quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

DAR NOME AO CHEIRO

A Matilde perguntou-me o que eu gostaria de ser se não fosse o que sou. Olhei as minhas mãos e contei pelos dedos. Comecei a trabalhar, salvo erro, em 1997 - estágio profissionalizante, remunerado, numa escola situada no Alto da Damaia. Professor do ensino secundário. Depois estive um ano de licença sabática. Ou quase. Amigo generoso atraiu-me para o alienante mundo da imprensa local. Parcos meses bastaram para perceber que não era o meu mundo, faltava-me anca. Entalado entre um chefe de redacção neo-fascista e um director comunista (arrependido?), aguentei-me até ao dia de dizer “podem ficar com a bicicleta”.  No ano escolar 1999-2000 fui colocado em Almeirim. Regressei a Rio Maior, de onde ia e para onde regressava todos os dias. O caminho era bonito. Mudado para Caldas da Rainha, dediquei-me à formação profissional. Primeiro como divulgador dos cursos, depois como formador. Também vendi explicações. Dez anos seguidos nisto, a recibo verde. Pelo meio, voltei a trabalhar com um jornal nacional (pagavam à semana, não exigiam recibo) e fiz alguns artigos para uma revista de saúde, bem-estar, auto-ajuda e medicinas alternativas. Não estou a gozar. O pior veio em 2008: seis meses de Call Center. Um pesadelo de frustrações, ambiente insuportável, a vender telefones fixos (que eram móveis) por telefone, sem acreditar em nada, com a pressão das vendas a enterrar-nos na câmara de tortura. Apesar de bem sucedido, zarpei com as mãos a suar e as pernas a tremer. Surgiu então a oportunidade livreira. Já lá vão cinco anos, que talvez um dia venha a contar com detalhe e a serenidade que a ocupação reclama. Por ora, tenho de responder à Matilde. Em tempos, julguei que queria ser escritor de canções. Faltou-me a voz para cantá-las, o talento para escrevê-las. Também achei que podia ser pintor. Por três vezes vi quadros meus expostos. Por três vezes fiquei convencido que mais valia ter-me dedicado à pintura de paredes. Escritor a tempo inteiro, nem pensar. Só se fosse num registo descomprometido, ou seja, em que não faltasse dinheiro para fazer face às despesas e as palavras pudessem continuar a saltar dos dedos sem preocupações terceiras. Acho que podia ser pescador. Mas o que gostaria de ser se não fosse o que sou? Bem, aqui chegado, na meta dos 40, acho que gostaria de ser nómada para aprender a dar nomes aos cheiros:

Os jahai, cuja língua Niclas Burenhult estuda há anos, são um desses povos. Perdidos nas zonas montanhosas da selva tropical, na fronteira entre a Malásia e a Tailândia, são actualmente pouco mais de milhar e meio e a sua língua, que não tem forma escrita, está ameaçada de extinção. Ora, para descrever as qualidades dos “cheiros primários”, por assim dizer, estes caçadores-recolectores nómadas utilizam uma dúzia de palavras abstractas. Saber nomear os cheiros com precisão é-lhes essencial, não só nos seus rituais como para alertarem os outros para diversos perigos, escrevem os cientistas.
Por exemplo, têm uma palavra (“ltpit”) para descrever o odor de várias flores e frutos maduros, do perfume, do sabão, de certas madeiras aromáticas – e também o do binturong, um pequeno mamífero carnívoro do tipo da gineta (que, segundo fazem notar os autores, a Wikipédia refere como tendo um característico cheiro a pipocas…). Uma outra palavra específica serve-lhes para o cheiro do petróleo, do fumo, dos dejectos dos morcegos e das grutas em que vivem, de certas espécies de centopeias, da raiz do gengibre selvagem. E todas elas são tão abstractas como as palavras “vermelho” ou “azul”, que nós utilizamos para nomear as cores.

3 comentários:

rff disse...

O caminho era e é bonito, de facto.

E o meu quadro, pintor de paredes? Eu pago-te em pinga...

hmbf disse...

Ando com o pincel murcho.

marta disse...

O mais difícil é isso:dar nome ao cheiro. Ser capaz de o meio de uma floresta imensa reconhecer-se o próprio odor