segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

UM ANO DE LEITURAS

Tomando como referência a data de edição, escolhi um livro por mês dos publicados este ano em Portugal. O critério é apertado, obrigando-me a deixar de fora algumas leituras agradáveis e até surpreendentes. Ainda assim, são exemplos de um ano onde, feito o exercício, são melhores as lembranças do que piores as memórias. O tempo ensina-nos a recalcar com eficácia, a leitura distrai-nos e matura-nos. Neste domínio dos livros, e porque deles ando rodeado, devo acrescentar apreensões relativas ao afunilamento aparentemente inevitável dessa coisa chamada mercado. A megalomania do Projecto Vila Literária de Óbidos não faz esquecer o fecho da Livraria Sá da Costa, simbólico de uma decadência assustadora nos hábitos de consumo culturais, e os protestos justificados dos chamados livreiros independentes, por ocasião da Feira do Livro de Lisboa e, mais recentemente, no contexto das campanhas de Natal levadas a cabo pelas grandes superfícies onde se comercializam livros. Isto aconteceu no ano em que uma editora de seu nome & etc comemorou 40 anos de edição livre, no ano em que a Relógio d’Água viu o seu esforço brindado com mais um Prémio Nobel no catálogo, no ano em que a Antígona continuou a resistir com excelentes livros e sem ceder um milímetro à doença dos mercados, no ano em que Maria Teresa Horta deu o exemplo recusando receber das mãos de um imbecil inimigo do saber, da cultura e do conhecimento, o Prémio D. Dinis, mas também no ano em que os livros de Herberto se transformaram num apetecível investimento mercantilista e a poesia portuguesa contemporânea saiu ridicularizada com um infeliz artigo publicado no Ípsilon e o jornalismo literário perdeu uma boa oportunidade de se redimir com um exercício falhado de sub e sobrevalorizações. Fiquem, pois, os livros:


Sam Savage, As Recordações de Edna
Tradução de Sofia Gomes, Planeta Manuscrito
Janeiro


Foi objecto de justificadas constelações no jornalismo especializado, mas acaba estranhamente esquecido nas tradicionais listas de fim-de-ano. Edna é uma personagem para a vida e Sam Savage um grande escritor. Escrevi sobre o livro aqui.

Afonso Cruz, O Livro do Ano
Editora Objectiva / Alfaguara
Fevereiro

Afonso Cruz tem vindo a transformar-se num dos escritores portugueses contemporâneos mais agradáveis de acompanhar. Além do romance Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, publicou no início do ano este livro onde texto e ilustração se equilibram com inquestionável beleza.

Flann O'Brien, Uma Caneca de Tinta Irlandesa
Tradução de Maria João Freire de Andrade, Cavalo de Ferro
Março


At Swim-Two-Birds marca a chegada de Flann O’Brien, pseudónimo de Brian O’Nolan (1911-1966), às livrarias portuguesas. Romance ao mesmo tempo experimental e satírico, mantém uma impressionante pertinência. É um dos melhores livros que alguma vez li.

J. Rentes de Carvalho, Mentiras & Diamantes
Quetzal
Abril

Por razões pessoais, este original de J. Rentes de Carvalho deixou de ser para mim apenas um livro como os outros. Levou-me até ao Carrascalinho, numa peregrinação solitária que jamais esquecerei. Sobre o objecto em si, disse aqui de minha justiça.

Herberto Helder, Servidões
Assírio & Alvim
Maio


Em meia dúzia de dias, talvez nem tanto, a edição estava esgotada. Encontra-se on-line inflacionado na ordem dos 300%. Quem o quis partilhar em versão PDF viu-se travado pelos capangas do grupo editorial que detém os direitos de comercialização. Nada disto tem que ver com poesia, o autor também não pode ser responsabilizado. Sobre a estupidez humana paira a sua poesia.
Estradas Secundárias - Doze Poetas Irlandeses
Selecção, posfácio e tradução de Hugo Pinto Santos
Artefacto
Junho
Longe de ser perfeita, esta antologia constitui um esforço louvável de uma pequena editora na divulgação da poesia feita num país onde, de facto, se gosta de poesia. Em edição bilingue, pode e deve ser porta aberta ao encontro de imensos poetas imperdíveis.

Pär Lagerkvist, O Anão
Tradução de João Pedro de Andrade, Antígona
Julho
O sueco Pär Lagerkvist foi Nobel da Literatura em 1951. Lembrados disso pela editora refractária Antígona, ficámos a conhecer O Anão. Pequeno romance onde as ambiguidades humanas assumem uma clareza rara. Conto escrever sobre ele em breve.

David Priestland, A Bandeira Vermelha - História do Comunismo
Tradução de Manuel dos Santos Marques, Texto Editores
Agosto

Esta história do comunismo tem o interesse particular de olhar para a política na sua relação com as artes e a cultura. Trabalho extenso, surge em Portugal no ano em que Cunhal foi líder de audiências e o PCP readquiriu força eleitoral. Escrevi sobre o livro aqui.

Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação
Caminho
Setembro
Estou a ler, vou lendo, hei-de ler. Gonçalo M. Tavares tem sobre os da sua geração a vantagem de reflectir. Não se limita a pensar, esforça-se por ir mais além e vai. Acompanhamo-lo nesse nomadismo intelectual e nunca nos arrependemos. Para lá dos géneros e dos tipos, essencial.

John Fante, Estrada Para Los Angeles
Tradução de Vasco Gato, Editora Objectiva / Alfaguara
Outubro
Chegaram-me às mãos na mesma altura. Este e Histórias de Loucura Normal, de Charles Bukowski. Ambos com tradução do poeta Vasco Gato, desempoeiram os dias. Fante andava a ser publicado pelas Edições Ahab, depois da Teorema ter editado há anos A Confraria do Vinho. Boas companhias.
& etc - Uma Editora no Subterrâneo
Coordenação de Paulo da Costa Domingos, Letra Livre
Novembro

Disse e repito: um dos livros mais importantes publicados este ano em Portugal. Colocando de lado a dimensão comemorativa, importa sublinhar aqui o exemplo de resistência e a capacidade de, contra todas as expectativas, manter os náufragos à superfície.

Margarida Vale de Gato, Mulher ao Mar - Retorna
Mariposa Azual, 3.ª Edição
Dezembro

Discordo de quem afirma ter 2013 sido um bom ano para a poesia portuguesa, mas também não me perturbarei com o assunto. Tenho ali na secretária uma pilha de livros para ler. Este será, em parte, relido. Em parte lido. Nunca um poema se lê duas vezes da mesma maneira. Saúde,

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

OS TECEDORES DE LINHO


Os dentes de Cristo ascenderam com ele aos céus:
Através de uma cavidade num dos seus molares
O vento assobiou: está para sempre amarrado
A um céu glacial pelos caninos revelados.

