quarta-feira, 2 de outubro de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #94



Por falar em Alan Moulder, o produtor britânico que referi a propósito dos Nine Inch Nails, lembrei-me dos The Jesus and Mary Chain. Psychocandy (1985), álbum mítico da banda escocesa, tem o dedo de Moulder em pelo menos um tema. Mais tarde a colaboração revelou-se bastante eficiente. Mas este registo memorável tem outras curiosidades. À época, o baterista dos The Jesus and Mary Chain era Bobby Gillespie – mais tarde vocalista dos Primal Scream. Muita gente interroga-se sobre a relevância de um álbum como Psychocandy, eu não tenho dúvidas em colocá-lo entre os melhores acontecimentos dos meados da fatela década de 1980. O que a banda escocesa fez por esses dias está ao nível do que os The Velvet Underground lograram no termo da década de 1960 com White Light/White Heat. E isso talvez seja apenas compreensível trinta, quarenta anos depois. A estrutura dos velhos blues é como que a rede sobre a qual guitarras delirantemente distorcidas brincam aos trapezistas, apoiadas por uma lamentação que já não é a do humilhado e ofendido, mas antes a de uma juventude estropiada por um sistema que coloca sobre os ombros dos cidadãos o onerosíssimo peso das espectativas. Tal como fazia sentido nos poemas de Ian Curtis, o mito de Sísifo readquire um sentido viral na expressão deste tédio engendrado pelos irmãos Reid. A consciência do absurdo trata-se com o feedback dos amplificadores, o ruído e a distorção que acompanham o quotidiano urbano. Resulta numa transfiguração perfeita da solidão a que estamos condenados quando não nos ajeitamos aos trejeitos da maioria. Verdadeira acupuntura do ruído.

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