013

FIGURAS


Wojciech Fangor, Postaci
 
Dizem-nos que vivemos acima das nossas possibilidades. Por isso cortam-nos no salário e aumentam a idade da reforma. Acusam-nos de privilégios que nunca tivemos, metendo na gaveta “direitos adquiridos” porventura supérfluos. Retêm o subsídio de férias e o décimo terceiro mês, flexibilizando despedimentos, rasurando feriados, aumentando impostos, diminuindo o tempo de férias. Queixam-se de uma população envelhecida, mas nada fazem em prol de uma renovação demográfica. Antes roubam às famílias a estabilidade que as sustenta, impossibilitando o convívio, a presença, a paz. As pessoas são quem menos conta na ditadura dos mercados, disfarçada de democracia por nos ser concedido o privilégio de assegurar a alternância democrática de quatro em quatro anos. A justiça, mais facilmente condena um ladrão de galinhas do que um criminoso de colarinho branco. Agravam-se assimetrias, a miséria passa a ser um dano colateral, importa garantir a saúde financeira dos bancos e as mordomias dos seus administradores. Porque os exemplos vêm de cima, temos uma presidente da Assembleia da República reformada aos quarenta e dois anos. Leva para casa 7255€ de pensão por dez anos de trabalho como juíza do Tribunal Constitucional, mais ajudas de custo no valor de 2133€. Num país onde o salário mínimo é 485€, a presidente ganha num mês o que a maioria dos trabalhadores precisa de um ano para receber. É só um exemplo de imensos que poderiam ser dados. Tudo isto é público, tudo isto círcula nas redes sociais, aparece nos jornais, vem à baila em debates difundidos na rádio e na televisão. Mas está tudo bem, não podemos pensar que não esteja tudo bem. Como podemos justificar que está mal se mais facilmente os portugueses se envolvem à pancada por causa de um jogo de futebol do que por este estado de coisas? Como podemos sequer supor que a injustiça social seja um facto se mais facilmente os portugueses se excitam com tricas domésticas entre figuras públicas do que com o assalto de que são diariamente vítimas? Facto indesmentível é a decadência da nação. O povo volta-se para onde quer. Se prefere o futebol, Fátima e fado a invadir a escadaria do parlamento reivindicando direitos, justiça, equidade, é porque nada tem para si tanto valor quanto o futebol, Fátima e fado. A crise actual afecta a chamada “classe média”, olhada com inveja e desprezo pelos excluídos. Quem nada tem enraivece-se contra quem pouco tem. O agravamento das assimetrias resulta, desta forma, numa espécie de justiça para com as classes menos abastadas, que agora se vêem na companhia de muito mais gente enquanto num topo inacessível os verdadeiros privilegiados do país cantam de galo e cagam para as galinhas atiradas para a base da capoeira.  O arrivismo que recrudesce é proporcional ao caciquismo que se instala, com suas oligarquias cada vez mais protegidas por um poder económico absolutamente desligado da sociedade. O trabalhador só existe porque o empresário garante a sua existência, é esta a mentalidade de quem manda. E o trabalhador aceita silenciosamente essa mentalidade, curva-se, não diz que sim nem que não, encolhe os ombros, mete as mãos nos bolsos e segue para o local de trabalho remoendo a raiva com sua mais ou menos apreciável competência. Depois cai-lhe o Estado em cima, como se não bastasse já lhe ter caído em cima o patronato, e cai-lhe também em cima uma justiça sempre mais célere a resolver os assuntos do Estado do que as queixas das pessoas. As queixas daqueles que ainda se queixam, porque a maioria já interiorizou não valer a pena o esforço. Conformam-se com a sua condição inferior e desprotegida como se vivessem num sistema de castas. Corrijo, não é como se vivessem. Vivem mesmo. Vivem num sistema de castas organizado em função de apelidos e laços familiares, credenciais valiosíssimas nesta sociedade onde o conhecimento e a competência não são determinados pelo mérito pessoal mas recebem-se de herança e por consanguinidade. Não obstante, está tudo bem, está tudo óptimo, ninguém parece incomodar-se com o assunto. Pelo menos não tanto quanto incomoda a vida doméstica de um professor de filosofia e de uma conhecida apresentadora de programas de entretenimento.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

DUEL IN THE SUN (1946)



De ascendência húngara, King Vidor (1894-1982) nasceu em Galveston, Texas. Ao contrário de André de Toth (1912-2002) e Michael Curtiz (1886-1962), nascidos na Hungria, Vidor assimilou à nascença os preceitos da indústria cinematográfica norte-americana. Após alguns filmes mudos, foi dos primeiros a aventurar-se no sonoro. Assinou vários westerns recomendáveis, tais como Billy the Kid/O Vingador (1930), The Texas Rangers/A Legião dos Atiradores (1936), Duel in the Sun/Duelo ao Sol (1946) e Man Without a Star/Homem Sem Rumo (1955). Duel in the Sun é, entre todos, o mais invulgar. Começa com a voz off de Orson Welles a narrar uma lenda indígena sobre uma flor selvagem. Segue-se uma frenética cena de saloon, com uma mestiça a dançar em cima do balcão e cowboys em delírio disparando para o ar. A mestiça abandona o local abraçada ao amante, para serem ambos assassinados pelo marido daquela. Scott Chavez, o marido traído, tem uma filha, de seu nome Pearl, que deixará ao cuidado de um antigo e malogrado amor. O crime passional que oferece o mote irá determinar o desenvolvimento da narrativa, toda ela delineada em torno da personagem sensual encarnada por Jennifer Jones (Pearl). O elenco conta com alguns rostos conhecidos que seria injusto não relembrar. Desde logo, a actriz Lillian Gish (Broken Blossoms or The Yellow Man and the Girl/O Lírio Quebrado), resgatada do cinema mudo sem grande sucesso; Walter Huston, o napoleónico T. C. Jeffords de The Furies/Almas em Fúria (1950), tem um papel menor; o mesmo não diremos acerca de Joseph Cotten (Citizen Kane/O Mundo a Seus Pés) e Gregory Peck (que mencionámos anteriormente a propósito de Billy Two Hats/Amigos Até ao Fim), representando dois irmãos substancialmente diferentes nos modos e no carácter que se apaixonam por uma mesma mulher: a mestiça Pearl Chavez (Jennifer Jones). O ménage à trois sugerido no filme não é tipicamente erótico. Pearl, cujo nome inspira já algo de precioso, não se divide apenas entre dois homens, ela vê-se entre dois modos de ser radicalmente opostos. Jesse (Joseph Cotten), o irmão mais velho, estudou direito, é formal, preocupa-se com o bem dos outros e luta por um mundo mais justo, age com a razão e pode oferecer à selvagem Pearl os modos que a transformarão numa senhora civilizada. Lewton (Gregory Peck) é o contrário de tudo isto, impulsivo, temperamental, rude e independente, não quer amarrar-se a nada no mundo, nem à família, nem a uma mulher, não hesita quando tem de agir e chega mesmo a provocar situações violentas. Que pode um homem destes oferecer a Pearl? Os grilhões do desejo, as amarras da paixão. Temos, assim, uma flor selvagem dividida entre a razão e a paixão. Todavia, este conflito não é dicotómico. Resolver-se-á de forma trágica num final próximo daquilo que consideramos hoje absurdo, com os dois amantes matando-se um ao outro, ela arrastando-se para ele enquanto ele a espera esvaindo-se em sangue. Uma tragédia shakespeareana do Velho Oeste, portanto. Vidor carrega nos tons quentes, faz as personagens transpirar e capta-lhes o suor, coloca várias cenas debaixo de um pôr-do-sol que leva, inclusive, uma personagem a referir-se aos estranhos tons que cingem o céu naquele dia. A tensão dramática adquire com a música de Dimitri Tiomkin uma expansividade que reflecte as vastas pradarias do Texas, contornadas por cordilheiras longínquas e místicas. Cada cena encerra um conflito que hiperboliza os sentimentos de Pearl, seja quando Lewton tenta domar um garanhão, seja quando a linha férrea invade o terreno selvagem da pradaria, seja quando o exército se coloca defronte a uma linha de cowboys que impedem o avanço do mundo moderno sobre os seus comportamentos selvagens. Vale a pena rever a sequência final, reparem nas feições de Pearl, no deleite dos movimentos, nas sombras, na música de fundo, no lobo que uiva à sua passagem depois de ela se curvar para beber água da mesma poça onde o seu cavalo mata a sede. A animalidade daquela mulher só desaparece depois de matar o amante e de rastejar para o seu regaço, uma fera ferida pela paixão e pela necessidade de agir contra os seus próprios instintos. De uma violência aterradora, esta cena:

