sábado, 30 de novembro de 2013

AMORGOS

COMO SE FAZ UM OVO ESTRELADO?

 
Em vão procurei mais informações. Frederico Lourenço refere-se a Semónides de Amorgos com a mesma imprecisão que encontramos onde quer que busquemos informação sobre o personagem. Para a história ficou a Sátira contra as Mulheres, inventário de tipos femininos onde se compara a mente da mulher a vários animais: porca, raposa, cadela, burra, doninha, égua, macaca, abelha. Espanta-me que a mosca tenha escapado, assim como a cabra ou a vaca. A formiga é dada a comparações menos depreciativas. Por outro lado, creio que só uma mulher poderia escrever estes versos acerca das congéneres. A suposta misoginia de Semónides acaba por ser uma declaração da fraqueza masculina. Leia-se a última estrofe:
 
 
(…)
Por desígnio de Zeus todas estas raças
existem e permanecem entre os homens.
Pois o maior flagelo que Zeus criou foi este:
as mulheres. Se parecem úteis a quem as tem,
a esse em especial acontece a desgraça.
Quem vive com uma mulher nunca passa
o dia inteiro bem disposto,
nem depressa escorraça a Fome de casa,
maligna inquilina, inimiga dos deuses.
Quando um homem parece estar a divertir-se
em sua casa, por vontade divina ou graça humana,
ela lá encontra com que se chatear e arma-se para a zaragata.
Pois onde há mulher, os homens nem podem
receber amistosamente um convidado em casa.
Aquela que parece mais honesta,
essa é a que comete as maiores tropelias.
O marido fica de boca aberta, enquanto
os vizinhos gozam, vendo como está enganado.
Cada homem quererá louvar a sua mulher,
mas quererá também censurar a do outro.
Até parece que não gastamos todos do mesmo!
Pois este é o maior flagelo que Zeus criou,
agrilhoando-nos com correntes inquebrantáveis,
desde o tempo em que Hades recebeu
aqueles que combateram por causa de uma mulher.
 
Não tecerei considerações sobre estes versos, que julgo, inclusive de um ponto de vista meramente estético, bastante louváveis. Onde se diz Até parece que não gastamos todos do mesmo! poderia dizer-se Até parece que não gostamos todos do mesmo! Não viria mal ao mundo por isso, já que, de facto, não gostamos todos do mesmo. E, por vezes, o que parece é.
 
Versos copiados de Poesia Grega de Álcman a Teócrito, trad. Frederico Lourenço, Livros Cotovia, Maio de 2006, pp. 25-26.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

«COMO DÓLMENES EM VOLTA DA MINHA INFÂNCIA, OS VELHOS»


Como dólmenes em volta da minha infância, os velhos.
Jamie MacCrystal cantava para si,
Uma canção de pé quebrado, sem melodia nem palavras;
Dava-me uma moeda a cada dia de pensão,
Dava migalhas caridosas aos pássaros do Inverno.
Quando morreu, assaltaram-lhe a pequena casa de campo,
Colchão e caixa do dinheiro desfeitos e revolvidos.
Só o cadáver não perturbaram.

Maggie Owens vivia rodeada de animais,
Uma rafeira e uns cachorritos trementes,
Até no quarto berrava uma cabra.
Era uma coscuvilheira temível,
Pregoeira acerada de todo o povoado:
Diziam-na bruxa. Tudo quanto descobri
Foi uma desolada necessidade de escárnio.

Os Nialls viviam numa azinhaga montanhosa,
Onde cresciam urzes, renques de dedaleiras.
Todos cegos, com pensão por cegueira e acesso remoto,
Olhos mortos, súbitos como serpentes, quando alguém
Entrava para se abrigar de um aguaceiro na serra.
Debaixo de um carreiro rochoso cantavam os grilos
Até brilhar de novo um sol enlodado.

Mary Moore vivia num forte em ruínas,
Famoso como Pisa pela sua empena inclinada.
De avental e botas, marchava pelos campos,
Conduzia o magro gado desde um estábulo enlameado.
Um bastião da agressividade, adormecia
Em cima da cartilha de histórias românticas,
Sonhava com ciganos rituais amorosos, selados à luz do fogo.

O bruto do Billy Eagleson casou com uma criada católica,
Quando toda a família faleceu.
Dançávamos à sua volta, gritando «Prò Diabo co reizinho»,
E desviávamo-nos do arco do seu arbusto.
Abandonado pelas duas fés, pouco se mostrava preocupado,
Até que os tambores d'Orange troaram pelo Verão,
Com o brilho agressivo de chapéus e de faixas.

Cura e doutor arrastaram-se para os servirem,
Com neve pelo joelho, ou no calor do Verão,
De estrada pra quelha, caminhos de cabras,
Sorvendo doloridos o ar dos montes.
Às vezes, achavam-nos os vizinhos,
Guardiães mudos de um fogo apagado,
De repente lançados no molde da morte.

John Montague, in Estradas Secundárias - doze poetas irlandeses, selecção, posfácio e tradução de Hugo Pinto Santos, Artefacto, Junho de 2013, pp. 41-43.