A luz daquele sorriso encandeia-me
Tal como a memória dos dentes falsos de meu pai
Transbordando no copo: revestidos de bolhas
E, fora do corpo, com um sorriso mortal.

Quando massacraram os dez tecedores de linho,
Ao lado deles caíram no chão óculos,
Carteiras, trocos, e um conjunto de dentaduras:
Sangue, bocados de comida, o pão, o vinho.

Antes de enterrar meu pai mais uma vez
Devo polir os óculos, equilibrá-los
No seu nariz, encher-lhe os bolsos com dinheiro
E na sua boca morta enfiar o conjunto de dentes.

Michael Longley

Versão de HMBF

In another dual elegy, “The Linen Workers” (one of a set of three entitled “Wreaths”), Longley considers the sets of dentures left lying in the road after tem men were massacred by Catholic operatives, comparing them to his “father’s false teeth / Brimming in their tumbler”. He saves the poem from sentiment by introducing a third set o teeth:

Christ’s teeth ascended with him into heaven:
Through a cavity in one of his molars
The wind whistles: he is fastened for ever
By his exposed canines to a wintry sky.

Longley here is grotesquely reflecting on orthodox Christian belief – the ascension of Christ’s whole body into heaven – in such a way as to satirize those beliefs and their power to wreak violence. If teeth go with Christ into heaven, then Christ goes with teeth of the slaughtered into the dust: beside the dead workers are found “Wallets, small change, and a set of dentures: / Blood, food particles, the bread, the wine”. Before the poem is over, though, the poet must again bury his father, giving him (back) his spectacles, small change and dentures. Longley’s chance, it seems to me, for a fresh perspective is partially lost in his return to the domestic, to the sentimental.

Jonathan Hufstader, in «Tongue of Water, Teeth of Stones: Northern Irish Poetry and Social Violence»

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

EL CONDOR (1970)



Ao quadragésimo sétimo filme, as opções começam a ficar apertadas. Surge a sensação de que talvez fosse preferível alargar a selecção. A gente começa a esgaravatar e reencontra velharias, curiosidades, obras-primas esquecidas. Não será o caso de El Condor/O Tesouro de El Condor (1970), que merece constar nesta lista mais pelo seu carácter paradoxal do que por méritos intrínsecos à obra. Próximo do filme de aventuras, que no western encontrou na versão spaghetti território privilegiado, El Condor distancia-se, porém, dos congéneres italianos pela produção arrojada. André de Toth, de quem falámos enquanto realizador do memorável Day of The Outlaw, produziu para o polémico John Guillermin (1925) este filme que conta com Jim Brown e Lee Van Cleef nos papéis principais. O segundo foi sempre uma presença assídua no género, sobretudo em papéis secundários; o primeiro, vinha da NFL e nunca se lhe reconheceram méritos na arte da representação. Ainda assim, a parelha joga bem num campo de batalha onde o que conta é a enérgica presença física das suas personagens. Não existem muitos westerns com actores negros nos papéis centrais. No ano em que Tarantino nos presenteou com Django Unchained, seria injusto não fazer referência a um deles. El Condor surge no conjunto de uma obra inclinada para a exuberância visual, onde podemos encontrar filmes tais como o mítico The Towering Inferno/A Torre do Inferno (1974) ou recriações de personagens oriundas dos livros de aventuras: Tarzan, King Kong, Sheena… Há em todos estes filmes um denominador comum que não pode passar despercebido. De uma forma ou de outra, apontam para tesouros em torno dos quais se desenvolvem ambições humanas destrutivas. El Condor não é excepção, sendo ao mesmo tempo aquele que explora com iguais doses de ironia e de perplexidade a desventura de exploradores avaros e o infortúnio de aventureiros desprevenidos. A pergunta que Jaroo, personagem de Lee Van Cleef, faz ao morrer é exactamente aquela que todos estes filmes parecem querer provocar nos seus espectadores: que faço eu aqui? Esta dúvida sobre a pertinência das acções acompanha incertezas várias acerca do sentido da vida e do esforço colocado na demanda de falsos tesouros, crenças improfícuas, mitos e lendas. No entanto, El Condor, com todos os seus altos e baixos, esconde nas entrelinhas tesouros inesperados. Luke (Jim Brown) consegue fugir da prisão onde cumpria pena por supostamente ter feito explodir um comboio. Vai ao encontro de Jaroo, velho e solitário “garimpeiro”, a quem propõe assaltar um quartel onde os mexicanos guardam a maior reserva de ouro alguma vez conhecida. Para o efeito, precisam de um exército. E Jaroo é o homem ideal para arranjar esse exército junto dos Apache com quem mantém relações privilegiadas. O filme desenvolve-se, então, em torno de um objectivo concreto: o ouro guardado nas catacumbas do quartel mexicano. Seguem-se cenas de batalhas, explosões, emboscadas, combates. Muito tiro, muita acção, muitos efeitos especiais. Mas todo este espalhafato é libertado por um final irónico, que coloca os dois protagonistas frente a frente num quartel praticamente vazio e abandonado. Ambos sucedidos no propósito inicial, acabam traídos pelas suas próprias ilusões. Afinal, as barras de ouro ali guardadas não mais eram do que chumbo banhado a ouro. A sensação que então se instala entre ambos é a de um vazio e de uma frustração que apenas um deles, Luke, poderá suportar. No meio da confusão, encontrou um outro tesouro, um tesouro humano, a única mulher que vivia no quartel, companheira do general Chavez (Patrick O’Neal), agora caída nos braços de Luke. Falsas barras de ouro e uma mulher infiel são os tesouros que John Guillermin coloca lado a lado, ficando por ser evidente para qual dos dois terá pendido o seu coração. Uma coisa é certa: El Condor nunca existiu senão sob a sua forma mítica e ideal, tendo oferecido a quem o procurou um sentido que não seremos nós a julgar de vão. Talvez aquele que procure esteja passos à frente daquele que nega à partida todas as hipóteses não comprovadas. No fundo, Luke e Jaroo são dois cientistas modernos. Fazem as suas experiências, testam, cumprem com mais ou menos rigor o método escolhido. Que daí venham a retirar alguns frutos será sempre uma incerteza. 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

TA TA TA


Ta ta ta, tanta pomba assassinada, partimpim, trolaró
E mais umas merdas de natal
Ta ta ta, tanta pomba assassinada, partimpim, trolaró
E mais umas merdas de natal