LOU REED (1942-2013)

 
 

 

Na província era assim, não havia lojas de discos. As que havia, limitavam-se aos singles que tocavam na rádio e aos LPs mais vendidos. Arranjei forma de chegar ao ouro através de uma espécie de Círculo de Leitores dos discos. Não me recordo do nome do serviço, mas encomendei-lhes vários álbuns dos Led Zeppelin, do Neil Young, do Bob Dylan e uma colectânea: The Best of Lou Reed (1981). Foi a partir daí que desbravei caminho na direcção das fontes. Os três primeiros álbuns a solo de Lou Reed, depois da aventura fundamental e fundadora com os The Velvet Undergournd, são imprescindíveis: Lou Reed (1972), Transformer (1972) – produzido por David Bowie & Mick Ronson – e Berlin (1973) afirmam um compositor de canções mais exigente do que os álbuns dos Velvet permitiam supor. É verdade que a essência rock and roll se mantém, mas a inclinação noisy dos Velvet, transfiguradora da cultura underground nova-iorquina, acabará por ceder lugar a matrizes mais próximas do blues, da soul music e até mesmo da ópera. Reed instaura nesses primeiros álbuns uma dicotomia da qual nunca mais se libertará. Aqueles que apenas o olhavam segundo uma perspectiva revolucionária, passam a desconfiar da postura algo conservadora. Mas ser conservador, neste universo, é substancialmente diferente de ser-se obtuso. O que "assalta a vista" é a importância da escrita nas canções, uma importância que advém da influência exercida por escritores como Delmore Schwartz ou Edgar Allan Poe – devidamente contemplado em The Raven (2003). O próprio escritor de canções afirmará, numa entrevista datada de 1979: «quero fazer rock and roll que esteja à altura de Os Irmãos Karamazov». Compreende-se a ambição, aceita-se, elogia-se até. Três acordes bastaram a Lou Reed para, em inúmeras variações, com arranjos diversos e ambientes distintos, dar suporte musical às suas histórias. Chamam-lhe poeta, classificação com a qual não devemos iludir-nos. Poeta era o outro, de seu nome James Douglas Morrison. Lou Reed é contador de histórias, geralmente urbanas, mais ou menos depressivas, sobre indivíduos escorraçados por uma sociedade ameaçada pelo pânico da liberdade e do amor. Em 1992 publicou um dos meus álbuns preferidos, Magic and Loss. Ainda o adquiri na versão vinil, estava então a caminho de Lisboa. Fizeram-me sentido como nunca as suas canções. Principalmente esta espada de Dâmocles:
 


 

I see The Sword of Damocles
is right above your head
They're trying a new treatment
to get you out of bed
But radiation kills both bad and good
it can not differentiate
So to cure you they must kill you
the Sword of Damocles hangs above your head

Now I have seen lots of people die
from car crashes or drugs
Last night on 33rd st.
I saw a kid get hit by a bus
But this drawn out torture over which part of you lives
is very hard to take
To cure you they must kill you
the Sword of Damocles above your head

That mix of morphine and dexedrine
we use it on the street
It kills the pain and keeps you up
your very soul to keep
But this guessing game has its own rules
the good don't always win
And might makes right
the Sword of Damocles is hanging above your head

It seems everything's done that must be done
from over here though things don't seem fair
But there are things that we can't know
maybe there's something over there
Some other world that we don't know about
I know you hate that mystic shit
It's just another way of seeing
the Sword of Damocles above your head


sábado, 26 de outubro de 2013

NOBEL DA PAZ

 
 A NSA é uma das 16 agências da comunidade de serviços secretos dos EUA, recebeu quase 10,8 mil milhões de dólares no ano fiscal de 2013, emprega cerca de 40 mil pessoas.


O antigo número dois da CIA Michael Morrell defendeu, esta sexta-feira, que as revelações de Edward Snowden ajudaram os adversários dos Estados Unido e representaram a mais grave fuga de informação classificada na história do país.


