sexta-feira, 29 de novembro de 2013

APARÊNCIA


 

Circunstâncias várias obrigaram-me a saber viver no mundo das aparências. Valeria a pena recordar Platão, fosse a caverna pertinente nos dias de hoje. Não é. Muita água correu debaixo da ponte, deixando Narciso confuso. Pudesse ele hoje olhar-se nas águas do rio e ficaria espantado com o que veria: óleos, lama, coisa turva e viscosa, o rosto deformado das vísceras flutuando no caudal das águas, das poucas e porcas águas que ainda correm nos rios. A caverna deixou de ser pertinente quando a verdade passou a confundir-se com a sombra, o culto excessivo, transversal e exacerbado da aparência usurpou qualquer sentido ao essencial. Por qualquer atalho que sigamos, nada mais constataremos. É evidente, tão evidente, cartesianamente evidente a ditadura do "faz-de-conta" que ganhou redobrada força com a desvalorização da palavra. Repare-se como chamamos amigo, com inadvertida ligeireza, a quem nem sequer conhecemos, como declaramos amor a objectos, coisas, futilidades, como mandamos beijinhos e abraços a pessoas das quais fugiríamos se acontecesse cruzarmo-nos com elas na rua ou, male dos males, como tão hipocritamente vamos gerindo os dias. Dir-me-ão que fale por mim. Pois bem, façamos um exercício. Imaginem alguém com um vigoroso sentido moral da vida, alguém capaz de fundamentar complicadíssimas teses sobre os males do mundo, imaginem alguém com um discurso ao qual dificilmente nos oporíamos não fosse, hélas, sabermos que entre a teoria e prática há um deserto imenso que se instala. O mundo está repleto de pregadores ao nível de São Tomás, gente culta, sábia, inteligente, de pergaminhos devidamente emoldurados e dependurados nas paredes da biblioteca, gente com badanas ao nível da sua insofismável – é assim que se diz, certo? – categoria. Torce a porca o rabo quando chegamos àquela parte chata da acção. Ao nível da acção, a cretinice ganha terreno, o pelotão aproxima-se e chega primeiro à meta do mérito numa sociedade articulada, conjugada, pensada, arquitectada, organizada, orientada em torno destes foda-ses. Está de ver que tinha razão aquele que pedia para o mundo bons homens, dispensando bons artistas. Porque estes, caríssimos, podem ser do pior que a humanidade já viu. E o mundo precisa mesmo é de gente bera na arte da vida. Quem duvida? Vem isto a propósito do aumento da idade da reforma e dos estaleiros de Viana e do João César das Neves e do burro mirandês. Todos estes fenómenos, aparentemente – e é de aparência que falamos – estão inter-relacionados (sic) como uma rede de influências que tem na sua origem o cu da mesma aranha: a perfeição da humanidade. Não fosse a humanidade tão perfeita, e muito melhor seria o mundo em que vivemos. Chego a esta conclusão depois de ler inúmeros textos de gente perfeita, com soluções perfeitas para as imperfeições do mundo, com conclusões terapêuticas para todas as formas de agonia, gente cujas palavras transportam a seiva da cultura e do saber, gente a quem deveríamos entregar o destino de todos nós não fosse o destino de todos nós estar entregue à sua preguiçosa mania de falar, dizer, apregoar, palrar, papaguear, mas meter o rabo, talvez de burro mirandês, entre as pernas quando toca a agir/actuar. Obviamente, o texto descambou, tomou conta do escriba, apoderou-se-lhe dos dedos e pediu para ser vomitado de jacto. É assim o texto, lamentável. Mas verdade seja dita, por detrás do texto há uma verdade, um rosto, uma espécie de confissão pública, não há subterfúgios nem conversa pela calada, não há essa ignominiosa calúnia da intriga que acorrenta a língua e trava a respiração. Falar olhos nos olhos, com coerência, parece-me sempre preferível a assobiar para o lado. Ou então dizer: não quero falar mais consigo, podemos ignorar-nos civilizadamente. Puta que o/a pariu! Atitudes fora de moda. Assobiar para o lado é mais conveniente e, assumamos, confortável.

4 comentários:

Soliplass disse...

"imaginem alguém com um discurso ao qual dificilmente nos oporíamos não fosse, hélas, sabermos que entre a teoria e prática há um deserto imenso que se instala"

Pois é amigo, é bem verdade o que escreves. E porque tu gostas daqueles poetas (a tradução é minha e não tão perfeita como tu a farias) há um deles (Einar Økland) que resumiu a coisa assim:

"IGUALDADE PARA TODOS.

Com o direito que a lei oferece.
Com os especialistas que a escola oferece.
Com a lógica que a linguagem oferece.
Com o poder que o dinheiro oferece.

Podemos:

Mudar a vista.
Molestar a paz.
Mover as pessoas.
Mortificar os animais.
Modificar a economia.

Para que eu possa:

Distorcer a lei.
Encerrar as escolas.
Depravar a linguagem.
Tomar o dinheiro."

Maria Eu disse...

Tão mais cómodo ignorar. Tão mais cómodo calar as diferenças, as divergências, a distância entre o "dizer" e o "fazer"!

Maria Eu disse...

Tão mais cómodo ignorar. Tão mais cómodo calar as diferenças, as divergências, a distância entre o "dizer" e o "fazer"!

hmbf disse...

Soliplass, poema excelente.

Maria Eu, é isso e esconder o rosto para dizer de cara aberta uma coisa e outra diferente com a máscara protectora.