quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
GOSTO MUITO DOS TEUS OLHOS
Nunca houve um governo melhor do que o actual, leio. Sinto-me
feliz com o contentamento alheio. Por isso, não concordando com, ou discordando
de, enfio a carapuça: ainda bem que há gente satisfeita. Não diria
feliz, nem sequer contente, apenas satisfeita. Do mau, o menos - é política usual por estes tempos. Claro está que ninguém lhe dirá: vai trabalhar, malandro! Empreendedorismo metálico no seu mais regurgitante rigor.
PASMO
Receando passar por presunçoso, não evito a exposição de um
sentimento: vejo na televisão, leio nos jornais, ouço na rádio, acompanho,
porque é inevitável, nas redes sociais, as declarações de quem manda, exerce
cargos de poder, determina as regras do jogo e concluo não haver solução
possível. É tudo tão básico, miserável, triste, é tudo tão revelador da mais
tacanha ignorância que um tipo até se sente mal e se pergunta: isto está mesmo
a acontecer?
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
SUPLEMENTO
É o mais comum: as pessoas vestem-se, maquilham-se,
algumas fazem plásticas, operam, disfarçam, escondem, usam adereços,
transformam-se em adereços. A vida é na mais vasta extensão dos seus dias um
exercício de dissimulação. Por detrás das máscaras, um corpo. A verdade há-de
ser tudo junto, não a confundo com o lado menos nobre do exposto nem a
esgoto no ordinário, no mero exibicionismo. Mas agrada-me quando encontro num
escritor, sobretudo num génio, algo que o faz descer à terra. Precavido acerca do
carácter abstracto das palavras, julgo ser perceptível esse momento em que o
idealismo se transforma em comezinho, o lirismo curva-se ao prosaísmo e os
versos fazem das tripas coração. Na obra aqui citada, há um conjunto de
epigramas separados dos outros escritos por Goethe. São um Suplemento aos
«Epigramas». Ora, como em matéria alimentar, também na poesia por vezes o
suplemento faz a diferença:
Não me posso admirar de Cristo Nosso Senhor ter gostado
De viver com putas e pecadores. Pois se o mesmo se passa
comigo!
Nota: por outras palavras, Bukowski disse o mesmo. Goethe
& Bukowski: dois sócios, a mesma firma.
«Menina!», chamo eu a donzela. «Menina, o senhor não está
em casa?»
Mas ela não me ouve; o chamamento não lhe chega aos
ouvidos.
Outros jogos, mais doces, a ocupam.
«Vamos tomar café, meu forasteiro!» - com isso, o que ela
quer é comer-me uma punheta.
Sempre detestei o café, amigos, e com razão.
Nota: a interpretação que o poeta faz do convite,
provavelmente sugerido por uma daquelas putas aludidas no primeiro epigrama, é
subjectiva. Seria importante perceber onde a tradução traiu o original.
«Comer-me uma punheta» - o que é?
Não digo que não gosto de mancebos, mas prefiro as
donzelas,
Porque se me farto dela como donzela, sempre dela me
posso servir como mancebo.
Nota: Gregório de Matos escreveu algo muito parecido, talvez mais cruamente. Fica para depois.
Em vez de «rabo teso» dá-me outra palavra, oh, Priapo,
Que eu, alemão, como poeta sou digno de dó.
Em grego chamava-te «phallos», maravilhoso som para
qualquer ouvido,
E também em latim «mêntula» é palavra digna.
«Mentula» vem de «mens», o rabo fica atrás,
E por trás é coisa que nunca me deu grande gozo.
Nota: impossível determinar se o gozo se afere de uma
postura activa ou passiva. Pelo epigrama anterior, depreendemos que o poeta se
refere a levar no e não a ir ao. Ainda assim, há algo neste epigrama que desafia
qualquer hermenêutica: as pontes entre grego antigo, línguas alemã e portuguesa.
O que mais me apoquenta: Bettine vai ficando cada vez
mais ágil,
Mais flexíveis se vão tornando todos os seus membros;
Ainda acaba por chegar com a língua à delicada greta,
Põe-se a brincar consigo própria, e não há-de ligar muito
aos homens.