Barack Obama estava a aproximar-se do fim de um muito aguardado discurso sobre o combate ao terrorismo, focado em questões controversas como o uso de drones para eliminar terroristas e a prisão de Guantánamo, quando uma mulher interrompeu o presidente americano e começou a gritar.
“Você é o comandante-chefe. Pode fechar Guantánamo hoje!”, disse a mulher. “Já lá vão 11 anos!”, gritou. “Estou disposto a dar um desconto à senhora que me interrompeu porque este é um assunto digno de ser tratado com paixão”, disse Obama. Mas o presidente americano retomou a palavra apenas para ser novamente interrompido, instantes depois. Benjamin terá gritado “Vai pedir desculpa aos milhares de muçulmanos que matou?”, numa presumível referência às vítimas de ataques de drones (aviões não-tripulados e comandados à distância). A presidência de Obama é responsável pela expansão destes “assassínios selectivos” no combate à Al-Qaeda e grupos associados com a organização terrorista. O secretismo destas operações e as dúvidas sobre a legalidade e eficácia das mesmas tem levado muitos críticos a comparar a política anti-terrorista de Obama à do seu antecessor, George Bush.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

TALL IN THE SADDLE (1944)




Ao que consegui apurar, a expressão tall in the saddle aplicava-se a indivíduos resolutos que se mantêm firmes e direitos quando montados nas suas selas. Pelo contrário, short in the saddle é o tipo falido. O filme de Edwin L. Marin (1899-1951) recuperou a expressão do Old West, mas acabou por levar com o título português A Indomável. Os holofotes ficam, assim, apontados para a performance de Ella Raines (1920-1988), filmada com uma volúpia algo desmesurada. Isto obriga-nos a dizer qualquer coisa sobre Edwin L. Marin, realizador praticamente esquecido que soube desenvencilhar-se muito bem com orçamentos reduzidos. Em 1950 assinou o excelente Colt. 45, com Randolph Scott. Já em Tall in the Saddle/A Indomável (1944) conseguiu juntar dois grandes actores fordianos: John Wayne e Ward Bond, este último num papel muito menos simpático do que aqueles que lhe foram oferecidos em My Darling Clementine/A Paixão dos Fortes (1946), Fort Apache (1948) ou The Searchers/A Desaparecida (1956). Também surge em Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray (1911-1979). Apesar dos holofotes apontados para Ella Raines, parece-me que o título original estava mais centrado na figura de John Wayne. Ao chegar a uma pequena cidade do Velho Oeste, Rocklin fica a saber que o rancheiro que o contratou foi assassinado pelas costas. O velho Dave, condutor de diligências com quem Dave travou amizade pelo caminho, coloca-o a par das divergências entre rancheiros na zona. Rocklin e Dave aproximam-se por uma indisfarçável misoginia. O velho Dave, agarrado à garrafa, compara as mulheres ao uísque: ambos enganosos, mas não passamos sem eles. Rocklin dispensa as comparações, simplesmente olha as mulheres de soslaio, afasta-se, não gosta de trabalhar com elas. Ironia dos destinos, acaba contratado por uma. Arly (Ella Raines) é conhecida como a amazona das redondezas. Dirige um rancho, é irascível, tem uma personalidade tão vincada e um feitio tão determinado como Rocklin. Apesar das desavenças, é inevitável que acabem juntos. Até ao beijo final, tentativas de assassinato, uma intriga de tipo policial, ardilosas manigâncias, trazem para o primeiro plano juízes corruptos (Ward Bond) e rancheiros cobiçosos. Paul Fix, que vimos em El Dorado (1966), de Howard Hawks, e trabalhou no argumento deste Tall in the Saddle, aparece num pequeno papel. Apesar das questões políticas recorrentes, da encenação eficiente e dos diálogos agradáveis, o que torna este western especial é a relação entre o misógino Rocklin (John Wayne) e a belatriz Arly (Ella Raines). Duas cenas tornam esta relação inesquecível e conquistam para o filme um estatuto peculiar. Na primeira, Arly, montada no seu cavalo sem sela, intromete-se no caminho de Rocklin. Ameaça Rocklin e instiga-o a sacar da pistola. Rocklin afasta o cavalo e segue caminho. Arly dispara. Rocklin, de costas voltadas, hesita, mas continua a caminhar. Arly volta a disparar uma segunda e terceira vezes contra a aparente indiferença de Rocklin, que segue caminhando de costas voltadas para os disparos. Chegado ao balcão do saloon para onde se dirigia, Rocklin respira fundo e pede um uísque. A sensação de alívio fica patente no seu rosto. Percebemos ter assistido a um dos mais caricatos duelos da história do western, uma jogada de póquer onde a impulsividade da mulher capitulou perante a impassibilidade do homem. Numa segunda cena voltamos a encontrar estes dois num contexto menos exposto do ponto de vista social. Arly tenta chegar a uma carta que foi enviada a Rocklin por uma rapariga que ela julga estar interessada nele. Rocklin apanha Arly a remexer os seus bens pessoais, retira-lhe a carta das mãos, rasga-a e deixa-a cair a seus pés. Volta-se e parte, deixando Arly revoltada. Esta atira-lhe uma faca, que vai espetar-se na porta da cabana onde se encontram. Ele volta para trás, agarra Arly e beija-a. Depois volta-lhe novamente as costas e parte. Ela fica destroçada, de lágrimas no rosto, a olhar para os pedaços de papel no chão. Nessa cena tipicamente romântica, eximiamente filmada com a luz de uma fogueira a iluminar o interior da cabana, o que impressiona é a desconstrução do carácter de ambas as personagens. A misoginia de Rocklin rende-se à perseverança de Arly e desmonta-se num beijo, ao mesmo tempo que a solidez de Arly desmorona-se nas lágrimas que ficam a lavar-lhe o rosto. Amam-se. E isso fica claro quando transpõem as muralhas que os enclausuram dentro de si próprios. Fica claro quando deixam de ser quem são para passarem a ser um só. Sem fusão nem confusão, apenas um beijo.

domingo, 20 de outubro de 2013

TORTURA

Toda a minha vida foi passada a calcular o mal menor, na merda da política, é isso sujar as mãos.
José Sócrates
 
 
A Revista do Expresso desta semana é, a todos os títulos, memorável. Clara Ferreira Alves, sobre quem Vasco Pulido Valente escreveu, em tempos, isto (convém não esquecer), entrevista o ex-PM José Sócrates, figura política ambivalente que, diga-se o que se disser, consegue com esta entrevista fazer algo de absolutamente inovador na política portuguesa contemporânea: falar claro. Isto não quer dizer que concordemos/acreditemos na sua versão dos acontecimentos. É apenas uma versão. Quer apenas dizer que admiramos a clareza, e já agora a inteligência, venha ela de onde vier. O próprio prefácio à entrevista, na crónica habitual da Pluma Caprichosa, não deixa grande espaço para dúvidas. Quem não se sente, não é filho de boa gente. Veremos se a reacção dos visados será tão sóbria e discreta, que é o mesmo que dizer calculista, como costuma ser. Os famigerados silêncios do Presidente da República, outrora tabus, sempre foram muito pedagógicos. Mas diz CFA:
 