P.S.:

Ancient Ireland, indeed! I was reared by her bedside,
The rune and the chant, evil eye and averted head,
Fomorian fierceness of family and local feud.
Gaunt figures of fear and of friendliness,
For years they trespassed on my dreams,
Until once, in a standing circle of stones,
I felt their shadows pass

Into that dark permanence of ancient forms.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

LIVRARIA

 
Rua Prof. Luís Azevedo, nº37 , 8600-617 Lagos
Qui - Sáb: 16:00 - 20:00
282 084 959

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

LAST TRAIN FROM GUN HILL (1959)

A mulher do Marshal Matt Morgan, de ascendência indígena, regressa com o filho de uma visita à família instalada nas reservas. É abordada por dois cowboys que tenta afastar, deixando na face de um deles a cicatriz de uma chicotada. A charrete que conduz despista-se, os cowboys aproveitam o despiste para a deter e violam-na. Não assistimos à violação. Esta é sugerida por uma camisa rasgada, o tronco a descoberto, gritos. Entretanto, a câmara volta-se para o filho da vítima, que consegue escapulir-se com os cavalos dos criminosos. Enquanto estes acontecimentos têm lugar, Matt Morgan entretém-se a contar histórias de duelos antigos a um grupo de miúdos que lhe perguntou pelo filho. O interesse das crianças é subitamente atalhado pela chegada daquele. O resto é previsível. O Marshal mete-se a galope na direcção do local do crime, onde irá encontrar a mulher já morta. O maior desafio que um filme nos coloca é não o olharmos como olhamos para a vida. A vida obriga-nos a um pragmatismo apenas interrompido quando os acidentes estimulam o espanto. Um filme pode ser uma sucessão de acidentes que perpetuam durante largos minutos esse espanto. Last Train from Gun Hill/O Último Comboio de Gun Hill (1959), de John Sturges (1910-1992), coloca frente a frente Kirk Douglas e Anthony Quinn, dois actores cuja presença é suficiente para garantir um certo alvoroço. Mas nos filmes de Sturges a representação raramente se impõe enquanto elemento mais atractivo. O início deste filme é paradigmático.  Kirk Douglas é Matt Morgan, o viúvo a quem caberá descobrir os assassinos da sua mulher, dividido entre o dever da lei e a vontade de vingança. Anthony Quinn é Craig Belden, fazendeiro de sucesso, pai de Rick Belden, o violador que ficou com a marca do chicote na cara. Morgan e Belden são amigos de longa data, separados por percursos de vida diferentes. Reencontram-se agora nesta trágica circunstância. Um procura proteger o filho da forca, o outro tem que fazer justiça. Estes dramas, tão frequentes nos westerns, são porventura mais raros na chamada vida real. É o tipo de situação que exemplifica conflitos morais sobre os quais a filosofia sempre teve muito a dizer. Mas o cinema, enquanto arte, transforma-os em algo mais. Não deixando de motivar reflexões diversas, estes dramas têm o propósito claro de atrair a atenção do público (entendido aqui na sua mais estrita condição de espectador). A sedução é inerente às dúvidas motivadas pelo contexto, as quais podem ser formuladas na espectativa hipotética de pensarmos: o que faríamos de fosse connosco? A sedução não garante a arte. O que transforma este tipo de discurso numa forma de expressão é o modo como os elementos se articulam para nos provocar emoções que escapam à racionalidade do discurso. Daí que nos incomode uma cena supérflua como aquela em que o Marshal Matt Morgan, já com Rick Belden algemado à cama onde aguardam pelo último comboio de Gun Hill, expõe o seu prisioneiro ao fogo trocado entre defesa e acusação. É como se estivesse a fazer do réu um escudo. No fundo, se quisesse mesmo levá-lo à justiça não faria aquilo. E se a intenção era matá-lo, tinha a pistola na mão. Digamos que o seu desejo de vingança pretende ver Rick Belden morto, mas a consciência do dever impele-o a levar Rick Belden à justiça. A mesma inquietude é motivada por Linda (Carolyn Jones). A amante de Craig Belden coloca-se do lado do Marshal, auxiliando-o contra o amante e contra o enteado. Movida, talvez, pelo rancor, ela não quer o bem de uns nem o mal de outros, procura apenas afirmar a sua autonomia numa cidade onde todos parecem dependentes e servis. Este desejo de afirmação, demasiado convencional para que o consideremos artístico, afasta-se das convenções tal como o comportamento de Matt Morgan: são erupções do ser na armadura do dever. Em 1959, Kirk Douglas já tinha feito todos os filmes que o consagraram. Estava no auge da sua carreira. Anthony Quinn também tinha feito Viva Zapata! (1952) e Lust for Life (1956), filmes onde arrecadou dois oscars (no segundo, curiosamente, contracenando com Douglas). Eram duas estrelas incontestáveis no universo da representação. Este western patenteia os pergaminhos, deixando implícitas outras artes que não são meramente representativas. Marcas que permitem dar expressão a sentimentos e emoções aparentemente contraditórios, não se limitando a transfigurar a vida – tornando-a arte.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

DA LUZ


Nunca recebi tantos parabéns no meu dia de anos como este ano. Culpa minha, esqueci-me de desactivar o Facebook nesse dia (foi o que fiz noutros anos). Reparo agora que na página do saudoso Torquato da Luz são igualmente muitos os parabéns, votos de felicidades e até de dias bons. Portanto, vivo ou morto o ente facebookiano é merecedor da mesma atenção. Esbatem-se fronteiras definidoras de conceitos, o mundo metamorfoseia-se num vazio de conhecimento do outro que o reduz a mera identidade virtual. Desejam-se dias felizes aos mortos como se estivessem vivos, vida e morte passam a estar ao mesmo nível, tal como presença e ausência, proximidade e distância. Estamos ali no corpo de uma fotografia, de um perfil, músculos, nervos, órgãos vitais transformados em pixéis e códigos informáticos a partir dos quais mostramos que sentimos, que somos gente. Qualquer dia fazem-se filhos assim, mortos ou vivos. E deles trataremos como das galinhas no Farmville.