Nota: remeto o leitor, mais uma vez, para Bukowski.
Não temas, doce donzela, a cobra que de ti se aproxima;
Já Eva a conhecia – pergunta ao padre, minha filha.
Não queres deitar-te nua a meu lado, doce amor;
Envergonhada, continuas a esconder-te de mim sob as
roupas.
Ouve, achas que desejo os teus vestidos? Ou desejo-te o
adorável corpo?
Repara, a vergonha é um vestido. Entre amantes, despe-se!
Nota: este epigrama, claramente de raiz cínica, é
fundamental. Dificilmente entendemos o romantismo alemão sem o que nele há de
grego original. Tem que ver, obviamente, com o que dizia no intróito. “A
vergonha é um vestido…” Já no Génesis se diz: «Tanto o homem como a mulher andavam
nus, sem sentirem nenhuma vergonha por isso.»
Todos, filha, me dizem que me enganas.
Ah, continua sempre a enganar-me assim!
Procurei muito tempo uma mulher; procurava, só encontrava
pegas.
Finalmente encontrei-te, minha pegazinha, e que mulher eu
encontrei!
Nota: pegas são pássaros, ou luvas, etc… Seria mais justo
ler aqui a palavra putas.
Fugiu de ti Himeneu? Ou fugiste-lhe tu? Que digo eu?
Himeneu! Delicioso, mas demasiado sério para mim!
Não se fala do que se passa no leito conjugal, e poeta é
bicho falador.
O amor livre deixa-nos livre a língua, o ânimo.
Não vos zangueis, mulheres, se admiramos as moças:
Vós desfrutais à noite do que à tarde as excita.
Nota: em alternativa, «vós desfrutais à noite do que à
tarde elas excitam».
domingo, 23 de fevereiro de 2014
PROMETEU
Cobre o teu céu, ó Zeus,
De vapores de nuvens!
E ensaia, como um rapaz
Que decapita cardos,
As tuas artes em carvalhos e cumes!
A minha terra, essa
Tens de deixar-ma,
E a minha cabana,
Que não construíste,
E o meu lume,
Cujo fogo
Me invejas.
Nada conheço de mais pobre
Sob o Sol que vós, deuses.
Mal conseguis alimentar
Com tributos de oferendas
E o sopro de orações
A vossa majestade,
E morreríeis à míngua se não
Fossem crianças e pedintes,
Loucos cheios de esperança.
Quando eu era criança,
Sem saber que pensar nem que fazer,
Voltava para o Sol os olhos
Perdidos, como se lá em cima houvesse
Um ouvido para o meu lamento,
Um coração como o meu
Para se compadecer dos oprimidos.
Quem me ajudou contra
A arrogância dos Titãs?
E da morte quem me salvou,
Da escravidão?
Não fizeste tu tudo sozinho,
Coração, com teu fogo sagrado?
E não ardeste tu, jovem e bom,
Enganado, dando graças de salvação
Aos deuses adormecidos lá em cima?
Eu, venerar-te? Para quê?
Aliviaste tu alguma vez
As dores dos que sofrem?
Alguma vez secaste as lágrimas
Dos angustiados?
E quem forjou em mim o Homem, se não
O Tempo todo poderoso
E o Destino eterno,
Meus e teus senhores?
Pensaste porventura
Que eu havia de odiar a vida,
Fugir para os desertos,
Porque não deram fruto todos os sonhos
Que despontaram na aurora da juventude?
Aqui estou eu, criando Homens
À minha imagem,
Uma estirpe igual a mim,
Que sofra e chore,
Goze e se alegre,
E te não respeite,
Como eu.
Johann Wolfgang von Goethe, in Obras Escolhidas de Goethe, vol. 8, Poesia, trad. João Barrento, Círculo de Leitores, Maio de 1993, pp 22-23.
BOSOMS ADSORBED
Noam Chomsky meets Miguel Torga
António Duarte (electrónica), Bruno Rolo (bateria), Daniel
Pinto (baixo), HMBF (guitarra/voz), Miguel Costa (guitarra).