(foi escrito há uns tempos. nada mudou a não ser a elsa raposo)

descurto bué o natal aqui na minha aldeia o natal é luzinhas de mangueira pisca pisca a debruar as varandas das casas faz lembrar os filmes doliude arbustos mirrados podados em forma de pinheirinho pinheirinho enfeitados com fitas chinesas desbotadas e bolinhas meio mancas há mais dinheiro para copos e uma gaja já nem pode comer um pão de leite com fiambre e mantequilla porque só te querem enfiar bolo rei e cenas com passas e nozes numa orgia de frutos secos e frutas cristalizadas e comidas próprias do natal e do espírito de natal como a reconciliação a paz na terra aos homens de boa vontade a meia dependurada na chaminé e um gajo anafado com aspecto de obeso mórbido entalado entre uma coca cola e as eleições livres no iraque que até comoveram um tipo meu amigo que é pró liberalismo mas isso é porque o gajo é um romântico do caraças e ainda acredita e eu digo é mais fácil um americano passar pelo buraco de uma agulha que um iraquiano ter voto na matéria

descurto bué o natal porque já sabemos como a história acaba e não tem um final feliz o herói morre a mocinha corta os cabelos e dizem que veio para a europa com o filho que o pai nunca reconheceu segundo o são dan brown curto mais o pinóquio ou o quebra nozes versão barbi aí ao menos o bem vence o mal e o pai é um gajo chamado gepeto que até arrisca o pescoço para salvar o filho

descurto bué o natal porque descurto o fiel amigo é seco enfia-se entre os dentes faço sempre uma bola ao canto da bochecha como os hamsters e tenho de arranjar desculpa para ir cuspi-la porque os guardanapos são de linho e renda da avó, ó filha, e a minha sobrinha escreveu um e-mail ao pai natal e deixai vir a mim as criancinhas ó senhores a pedir o disco dos d-zert esses tipos que encheram o atlântico e puseram o pessoal a gritar até ao haiti que cena que cena marada os gajos vendem mais que pão quente e até já são bonecas tipo mete no bolso e leva pra toda a parte e têm acessórios muito quinquis como microfones e carros descapotáveis com bancos reclináveis descurto bué o natal porque na televisão só passam filmes de natal com o silvester a declamar I love america america is mai drim episódios de natal com festas de natal em escritórios na city em que o pessoal fode na varanda entre uma rabanada das deles e um flute de espumante de pé de atarrachar e é tudo dobrado em portugês e as gajas dizem hummmmm e ahhhhhh e não há tradução possível para tanta fodilhice mais mal enjorcada pode-se lá foder em paz no natal de um edifício de trinta e muitos andares o vento até te leva a tesão

descurto bué o natal com os néones a dizerem quanto natal queres as capas de revista muito glamour em ton-sur-ton-sur-noel-xmas tudo é branco tudo é vermelho e invariavelmente a elsa raposo aparece meio nua embrulhada em sedas douradas ou em pompons encarnadinhos o pessoal baba-se todo e diz esta gaija é boa comó espírito de natal na página seguinte invariavelmente par impingem-nos o carro-gaja-modelo ipsilon a um preço escandalosamente natalício sem juros com todos os optionals que um verdadeiro rei–gajo-que seja-gajo-mago tem direito vomito mais natais pelos olhos que mais os natais do hospital onde aparece o eládio clímaco preso por grampos o gajo ainda não morreu os velhinhos as criancinhas os doentinhos os emigrantezinhos as cançonetas pimpuneta pelos caminhos de portugal a mónica sintra os corais da terceira idade descurto as reedições punheta em capa dura dos clássicos do mundo e arredores e uma gaija vai ao modelo e faz rali entre as promoções dos cristais d’arques e as garrafas de malibu e os livros das rebelos e das rititi os sonhos são sempre de papel chupóleo e do dia anterior e eu vi uma escola inteira profes primários e auxiliares de acção educativa e tudo entrar no olga cadaval para um concerto com barretnhoss vermelhinhos e branquinhos e luzinhas intermitentezinhas os narizes ranhosos de renas sobreaquecidas e os olhos arremelgados de tanta tanta mas tanta merda de natal as profes gritavam esganiçadas de espírito natalício não saiam da fiiiiiiiiiila e os putos respondiam a tooooooodos um bom natal as boquinhas e fazerem o oooooo longo e todos os músicos paravam para ouvir e balançavam num pé e noutro um quase caía porque levava um contrabaixo iam todos de preto o que é a cor mais natalícia que eu conheço

descurto o glamour o natal da agustina em que as criadas de servir usam aventalinhos de cetim e dizem sempre sim minha senhora e à noite enquanto as senhoras rezam ao menino jesus e à sagrada família são comidas pelos patrões e pelos patrõezinhos sempre em quartos de saguão com a boca bem fechadinha xiu minha linda os natais de públicas virtudes de persignação e de consolo em que as mulheres se dão à azáfama e os homens regressam às sete e meia da tarde para a ceia com passagem pela tasca os natais dos merceeiros com cabazes e garrafas de tinto da terra prós doutores uma garrafinha é só uma lembrancinha e mais as broas e mais as porras do costume no sítio do costume

descurto o natal porque a malta senta-se à mesa da consoada todos lampeiros todos perdoadinhos todos vestidinhos de lavado e traz o velho do lar traz a tia da terra traz a prima desavinda e mais os herdeiros das traquitanas dos velhos que não fodem nem saiem de cima a ver se entre um copo de favaios e um tinto de borba os amaciamos e depois do natal vai tudo pró lixo ele é pinheirinho ele é papeletas ele é embrulhinhos de boas vontades e velhos e rabanadas secas e ossos de peru e as prendas da adosinda compradas na loja dos trezentos

descurto porque sim porra e mai nada

descurto o natal desde que me deram uma tucha e eu queria era um action man de cavalo e tudo desde que fui ao circo chen e o palhaço rico enfiou uma chapada no palhaço pobre deu-me cá uma vontade de lhe gritar porco capitalista cabrão prepotente e quis logo cantar a internacional versão palhaço mas depois o palhaço pobre deu o cu para o palhaço rico lhe enfiar o calcanhoto e I love o meu mundo o meu mundo é o meu drim