domingo, 24 de novembro de 2013

UMA CANECA DE TINTA IRLANDESA

Hão-de permanecer misteriosas as condições que fazem da Irlanda um viveiro de excelente literatura. Quatro Prémios Nobel sublinham o fenómeno (William Butler Yeats, George Bernard Shaw, Samuel Beckett, Seamus Heaney), mas não lhe garantem justiça. Basta pensar que Oscar Wilde, James Joyce e Patrick Kavanagh não mereceram a distinção, para não falar de clássicos como Jonathan Swift e Laurence Sterne. Flann O’Brien, pseudónimo de Brian O’Nolan (1911-1966), é outro que merece lugar cativo no panteão irlandês. Herdeiro da tradição satírica legada pelos melhores textos de Swift e Sterne, encontra no absurdismo de Beckett e no experimentalismo de Joyce os pilares de uma escrita avessa a convenções literárias e a um academismo castrador e cristalizador da liberdade criativa. At Swim-Two-Birds, romance originalmente publicado em 1939, considerado por muitos a sua obra-prima, foi finalmente traduzido para português por Maria João Freire de Andrade. Publicado pela Cavalo de Ferro, surge nesta edição com o título alternativo Uma Caneca de Tinta Irlandesa. A páginas 78, percebemos a origem do título original - «igreja de Snámh-dá-én (ou seja, At Swim-Two-Birds)» -, com fortes ligações à mitologia do Ulster que, de facto, seria contraproducente procurar traduzir para língua portuguesa. De resto, todo o romance mantém uma proximidade com estas figuras mitológicas e lendárias, provenientes de espaços geográficos e ambientes culturais ricos em histórias onde germinaram infindas personagens. É na relação com as personagens que Flann O’Brien desenvolve uma narrativa onde se emaranham mundos ficcionais paralelos, deslocando o leitor da realidade para um universo que, não estando inteiramente desligado da mesma, se afasta dela para a observar de um modo talvez menos interveniente. Temos, assim, um jovem ocioso que escreve um romance sobre um escritor sofrível contra o qual se rebelam as suas personagens, ganhando estas uma vivacidade comparável à do autor. Desta forma se transpõem eventuais fronteiras entre criador e criado, realidade e ficção, facto e mito. O resultado é, por vezes, hilariante, como na cena final do julgamento do pobre escritor com as suas personagens a serem, ao mesmo tempo, juízes, júri e testemunha, num rol de queixas onde se incluem as de uma vaca que não foi ordenhada com regularidade no decorrer da narrativa. A autonomia das personagens face ao autor subverte modelos tradicionais de escrita, ao mesmo tempo que nos impele, na condição de leitores, a acompanhar o movimento introspectivo sugerido logo nos primeiros parágrafos. Aquele retiro para a privacidade da mente, a predisposição para a vida contemplativa, capaz de nos oferecer um livro com «três inícios completamente diferentes, inter-relacionados apenas na presciência do autor», sugere uma deslocação do plano lógico para o plano absurdo, onde o nonsense se transforma em lei e sentido. Espanta que tais artifícios formais não tornem o livro ilegível. Antes pelo contrário, Uma Caneca de Tinta Irlandesa lê-se com agrado e interesse da primeira à última linha, muito por culpa do excelente sentido de humor de Flann O'Brien. Por vezes parece pretender satirizar a «natureza da literatura contemporânea», mantendo-se bastante actual nesse propósito, mas de um modo geral acaba por satirizar a natureza de todo o trabalho intelectual. Os apartes que acompanham a narrativa indiciam essa intenção, percebendo-se neles o poder terapêutico de uma boa cerveja e da preguiça. Neste sentido, parecem coincidir as intenções do autor com as intenções da personagem:
 
Afirmou-se que, pese embora o facto de tanto o romance como o teatro serem exercícios intelectuais agradáveis, o romance é inferior ao teatro, já que carece dos acidentes externos à ilusão, induzindo frequentemente o leitor a um vil engano e a preocupar-se genuinamente com o destino de personagens ilusórias. As peças de teatro são consumidas de um modo saudável por grandes massas em lugares públicos; o romance é auto-administrado em privado. O romance, nas mãos de um escritor sem escrúpulos, pode ser despótico. Em resposta a uma pergunta, explicou-se que um romance satisfatório deve ser um embuste evidente, o qual pode ser regulado livremente pelo leitor, a nível de credulidade. É pouco democrático induzir as personagens a serem boas ou más, pobres ou ricas. A cada um devia ser dada a possibilidade de ter uma vida privada, autonomia de decisão e um padrão de vida decente. Isso seria criar a dignidade, a satisfação e um serviço melhor. Seria incorrecto dizer que conduziria ao caos. As personagens deveriam ser permutáveis entre livros. Todo o corpo da literatura existente devia ser visto como um limbo a partir do qual autores perspicazes poderiam retirar as suas personagens à medida das suas necessidades, criando outras apenas quando não conseguissem encontrar um fantoche já existente e adequado. O romance moderno devia ser em grande parte uma obra de referência. A maior parte dos autores passa o seu tempo a dizer aquilo que já foi dito antes – e, regra geral, dito de uma maneira melhor. Uma abundância de referências a obras existentes iria familiarizar de imediato o leitor com a natureza de cada personagem, iria evitar explicações cansativas e excluir eficazmente charlatães, arrivistas, vigaristas e iliteratos da compreensão da literatura contemporânea.
 
Flann O'Brien, in Uma Caneca de Tinta Irlandesa (At Swim-Two-Birds), trad. Maria João Freire de Andrade, Cavalo de Ferro, Março de 2013, p. 28.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

MICRORREFLEXÃO

Uns foram para a escadaria do Parlamento, outros concentraram-se na Aula Magna. Há quem tenha ficado em casa a ver televisão, muitos terão continuado os seus monótonos dias de trabalho. Poucos terão escrito poemas, muitos se distraíram a debitar teorias nas redes sociais. Reduzida a meia dúzia de palavras no Twitter, assim se vai cumprindo a nano-vida com seus minutos de microrreflexão.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

SOPA DE ERVILHAS


8 Sopa de ervilhas (fr. 17 PMG)

E um dia eu te darei uma trípode,
na qual... poderás reunir.
Ainda não esteve ao lume, mas depressa
estará cheia de sopa de ervilhas, aquela que Álcman,
o comilão, adora comer quente depois do solstício.
Ele não come coisas finas,
mas procura comida popular,
como o povo.

