quarta-feira, 6 de novembro de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #96


No monumental Jazz Life (Taschen), de William Claxton e Joachim Berendt, conta-se que o trompetista Nick La Rocca atribuía a si próprio o título de inventor da jazz music, protagonismo que não se importava de dividir com a sua trupe de músicos brancos. Chegou mesmo a fundamentar a tese com artigos respigados em revistas obscuras, dirigidas, obviamente, por críticos brancos. É verdade que La Rocca tinha um sério adversário na margem negra do rio que dividia os dois mundos na América do início do séc. XX. Refiro-me ao extravagante Jelly Roll Morton, que por sua vez reivindicava para si a criação do jazz em 1902. Independentemente de hoje atribuirmos ao jazz raízes negras - as dos espirituais, do gospel, do blues -, certo é que a Original Dixieland Jass Band foi a primeira banda de jazz a ter sucesso fora de New Orleans e, por consequência, a ver a sua música registada num disco. Façamos "as pazes". Entreguemos aos negros o jazz, deixemos para os brancos o jass (assim denominado no tal primeiro registo). Coube, então, à Original Dixieland Jazz Band (primeiro jass, depois jazz) popularizar um género que provocava desconfiança, torná-lo festivo e humorístico, limpando-o de quaisquer resquícios de espiritualidade ou de protesto. Era música para abanar o capacete, ponto final. As gravações aqui reunidas, gravadas entre 1917 e 1936, denotam precisamente essa alegria, libertando a música de estruturas rígidas e eruditas, abrindo as portas à improvisação. Livery Stable Blues, com os seus fraseados onomatopaicos, e Tiger Rag foram sucessos tremendos. Temas como Palesteena ou Skeleton Jangle mereciam sorte semelhante.

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