descurto o natal porque está frio e gelam-me os ossos e fui aos correios e deparei-me ali mesmo nos cêtêtê com a maior livraria que existe em sintra o pessoal enfia as cartas de correio verde num bidão e enquanto espera su vez põe-se a ler o paulo coelho o que predispõe qualquer alma para a imortalidade descurto o natal e os sucedâneos do natal como descurto o sabor a unto rançoso dos chocolates espanhóis descurto bué profiteroles oves moles e trolaroles e o correio de natal porque me entopem de crédito para as viagens de fim de ano e há cenas tão improváveis como receber as boas festas em todo o lado e tá tudo cheio de tantas não–há-cu- que-aguente-boas-vontades e trolaró e riem muito e riem muito, porque porra é que riem muito e dão muitos beijinhos e chovem perus como pombas assassinadas e recordam-se os mortos de morte matada e recordam-se os vivos de vida matada na missa do pé de galo e diz-se que o menino é salvador e vai uma lambada no puto que quer brincar com as ovelhinhas do presépio vivo e vai haver eleições e há um gajo a precisar de um lifting facial outro a dizer que não é político então que porra anda a fazer a chagar o pessoal outro diz que vai ganhar com essas mãos que amassam as palavras como pão nosso de cada dia nos dai hoje vai vai mas é ganhar juízo outro estatisticamente está morto outro fala da autoeuropa e é cego surdo mudo mas ninguém sabe perdoai-lhe senhor porque o gajo perdeu a estrela e a foice e o martelo agora é mais um maço para as estacas enfiadas pela nossa goela e o people inteligente que sa farta dos blogs acha tudo a sério e escreve posts a cascar neste a cascar naquele e a pensar e a analisar e a prognosticar e mas que porra há para pensar, esta merda toda é mesmo isso, cheira a merda, sabe a merda, é merda e nem preciso de provar nada para saber, sei claramente sabido, vi claramente visto, sabe claramente a merda e o medo mata mais que o cancro e o pessoal tem é falta de tomates é o que é e digam-me lá estou do lado de cá ou do lado de lá porque eu passo-me com esta cena

descurto o natal porque o trivial pursuit agradece às sepaice garls e ao gorbachov deite quase tudo e morangos silvestres digo com açúcar o pessoal crispa-se encrespa-se e é preciso gostar de alho diz a gaja do canal dezoito viver dos carecas é qu'elas gostam mais desconfio que esta careca está bem à mostra e descurto bué o natal dos passarinhos nos ninhos da não é verdade tanta pomba assassinada e o raio da moura guedes a achar que me importa um colhão saber que vai embora com pena de ir e o idiota ser uma reedição da presença de natal e a ferro ter uma página numa revista, sei lá qual, e escrever cenas como a que li uma gaja fica prenhe depois de uma one night stand e com todo o amor da vida mete ao filho o nome do pai que não sabe do filho que fez e que agora tem vinte anos e se parece com o pai que não conhece em nome do pai e do filho e da mãe também amor e dedinhos do pé que porra de publicidade mais vida que porra de moralzinha pobrezinha desenxovalhadinha graças a deus existem as ajudas de berço graças a deus as meninas tão pequeninas fazem os ninhos com mil cuidados, graças a deus o papa acabou com o limbo senão iam directos para esse improvável lugarzinho que dá razões às novenas e às genuflexões, genuflexão por genuflexão eu cá prefiro as do ajoelhou vai ter que rezar de um fellatio cheeeeeiiiiiinho de white xmas, e apetece-me é dizer comós espanhóis me cago em dios, coño, e se existe vida noutros planetas que seja mais inteligente que neste diz o axisene e eu concordo pela simples razão de ser a favor dos extraterrestres e dos ufos mais que dos ovnis e ainda vamos ter que gramar o pavarotti o bocelli e esses gajos todos tipo corvo a cantar a capella nos xmas cânticos sempre em estrangeiro com legendas que poderiam é dizer eu estou a sonhar com um natal branco e os gajos do black é beautiful vêm e roubam o branco mais branco não há iô vamos arrebentar esta cena toda roubar o menino jesus ai que pecado ai que o senhor prior até teve uma paragem digestiva entre um papo de anjo e a barriga de uma freira e todos gostariamos ter um momento na vida em que gostaríamos de

desaparecer e

até pode ser com gps nas imensidões ho ho ho do branco mais branco não há o elton john casou com o namoradoque porra já nem os gays são revolucionários e houve uma mega festa com os british de bandeirinhas e canecas com os noivos e tudo no natal que é xmas e xxx que é como quem diz ‘jinhos e mais a pesca da sarda do biqueirão e do linguado que está protegida e já posso dormir na paz do senhor, assim seja

fodasse ou está tudo louco ou eu já me passei de vez

descurto bué o natal porque sou uma gaja invejosa sem ter onde cair morta e não posso comprar a última criação dolce e gabbana que me garantem ir fazer de mim uma estrela
fosse de natal, porra, a estrela, digo

mas uma estrela leva trezentos milhões de anos a orbitar a via láctea e eu não acredito na reencarnação o que me leva a pensar que a sociedade de consumo é uma merda que promete promete e népia



e se for direitinha pró inferno que se foda sempre poupo nas ultra leves da galp

Marta Cunha Caldeira

domingo, 22 de dezembro de 2013

PODÍAMOS

Podíamos falar de filmes franceses, discutir os argumentos, ou partilhar as melhores canções do ano, podíamos apontar no mapa lugares luminosos, imaginar viagens numa geografia íntima, pessoal, podíamos pintar rostos aleatórios, ensaiar melodias ou cadáveres esquisitos, podíamos discutir filosofia, ler em conjunto, partilhar poemas, parágrafos, os textos de uma vida, podíamos simplesmente desligar o tempo da vida e caminhar, andar a pé, meter no lixo o que nos rouba espaço e tempo e comprime até ao ponto de sermos pouco mais do que nada e ninguém, porque mais não somos, podíamos. Mas, enfim, nisto de tanto podermos nada partilhamos, acabamos sempre encalhados nos mesmos destroços diários. Um deitado no sofá a contar carneiros, o outro deitado no teclado a contar histórias. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

COISAS DA LÍNGUA

Alguém que explique a diferença entre as profissões de puta e "actriz de filmes para adultos". E já agora, porque é que uma actriz de filmes para adultos não pode ser simplesmente actriz? O que a diferencia de actriz de filmes para crianças, actriz de filmes dramáticos, actriz de comédias românticas, actriz de filmes de Domingo à tarde?