Álcman, in Poesia Grega de Álcman a Teócrito, trad. Frederico Lourenço, Livros Cotovia, Maio de 2006, p. 19.


trípode, s. f. tripeça em que se sentavam as pitonisas quando pronunciavam os seus oráculos; vaso precioso, consagrado aos deuses ou oferecido como prémio aos vencedores dos jogos públicos; ânfora antiga com três pés.

pitonisa, s. f. pítia; mulher que adivinhava.

domingo, 17 de novembro de 2013

«UMA CANECA DE CERVEJA É O VOSSO MELHOR AMIGO»

O nome ou título do poema que estou prestes a recitar, cavalheiros, revelou Shanahan com a indolência própria de um padre, chama-se «Amigo do Trabalhador». Por Deus, não o conseguem bater. Teceram-lhe os maiores dos elogios. É um poema acerca de algo que todos conhecemos. É acerca de uma caneca de cerveja.
Cerveja!
Cerveja.
Levante-se, homem, incentivou-o Furriskey. O Sr. Lamont e eu estamos à espera e à escuta. Vamos, levante-se.
Vamos, vá lá, apoiou Lamont.
Então oiçam, disse Shanahan a pigarrear com ligeiras tossidelas. Oiçam.
Levantou-se, estendeu um mão e dobrou o joelho em cima da cadeira.

Quando as coisas correm mal e parecem não se endireitar,
Apesar de se ter feito o melhor que se podia,
Quando a vida parece tão negra quanto a noite mais escura...
UMA CANECA DE CERVEJA É O VOSSO MELHOR AMIGO.

Por Deus, e há um ritmo nisso, constatou Lamont.
Mesmo muito bom, elogiou Furriskey. Muito agradável.
Digo-vos que é do melhor, opinou Shanahan. Oiçam.

Quando o dinheiro é pouco e difícil de ganhar,
E até com o vosso cavalo perderam,
Quando tudo o que se possui é um monte de dívidas...
UMA CANECA DE CERVEJA É O VOSSO MELHOR AMIGO.

Quando a saúde é fraca e sentem o vosso coração estranho,
E o vosso rosto está pálido e cansado,
Quando os médicos dizem que é preciso uma mudança...
UMA CANECA DE CERVEJA É O VOSSO MELHOR AMIGO.

Há coisas nesse poema que garantem aquilo a que podíamos chamar permanência. Percebe o que quero dizer, Sr. Furriskey?
Não há dúvidas quanto a isso, é um poema grandioso, opinou Furriskey. Vamos, Sr. Shanahan, recite-nos outro verso. Não me diga que é este o fim.
Não me deixam continuar, retrucou Shanahan.

Quando a comida é pouca e a despensa está vazia,
E nem uma fatia de bacon engordura a frigideira.
Quando a fome aumenta e as vossas refeições diminuem...
UMA CANECA DE CERVEJA É O VOSSO MELHOR AMIGO.

Então, o que é que acham?
É um poema que sobreviverá, assegurou Lamont, um poema que será ouvido e aplaudido quando muitos outros...
Mas esperem até ouvir o último verso, homens, o toque final, propôs Shanahan. Franziu a testa e abanou a mão.
Oh, é bom, é bom, proferiu Furriskey.

Em tempos de dificuldades e lutas mesquinhas,
Ainda se tem um plano na manga,
E podemos esperar por uma vida mais alegre quando...
UMA CANECA DE CERVEJA É O VOSSO MELHOR AMIGO.
 
Alguma vez ouviram uma coisa destas em toda a vossa vida?, perguntou Furriskey. Uma caneca de cerveja, por Deus, mas que coisa!

Flann O'Brien, in Uma Caneca de Tinta Irlandesa (At Swim-Two-Birds), trad. Maria João Freire de Andrade, Cavalo de Ferro, Março de 2013, pp. 87-89.

sábado, 16 de novembro de 2013

ESCOLHAS


Expresso, 16 de Novembro de 2013, ATUAL.

UM TÍPICO DIA DE TRABALHO DE DON DELILLO

Tenho um amigo nova-iorquino que diz que "o mundo foi criado para impedir o artista de levar a cabo o seu trabalho". Como é que consegue trocar as voltas ao mundo e levar a sua obra avante?
Levei muito tempo a convencer-me de que tinha talento suficiente para abraçar este ofício de escritor, mas, quando finalmente me convenci, tive a certeza de que ia continuar a fazê-lo até ao fim dos meus dias. Tenho tido muita sorte, mas, em certa medida, fui eu próprio a criar esta sorte, no momento em que, nos anos 60, decidi simplesmente fechar-me numa divisão, num apartamento minúsculo em Manhattan, e começar a escrever. Estava a trabalhar no meu primeiro romance, Americana (1971), e só tinha publicado dois ou três contos. Levei quatro anos a escrever Americana e, de início, nenhum editor o quis publicar, mas nunca desisti.
 
Pode descrever-me um típico dia de trabalho de Don DeLillo? Hemingway escrevia de manhã e de tarde ia pescar ou ia à caça...
É verdade, em tempos que já lá vão, os escritores faziam esse género de coisas. Trabalho todos os dias depois do pequeno-almoço, quatro horas seguidas, se possível. Depois faço uma pausa. A partir daí, o resto do dia ganha forma. Às vezes tenho afazeres, como sair para ir ver um filme. (Risos) Quando posso, torno a escrever ao final da tarde durante uma ou duas horas. Normalmente, não me deito sem reler tudo o que escrevi ao longo desse dia.
 
 
Don DeLillo entrevistado por Paulo Faria, in Ípsilon, Sexta-Feira 15 de Novembro de 2013.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

"TENTO SEMPRE TER POR DIA TRÊS OU QUATRO HORAS NO SÉCULO XIX"

Na Idade Média, ao longo das suas vidas as pessoas tinham acesso, no máximo, a sete ou oito imagens, pinturas ou representações. Por isso, concentravam a sua atenção durante dias, semanas, meses. Vivemos numa época em que, em dois minutos, vemos mais imagens que os nossos antepassados do século XVI na vida toda. O mesmo acontece com as pessoas. Um europeu da Idade Média se calhar conhecia 50 na vida toda, talvez aquilo que nós conhecemos num mês. Isso faz com que haja, hoje em dia, uma velocidade de consumo de imagens e de pessoas. Se uma imagem não nos salva, há milhares de outras. Com muitas excepções, é muito raro uma pessoa estar duas ou mesmo uma hora seguida concentrada num único objecto. Ou seja, há uma geração que tem muitos estímulos. Estou com curiosidade em saber o que vai acontecer em termos artísticos daqui a 10 ou 20 anos.
 
Por causa da dispersão?
Ninguém imagina Miguel Ângelo a fazer uma pincelada, depois a responder a um e-mail e voltar outra vez à pintura. Os artistas passavam semanas fechados num compartimento, sem falar com ninguém, só saíam para comprar comida, sem largar o seu objecto. Há obras de arte que só podem aparecer se uma pessoa estiver uma, duas, três, quatro, cinco horas em frente delas, sem mudar a sua atenção para outro lado. E este tempo prolongado com o mesmo objecto, concentrado, é qualquer coisa que as tecnologias e o mundo contemporâneo estão a pertrubar.
 
Gonçalo M. Tavares, in JL- Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 1125, de 13 a 26 de Novembro de 2013.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A LIBERDADE DE PÁTIO

 

Os sete contos reunidos em A Liberdade de Pátio (Porto Editora, Setembro de 2013) foram distribuídos por três secções. Na primeira, intitulada Névoas, encontramos dois contos – A Cabeça de Mânlio e A Liberdade de Pátio – de timbre aparentemente absurdo. Aparentemente por ser difícil distinguir o que é absurdo do que o não é num mundo onde a normalidade foi assaltada por um paradoxismo omnipresente. A realidade que esses dois contos evidenciam é de tal modo plausível que pode parecer absurdo recorrermos a tão desgastado conceito para os interpretarmos, sendo talvez preferível sublinhar, desde logo, a reconhecida capacidade de Mário de Carvalho (n. 1944) para reflectir ambientes sociais e tiques humanos sem os tipificar nem encerrar em modelos determinísticos. No primeiro dos contos supracitados, o mais breve, mas também o mais estranho dos sete que compõem a colectânea, um homem atravessa uma cidade transportando «a cabeça de Mânlio» dentro de uma caixa. Nada nos é dito sobre a natureza de tal cabeça, acompanhamos apenas o homem que a transporta por entre cenas quotidianas que seriam banais não fosse dar-se o caso das pessoas com quem o homem se cruza saberem que ele transporta... «a cabeça de Mânlio». Desconfortavelmente arremetidos para o lugar da ignorância, podemos desconfiar, inventar, imaginar o que seja aquela cabeça. Podemos inclusive deixar-nos influenciar pela atmosfera burocrática, ou burrocrática (nas palavras de Herberto Helder), que encerra o breve relato, com homens sentados a secretárias, «carimbando velozmente resmas de papéis», enquanto cumprem tarefas circunscritas pela ditadura dos talões. Não interessa, pois, a natureza da cabeça de Mânlio, na medida em que a sua natureza compreende as dissonâncias que caracterizam a realidade tal como a vivemos diariamente. O segundo conto oferece título à colectânea e remete-nos para algo similar. Narrativa de índole kafkiana, A liberdade de pátio apresenta-nos um recluso tratado com a máxima deferência e até com certa mordomia pelos guardas que o vão mantendo algemado. Neste caso, o estatuto do recluso parece fazer a diferença em certos aspectos de trato, mas não lhe garante mais liberdade do que a do pátio onde pode andar em círculos: «Nunca me forneceram papel e lápis, por mais que insistisse. Mas tinha liberdade de pátio» (p. 24). Texto eventualmente alegórico, A Liberdade de Pátio revela, mais uma vez, o sentimento de incompreensão que uma realidade incoerente desperta. É na frustração sugerida pelas personagens que vislumbramos a ausência de sentido do real, a qual acabará disfarçada pelos três contos do conjunto intitulado Esgares: Os caminhos do sucesso, A força do destino, O passe social. Nestes três contos há uma veia porventura mais satírica, toldada pela actualidade de um país cuja realidade ultrapassa em larga escala os domínios da ficção. O primeiro desmonta com argúcia o chavão do empreendedorismo, com uma história sobre a internacionalização do caldo-verde que está longe de terminar. Prepara-se o herói da narrativa para internacionalizar a açorda de alho. Tudo baseado em factos reais, segundo o autor. Imaginem se ocorresse a Fernando Faria exportar pastéis de nata. No segundo conto, a história da fundação de uma espécie de IPSS que resulta da fusão de quatro bibliotecas privadas: «A ideia era abrirem-na ao público, um certo dia, sob um letreiro com letras douradas: Biblioteca Solidária. Instituição Privada. Boa parte das suas economias ia-se ali escoando, para desespero das descendências que, com o resto, pouco se importavam» (p. 54). No terceiro conto, um indivíduo é quase levado à loucura por faltar à palavra para com um funcionário do Metropolitano. Exagera-se nos termos para melhor fazer sobressair a seriedade das questões, promessas por cumprir, obrigações extremadas numa consciência do dever absolutamente alienante. Por fim, os contos Vacilação e As estátuas de sal fecham o conjunto intitulado Vincos. Duas histórias mais melancólicas do que as anteriores, talvez menos metafóricas, onde a riqueza de linguagem é uma constante e a harmonia dos elementos permite-nos comparar estes contos «à exigência arquitectónica implícita no trabalho de um bom romancista». O flashback que pontua As estátuas de sal oferece a Mário de Carvalho a oportunidade para construir um conto onde a história de uma vida se resume a um episódio do seu decurso, porque há, de facto, em todas as vidas momentos que as condicionam irreversivelmente, quer pelas decisões tomadas, quer pelas que ficam por tomar, quer ainda por aquele «e se» persecutório que nos acompanhará até à hora de sermos definitivamente esquecidos.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A BANDEIRA VERMELHA