Gravado em tempo
real na noite de 08 para 09 de Fevereiro de 2014.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
«ESSA ARANHA GEOMETRIFICA SEUS CAPRICHOS NA IDEIA DESSA TEIA: EMARANHA A MÁQUINA DE LINHAS E ESTÁ ESPERANDO QUE LHE CAIA ÀS CEGAS UM BICHO DENTRO: AÍ TRABALHA, AÍ CEIA, AÍ FOLGA.»
Calçada da Glória, Lisboa. 2012.
Não sou máquina, não sou bicho, sou René Descartes, com a graça de Deus. Ao inteirar-me disso, estarei inteiro. Fui eu que fiz esse mato: saiam dele, pontes, fontes e melhoramentos, périplos bugres e povoados batavos. Eu expendo Pensamentos e eu extendo a Extensão! Pretendo a Extensão pura, sem a escória de vossos corações, sem o mênstruo desses monstros, sem as fezes dessas reses, sem a besteira dessas teses, sem as bostas dessas bestas. Abaixo as metamorfoses desses bichos, - camaleões roubando a cor da pedra! Polvos no seco: no ovo, quem deu antes no outro, uma asa na linha do galho ou um pulo em busca de agasalho? Não sabem o que fazer de si, insetos pegam a forma da folha; mimeses. E a forma? Coisas da vida! Vinde a mim, geometrias, figuras perfeitas, - Platão, abri o curral de arquétipos e protótipos; Formas geométricas, investi com vossas arestas únicas, ângulos impossíveis, fios invisíveis a olho nu, contra a besteira dessas bestas, seus queixos barbados, corpos retorcidos, bicos embaraçosos de explicar, chifres atrapalhados por mutações, olhos em rodela de cebola! Vinde círculos contra tamanduás, quadrados por tucanos, losangos versos tatus, bem-vindos! Meu engenho contra esses engenhos! A sede que some fede que fome! Falta-me realidade.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Paulo Leminski
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
SUICÍDIO ASSISTIDO
Iniciada a leitura de Catatau, romance de Paulo Leminski,
fica-me a cabeça às rodas como terá ficado a de Descartes em terras de Vera
Cruz. Não preciso experimentar o estalido das ervas, «riamba, pemba, gingongó,
chibaba, jereré, monofa, charula, ou pango», bastam as palavras e seus cheiros,
aromas, fragrâncias. Tal Mitrídates, estou a salvo de venenos linguísticos.
Provo de todos para ficar imune. «Mitrídates pôs o corpo real sob o império dos
venenos, — toxicus, a graecis videlicet sagiticus aut sagitarius, quasi sagitae
venenum dicitur, — afeito a tê-los pelo sangue sem detrimento no viver, antes
com estados nunca sidos. Alguma dúvida, ou fazemos uma concessão à má natura?» Corro à
enciclopédia em busca do inimigo de Roma. Matou familiares, massacrou romanos
sem olhar a género nem idade, acabando refugiado e suicida. Diz a lenda que
falava vinte e cinco línguas e que procurou salvaguardar-se de eventual
envenenamento habituando o corpo a todos os venenos que conhecia, tomando doses
meticulosamente preparadas de cada um deles até o corpo ficar imune. Ao tentar
suicidar-se com veneno, tolerou a dose administrada. Pediu então a um
servo que o matasse com uma espada. Que importa a verdade quando a lenda é boa?
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
LAS VENAS ABIERTAS DE AMÉRICA LATINA
La ayuda funciona como el filantropo del cuento, que le
había puesto una pata de palo a su
chanchito, pero era porque se lo estaba comendo de a poco.