THE SCALPHUNTERS (1968)

No dia 4 de Abril de 1968, Martin Luther King Jr., pastor protestante nascido em Atlanta, foi assassinado pouco tempo antes de dar início a mais uma das suas populares marchas contra a segregação racial. Nesse mesmo ano, Sydney Pollack (1934-2008) viu estrear a sua terceira longa-metragem, após diversos trabalhos enquanto actor e realizador de séries televisivas. The Scalphunters/Os Caçadores de Escalpes (1968) não terá surgido por acaso no contexto de uma América ferida pelas divisões raciais. Pollack, que viria a reincidir no western com um filme memorável – Jeremiah Johnson/As Brancas Montanhas da Morte (1972) -, por muitos considerado, e com razão, o seu melhor, ensaia neste The Scalphunters um conjunto diverso de problemas que o género mais tipicamente norte-americano sugere. Desde logo, o problema da convivência entre raças no terreno hostil das leis naturais.
A sequência inicial é um excelente intróito, com Burt Lancaster a trautear uma canção com motivos raciais enquanto viaja solitariamente montado na sua égua: «My mother was a Baptist, boys / My father was a Jew / My sister married an orphan / At the battle of Waterloo / Don't ever kiss a Hindu, boys / Unless you are engaged / True love is never found with girls / Who dance upon the stage». A canção é interrompida quando Joe Bass, o caçador de peles interpretado por Lancaster, é abordado por um grupo de índios da tribo Kiowa que pretendem trocar as peles por um negro. Bass resiste ao negócio, mas vê-se forçado a ficar com Joseph Lee em troca das peles.
O papel de Joseph Lee valeu a Ossie Davis uma nomeação para os Golden Globe Awards. O lado caricatural da personagem não deixa de ser ousado para a época. Joseph Lee não é um vulgar escravo foragido, tem uma postura aristocrática que contrasta com a brutalidade dos brancos e dos índios com quem se vai cruzando. Sabe ler e escrever, cita passagens da Bíblia e refere-se a vários autores citando-os em latim. Diz ter convivido com uma das famílias mais cultas do Louisiana, mas só quer chegar ao México, onde a escravatura não existe, para poder ser um homem livre. A possibilidade de uma relação cúmplice entre Joe Bass, interessado em recuperar as peles que tanto trabalho teve a caçar durante um Inverno inteiro, e Joseph Lee, o escravo bem-educado que quer ser livre, é o leitmotiv de Os Caçadores de Escalpes, sendo evidente o esforço para demarcá-los no que têm de distinto e aproximá-los no que têm de mais semelhante. E o que os aproxima, depois de terem que enfrentar um grupo de caçadores de escalpes liderados pelo terrível Jim Howie (Telly Savalas), é a obstinação e perseverança nos propósitos de cada um.
Há uma dimensão cómica nesta história que pode distrair-nos do fundamental. As personagens prestam-se a isso, desenvolvidas em sequências que incluem bebedeiras, lutas na lama, cavalos "amestrados", entre outras preciosidades do universo da comédia. Mesmo o terrível Jim Howie, chefe de um gangue que tem no currículo o assassinato de cinco sheriffs, o assalto a inúmeros bancos e a conquista de mais escalpes do que os conseguidos por toda a cavalaria, perde a carga trágica e torna-se cómico quando se derrete aos pés de Kate, a mulher com quem viaja numa carroça decorada com motivos astrológicos.
Não obstante, temos à nossa frente os três pilares de uma complexa nação: índios, colonos, escravos. Se assim é, também não deixa de ser que a personagem interpretada por Burt Lancaster tipifica aquilo a que poderíamos chamar o verdadeiro ídolo norte-americano: pragmático, sagaz, persistente, corajoso, individualista, capaz de se relacionar com todos  - comunica com os Kiowa no dialecto indígena – a despeito de diferenças civilizacionais. Objecto divertido, Os Caçadores de Escalpes parece ter mais alguns propósitos do que os de meramente nos distrair da realidade. Interpretado à luz social do tempo em que surgiu, há nele intenções políticas subliminares. Acontece com diversas obras, seja essa ou não a intenção de quem as gera. Para quem desfrui, o resultado dificilmente poderá ser outro. Música de Elmer Bernstein.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

ÚLTIMAS PALAVRAS


 

as gajas chegam aos magotes em tempos de austeridade

intercâmbio cultural transatlântico

patrocinado pelo arco da governabilidade

não referem o tema  nos briefings

talvez por ser anticonstitucional -

palavra tão grande para coisa de nada –

mas sabemos de fonte segura

porventura anónima

porventura exilada

porventura assegurada pela tecnologia dos drones

que o desemprego fomenta o intercâmbio

vêm elas de lá para cá vão elas de cá para lá

como as ondas do mar

numa febre empreendedora que já nos deu uma érica

fonte de inumeráveis fantasias

com direito a fotografia e boneca barbie a condizer

2013

ano da nossa salvação

corrigidos que temos sido pela factualidade promissora dos intercâmbios

imagina o que seria o cacilheiro da joana vasconcelos

atolado de ericas grandolando os guiões da reforma

imagina só daí de onde estiveres

que eu por cá, Henrique de nome inteiro, aguento-me

irreversível e irrevogável pelos mares tépidos da economia doméstica

deixo para Lampedusa o infante e os naufragados

da áfrica subsariana

órfãos de madiba mandela tata rolihlahla

santo revolucionário de tantos nomes impronunciáveis

a saldo nos mercados onde transaccionamos a dívida pública

dos intercâmbios transatlânticos

previstos em orçamento chumbado ratificado ratado

com piropos aos pensionistas que perderam

mais que 16% de reforma

61% de tusa

e já nem pelas ericas se vêm (sic) resgatados

ao preço que estão viagra, livros e musas

não admira que prefiram um contrato de swap com a vida

alegremente registada numa selfie

que a troika talvez venha a taxar

sob pena de inundarmos o mundo com a falsa alegria

das partilhas online

 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O EXPLÍCITO E O IMPLÍCITO

 
 
Cenas de sexo explícito em filmes não propriamente pornográficos são hoje uma vulgaridade inconsequente. O Desconhecido do Lago exibe o adereço sem parcimónia, acrescentando pouco mais que nada ao que Alain Guiraudie tem para nos oferecer. A irracionalidade da paixão, fronteiras entre amor e sexo, amigo e amante, uma problematização do desejo num local onde ele aparenta ser tudo menos problemático. Não gostei. No entanto, enquanto regressava à província lembrei-me de uma nota de Frederico Lourenço sobre as origens da elegia. Diz assim:
 
«Destinada a ser cantada em saraus/beberetes de homens (simpósios) com acompanhamento de aulós (instrumento de sopro cujo som seria parecido com o moderno oboé), a elegia reflecte as preocupações eróticas, políticas e aristocráticas dos simpósios, onde, ao lado de um evidente sentimentalismo homossexual, surge também a desconfiança face à ascensão social de arrivistas que não partilham, pela nascença, dos valores eugénicos dos áristoi, à letra os “melhores”».
Deixando nas margens a questão aristocrática, até porque Guiraudie democratiza o corpo com uma perspectiva indiferente a preconceitos de beleza, o lago pode ser interpretado como uma espécie de simpósio dos tempos actuais, onde os homens reflectem as suas preocupações eróticas com o sentido prático que a modernidade exige. Não temos oboés, é certo, mas não faltam instrumentos de sopro. E não me refiro a harpas de vento. Ironia à parte, o desconhecido do lago acaba por  ter um discurso muito semelhante ao que encontramos nesta elegia de Mimnermo:
 
1 Elogio do prazer (fr. 1 W)
O que é a vida? O que é o prazer, sem a dourada Afrodite?
Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem:
o amor secreto, as suaves ofertas e a cama,
que são flores da juventude sedutoras
para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa
velhice, que faz até do homem belo um homem repulsivo,
tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos
e já não sente prazer em contemplar a luz do sol,
mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres.
Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.
 
