segunda-feira, 18 de novembro de 2013

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #98


No contexto do chamado rock alternativo, surgiu algures na década de mil novecentos e noventa um conjunto multicolorido de bandas genericamente catalogadas de post-rock. A raiz mais perceptível em todas elas era o chamado jazz de fusão, embora algumas tendessem mais para o jazz do que outras. Das outras, há a sublinhar os Trans Am. Oriundos de Washington, publicaram um excelente primeiro álbum homónimo em 1996. O facto de integrarem o catálogo da Thrill Jockey poderá ter contribuído para alguns equívocos, corrigidos posteriormente em álbuns tais como T.A. (2002) ou este Liberation (2004). É o meu álbum preferido de uma banda que preferiu um sentido de humor autocrítico ao pretensiosismo corrosivo de tantos projectos que não raras vezes colocaram o carro à frente dos bois. A música dos Trans Am distancia-se tanto da melancolia urbano-depressiva de uns Godspeed You Black Emperor! como das derivações jazzísticas de uns Tortoise, sendo mais fácil compreendê-los se recuarmos aos tempos dos Can ou dos Kraftwerk. É nesse limbo situado algures entre o krautrock e o electropunk que poderemos compreender este álbum dos Trans Am, erguido sobre as embustices políticas da época como uma espécie de manifesto ou, se quiserem, panfleto anti-guerra. O que ressalta da manipulação electrónica aqui efectuada, acompanhada por ritmos pujantes e guitarras agressivas, samplers de discussões políticas, é uma consciência mais rara do que seria de supor em projectos congéneres. Rock de protesto para o século XXI, com vozes robotizadas a transfigurar um mundo enredado na esquizofrenia tecnológica do discurso. Era assim em 2004, tal como continua a ser em 2013. Imaginem alguém pegar nas parangonas de um César das Neves, de uma Jonet ou de uma Margarida Rebelo Pinto e fazer algo similar por cá. Sucesso garantido.


Sem comentários: