sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

LEIS DA SEPARAÇÃO

No seu último livro, Rui Almeida (n. 1972) chamou para o título um termo próprio do discurso científico. Mas fê-lo com inteligente sentido poético. A palavra lei provém etimologicamente do verbo latino ligare. No plural, adquire uma conotação normativa. Leis da Separação induz, deste modo, uma aparente contradição, na medida em que pressupõe ligações para aquilo que se separa. Publicado pela Medula em Setembro de 2013, este livro reúne 38 poemas interligados por um timbre comum, embora separados pela autonomia conferida na arrumação geral. À excepção de um, nenhum dos poemas foi intitulado. A verdade é que cada um destes pequenos poemas vale por si, assumindo no conjunto não o papel conectivo de uma sequência, mas um corpo singular, independente, em relação próxima com os restantes. Reconhecemos desde Lábio Cortado (Livrododia, Maio de 2009) o cuidado que Rui Almeida coloca na disposição dos seus poemas, sendo a estrutura do livro relevante da configuração do conjunto e na conformidade desta configuração com a temática geral. A epígrafe de Fernando Assis Pacheco introduz um pathos existencial que se estende ao longo do livro, com momentos onde a raiz espiritual e reflexiva das recolhas anteriores cede a uma observação quotidiana muito mais concreta. Tome-se de exemplo este poema aparentemente descritivo:

Chove e há
Turistas musculados de t-shirt
A saírem aos pares
De monumentos nacionais.

Há também
Gente autóctone que trabalha
Ali perto
E passa depois do almoço.

Todos felizes da vida
Por serem humanos;
Até o maneta,

Que atrapalha o trânsito
Com obscenidades
Por não ter nada a perder.

(e esse mais do que os outros)

O remate irónico não deve distrair-nos do essencial. Primeiro, as contradições que o poema aponta num mesmo momento: a chuva em contraste com pessoas de t-shirt, o lazer dos turistas em contraste com o trabalho dos autóctones; depois, a asseveração coloquial de um estado de alma impossível de determinar, mas o qual se supõe por mera observação; por fim, a figura algo inusitada do maneta que, por lhe faltar um órgão, tem menos a perder do que os outros. Estando separados, os sujeitos enunciados ligam-se pela universal – Todos felizes da vida - que determina o estado de alma. Não obstante, o poema deixa implícito um certo desconforto, a constatação de uma aberração porventura essencial. Aquela felicidade acaba por contrastar com o tom que o poema apenas sugere, um tom melancólico refugiado na ironia do discurso. O que liga os actores neste palco é a sua humanidade, condição menor perante a grandeza do mundo e do desconhecido que outros poemas apontam. Ecoa nesta poesia um sentimento de inferioridade e impotência típicos da poesia mística, uma permanente insatisfação/desconsolo que torna o ser consciente das suas limitações. O poeta tira a febre ao mundo, sente-lhe a temperatura e deixa-se contagiar pelo vírus da sua humanidade. Tenta superar-se, talvez seja essa a sua função, mas encontra-se ainda naquela encruzilhada onde tudo aparece separado de tudo estando, paradoxalmente, unido sob o mesmo tecto circunstancial:

Oito graus centígrados
E já a manhã vai a meio,
Valha-me esta camisola e
Os sapatos a aconchegar

O passo, a aquecer, até
Chegar. Do frio da cidade
O azul intenso do céu,
A pé, de ruas estreitas,

Se faz luz, lume, chão
De cair em si a parte
De mim erguida noutro.

Oito graus centígrados
E o céu que não chega
Para aquecer as mãos.

Poema depuradíssimo, este soneto ilustra bem o que pretendi sublinhar. Importante acentuar a referência à temperatura ambiente, que nos coloca num nível material transcendido pelo poema com a alusão a uma caminhada pelo frio da cidade sob um intenso céu azul que não chega para aquecer as mãos. Mais uma vez, a tal insatisfação de que há pouco falava. De resto, não é por acaso que a temperatura das coisas aparece recorrentemente referida: «o sangue morno da alma» (p. 8), «alto por ser quente» (p. 14), «Pedras como nomes / Que abrigam / Do frio e da solidão» (p. 23), «o calor do lume se apaga» (p. 34), «corpo queimado» (p. 35)… Esta alusão recorrente a estados de temperatura repercute a dúvida colocada numa estrofe do poema da página 24:

Será possível tocar
Na pele do rosto de um semelhante
Sem deixar de sentir
A sua temperatura?

Questão central, porque permite entender que a adjectivação não chega aqui desprovida de significado. Não é adereço meramente decorativo. Ela reforça um problema que, no fundo, é o problema cantado em Leis da Separação: a possibilidade de uma vida espiritual plena. O ciclo da vida sugerido por alguns poemas desta recolha reflecte essa preocupação, deslocando o leitor do plano meramente circunstancial e quotidiano para, sem o perder de vista, procurar elevar-nos a um nível reflexivo mais próximo da espiritualidade assumida como fim último da existência. Em suma:

Não sei quantos de nós estaremos vivos
No dia em que estes campos
Voltarem a estar verdes;

Mais do que de esperança,
Trata-se da sobrevivência
Da nossa vontade. Do nosso
Sentido de oportunidade

Falaremos depois,
Quando os frutos das árvores
Puderem cair

Sem que os cuidados
Exigidos pela necessidade
Ou pelo excesso de avidez
Lhes extingam o brilho. 

2 comentários:

Marina Tadeu disse...

De garganta embargada não tenho a este respeito mais nada a dizer senão obrigada.

hmbf disse...

Ora essa.