 

Professor de História Contemporânea em Oxford, David Priestland (n. ?) é frequentemente apresentado como especialista em relações entre ideologia e política, com redobrado interesse na história do comunismo. A Bandeira Vermelha (Texto Editores, Agosto de 2013) é um trabalho de fôlego que acompanha e tenta compreender, em múltiplas variantes, a doutrina marxista desde os embriões deixados pela Revolução Francesa até à actualidade (a edição original data de Novembro de 2009). No entanto, Priestland é cuidadoso quanto à determinação de uma origem para o ideal comunista: «O livro inicia-se com a Revolução Francesa, pois é aí que podemos identificar, pela primeira vez, os principais elementos da política comunista, não obstante não terem ainda sido combinados com êxito. Foi, contudo, Karl Marx e o seu amigo Friedrich Engels quem mostrou o verdadeiro poder de uma forma de socialismo que fundiu rebelião com razão e modernidade» (p. 29). Esta concepção, discutível como qualquer outra, permite-nos supor que o autor entende o comunismo a partir de uma ideologização pós-industrial da economia e do mundo do trabalho, deixando de lado raízes muito mais ancestrais que têm que ver com a luta dos povos oprimidos pela sua libertação. Da República platónica à Utopia de Tomás Morus, são imensos os exemplos de que nos poderíamos servir para entender a raiz ontológica de um movimento que é muito mais do que um mero movimento ideológico. Mas Priestland está a escrever história, não está a praticar filosofia. Aceita-se e compreende-se o paradigma, até por questões de pragmatismo historiográfico. O que já não é tão fácil de aceitar é a conclusão a que o historiador chega após setecentas páginas de agradável leitura: «A história do comunismo deverá ter-nos ensinado duas coisas. A primeira lição, agora extraída por muitos autores, é o ponto de destrutibilidade a que pode chegar o pensamento utópico dogmático. A segunda lição, muito mais negligenciada hoje em dia, é o perigo das desigualdades acentuadas e das injustiças notórias, pois elas podem tornar muito fascinantes essas políticas utópicas» (p. 679). Ainda que não incorra no erro crasso de Fukuyama ao decretar o fim da história, David Priestland acaba por apresentar o comunismo hodierno como um zombie que as injustiças e assimetrias do neo-liberalismo podem reavivar. O papão paira sobre o mundo das liberdades made in National Security Agency, hoje hegemonicamente dominado pelos mercados e pelo modelo democrático de um país que à hora em que escrevo acaba de nos brindar com mais um bom exemplo da sua democracia: Médicos foram “cúmplices” de abusos e tortura em Guantánamo e prisões da CIA. Ironias do destino, dirão alguns. A verdade é que sem pretender tomar partido, o historiador David Priestland acaba por fazê-lo. Repleta de perversidades, de crimes sangrentos, de chacinas incompreensíveis, a História do mundo, mais ainda de um movimento político, não pode medir-se apenas pelo sangue derramado, terá também de ter em conta as conquistas, o progresso, as virtudes que nos permitiram ir melhorando o mundo a espaços. Apesar de tudo, reconheça-se, o Partido Comunista foi mais célere a reconhecer o Grande Terror estalinista, pela mão de Nikita Kruschev e o seu famigerado «discurso secreto» (1956), do que a Igreja Católica Apostólica Romana a reconhecer o terror da Inquisição. De resto, é o próprio Priestland quem nos diz que nem tudo ia mal no covil do demónio: «A minha estadia em Moscovo apenas aumentou a minha confusão. Em certos aspectos, Orwell tivera razão. Encontrei o medo. Alguns russos que conheci faziam-me entrar clandestinamente nos seus apartamentos, aterrados com a possibilidade de os seus vizinhos escutarem o meu sotaque estrangeiro; a atmosfera em Moscovo era pesada – quando Gorbachev subiu ao poder, chamaram-se àqueles anos o período de estagnação. Encontrei também cinismo relativamente ao regime e críticas à sua hipocrisia e corrupção. Ainda assim, em muitos outros aspectos, a Rússia não poderia ser mais diferente do mundo retratado por Orwell. A vida quotidiana da maioria das pessoas era relativamente descontraída, ainda que desprovida de confortos materiais. Apercebi-me também de um orgulho nacionalista genuíno na força e nas realizações da Rússia sob o comunismo e de um verdadeiro empenho emocional na paz mundial e na harmonia global» (p. 20). Ora, talvez esteja a interpretar mal, mas este retrato distancia-se por completo das condenações supérfluas do ancien régime. O que este livro tem de bom não é, pois, o que repete de uma história que estamos fartos de saber, embora seja sempre útil recordar, mas antes o que acrescenta a essa história, com uma leitura frequentemente alicerçada nas produções culturais a partir das quais podemos compreender com interesse a paisagem dos tempos. A relevância do teatro, do cinema, da literatura, da música, das artes em geral para a encenação da História é um sublinhado fundamental neste A Bandeira Vermelha. Ao leitor português que percorra estas páginas, da Revolução Francesa à perestroika, interessará muito mais esse sublinhado do que uma revisão da ascensão e queda da URSS, da “grande caminhada” chinesa iniciada por Mao até ao hibridismo económico da actualidade ou da admirável resistência cubana. Para terminar, que a prosa vai longa, observe-se como fica Portugal na fotografia: «Uma das primeiras vítimas do choque do petróleo foi o regime autoritário de Marcello Caetano em Portugal e, com este, o império português em África. Caetano andava a tentar liberalizar o velho regime, perante a resistência de conservadores, mas em 1974, enfraquecido pela crise económica, foi derrubado por um grupo politicamente ecléctico de oficiais subalternos do exército, insatisfeitos com a condução das guerras africanas. O golpe decorreu sem derramamento de sangue e ficou conhecido por «Revolução dos Cravos», nome alusivo aos cravos vermelhos brandidos pelos revoltosos como símbolo das suas intenções pacíficas. Em lugar de sinalizarem o desencadeamento da revolução com estandartes ou cornetins, os líderes da rebelião indicaram aos seus apoiantes que aguardassem pela transmissão radiofónica da canção portuguesa participante no Festival Eurovisão da Canção» (p. 566).