«Este Governo, o de Pedro Passos Coelho, nasceu de uma infâmia. No livro “Resgatados”, de David Dinis e Hugo Coelho, insuspeitos de simpatias por José Sócrates, conta-se o que aconteceu. O então primeiro-ministro chamou Pedro Passos Coelho a São Bento para o pôr a par do PEC4, o programa que evitava a intervenção da troika em Portugal e que tinha sido aprovado na Comissão Europeia e no Conselho Europeu, com o apoio da Alemanha e do BCE, que queriam evitar um novo resgate, depois dos resgates da Grécia e da Irlanda. Como conta Sócrates (…), Barroso sabia o quanto este programa tinha custado a negociar e concordava com a sua aplicação, preferível à sujeição aos ditames da troika, uma clara perda de soberania que a Espanha de Zapatero e depois de Rajoy evitou. Pedro Passos Coelho foi a São Bento e concordou. O resto, como se diz, é história. E não é contada por José Sócrates, que um dia a contará toda. No livro, conta-se que uma personagem chamada Marco António Costa, porta-voz das ambições do PSD, entalou Passos Coelho entre a espada e a parede. Ou havia eleições no país ou havia eleições no PSD. Pedro Passos Coelho escolheu mentir ao país, dizendo que não sabia do PEC4. Cavaco acompanhou. E José Sócrates demitiu-se, motivo de festa na aldeia».
 
Podemos acreditar que tudo se passou exactamente assim. Para as nossas vidas, é indiferente saber o que há de verdade ou conspirativo nestes jogos palacianos. Ganhamos o mesmo, vão-nos ao bolso sem vergonha nem piedade. Mas em dia de manifestação, depois de umas autárquicas com os resultados conhecidos, esta água oxigenada que pretende lavar as mãos do PS é a cereja no topo do bolo. O invisível Seguro bem pode continuar entregue às suas reflexões. 39 anos de democracia praticamente divididos entre dois partidos, os socialistas e os sociais democratas, com o apoio do apêndice populista em múltiplas e sempre interesseiras versões, que quase não se distinguem pela sua tradição oligárquica, distribuindo tachos pelos lacaios bem comportados, promovendo eventos ruinosos, políticas desastrosas e conluios criminosos, para não falar da eterna promiscuidade entre poderes político e económico, dando cabo da indústria, da agricultura, do pequeno comércio, trouxeram-nos aqui, a isto, a este lugar tão precário e irritantemente ardiloso que é o Portugal dos coelhos e dos portas e dos sócrates e dos barrosos e dos santanas… Um Portugal enraizado nessa coisa que em certos sítios se chama corrupção, mas que por cá vai assumindo a curiosa e eufemística corruptela de amiguismo com seus BPNs, cavacos, limas, loureiros… Este país é mesmo uma anedota. Clara Ferreira Alves conta-a com estilo, José Sócrates é a personagem ideal. Foi, claralvesmente, objecto de campanhas difamatórias torpes e de repugnantes ataques ao homem, foi aquele saco de boxe que os portugueses adoram ter à mão para se esquecerem do quão mesquinhos são quando toca a pôr as acções em conformidade com o pensamento. Faz o que eu digo, não faças o que eu faço, é o lema preferido deste povo, que se pela por um corrupto a quem apontar para, enquanto o aponta, não ter que se apontar a si próprio. Como tantas vezes se escuta por aí, “pudesse eu e faria o mesmo”. São assim as pessoas, mais não se pode esperar delas. É por isso muito provável que quando voltarem a ser chamadas a exercer o mais nobre dos seus direitos cívicos, elas já tenham recalcado os relvas, os gaspares, os machetes, as ministras swap (isso é tudo muito complicado), enfim os sócrates. Daí que seja tão importante não permitir que a probabilidade se transforme em facto.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

AS ABELHAS


Faço uma pausa na leitura dominante e pego, finalmente, na última edição do Atual (n.º 2137, de 12 de Outubro de 2013). Antes de mais, agradam-me as ilustrações de Gonçalo Viana. Escritores em forma de abelha (ou serão borboletas?) com livros no lugar das asas e indumentária tweed. Sempre que imagino um escritor, é naquele estado contemplativo, melancólico, frágil e devaneador. Um deles tem tronco de livro com maçã estampada na capa, de onde sai uma minhoca erecta com inegável simbologia fálica. A mão direita não chega à minhoca, mas chegou claramente ao texto. O exercício provocatório a que se dedicaram os críticos literários do Expresso é engraçado, mas fica aquém das expectativas. Dois autores esquecidos, ou não suficientemente reconhecidos, é pouco para contrapesar tanto lixo semanalmente sobreexposto e promovido nas páginas da imprensa especializada (incluindo, claro está, as do Atual). O busílis é recorrente, chama-se critérios. Como se avalia se um escritor é sub ou sobrevalorizado? Pelas vendas? Pela mediatização? Pela atenção que os críticos lhe conferem? Estamos num campo de determinação da qualidade, suponho. Pelo que, por ora, valer-nos-á a sempre insuspeita palavra dos sábios. Acontece que as dificuldades surgem logo no primeiro deles. Clara Ferreira Alves embirra com Torga e afirma que valter hugo mãe «é um dos exemplos mais cómicos do cabotinismo literário lusitano». Concordar ou discordar é irrelevante, mas torna-se interessante entender o lado oposto da questão. Ao referir-se a autores subvalorizados (não tão lidos, falados, estudados quanto mereceriam), Clara Ferreira Alves cita O’Neill e, para confundir os leitores, os novíssimos. Basicamente, se bem entendi, pretende dizer-nos que a subvalorização dos ditos novíssimos merece ser mais valorizada. E argumenta: «subvalorização é coisa que não existe na “novíssima” literatura portuguesa. São todos sobrevalorizados…» Lá está, quando nos predispomos a concordar assalta-nos logo a dúvida crítica. Mas são todos sobrevalorizados quem? Os que os críticos do Atual e do Ípsilon e da LER (o resto pouco importa) chamam para as suas páginas. É um facto indesmentível, mas se Clara Ferreira Alves e comparsas de serviço começarem a fazer o seu trabalho “como deve ser” talvez o ar na latrina se torne menos irrespirável. Logo de seguida, José Mário Silva atira para o fosso da sobrevalorização Fernando Pessoa ortónimo. Entende-se a intenção e aceita-se o ultraje, mas presume-se uma leitura desajeitada do caso Pessoa. Não faz sentido, creio, separar este dos outros na leitura da Obra. Pessoa vale pela totalidade, é um daqueles casos em que desmembrá-lo seria catastrófico. Basta ler a prosa recentemente coligida de Álvaro de Campos para entender a felicidade daquela bulha interior, que coloca uns a dizer mal dos outros, estes a sobrevalorizarem aquele, que por sua vez subvaloriza aqueloutro, sem deixarem de ser todos um só. Em certo sentido, a obra pessoana reflecte com surpreendente estardalhaço irónico as próprias inquietudes do meio. Uma palavra final para agradecer a Pedro Mexia e a Ana Cristina Leonardo a referência a Teresa Veiga. Julgo nunca ter lido nada da autora nem me recordo de ter lido o que quer que seja sobre a mesma, mas é muito provável que tanto Mexia como Ana Cristina Leonardo tenham recenseado todos os  livros da «mais genial contista da literatura portuguesa contemporânea»* que «não dá entrevistas e não revela a sua verdadeira identidade». Escapou-me. Enfim, por mais atento que se esteja, não se pode ler tudo.
 
