segunda-feira, 25 de novembro de 2013

POSTAL PARA OS CINEMAS KING

Ando há anos para arrumar o sótão. Subo as escadas, meto um CD a tocar e sento-me a olhar para os livros espalhados pelo chão. Várias prateleiras sobrelotadas, onde já nem um grama de pó parece caber, olham para as teias de aranha meticulosamente construídas nos cantos das janelas e nos ângulos das paredes. O bolor ameaça os livros, a humidade infiltra-se com uma perspicácia que escapa aos raios solares da manhã. Não consigo encontrar agulha para a aparelhagem, os discos de vinil votados ao silêncio fazem companhia a pilhas de revistas lidas pela metade ou nem isso. Abri hoje uma gaveta que não era aberta há anos. No interior, centenas de postais coleccionados ao longo de duas décadas. Reproduzem cartazes de cinema, foram praticamente todos respigados à entrada das salas do King. Habituei-me a ir ali desde que a minha irmã Leonor me levou a ver Tão Longe, Tão Perto/In Weiter Ferne, so nah! (1993), de Wim Wenders. Desde então, aquele lugar foi uma das minhas “mecas”. Até hoje. Posso mesmo dizer que, nos últimos cinco anos, poucas foram as vezes que me desloquei a Lisboa que não fosse para ir ver um filme aos cinemas King. Mesmo sem a livraria da Assírio & Alvim, onde comprei imensos livros e os filmes em formato VHS da colecção Atalanta, para depois me sentar no café que dava acesso à sala 3 a ler poemas enquanto a hora da sessão não chegava, era bom saber de um lugar onde podia ver filmes. Ponto final. 
                   Já agora, foi nessa livraria entretanto desaparecida que comprei a primeira edição da Nova Asmática Portuguesa, do Nuno Moura, e Homens Sem Soutien, do Jorge Aguiar Oliveira, pontes para duas amizades que fazem a vida valer a pena. O Pedro Serpa, que ali foi livreiro, garantia-me excelentes negócios. Mas nada disto tem que ver com cinema. Ou se calhar tem. Vivemos tempos onde livrarias e salas de cinema agonizam, sufocadas pelo democrático sucesso dos shoppings. Eis o exemplo talvez mais eloquente de como a democracia facilmente se transforma numa ditadura das maiorias, nivelando pela rastejante mecânica do consumismo as práticas culturais de uma população. Os liberais mais optimistas dirão, com a estúpida ironia que os caracteriza, que o povo é quem mais ordena, manda o gosto das massas e as suas tendências, omitindo que por detrás do rebanho vigora o cajado e o assobio do pastor. As ovelhas vão para onde as empurram, são orientadas pela mais ou menos evidente conveniência dos comandos. O lucro como fim e a ganância como meio fazem o resto, e o resto é esta triste condição de se estar cada vez mais só em sótãos desarrumados. Haverá alternativas a isto? Claro que há. Começam aqui, agora, nas opções que fazemos todos os dias e na coragem de replicar, muitas e tantas vezes quantas forem as necessárias, os versos do poeta: «Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou, / - Sei que não vou por aí!»

2 comentários:

Anónimo disse...

Não fechou apenas um cinema

hmbf disse...

Pois não.