Eduardo Galeano
Publicado pela primeira vez em 1971, Las Venas Abiertas
de América Latina, do uruguaio Eduardo Galeano (n. 1940), mantém-se
estranhamente inacessível aos leitores portugueses. Sem nunca ter deixado de
ser popular, o livro readquiriu interesse mediático depois de Chávez oferecer
um exemplar a Barack Obama em Abril de 2009. Infelizmente, nem esse delicioso
gesto provocatório alavancou o interesse dos editores portugueses. Apesar de
datada em alguns dos seus conteúdos, trata-se de uma obra fundamental para
compreender a história da América Latina e, por consequência, dos países que
ali foram impor uma civilização. Da condição de potência exploradora à actual
situação de país ocupado pelo Fundo Monetário Internacional, Portugal teria
muito a ganhar se os portugueses olhassem para a sua história considerando a
perspectiva de Galeano. Ficariam a perceber que apenas em parte foram heróicos
conquistadores, tendo, sem dúvida, feito o trabalho sujo do qual outros
acabaram por beneficiar. Mas poderiam também entender com outra clarividência
as consequências da actual subjugação aos ditames neoliberais. O ataque ao
Estado, favorecendo um suposto mercado livre que mais não é do que berço
protector de grupos financeiros poderosíssimos, multinacionais imbatíveis e
cartéis económicos devidamente protegidos pela disfuncionalidade da lei, não é
de agora nem por aqui há-de ficar. Daí que já há mais de 40 anos Eduardo
Galeano pudesse concluir: «El FMI y el Banco Mundial ejercen pressiones cada
vez más intensas para que los países latinoamericanos remodelen su economía y
sus finanzas en función del pago de la deuda externa. El cumplimiento de los
compromisos contraídos, clave de la buena conducta internacional, resulta cada
vez más difícil y se hace al mismo tiempo más imperioso. La región vive el
fenómeno que los economistas llaman la explosión de la deuda. Es el círculo
vicioso de la estrangulación: los empréstitos aumentan y las inversiones se
suceden y en consecuencia crecen los pagos por amortizaciones, intereses,
dividendos y otros servicios; para cumplir com esos pagos se recurre a nuevas
inyecciones de capital extranjero, que generan compromisos mayores, y así
sucessivamente» (p. 305). Instalada a máquina, repete-se a receita:
empobrecem-se as populações para as tornar mais dependentes das empresas que
beneficiam com baixos salários, fragiliza-se o Estado e o mercado interno em
benefício das multinacionais que assim conseguem condições favoráveis à
produção e ao escoamento dos seus produtos. A justiça fica nas mãos de quem a pode pagar. Os fiéis do neoliberalismo bem
podem tecer loas ao deus invisível que supostamente regula os mercados.
Enquanto rezam ao regulador invisível, os monopólios fazem o seu caminho, os cartéis
jogam dumping, a ganância hipoteca o futuro de milhões de seres humanos
humilhados e explorados, maná de interesses económicos e financeiros cuja moral
é não olharem a meios para obterem os seus fins: lucro. Ora, se há mérito que
não pode ser regateado neste livro é o de tornar visível o que aparenta não
sê-lo. A chegada dos europeus à América do Sul encarregou-se de mostrar aos
indígenas a sua mão invisível, coroas que viviam na opulência, outras que por
esbanjarem o que tinham se endividaram junto daqueles a que hoje damos o nome
de parceiros estratégicos. Civilizações ancestrais arruinadas, milhões de
índios assassinados, escravizados, atirados para o fundo de minas, mostraram a
quem quisesse ver a mão invisível da Europa. Mas o ouro, a prata, os diamantes,
o açúcar, a borracha, o cacau, o café, o algodão, enfim o petróleo, eram em tal
abundância que índios não chegavam. O mercado de escravos, trazidos das áfricas
para as américas, prosperou ao mesmo tempo que prosperava o mercado dos
recursos naturais açambarcados pela mão invisível. Conquistada a independência,
a mecânica da mão invisível não se alterou. O processo é sempre o mesmo,
fragilizar o outro para lhe usurpar toda a riqueza. Se eles têm os recursos,
nós, que entretanto nos desenvolvemos à custa desses recursos, temos o saber
que garantirá o melhor rendimento dos mesmos. O desenvolvimento de uns não é
proporcional ao subdesenvolvimento de outros, ergue-se na difusão da
dependência e da miséria. Por isso são sempre em abundância os explorados e
tão poucos os beneficiados. Os 85 mais ricos do mundo têm tanto como a metade
mais pobre, lia-se há dias na imprensa portuguesa. Pela mesma altura, ouvi
Rafael Marques contar na televisão a história de uma idosa proveniente de uma