P.S.: na realidade, li um conto de Teresa Veiga. Não chega, eu sei, mas parece-me que tanto Mexia como Ana Cristina Leonardo, para não falar desse ícone dos novíssimos poetas portugueses que dá pelo nome de *António Guerreiro, podem estar a incorrer num crime de sobrevalorização.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

IN SUMMER NO ONE DIES

 

O meu amigo Luís Germano tem bons genes. Também esconde uma inventividade que, de quando em vez, lá vai partilhando, muito timidamente, com os que lhe são mais próximos. Foi assim quando, já lá irão uns dez anos, andámos a espalhar poemas pelas caixas de Multibanco de Caldas da Rainha, quais professores Bambo, sob a forma de anúncios publicitários. Felizmente ninguém deu por nada. A indiferença salvou-nos da detenção e, muito provavelmente, de acusações sempre infundadas e caluniosas por crimes de burla. Voltei a sentir-lhe o estro em saudosas crónicas radiofónicas lidas aos microfones surdos-mudos da RLO (Rádio Litoral Oeste). Guardei algumas dessas prosas para mais tarde recordar. Agora, o escritor resolveu sair um pouco mais da carcaça do homem e, dando as mãos ao talento do rebento mais velho, a ilustradora Bárbara Fonseca, deixou-se mostrar neste delicioso livrinho caseiro intitulado No Verão Ninguém Morre/In Summer No One Dies. O título bilingue tem razões de ser, algumas das quais importa sublinhar. A Bárbara é ilustradora de méritos reconhecidos (1st Place at Amadora’s BD Festival 2005; 3rd Place at Amadora’s BD Festival 2007; 2nd Place at Amadora’s BD Festival 2009; Honour Prize at Virus BD 2008) que, para mal dos nossos pecados, teve que se fazer à vida em territórios longínquos porque no seu país não cabe o dom com que a Natureza a brindou. Se julgam que exagero, confiram por aqui: http://barbara-fonseca.tumblr.com/. Deste modo, os textos que acompanham as ilustrações suportam duas línguas: a de Camões, talvez menos acessível pela origem zarolha, e a de Shakespeare, imposta ao mundo como sendo a todos compreensível. A partir do próximo Sábado, e até 13 de Novembro, os desenhos da Bárbara poderão ser apreciados na Ó! Galeria (Rua Miguel Bombarda, 61, 4050-380 Porto), assim como o livrinho poderá aí ser adquirido e os textos lidos. Bem merecem! As estórias de No Verão Ninguém Morre têm na sua raiz uma imaginação invejável. Partindo de elementos concretos associáveis às férias de Verão, o autor desenvolve pequenas narrativas onde a realidade é subvertida com um sentido plástico que aproxima estes textos do universo surrealista de um Mário-Henrique Leiria. É curioso notar, logo na introdução, um exercício de ironia sobre o olhar estereotipado que julgamos ser o dos estrangeiros sobre nós próprios. A escrita contorce-se neste sentido: ao mesmo tempo que de algum modo se auto-ironiza, Luís Germano expõe e satiriza aspectos culturais que dividem os povos europeus. Veja-se como se apresenta: «Nos poucos momentos em que não estou entregue ao ócio típico dos habitantes do sul da Europa, sou professor bibliotecário». Mais à frente, teremos a história de um turista que vem para Portugal passar férias, refastela-se num banquete de sardinhas gordas e cheias de ovas, para acabar, já no seu país, a expelir um cardume de sardinhas juvenis. Estes contos presenteiam-nos com fenómenos estranhos, transfiguram a alegria veranil com um sentido de humor ao mesmo tempo negro e inofensivo (como a estória do chapéu de sol descontrolado que, movido por um vento forte e súbito, acaba por perfurar os veraneantes que debaixo dele se protegiam). É comum encontrarmos situações destas onde as personagens são surpreendidas pelo acaso, um acaso que lhes mina as certezas e destrói os preconceitos, deixando-as à mercê da contingência. Depois temos aquele mundo tim-burtoniano de personagens com “defeitos de fabrico” apartadas da normalidade (o rapaz muito peludo ou o homem-lapa), ao mesmo tempo que temos uma normalidade que acaba por se revelar bastante perniciosa: é o caso do homem que seguiu à risca as instruções da médica para se proteger do sol, aplicando um protector de alto factor, acabando por ficar tão branco que se desfez num líquido leitoso absorvido pela areia. As ilustrações da Bárbara, com o seu traço sinuoso, fazem justiça a este universo, dialogam com ele de um modo dinâmico, projectando coerentemente as imagens que os textos nos sugerem. Olhar para as ilustrações coloca-nos numa posição complexa, é como se estivéssemos a ver o nosso pensamento no instante da leitura. Não negam o texto nem o absorvem, complementam-no com inquestionável riqueza estética. Havendo interesse no livro, poderão sempre contactar a Bárbara ou o Luís no Facebook ou a partir do contacto existente no link supra e neste da galeria Bootsbau: http://www.bootsbauproject.de/ .

MÁRIO DE CARVALHO


(...)
 
