Sinónima
de bafio, mofo, bolor, a palavra ranço induz um mal-estar geralmente
relacionado com a decomposição, a degenerescência, a corrupção de um objecto. É
a química da ruína, emergindo de um corpo decadente como uma espécie de
revelação. Afinal, por detrás da maquilhagem esconde-se a ruga. A poesia de
Jorge Aguiar Oliveira (n. 1956) sobressaiu, desde sempre, pela vontade de
mostrar a ruga, desmaquilhando a realidade, fazendo cair máscaras e trajes,
dando a ver com especial crueza as entranhas dos seus temas. Ranço (Companhia
das Ilhas, Março de 2014) é uma recolha de duas dezenas de poemas onde está em
evidência o declínio de um país. Se é verdade que sempre esse declínio se
insinuou nos versos do autor, nunca como nestes poemas ele apareceu de forma
tão explícita. Digo isto por notar uma certa inflexão temática na poesia de
Jorge Aguiar Oliveira que, sem se afastar por completo do fatalismo erótico e
da encenação trágica da sexualidade num contexto de opressões sociais,
culturais, religiosas, aproxima-se muito mais, agora, da paisagem
política e dos seus podres mais que evidentes.
Logo
no primeiro poema, cujo título demarca um intervalo histórico e geográfico
específico — 2002-2013 pt —, somos lembrados da rançosa substituição do
confronto pelos famigerados consensos que tingem a situação política actual,
com consequências facilmente entendíveis: cobardia, mediocridade. Este aspecto
é fundamental, na medida em que tudo condiciona. Numa civilização nascida do
espírito crítico, o abandono da controvérsia em prol da unanimidade, fardada ou
não, é sinal de morte. Dois poemas mais longos do que os restantes —O inútil
pirilau de Vanetti Greta e O canil dos cães zarolhos, este dedicado a
António Cabrita —, denotam, cada qual à sua maneira, o clima de castração e de
amputação que atravessa a sociedade portuguesa. As palavras dirigidas por Vanetti Greta à mãe
não dramatizam apenas a exclusão exercida sobre a transexualidade, abanam os
pilares que sustentam a hipocrisia social, chamam para dentro da poesia personagens
sem lugar.
Em
nenhum outro poeta português encontramos este abrigo dos excluídos, dos desterrados, dos
clochards que povoam as ruas condenados à condição aberrante que, de quando em
vez, faz as delícias das massas numa reportagem sentimental exibida em horário
nobre. A marginalidade é, pois, o território onde esta poesia medra, fazendo
dessa marginalidade não uma bandeira plástica, mas, paradoxalmente, o centro a
partir do qual se observa com satírica vocação a normalidade instituída,
promovida, estupidamente e “estupidificantemente” acolhida pela maioria. Não há
sobranceria na opção, há antes um profundo desconforto e uma intenção:
«como não é meu desígnio governar / fazer curriculum perpetuar a espécie / nem
mesmo proferir oratórias / com estandartes bordados de lambidelas / a um
qualquer regime / uso por ora as letras / para dinamitar / o covil das hienas
eleitas» (pp. 47-48). O objectivo não é embalar, como ironicamente se sugere no
último poema, justamente intitulado Dorme, mas antes espicaçar a besta adormecida
no leitor, a ver se pelo menos esse não acaba contaminado pelo ranço dos
tempos.
A
ironia, a sátira e o erotismo, praticados a espaços e em doses nem sempre temperadoras,
não disfarçam a face decadentista desta poesia. Nem julgo ser esse o objectivo. Parece-me mais acertado falar da vontade de autopsiar a
realidade, recorrendo aos seus restos, aos seus defuntos, aos escombros de uma
sociedade declinada, para procurar entender que doença os matou. Poemas
aparentemente inócuos como Arrabalde monótono 1 e Arrabalde monótono 2 são inventários de espaços onde o
belo possível surde de entre o lixo, nas ruínas onde a morte repousa dos seus eternos e
frenéticos afazeres, agitada por palavras inventadas e alucinações. Ranço é cegar essa coexistência, varrer para debaixo do
tapete, assobiar para o lado, fingir que não se viu, não se sabe, não se é.
Contra tudo isso se escrevem estes poemas, porventura vítimas, também eles, das
bactérias que mantêm adormecidos incautos e raros leitores. Buscam a verdade,
sabendo-a porventura apenas e tão-só tangível.