aldeia angolana onde os diamantes são o azar que lhes calhou em sorte. Chegada
a Portugal, mostrou-se espantada com as estradas, os carros, os prédios
arranjados. E perguntou: mas que riquezas tem Portugal? Essa idosa, que nasceu
onde os diamantes são como amoras silvestres, não compreendia porque tinha de
viver numa palhota quando os portugueses desgraçados vivem em casas com água
potável, gás natural, electricidade e meo4o. O mundo é desigual, mas muito mais
e injustamente será se formos indiferentes a essa desigualdade. Há não muito, o
actual vice-primeiro-ministro de Portugal foi condecorado por Donald Rumsfeld - carrasco
da Administração Bush. Aceitou a condecoração, assim como Durão Barroso, actual
presidente da Comissão Europeia, então primeiro-ministro de Portugal, aceitou
pousar ao lado de Bush na declaração de uma invasão ilegítima. Estes assassinos
vão continuando no poder incólumes. Contra todas as expectativas,
conseguem fazer as suas carreiras irrevogavelmente satisfeitos, ao mesmo tempo
que distribuem cargos por lacaios cujas propostas passam por reduzir a
escolaridade obrigatória. A quem serve uma população menos esclarecida, menos
preparada, com menor e pior educação? A
quem serve um povo mais dependente e fragilizado? Galeano responde: «Aunque
sonrían las estadísticas, se jode la gente. En sistemas organizados al revés,
cuando crece la economia también crece, com ella, la injusticia social» (p.
359). Saem a ganhar os que sempre ganharam, os banqueiros e seus prestimosos
funcionários distribuídos pelos altos cargos da política internacional.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
PALAVRAS PARA 2014: MARIUS
Marius era o nome da girafa que milhares de pessoas tentaram salvar ao assinar a petição contra o seu abate.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
ÉPICO
Vivi em locais importantes, em tempos
De grandes decisões. Quem ficaria
Com meio hectare de rocha, terra de ninguém
Reivindicada de forquilha em riste.
Ouvi os Duffys bradarem “Maldito sejas”
E o velho McCabe despido até à cintura, vi
Dividir terras que desafiavam o aço fundido –
“Marcharemos ao longo destas pedras de ferro”.
Foi no ano da confusão em Munique. O que
Era mais importante? Estava inclinado
A perder a fé em Ballyrush e Gortin quando
O fantasma de Homero ciciou na minha mente.
Ele disse: Criei a Ilíada de um caos local
Similar. Os deuses determinam seu próprio valor.
Patrick Kavanagh
Versão de HMBF.
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Os mestres e as criaturas novas,
Patrick Kavanagh,
Versões
DEFINITIVAMENTE AS BAHAMAS
Foi-me
oferecida recentemente a oportunidade de assistir ao ensaio de uma peça
teatral. Sala despida de público, actores desmaquilhados, apenas técnicos, luz,
corpo. É uma outra perspectiva que se tem do palco. A cenografia minimalista
gera em nós a ilusão de que estamos dentro, e não fora, da representação. Quebram-se
barreiras entre plateia e cenário, ambos são uma extensão do outro. Somos parte
integrante de um acto que ainda não é autópsia, mas nos aproxima
significativamente do esqueleto ou, pelo menos, da nudez da peça: o texto. Desconhecia
por completo Martin Crimp (n. 1956), dramaturgo britânico com carreira iniciada
na década de 1980. Definitivamente as Bahamas, peça que o Teatro da Rainha
estreará amanhã, data de 1987. A referência histórica não é determinante, mas
ajuda-nos a situar as personagens que temos pela frente. De resto, esta é uma
das dimensões que me parecem mais relevantes na dupla Milly & Frank: são um
casal cuja história se faz quase invariavelmente da história de terceiros. A
sua geografia é o ambiente doméstico onde exercitam a memória, folheiam álbuns
de fotografias, recordam situações passadas, discutem o sexo dos anjos. O vínculo que os une é uma espécie
de excitação do vazio que transforma a geografia doméstica num espaço
desconfortável, mesmo cruel. Sabemos desde o início que se mudaram para onde estão
por causa do silêncio, e esta palavra, silêncio, possui no contexto do casal em
cena uma carga simbólica importantíssima. Milly é palavrosa, não se cala,
parece incapaz de viver com o seu ambicionado silêncio, quebra-o
constantemente, exerce sobre a relação um poder castrador. Não resisto a
citá-la: «a primeira coisa que fizemos quando cá chegámos foi ir ao jardim, não
foi Frank, porque era Verão e as flores estavam um espanto. E depois o Frank
pegou-me no braço, o que não está nos seus hábitos, e depois disse-me escuta,
não foi Frank, escuta. Então eu disse-lhe o que é que tu queres dizer, escuta.