Assisti - com alguma melancolia - à ascensão e queda de glórias literárias e também - confesso que com um ricto de ferocidade - à fulminância, queda e obnubilação, de não poucos críticos e opinantes. Percorri proibições mais ou menos declaradas, impostas sucessivamente pelo Zeitgeist em vigor: proibição do formalismo, do psicologismo, do realismo, das categorias da narrativa, do trabalho sobre a língua... etc. Cada instante que passa é propício a reinvenções sucessivas e tem alardeado os seus preconceitos que logo são removidos na fase seguinte: não têm conta as ocasiões em que a corrente da consciência vem sendo reinventada, desde o século XVIII, de cada vez com algum alarido; de muito antes vem a vanglória do chamado best-seller que eu pessoalmente recordo desde os tempos imemoriais em que um certo Mickey Spillane saltava, ovante, todas as fasquias [para ele, a inspiração - dizia - era a conta bancária].
Isto se não quisermos falar de George Ohnet (O Grande Industrial) ou de Max du Veuzit (John Chauffer Russo) que ainda rutilavam há poucos anos. Mas o que me deixa sempre surpreendido é a descoberta repetitiva de autores que já tinham sido célebres em tempos pretéritos. Não será o caso de Virginia Woolf que apareceu primeiro na colecção Miniatura da Livros do Brasil, sem sucesso por aí além, até ser recuperada nos anos 80. Mas é o caso de Jorge Luis Borges, conhecido em tradução portuguesa, de Serafim Ferreira, nos anos 60 (para não falar das visitações em francês, língua cujo domínio, pelo menos passivo, era então frequente na tribo dos leitores) e que parece ter sido redescoberto - com gáudio - duas dezenas de anos mais tarde.
É também o caso de Katherine Mainsfield, Truman Capote, Marguerite Yourcenar, Sherwood Anderson, Dorothy Parker, Carson MCullers, que são redescobertos aí de dez em dez anos, com uma regularidade quase monótona. Estou à espera da redescoberta de John dos Passos que, ao que me consta, há muito tempo não é descoberto. Mas mesmo ontem verifiquei que um conto de Henry James que já deu origem a uma obra-prima do cinema - Os Inocentes, de Jack Clayton - e a uma ópera do mesmo nome de Benjamin Britten, e que já se chamou O Calafrio, foi agora de novo apresentada com o seu enigmático título de origem, traduzido à letra: O Aperto do Parafuso, não está mal para The Turn of the Screw. Daqui a dez anos, alguém se lembrará de o repor como A Volta do Parafuso.
 
(...)
 
Mário de Carvalho, excerto do texto «lido pelo autor na sessão de testemunhos sobre ele e a sua obra na Escritaria», in JL - Jornal de Letras Artes e Ideias, n.º 1123, p. 10.

domingo, 13 de outubro de 2013

IRMÃOS Collyer

Dei aqui conta de um dos melhores livros que tive o prazer de ler este ano. Hoje, recebi no e-mail esta generosa oferta do Rui Almeida:

IV
HOMER

Lá porque não me interessa
não significa que não entenda.
Homer Simpson

–//–

Para Eduardo Lago, pelo furto

 
Entraram na casa a vinte e um de Março
depois de forçarem as tábuas que tapavam a entrada
e depois de retirarem toneladas de objectos.
Meio século depois um funcionário
entendeu a sinergia e propôs
à UNESCO fixar aquela data
como o dia mundial da poesia.

–//–

 
Hoje doze sicómoros os recordam
num parque discreto.
Homer e Langley Collyer, nova-iorquinos.
Hoje fazem parte da linguagem e da terra:
«este quarto parece o dos Collyer!»
Foram ricos, excêntricos e sujos.
Foram recolectores e obsessivos,
foram grandes doentes e famosos.
Mas os sicómoros nada sabem
destes mexericos; a terra onde repousam só conta
que Langley e Homer Collyer
antes de tudo o mais são irmãos.

 
–//–

 
Está cego. O seu irmão alimenta-o
à base de laranjas. Em cada noite
sai em busca de todos os diários
e de todas as publicações.
«Quatrocentas laranjas por mês,
e ficas curado num instante, Homer.
E quando assim for tenho uma surpresa:
estou a salvaguardar o nosso tempo
para que tu um dia destes o leias.
Para que tu o leias e compreendas
o que vês e sobretudo para que não te assuste
tanta velocidade e tanto ruído».
 

–//–

 
Cento e três toneladas de lixo
(sem contar com vinte e cinco mil livros diferentes
E os corpos de Langley e Homer Collyer).
 

–//–

 
Túneis de papel por onde Homer,
paralítico e cego, não pode aventurar-se.
Langley continua a sair por causa da imprensa
e às vezes por causa da água de uma fonte.
Também cortaram a luz passado um tempo.
Mas disso o seu irmão não se queixa
e Langley está tranquilo.
 

–//–

 
O número dois mil e setenta e oito.
Por fim decidiram demoli-la.
«Melhor assim – disseram os vizinhos –,
este edifício não é mais do que lixo».
 

–//–

 
Homero – entre outras coisas – significa refém.
 

–//–

 
«Parece que o inválido morreu
de inanição e o outro sepultado»
declara o chefe Johnson à imprensa.
E assim foi a manchete.
Hoje podia ser que escrevessem «paralítico».
Já dizia Langley;
a evolução do mundo apalpa-se nos diários.
 

–//–
 

ancinhos, guarda-chuvas, bicicletas, carrinhos de criança, caixas e cofres, uma colecção de armas, candeeiros (de pé, de tecto e de parede), jogos de bolas, a capota de um landó; manequins, postais de raparigas pin-up, bustos de estuque, retratos a óleo, um fogão a querosene, frascos com vísceras humanas, centenas de metros de seda, brocado e damasco, alcatifas, tapetes, quadros, relógios, uma queixada de cavalo, instrumentos musicais (banjos, cornetas, acordeões, um clavicórdio, dois órgãos, cinco violinos e catorze pianos, verticais ou de cauda), partituras em braille, caixas de música, um antigo aparelho de raios X, instrumentos clínicos e cirúrgicos, comboios e aviões de brincar, o velho Ford T e a piroga do pai deles, Herman Collyer.

 
–//–

 
– Temos muitas coisas, disse Homer.
– É verdade, gritou Langley.
– Alegra-me ter-te, disse Homer.
– A mim também, gritou Langley.
– Homer?
– Sim, Langley?
– Estou um pouco atascado e temo muito que hoje não possa sair por causa da imprensa.