Remetem-me os versos, porém, para Morte em Veneza, de Thomas Mann, adaptado magistralmente ao cinema por Luchino Visconti. Esta questão da velhice, da degenerescência do corpo mas não necessariamente do desejo, instaura no homem um conflito essencial. A satisfação já não se busca apenas na partilha do corpo, mas antes na partilha de uma intimidade que o corpo, platonicamente falando, apenas oprime. Thomas Mann, que não escondeu a sua inclinação por adolescentes, era tipicamente elegíaco. Vale a pena recordar, citando o biógrafo Klaus Schröter, como foram as suas preocupações sendo implicitamente arrumadas na obra:
 
«Na época da república de Weimar, durante a qual Thomas Mann se separaria do seu conservadorismo e começaria a desenvolver uma liberdade democrática, também daria largas à homossexualidade. Indícios do seu desejo proliferam cada vez mais nitidamente na sua obra. O crayon (lápis) de Pribiszlav Hippe n’A Montanha Mágica é um símbolo fálico, ainda que enfezado, porém, realçado como leitmotiv. Mais tarde, o bíblico José é mostrado no seu esplendor corporal e referido como categoricamente divino até à cena da renúncia que culmina no grito da mulher de Potiphar: Eu vi a tua força. A Goethe, Thomas Mann põe-no a acordar com uma forte erecção em Lotte in Weimar. A sensualidade de Wiligis, Gregorius (O Eleito), Ken Keaton (O Cisne Negro) e de Félix Krull tem um cunho absolutamente fálico. Desde 1919 que Thomas Mann conhecia Die Rolle der Erotik in der männlichen Gesellschaft («O Papel do Erotismo na Sociedade Masculina») de Hans Blüher – Parcial, mas verdadeira -, sendo determinante para esta temática e culminando na doutrina de que a homossexualidade faria parte integrante da germanidade (Diário, 12.7.1934)».

HARPA DE VENTO




HARPA DE VENTO
para  Patrick Collins
Os sons da Irlanda,
aquele murmúrio inquieto
de que jamais te
libertarás, fluindo da
erva e dos arbustos rasos,
campainhas-do-monte e fetos,
enrugando os charcos dos brejos,
raspando os ramos das árvores,
luz a caçar nuvem,
som a perseguir vista,
uma mão que penteia
e afaga incessantemente
a paisagem, até
o vale brilhar
como a crina sobre
o pêlo de um pónei da montanha.


John Montague


Versão de HMBF

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

THE KING AND FOUR QUEENS (1956)



Filho de um irlandês e de uma espanhola, Raoul Walsh (1887-1980) foi um dos epígonos de Hollywood. Actor no início da carreira, trabalhou para todas as companhias cinematográficas e percorreu todos os géneros. Vimo-lo representar no polémico Birth of a Nation, de Griffith, muito antes de passar para detrás da câmara. Os críticos apontam They Died With Their Boots On/Todos Morreram Calçados (1941), Pursued/Núpcias Trágicas (1947) e The Tall Men/Duelo de Ambições (1955) como os seus melhores westerns, mas as mais interessantes incursões de Raoul Walh pelo género são aquelas em que consegue distanciar-se dos ambientes criados por outros mestres seus contemporâneos.
The King and Four Queens/Um Rei e Quatro Rainhas (1956) é bom exemplo de um western divertido e económico, sem preocupações morais evidentes, construído em torno de um argumento mais interessado em jogos psicológicos do que em batalhas sangrentas e ruidosas. São raros os tiros que se ouvem, tão raros quanto os momentos em que a acção acelera o trote, decorrendo antes tudo num clima aparentemente ligeiro com laivos de comédia romântica.
Clark Gable, que granjeava à época do estatuto de estrela máxima da máquina cinematográfica norte-americana, é o rei desta história, um vigarista com ar de trapaceiro em busca do ouro roubado pela malograda quadrilha dos McDade. O rasto leva-o até Wagon Mount, onde supostamente o ouro se encontra escondido à guarda da mãe dos McDade. Mas não é apenas o ouro que Ma McDade (excelente interpretação de Jo Van Fleet, que no ano seguinte encontraremos em Gunfight at the O.K. Corral/Duelo de Fogo) mantém sob a sua alçada inflexível. Com ela, estão as quatro viúvas dos McDade, rainhas em estado de latência. Eleanor Parker, Jean Willes, Barbara Nichols e Sara Shane compõem o quarteto, cada uma com os seus atributos.
Walsh oferece-nos uma espécie de bailado da sedução entre o rei Gable e estas quatro desesperadas viúvas. A cena mais inusitada do filme materializa de facto esse bailado, com o sedutor Dan Kehoe (Gable) a saltar de braço em braço ao som de uma música que escutamos sem saber de onde vem. Resquício musical num western invulgar, a cena oferece ainda a curiosidade de à alternância de mulheres corresponder uma dança diferente, sublinhando-se dessa forma traços de personalidade que vamos detectando em cada uma das mulheres. A sonhadora e fútil Birdie (Barbara Nichols) contrasta com o calculismo de Sabina (Eleanor Parker), assim como a fogosidade de Ruby (Jean Willes) nada tem que ver com a fragilidade e timidez de Oralie (Sara).
Sobre todas elas pesa não apena o fardo de uma sogra implacável, mas também a incerteza da viuvez. Crê-se que um dos McDade se mantenha vivo, não se sabendo qual. A esperança de Ma é que regresse em busca do ouro, devendo por isso as viúvas manter-se fiéis a esta vã expectativa. Kehoe consegue tirar partido destas debilidades, usando a sua capacidade de sedução para testar o conhecimento de cada uma das mulheres relativamente à localização do ouro. Porque, e esse parece ser o pormenor mais relevante do filme, tudo gira, de facto, em torno do ouro. Onde julgamos ver paixão, vemos ambição, onde julgamos ver desânimo, vemos frustração, onde julgamos ver sonho, vemos simplesmente a nostalgia de uma liberdade perdida, sendo que, afinal, todos estes sentimentos acabam legitimados pela simples vontade de viver para lá dos mortos que não chegam.
Mesmo Ma McDade, na sua cega esperança de rever um dos filhos, mantém enterrado o ouro que parece abominar como uma espécie de tesouro que dá sentido à sua existência. O lado cómico da situação é o seu absurdo. Olhamos para Wagon Mount, a cidade destroçada, com seus edifícios em ruínas, onde apenas se mantêm quatro viúvas e a sogra de todas elas, como o cemitério de um tesouro que pode oferecer uma vida nova a quem dela se vê privada por culpa de um morto que não regressa. Esta figura ausente do McDade foragido, único sobrevivente de uma emboscada fatal, é determinante, havendo nela a representação de um ideal que Raoul Walsh parece desprezar. De resto, o filme aponta numa direcção materialista que varre para os lados qualquer elogio do sacrifício. Não sendo apologético da maldade, acaba por ser cómica e perversamente defensor da boa vida.