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

LOBOS

Já não quero mais reflectir,
Sentir inveja e desprezo pela irreflexão das coisas,
Encontrar o pathos em cães ou em caligrafias subdesenvolvidas,
Em jovens raparigas que arranjam o cabelo, todos os castelos de areia
Caídos por terra à hora de dormir das crianças, junto ao mar.

Vem a maré e some-se de novo; não quero
Sublinhar para sempre o seu fluxo, nem a sua permanência,
Não quero ser um coro trágico ou filosófico,
Quero apenas olhar de frente o futuro mais próximo
E depois disso deixar que o mar nos cubra.

Então, venham todos, aproximem-se, formem um círculo,
Dêem as mãos, façam de conta que, juntas,
As mãos mantêm afastados os lobos da água
Que uivam ao longo da costa. E que se saiba
Que ninguém os ouve, por entre conversas e risos.


Louis MacNeice, in Estradas Secundárias - doze poetas irlandeses, selecção, posfácio e tradução de Hugo Pinto Santos, Artefacto, Junho de 2013, p. 23. 

HOLISMO


Uma reportagem sobre espiritualidade. Espíritas, pessoas que abraçam árvores, praticantes de yoga, caminhantes. Achei tudo deveras positivo e saudável, pese embora a minha visão holística do mundo obrigar a outras contas. Daí que ao dirigir-me a um MB para pagar o seguro do carro e uma multa por atraso no pagamento do IMV, tenha tentado resistir estoicamente ao negativismo acariciando o papel das notificações como se fossem partes do meu corpo. Quem me observasse naquele momento poderia julgar-me rebarbado, tal era a satisfação com que acariciava a lisura daqueles papéis. Segui para o trabalho com um sorriso nos lábios, irradiando positividade e transmitindo ao mundo uma energia ao mesmo tempo translúcida e quente. Desconfio que se notasse nos meus olhos o conforto que o niilismo dos dias teima em nos negar. Fui então abordado por uma senhora que havia encontrado uma carteira perdida num banco de jardim. Terá aberto a carteira e reparado num cartão da loja onde trabalho. Perguntou-me se não lhe poderia passar os dados pessoais daquele cartão, ao que respondi negativamente, com um sorriso nos lábios, respeitando o direito à confidencialidade dos clientes. Sugeri à senhora em causa que entregasse a carteira na polícia, ao que ela me respondeu com indisfarçável desagrado comentando saber muito bem qual o funcionamento da polícia portuguesa nestas situações. E rematou: enfim, para alguma coisa servem os caixotes do lixo. Fiquei o resto do dia a pensar naquele remate, no que pensaria ela se tivesse sido eu, por exemplo, a encontrar a sua carteira perdida num banco do jardim. Preferiria que a entregasse na polícia, independentemente dos procedimentos, ou que a lançasse num caixote do lixo? Perante tal dúvida, a minha existência estremeceu. Foi-se-me a alegria de estar vivo... Por meros instantes, porque de imediato disse a mim próprio que aquele ser humano merecia o meu sorriso, o meu abraço, a minha solidariedade, como merecem todos os seres humanos, sejam eles quem forem, façam eles o que fizerem. A minha esperança e confiança na humanidade não podiam ser abaladas por este episódio tão frugal. Temos que ser compreensivos, amorosos, positivos, apaixonados, temos que ser LOL. Mesmo quando abrimos o jornal e observamos a notícia de que 2013 tem sido um bom ano para os Centros Comerciais, números que se explicam com a chamada lei das compensações. Um equilíbrio óbvio. O comércio no centro das cidades foi arrasado, queimado, transformou-se num cemitério de lojas abandonadas, empurrando os consumidores para as catedrais do consumo. É melhor parar por aqui, o discurso ameaça ficar pesado, não devo sobrecarregar as minhas folgas com tamanho pessimismo. É preciso ver o mundo com outros olhos, olhos absolutos e totais que nos permitam penetrar na luz da Metafísica aristotélica, isto é, na cristalina fluidez de um Brian Weiss ou, em alternativa, nas barbas inspiradoras do Osho. O mundo não acaba numa caixa de multibanco nem numa carteira perdida, o mundo pode começar aí mas o todo nunca foi a soma das partes, tal como as pernas do caminhante não definem o seu coração. As partes é que dão cabo do todo, pelo menos enquanto não for possível pagar as contas com amor, paz e sossego.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