 
 

__________________

Nota:

Ver o artigo de Eduardo Lago no El País, de 22 de Novembro de 2009. http://elpais.com/diario/2009/11/22/eps/1258874809_850215.html

Basura (Editorial Delirio, 2011), Ben Clark
Trad. Rui Almeida

sábado, 12 de outubro de 2013

BACKLASH (1956)




Há uma dimensão política no western que nem sempre aparece devidamente interpretada. Por um lado, temos o mundo rural ocupado por latifundiários que exploram pequenas famílias locais, impondo-lhes a sua vontade montados em cowboys abrutalhados e desordeiros. Por outro lado, o mundo urbano, geralmente simbolizado na imagem do comboio, transborda de vício e corrupção, com a lei e a ordem em promíscuo conluio com empresários gananciosos e arrivistas. Os índios são o contrapeso desta sociedade ocidental emergente, defendendo as suas terras com métodos considerados selvagens e bárbaros pelo dito mundo civilizado. Deste modo, o Novo Mundo, visto à luz do Velho Oeste, torna-se o palco ideal para a exibição de heróis ambivalentes e isolados: o sheriff para quem a imposição da lei e da ordem são fulcrais numa sociedade assaltada pelo caos e pela desordem; o outlaw justiceiro, espécie de Robin Hood do Grand Canyon; o civil desencantado e desiludido com o colectivo, mas empenhado em responder a uma consciência moral fundada em valores e princípios de raiz cristã. No caldo da Guerra Civil, surgem-nos ainda alguns militares corajosos, outros impiedosos, poucos deles interessados em conhecer e interpretar o inimigo, fosse este um rebelde dos Estados Confederados ou um líder das Nações Índias. Curiosamente, não é raro encontrarmos entre estes rebeldes e os índios pontos de aproximação e de simpatia. O mal, no western, pode ter vários rostos, assim como o bem, não se lhe reconhecendo uma origem comum nem um desígnio universal. Aparece associado a comportamentos onde a liberdade individual se vê ameaçada por interesses políticos colectivos, numa perspectiva muito americana do mundo. Nem sempre é assim, embora me pareça legítimo configurar o western a partir destas generalizações. Sucede também que muitos destes filmes têm um claro propósito de entretenimento, são mais exercícios técnicos de um mercado produtivo do que expressões de sentimentos, emoções e perspectivas artísticas. Há deles bons e maus em ambos os lados da barricada. Backlash/O Sexto Homem (1956), de John Sturges (1910-1992), tem um pé em cada um desses lados. Não é um western político. Revela, antes pelo contrário, um lado sentimental que o liga aos grandes dramas familiares que vêm de tragédias clássicas como Édipo Rei. O herói, interpretado por Richard Widmark, que veremos posteriormente em excelentes westerns tais como The Last Wagon/A Última Caravana (1956) ou nesse épico inesquecível intitulado How the West Was Won/A Conquista do Oeste (1962), é um ex-rebelde em busca do pai desparecido. Jim Slater, assim se chama, está convencido de que o pai foi apanhado por um grupo de índios Apache em Gila Valley, local onde se encontrava, com outros cinco indivíduos, à procura de ouro. Slater pretende encontrar o único sobrevivente dessa emboscada, o sexto homem, que terá abandonado os seus companheiros à sorte dos índios em fúria. Acabará por descobrir que, afinal, o sexto homem é o seu próprio pai, um próspero rancheiro sem escrúpulos que se rodeia de pistoleiros para dominar a região onde se instalou com um nome forjado. Pelo caminho, Slater cruza-se com imensa gente e é obrigado a tomar decisões pouco convencionais. As peripécias que enriquecem o argumento não são irrelevantes, contribuem para aprofundar o lado psicológico desta personagem torturada pela verdade. A verdade que ele busca é, afinal, a verdade que ele menos queria encontrar. Ficamos perante mais um herói solitário, um homem em conflito com os do seu próprio sangue, que em nome da sua consciência moral terá de matar o pai. O que importa sublinhar nesta personagem é, precisamente, o enaltecimento de uma noção de justiça alicerçada num modo de entender o indivíduo e a sua relação com o mundo que o rodeia. Apesar de serem do mesmo sangue, pai e filho divergem na essência. Jim Bonniwell, o pai, interpretado pelo John McIntire que vimos em The Tin Star/Sangue no Deserto (1957), é dominado por uma maldade que caberá ao filho expurgar. Este sentimento de expurga, levado a cabo num contexto individualista, transforma Jim Slater na figura do bem que chega aos homens por via da sua busca isolada e pessoal. O bem, neste caso, não é imposto por forças externas ao indivíduo. É o indivíduo que a ele chega através da sua procura pessoal, independente, autónoma, a partir da sua experiência, a experiência de uma liberdade que, feitas as contas, é sempre o maior dos problemas e dos desafios que a política nos coloca.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

TOALHA DE MESA

Toalha de Mesa
Outubro de 2013
volta d' mar

Escrevo as palavras..., p. 3.

sábado, 5 de outubro de 2013

UNFORGIVEN (1992)



Rever Unforgiven/Imperdoável (1992) é como voltar a olhar para um quadro onde sempre se descobre algo de novo. As melhores obras de arte são inesgotáveis, oferecem-nos com uma generosidade inigualável infindos alimentos para o espírito. Este filme de Clint Eastwood (n. 1930) é uma dessas obras. Já aqui me referi a ele, recupero-o agora com uma perspectiva renovada que procurará acrescentar algumas notas ao que foi dito. Eastwood chega à personagem de William Munny após imensa experiência adquirida no género. Quer como actor, quer como realizador, moveu-se invariavelmente bem no território do Velho Oeste. Em certo sentido, o argumento de Unforgiven chega a ser convencional. Um fora da lei retirado que volta a pegar nas armas para ganhar algum dinheiro, convencido por um jovem empertigado da justiça do serviço. Afinal, a encomenda chega de um grupo de putas que pretende vingar a violência que foi exercida sobre uma delas. William Munny carrega o fardo da má fama, assassinou mulheres, crianças, homens velhos e novos, matou, como o próprio dirá, tudo o que rasteja no mundo, afastando-se dos domínios do mal para casar com uma jovem mulher que terá visto nele algo mais do que o horror de acções criminosas. Paira sobre esta personagem uma aura mística, a de um Oeste envelhecido, perdido algures na memória ou nas caricaturas publicadas por escritores mais fascinados com a dimensão lendária dos acontecimentos do que com a verdade. O primeiro plano é de uma beleza singular. Ao longe, no alto de uma colina, observamos contra o pôr-do-sol uma casa de madeira, uma árvore desnudada e a silhueta de um homem escavando uma sepultura. Logo a seguir somos transportados para um saloon onde, num dia de chuva e de lama, uma prostituta é esfaqueada no rosto. Este contraste assinala o desvio que a narrativa posterior irá aprofundar, ou seja, o abandono do paraíso para um regresso ao inferno. Verdade seja dita que o paraíso de Munny, conquanto possa ser caracterizado pela prática do bem, uma dedicação total à família (dois filhos pequenos), a pacificação da raiva e do ódio, não deixa de encontrar na pocilga imunda onde tenta separar porcos com febre de porcos saudáveis a metáfora ideal para um mundo onde a justiça e o bem nem sempre andam lado a lado. Como nos aperceberemos, a maldade de William Munny não é desprovida dos valores que, de certo modo, suportam a justiça. Ao passo que o sheriff Little Bill, interpretado por um irrepreensível Gene Hackman, denota nos seus procedimentos justicialistas uma conduta desprovida de qualquer razoabilidade moral. Trata as putas como se fossem gado, tortura até à morte homens inocentes, impõe a ordem mais em função de conveniências pessoais do que segundo critérios inscritos na lei. No fundo, é a esta prática da justiça que se opõe o ódio, a raiva, o mal de William Munny. Mas Unforgiven/Imperdoável (1992) está longe de ser um western moral na linha daqueles em que parece inspirar-se, embora o argumento revele uma inclinação filosófica para problemas axiológicos que a acção disfarça. O que mais me toca neste filme é a fragilidade de um homem que não logra libertar-se do passado, que o carrega dentro de si como uma cicatriz invisível, um homem cativo da consciência e perdido numa espécie de labirinto onde os caminhos para o bem e para o mal acabam por se entrecruzar. A chuva que cai sobre a terra, transformando-a na lama onde se enterram as botas daquele que caminha, por vezes enregelado e febril, outras vezes confiante e seguro, é o elemento plástico que transfigura essa intersecção dos opostos. E é curioso constatar o quão discutível se torna a coragem deste herói que não volta as costas à vingança de um amigo torturado até à morte, nem da puta esfaqueada que o fez voltar a pegar no coldre; discutível por também ela espelhar a angústia de um homem face à morte, agonizando em delírios momentâneos o medo que lhe aparece sob a forma do rosto da sua falecida mulher... coberto de vermes.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