UM POEMA DE JOHN MONTAGUE

Nuala Ni Dhomhnaill, Jennifer Johnston, Derek Mahon, Sebastian Barry, John Montague e Tom Kilroy, em Paris, 1989.
11 RUE DAGUERRE
Por vezes, à noite, quando não consigo dormir
Vou à porta do atelier
Cheirar a terra do jardim.
Exala suavemente,
Especialmente agora, com o aproximar da Primavera,
Quando gavinhas verdes se entrelaçam
Por entre o húmus, desesperadamente frágeis
Na sua passagem pela
Escuridão, obstinadas parcelas de terra.
Há luzes acesas nos blocos de prédios
E no apartamento defronte –
Todos os quatro pisos – silêncio.
Naquele sossego – suave mas luminosamente exacto,
Uma luz escolhida – reparo que
As pontas da cerejeira recentemente enxertada
São de um sólido e lacado preto.
Versão de HMBF.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

NADIR AFONSO (1920-2013)


O mais estranho em Portugal é ter um povo de marroquinos com conversa de alemães.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

SOPA DOS POBRES


Não recordo onde li, nem se é fruto da minha imaginação, que Dostoievski terá escrito Noites Brancas na esperança de amealhar uns trocos para a sopa. É mais comum do que se pensa, esta cedência do génio à vulgaridade quando o estômago reclama conforto. Entre nós exemplos não faltam, tendo um dos mais deliciosos sido recuperado pelo editor Vítor Silva Tavares em 1979. Trata-se de Maria! Não me mates, que sou tua mãe!, texto originalmente publicado em 1848, que mais de um século depois inaugurou a colecção contramargem, à laia de folheto de cordel, com tiragem de 1000 exemplares (!) ao preço público de 30$00. O tempo inflacionou a edição, valendo a pena o investimento também pela nota introdutória assaz esclarecedora:

(…)
Em 1848 – o ano que mais nos interessa – Camilo completa vinte e três de idade e está no Porto sem saber de família, nem de amigos, nem de comida certa. Não passa de um «anjo puro de inocência», diz ele, «um anjo literato» quando salta «na Ribeira do Peixe da invicta cidade». A colaboração que dois jornais lhe aceitam é mal paga. O Hotel Francês da Rua da Fábrica, esse… quer as mensalidades em dia.
- Que fazer?
- Maria! Não me mates, que sou tua mãe!... anónimo… tipografia do Eco… de cordel!
Tomás Ribeiro recordará um dia no Imparcial: «Os jornais noticiaram então o assassinato de uma pobre velha, atribuído à sua própria filha, e dizem hoje informações insuspeitas que falsamente lho atribuíram. Camilo escreveu numa noite o pequeno livro que ia sendo consecutivamente impresso.» E acrescenta: «No dia seguinte a comovente narrativa, comprada sofregamente, salvava o poeta duma bancarrota.»

(…)


Ironia das ironias, cento e tal anos depois este faro comercial que a necessidade apurou foi transformado em «acto de contracultura admirável». Mais: «instante magnífico em subversão literária». Assim apresentado em 1979, pelo editor português mais alegremente falido de que há memória. Talvez seja este o preço a pagar pela liberdade de espírito, um corpo magrinho, um estômago ronronante, um caldo verde servido pela Paula Moura Pinheiro. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

& etc - UMA EDITORA NO SUBTERRÂNEO


Tendo por embrião um suplemento literário, primeiro, e uma folha cultural, depois, a editora & etc surgiu em 1974 com a edição de Coisas, reunião de textos e ilustrações de gente tão distinta como Baptista-Bastos e Pedro Oom, Nelson de Matos e Paulo da Costa Domingos. Desde então, afirmou-se como uma das mais invulgares editoras portuguesas. Podemos afirmar que de algum modo & etc transformou-se num conceito, alicerce estético, infelizmente nem sempre ético, de outras editoras que lhe procuram respeitar a marca com maior ou menor consistência. Nesse conceito cabe, desde logo, uma atenção especial ao corpo gráfico dos livros. O formato quadrado (falso) é hoje uma imagem de marca, mas também as capas em colaboração com artistas plásticos vários (predominam desenho e colagem, a fotografia está praticamente ausente). Outro aspecto a assinalar consiste num catálogo com especial inclinação para uma literatura insubordinada, onde cabem modernistas e futuristas, surrealistas dissidentes, textos iconoclastas e picarescos, poesia. Neste domínio, & etc impõe-se pelo sincretismo evidente, o que faz desta uma casa heteróclita cujo culto foi sendo alimentado tanto por autores como por leitores (não se distinguindo, tantas vezes, uns dos outros). Por detrás do conceito, a admirável persistência e obstinação de um editor chamado Vítor Silva Tavares, que entende «o livro como parte integrante da acção poética e não como mercadoria descartável» (p. 11). Entramos aqui nesse território complexo onde a estética encontra a ética, sendo sobejamente sublinhados, mais do que posturas anti-académicas ou contraculturais, uma atitude resistente à mercantilização do livro, entendido não apenas como artigo comercializável (que o é) mas também e mormente enquanto objecto artístico (que raramente chega a ser). De facto, cada livro da & etc, independentemente até dos textos que encerra, é sempre um objecto artístico em si, de tiragem única (uma excepção confirma a regra) e IRREVOGÁVEL. Merecem, pois, por todas e mais algumas razões, ser celebrados estes quarenta anos de resistência, uma resistência à vulgarização que o lucro apressado promove, uma resistência à domesticação da vontade que actua livremente num mundo de condenações perpétuas pré-natais, uma resistência verdadeiramente política, no sentido em que se exerce não à margem da sociedade, nem como por vezes afirma o editor em paralelo com o meio, mas dentro dessa mesma sociedade como uma erupção capaz de abalar os pilares hipócritas do regime. Um livro apreendido em plena democracia (plena de penas) é disso exemplo. O mesmo não sucederá, para bem dos leitores, com este & etc – Uma Editora no Subterrâneo (Letra Livre, Novembro de 2013), coordenado e concebido pelo poeta e editor da Frenesi Paulo da Costa Domingos, autor da casa desde a primeira hora. É bom que se chame a atenção para o facto de não ser este livro um mero exercício comemorativo, tratando-se de um dos mais importantes livros publicados este ano em Portugal. Reproduções e testemunhos vários, entre os quais sublinho os de Emanuel Cameira, Júlio Henriques, Pedro Piedade Marques e Rocha de Sousa, ajudam a caracterizar e a compreender (ao mesmo tempo que o aprofundam) este exemplo editorial, que não estando só no mundo nem sendo exclusivo na história portuguesa, é sem dúvida alguma de uma coerência rara. Isto é de uma relevância extrema numa época onde editores com trabalhos estimáveis se vêem obrigados a conviver com regras de mercado que atiram para a penumbra livros essenciais, oferecendo uma luz desmesurada e mesmo incandescente a lixo produzido com a acuidade da fast food. Constatá-lo, ao contrário do que possa parecer, não “elitiza” a excepção ou, usando nomenclatura mais em voga, a alternativa. Os tempos que correm facilitam o risco, o feiticeiro transforma-se no feitiço, a excepção vê-se apreendida pela norma, a própria lei subverte o crime. Tivemos este ano o triste exemplo do “fenómeno Herberto”, dispensa-se um “fenómeno & etc”. O que aqui está em causa é algo diverso, tem que ver com a possibilidade da vida livre, sendo certo que livres ou não estaremos sempre todos dependentes uns dos outros para que a obra aconteça e a poesia se faça. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

