Sirvo-me de Heiner Müller: Caligrafias da Morte, posfácio de
João Barrento para O Anjo do Desespero (Relógio D’Água, Janeiro de 1997): «Os
textos de Heiner Müller vibram de uma energia verbal em que a força obscura da
palavra resulta de uma extrema lucidez: a estranheza (para quem não lhe conhece
as fontes inesgotáveis) é o seu princípio, a metáfora o seu instrumento poético-político»
(p. 88). Foi este universo que os Mão Morta procuraram representar em Müller no
hotel Hessicher Hof (1997), espectáculo levado a cabo, durante o ano de 1997,
em salas tais como o Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, o Teatro Garcia
Resende e o Teatro-Circo. A componente cénica deste trabalho não surgiu em contradição
com o percurso da banda de Adolfo Luxúria Canibal. Antes pelo contrário. Desde a
sua formação em meados da década de 1980, apesar das raízes punk e góticas, a
banda de Braga ostentou sempre uma componente teatral que se tornou explícita
mais nos concertos ao vivo do que nos registos de estúdio. Em certo sentido,
este é o “álbum ao vivo” ideal de uma banda pouco dada às regras do meio. Acaba
também por ser, porventura, o melhor álbum dos Mão Morta (a quem devemos,
diga-se, alguns dos melhores discos paridos pelo rock português: Corações
Felpudos, Mutantes S.21, Vénus em Chamas, Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o
Ar se Tornou Irrespirável). O escritor alemão Heiner Müller (1929-1995) é o
farol que orienta a música, escrita naquela atitude de suporte típica da spoken word. Podia ser Baudelaire, Isidore Ducasse, os
situacionistas ou Rimbaud – objecto de um curioso espectáculo que reuniu num
mesmo palco o poeta Al Berto, Sérgio Godinho, Rafael Toral, João Peste… -, foi
Müller – autor de palavras que nos transportam numa viagem pelas dimensões mais
obscuras da humanidade. Tudo em família, portanto.
1 comentário:
A melhor banda no panorama "rock punk gótico teatral" Português!
(O Luxúria está a precisar de alguma humildade mas... sabe que é bom...)
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