HIGH NOON (1952)



O compositor Dimitri Tiomkin (1894-1979) nasceu na Ucrânia, no seio de uma família de origem judaica com formação elevada para os padrões da época. Estudou música no Conservatório de São Petersburgo, tendo sobrevivido durante os tempos difíceis da revolução a escrever para alguns espectáculos de massas e acompanhando ao piano a exibição de filmes mudos. Mudou-se para Berlim em 1921, depois para Paris, acabando por instalar-se nos EUA em 1925. A opção por Hollywood deu-se após o crash de 1929, quando o cinema norte-americano procurava entreter o público com musicais de interesse diverso. Esta ligação ao cinema permitiu a Tiomkin desenvolver métodos de composição, sendo especialmente relevante o trabalho como compositor ou director musical em inúmeros westerns. Vamos encontrá-lo em Duel in the Sun/Duelo ao Sol (1946), de King Vidor, High Noon/O Comboio Apitou Três Vezes (1952), de Fred Zinnemann (1907-1997), Gunfight at the O.K. Corral/Duelo de Fogo (1957) e Last Train from Gun Hill/O Último Comboio de Gun Hill (1959), de John Sturges, Rio Bravo (1959), de Howard Hawks, ou The Alamo/Álamo (1960), de John Wayne. A lista é interminável. Dimitri Tiomkin viu o seu talento devidamente reconhecido com dois óscares no magnífico High Noon/O Comboio Apitou Três Vezes (1952). Começamos por ele por ser determinante a banda sonora neste filme de um realizador que não teve muito mais para oferecer que valha a pena recordar. A importância do tempo para a música é equivalente ao peso da música na narrativa de High Noon. Esta relação torna-se explícita com a omnipresença de relógios e planos que marcam a passagem do tempo ao longo do filme. Baseado na mesma história que deu origem a The Tin Star/Sangue no Deserto (1957), de Anthony Mann, O Comboio Apitou Três Vezes relata o dia frenético do Marshal Will Kane (papel que também valeu um Oscar ao enorme Gary Cooper), que durante o casamento com Amy Fowler (Grace Kelly), quando se preparava para abandonar funções, recebe a notícia de que o terrível fora-da-lei Frank Miller vem no comboio do meio-dia com intenções vingativas. Na estação, encontram-se à espera de Miller três homens do seu bando (entre eles, Lee Van Cleef em mais um dos inúmeros papéis menores que lhe foram sendo atribuídos ao longo da vida). Faltam menos de duas horas para que Miller chegue à cidade. Ao Marshal Will Kane restam duas opções: entregar definitivamente o distintivo e partir com a sua mulher ou ficar para enfrentar Miller e o seu bando. Imperativos tão pessoais quão morais levam a que vença a segunda opção. Aquilo a que assistiremos é um corrupio desenfreado do Marshal Will Kane para arranjar delegados que se lhe juntem na contenda. A música pauta o ritmo do filme, oferecendo aos passos acelerados de Gary Cooper, às suas hesitações e inquietações, um realismo deveras convincente. É como se entrássemos no seu peito e lhe tomássemos a pulsação, acompanhamo-lo com ansiedade. Não há sequência que não mostre deliberadamente os ponteiros de um relógio, acentuando a passagem do tempo, gerando uma impaciência que chega a ser incomodativa, sobretudo porque enquanto o Marshal Will Kane percorre o seu calvário nós contemplamos a queda de um homem. O Comboio Apitou Três Vezes transporta-nos para uma frustração social. O desencanto e a desilusão de Kane, quando se vê sozinho no meio de uma cidade que diz reconhecer-lhe o mérito mas é incapaz de o ajudar neste momento crítico, é a moral que tem para nos oferecer. No saloon fazem-se apostas, os homens entusiasmam-se com um confronto iminente, nas traseiras do barbeiro já se constroem os caixões, na igreja, quando o Marshal interrompe a missa para pedir ajuda, disputam-se teorias, fazem-se acusações, perde-se tempo. E Will Kane fica sozinho, terá que debater-se contra quatro homens sem o auxílio de um só, numa sociedade acobardada e ingrata, capaz de abandonar aqueles que nunca a abandonaram, desculpando a traição com todo o tipo de justificações. A desilusão de Will Kane é, de facto, uma des-ilusão, resulta num amadurecimento do indivíduo face à revelação de uma sociedade até então dissimulada. A mulher com quem se casara há pouco não o abandona, é certo. E talvez essa seja a mensagem mais significativa que esta história tem para dar, a mensagem de uma cumplicidade que não se deixa ferir por nada que atormente. Nem medo, nem inveja, nem ciúme, nem cobardia.

O HOSPITAL

Há um ano, apaixonei-me pela funcionalidade de uma ala
De hospital: uma fila de compartimentos quadrados,
Betão, lavatórios - o desespero de qualquer amante de arte -,
Para não falar do modo como o fulano na cama ao lado ressonava.
Mas nada o amor interdita,
O comum, o banal, podem o calor dela conhecer.
O corredor conduzia a uma escadaria e, por baixo,
Ficava a imensa aventura de um pátio com gravilha.

É isto que o amor faz às coisas: a Ponte de Rialto,
O portão principal que o peso de uma carrinha amolgou,
O assento nas traseiras de uma cabana que era um foco de luz,
Nomear estas coisas é o acto de amor e a sua promessa;
Já que nos cumpre registar o mistério do amor sem desconversar,
Resgatar do tempo o passional transitório.


Patrick Kavanagh, in Estradas Secundárias - doze poetas irlandeses, selecção, posfácio e tradução de Hugo Pinto Santos, Artefacto, Junho de 2013, p. 19.