NELSON MANDELA (1918-2013)



Dostoievski declarou certa vez que as suas maiores angústias derivavam de «uma doença incurável chamada consciência». Não padecem de tal doença os moralistas de direita, insaciáveis na sua sanha de se baterem contra todas as iniciativas que têm como objetivo a expressão concreta, vivida, da solidariedade humana – não, não conta para este campeonato a sua preocupação natalícia com a caridade – quando vertem lágrimas de crocodilo pela morte de Nelson Mandela. Bem os vi, a eles ou aos paizinhos deles, muito calados e quietos enquanto o herói ocupava a cela com número 466/64 na prisão da Ilha Robben. Rui Bebiano, aqui.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

NOTA BREVE

Tendo ainda como ponto de partida Breves Notas Sobre as Ligações (Llansol, Molder e Zambrano), de Gonçalo M. Tavares (Relógio D’Água, Abril de 2009), avulsas considerações sobre poesia. A páginas 36 escreve-se: «Quando um segredo é publicado, dizes: eis a poesia». Aponta-se aqui, julgo, para uma ideia de poesia enquanto revelação. O segredo é o que está oculto, a publicação do segredo consiste numa revelação. A este dar a ver o que está oculto, explicitando-o, podemos dar o nome de poesia. Teoria clássica desmentida pela prática. Coloco-me na posição de leitor, posição relativa onde a relação com o texto poético (sentido mais restrito de poesia) se processa como num jogo de linguagem que prescinde da interpretação. Lê-se um poema como quem olha para uma paisagem, não havendo a preocupação de interpretá-la como haverá a predisposição para assimilá-la. A assimilação do texto poético corresponde a uma inclinação dos sentidos para se deixarem inebriar, espantar, alienando a razão que transforma o corpo numa máquina. Daí que a leitura de um poema corresponda a um momento de avaria que a máquina provoca a si própria, uma espécie de vontade de falhar, de errar (errância), de suspender a lógica, de vagabundear pelos sentidos da linguagem ao encontro do diverso (Llansol) e do inesperado. Neste sentido, a poesia não revela. Quando muito, desbrava. Neste sentido, a poesia surge num terreno onde mistério e revelação deixam de se opor. A poesia não revela o segredo, enterra-o. Mais facilmente se concorda, portanto, com a consideração expressa na página 50: «A certo momento da História, conhecer deixou de ser efeito do escrever, do pintar, do desenhar, e passou a ser efeito do apagar. Uma definição de poesia? Talvez. Retira de uma frase todas as palavras que a natureza não exige, eis uma definição possível para a poesia. Para o seu ofício, para o seu esforço». Inútil procurar uma definição de poesia, mas a hipótese de uma definição agrada-nos sempre. Porque é mera hipótese, condição que apenas reforça a inutilidade da intenção. Neste caso, definiríamos poesia pela economia de palavras. Discurso sintético, o “discurso poético” pressupõe uma teoria do conhecimento semelhante à teoria que Cage pensou para a música. Por outro lado, dificilmente aceitamos que a natureza exija palavras a uma frase. A natureza não exige palavras, se a pensarmos de um modo absoluto. Fenómeno exclusivamente humano, a linguagem alimenta a natureza humana. Desvia o homem, porém, da força bruta, da energia e do movimento que orienta os outros seres naturais. A linguagem enfraquece o homem; o esforço da poesia, enquanto forma de expressão arreigada à linguagem, talvez seja fortalecê-lo, mas não apenas pela economia de palavras, também pelo excesso. O excesso liberta, embriaga, leva o ser ao ponto de delírio (Artaud) onde a poesia acontece. Verdade que a poesia simplifica, ao contrário do que tantas vezes se pretende. Os próprios críticos referem-se amiúde à complexidade como se estivessem a referir-se a uma vantagem. Mas os críticos são críticos, estão ainda no plano lógico da máquina concertada. Pouco importa o que digam. Última consideração, porventura a melhor: «O poema é uma substância que remete para as surpresas da física. Um verso avança como se fosse uma coisa com electrões e desassossego. Tem núcleo, uma carga positiva e uma carga negativa». Eis a poesia a falar sobre si própria, num contexto onde se assume já a orgânica de uma dimensão (meta)física. Pena que se adiante: «O verso terá ainda de ser um medicamento para a linguagem, algo que traz de volta a saúde perdida nas frases de circunstância, nos lugares-obscenamente-comuns, lugares prostituídos da linguagem». Nada tem que ser o verso que não o seja já, daí ser verso: face posterior. Medica adoecendo, felizmente; não traz de volta a saúde perdida, não tanto quanto manda a saúde às favas e diz: vem lugar-comum, junta-te a mim, aqui sentados a olhar um para o outro podemos ser frente e verso, capa e contracapa do mesmo corpo bêbado que ri dentro da dor, que respira a cantar no delírio das palavras, que ajuda a morrer mais um pouco aquele que padece de si próprio.