sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

CANTO NONO

Diz o poeta em nota prévia reproduzida no final de Canto Nono (Douda Correria, Novembro de 2013): «este livro de aventuras não mais é do que um diário redigido entre as várias residências de acolhimento pelas quais passei nos últimos dois anos». Quando há dias lia em voz alta um excerto do livro e me perguntaram como classificaria esta poesia, disse a mim mesmo, há muito desistido de classificações, nomeadamente no que a poesia diz respeito, que está tudo nas entrelinhas. Repare-se na supracitada nota prévia. O facto de aparecer no final do livro induz já um indómito desejo de subverter. A poesia de Nuno Moura é subversiva na forma, na linguagem, na atitude subjacente à própria edição. Este livro, julgo que o primeiro de mais uma das editoras que o poeta fundou sob a nuvem inspiradora de Ângelo de Lima (Mariposa Azual, Mia Soave, Douda Correria), é de tudo isso exemplo. Na realidade, trata-se de um caderno sem números de página que suporta um poema longo, dividido em nove, torrencial, de pontuação mínima (alguns parêntesis e interrogações, vírgulas poucas e exclamações outras tantas) e informal. Dizê-lo de aventuras não é pretensioso, como possa parecer a quem olhe com desconfiança tal discurso. Quem leia o autor desde o primeiro livro, quem acompanhe aquilo a que vulgarmente chamamos de percurso, mas aqui assume a bela e livre forma de vadiagem, assim ao tipo fadista moda antiga, reconhece uma autenticidade naquela palavra aventuras que raramente a mesma adquire noutros contextos. Há nela um realismo que se reconhece nos poemas, paradoxalmente cifrado por um discurso alucinante e alucinado, truncado por uma incorrigível tendência para surrealizar. Equilibram-se as pontas, fica o poema a ganhar com o caos de imagens surreais paridas em referências concretas. Leiam-se os primeiros versos: «ainda os carteiros andavam a pé / e a água com gás era no mar e o sangue grosso diluía / estendia-se a roupa nos areais / e ainda conhecíamos as pessoas da nossa vida / ainda se entrava e saía deste país / com a ligeireza de um empregado de mesa / ainda ninguém abusava da sua posição / a não ser para lançar filhos ao ar / o homem do talho pendurava corações excelentes / há muito se tinha abandonado a ideia dos números oficiais / procuravam-se ataques de fome deitando fogo a tocas / e daí nada surgia / a não ser um maior entendimento da terra / e dos seus camaleões sonolentos / farejadores de novas estradas / havia itinerância antes de haver autocarros / e os dragões vermelhos cerimoniavam aulas fúnebres…» E neste registo enunciativo prossegue o poema, eivado de uma aparente nostalgia que mais não é do que um olhar sardónico sobre o presente. Daí que faça também sentido chamar-lhe diário, na medida em que diarística é toda a poesia de um poeta que nunca quis expulsar dos versos os dados da experiência sensível, erótica, social. Este ponto merece-me um parêntesis. Há muito de falsa ironia na poesia portuguesa actual que busca no remate gingão, em corpo polvilhado com estrangeirismos muito ao estilo do falar urbano, razões de ser e de estar. Não é bem o caso. A poesia de Nuno Moura mantém desde o início uma relação com a tradição que desconstrói as formas sem ceder um milímetro à facilidade de um lirismo disfarçado, ou seja, sem procurar agradar apenas pela graça do verso ou da situação. Se a espaços isso aconteceu, não é essa a regra. Chegamos, então, às residências de acolhimento, distintas de residências literárias, de escrita, por haver nelas um elo com as necessidades da “vida vadia” que nada tem que ver com o carácter oficinal mais ou menos académico das outras. Canto Nono resulta de um acolhimento onde sobressaem na mesma linha de relevo valores essenciais que não são os de uma materialidade submissa nem os de uma espiritualidade indigente, mas antes os de fazer com o único sentido de ir indo: «e o que ficava sempre bem era / vou-te fazer uma coisa linda / adicionar música / adicionar intersecções / adicionar caules / adicionar feridas / adicionar contrapesos / adicionar ir / vamos».

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