segunda-feira, 21 de outubro de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #95



Haverá na história da música popular poucos conceitos mais dúbios do que o de rock alternativo. Tudo cabe no saco. Na realidade, não existe nenhum... rock alternativo. O que existe é uma inclinação para remar contra a corrente, atitude desenfastiante e, quando resulta, admirável. Foi assim que em meados da década de 1990 pudemos encontrar, entre o rock de guitarras distorcidas do grunge e a electrónica melancólica do trip-hop, uns tipos a escrever canções para baixo de duas cordas e saxofone (Morphine), uns outros a dar corda à dança com contrabaixo e sintetizador (Soul Coughing) e, por cima de todos eles, estes Squirrel Nut Zippers! de Jim Mathus e Katharine Whalen. Muito mais arraigados ao jazz do que ao rock, são alternativos por terem vindo propor a revisão de uma alegria e de um humor musicais que andavam esquecidos. É por isso que nos lembramos de Fats Waller quando os ouvimos, embora, por vezes, lhes reconheçamos a matriz bluesy de uma Bessie Smith. O swing dos Zippers! é contagiante, transporta-nos para um circo de banjos, instrumentos de sopro, ukeleles, guitarras límpidas e, a espaços, violinos ilusionistas (Andrew Bird ele mesmo, o homem de serviço). O tema Blue Angel, o penúltimo, tem a ciganice toda do leste. Faz sentido. E a gente chega ali com a terrível sensação que se tem quando nos aproximamos do fim de uma festa que queríamos interminável. Hot (1996) é um álbum que se sugere a toda a gente. Li algures que mais do que homenagearem o jazz dos anos 20/30, os Squirrel Nut Zippers! gozam com ele. Também li algures que em tempos chamaram palhaço a Louis Armstrong por querer proporcionar momentos de alegria a plateias brancas. Há gente para tudo. E, bem vistas as coisas, que melhor forma de homenagear a música desses tempos do que perder-lhe o respeito que ela soube não ter para divertir, à época, quem procurava alguma alegria?

2 comentários:

Marina Tadeu disse...

Na sua autobiografia, Miles Davis presta devida homenagem musical a Satchmo mas também o acusa de não passar socialmente de um “grinning black” (código norte-americano para submissão ao branco pela via de dentes escovados) e de assumir uma postura ultra-inofensiva para alargar audiências. Miles optou pela atitude oposta mas claro não é nem a (discutível) submissão de um, nem a (discutível) rebeldia do outro o que dos dois fica.

hmbf disse...

Ora bem, haja quem me compreenda :-)