AUTÁRQUICAS 2013

Camarada Van Zeller, diz que o povo foi a votos. Algum. Feitas as contas, podemos concluir que os mortos não votaram. Nem os emigrantes, sobretudo aqueles que seguiram os bons conselhos do actual primeiro-ministro. Também não sabemos se Alexandre Soares dos Santos votou. É provável que a sua autarquia fique na Holanda. Sublinhemos, antes de mais, o civismo com que decorreu mais este sufrágio universal.  Sobretudo em Alpedriz, onde a liberdade foi de tal forma estridente que as urnas nem chegaram a sentir o cheiro aos boletins de voto. Dito isto, cabe-nos reconhecer que a coligação votos nulos/votos brancos, com os seus 6,82%, são a quinta força política do país. Mereciam, pelo menos, a junta de Alpedriz. Olha, dava um provérbio. Vou propô-lo para o Quem Quer Ser Milionário. Muito abaixo daquela coligação improvável, ficaram os famigerados independentes. Temos de tudo um pouco. Ressabiados, excluídos, oportunistas, sonhadores e, claro está, gente com um profundo sentimento cívico como o camarada Rui Moreira - que será sempre independente, pendure-se nele Paulo Portas, esse campeão dos municípios, Rui Rio ou o António-Pedro Vasconcelos. Os independentes que não gostam dos partidos porque deles se sentiram afastados e por eles se sentem abandonados, devem agora estar orgulhosos. Além de Rui Moreira, têm entre eles Paulo Vistas, fidelíssimo enteado do recluso Isaltino Morais, vencedor entre vencedores que consegue ganhar câmaras sem precisar de a elas concorrer. Como a independência tem as costas largas, há de tudo nesta maré libertária. Mas os grandes vencedores foram outros. Desde logo, o PSD. Com este acto eleitoral conseguiu distrair por breves instantes as atenções sobre si próprio e sobre a sua desastrosa política governamental. De Rui Machete, esse exemplo de maturidade que a academia social-democrata tanto ansiava, nem se houve falar. Já Maria Luís Albuquerque parece ter sido engolida por um swap, certamente de origem benigna. Ao pé deles, Fernando Seara estará com os dois pés e a quatro mãos a ver Lisboa por um canudo, o que, reconheça-se, é bem melhor do que vê-la na perspectiva do Todo-Poderoso de Oeiras: aos quadradinhos. Outro grande vencedor da noite é Alberto João Jardim. Os analistas políticos têm a fatídica tendência de olhar para estas coisas sempre pelo prisma da derrota. Na realidade, o que importa na Madeira não são as câmaras que se afastaram do jardinismo, mas sim as que o jardinismo logrou preservar apesar da campanha suja que o contenente tem perpetrado sobre o seu fiel jardineiro. Passos Coelho já tinha avisado: que se lixem as eleições. Perante o que sucedeu no Domingo passado, sentimo-nos tentados a julgar que as eleições responderam-lhe à letra: que se lixe Passos Coelho. Mas você, camarada, sabe que não é assim. Sabe você e sabe a sua senhora. Nos últimos anos, por culpa da frugalidade apregoada por Cavaco, morreram à fome ou ficaram exangues e incapacitados milhares de sociais-democratas. Muitos, imensos, terão emigrado para terras longínquas. Outros tantos andam a comer papas e fazem fila à porta do Banco Alimentar. Não se podia esperar que estes mártires da austeridade se dessem agora ao luxo de prescindir de um Domingo para exercerem o privilégio obtuso da democracia burguesa que é o direito ao voto. Demos pois os parabéns a Carlos Abreu Amorim, que conseguiu mais votos do que Manuel Almeida – o homem que quer formar ninjas para patrulhar as ruas de Gaia. E parabenizemos igualmente Moita Flores, por poder dedicar-se a tempo inteiro à escrita de telenovelas. E batamos palmas a Menezes, que contra os sulistas e elitistas do país ainda vai conseguir convencer Woody Allen a filmar numa das 5 câmaras conquistadas pelos amigos do CDS. Sendo sempre o melhor da festa o dia seguinte, demos também os parabéns ao povo de Caldas da Rainha. Conseguiram fazer o que a maioria do país não consegue, oferecer a sua confiança a uma equipa que logo pela manhã de segunda-feira fez questão de dar um ar de sua graça e competência com duas tampas de esgotos a saltar, quais rolhas em garrafas de champanhe, em plena Rotunda da Rainha. Uma palavra de conforto, porém, para os camaradas do Bloco. Duas cabeças não pensam necessariamente melhor que uma. Mas isto é como diz o povo: a ganhar se perde e a perder se banha. Ou será ganha? Tenho que perguntar à Manela.