Ele disse nada, escuta apenas». Frank apresenta um ar sorumbático, enfastiado,
do qual se solta apenas na ausência da mulher. Quando ela se afasta, ele
liberta-se e adquire um rosto humano, perverso, sobe-lhe o sangue à pele. É como
se apenas conseguisse ser homem na ausência da mulher. Que queria ele dizer
quando lhe disse “escuta”? Talvez quisesse dizer “cala-te”, talvez quisesse
dizer “escuta-me”. Talvez o silêncio seja já a única forma de se escutarem um
ao outro. Os diálogos que mantêm, as discussões que cultivam, de tão aparentemente
vulgares, traem-nos. É preciso escutá-los nas entrelinhas, nos silêncios, nas
pausas. Tingidos de equívocos e de contradições, podem parecer humorísticos a
quem não lhes descubra a face verdadeiramente trágica. Por detrás das
gargalhadas esconde-se o cadáver ao mesmo tempo grotesco e absurdo das relações
humanas, aquela excitação do vazio que preenche as horas, a vida arrastada
pelos seus traumas, pelas suas feridas mais ou menos abertas, pelos
recalcamentos. Daí que o momento explosivo da acção se desloque do casal para a
jovem que com eles partilha o espaço. Marijka vive, de facto, num outro planeta
que não o do casal Taylor. Adoptada pelo casal, cumpre as tarefas de uma
empregada doméstica e ocupa o lugar vago do filho ausente. Será nela que vislumbraremos
a chama que o casal já não tem, sinais de vida numa casa onde o passado ocupa o
presente e o futuro parece não ter lugar. A beleza de Marijka não se esgota na
figura física jovial, é a beleza do terror a emergir do manto de futilidades
que encobre a verdade. Ela representa o momento da revelação, o momento em que
de facto algo de relevante se escuta, o momento em que os disfarces são
rompidos pela verdade com uma confissão sem subterfúgios nem evasões. Inicialmente
escrita para rádio, Definitivamente as Bahamas integra uma trilogia de que
fazem também parte as peças A Kind of Arden e Spanish Girls. São retratos
impiedosos da classe média britânica, ao mesmo tempo que denotam as
fragilidades do mundo doméstico e expõem os segredos da instituição familiar. A
peça pode e deve ser vista no Teatro da Rainha, quintas a sábados, às 21h30m,
com encenação de Fernando Mora Ramos e interpretações de Isabel Lopes (Milly),
Carlos Borges (Frank) e Inês Barros (Marijka). Em cena até 8 de Março.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
CRIMES SENSÍVEIS
Quando há dias ouvi a notícia de dois amigos que se
envolveram à pancada por causa de uma discussão sobre os méritos da poesia e da
prosa, ocorreram-me algumas memórias. Passou-se na Rússia de Tolstói, tendo um
dos "pelejadores" acabado morto. Trespassado pela faca do adversário, o adepto da
prosa não resistiu à fúria do adepto da poesia. Há não muito, uma discussão
sobre a Crítica da Razão Pura também acabou no hospital. O mais expectável
seria ter acabado num hospital psiquiátrico, mas não. A discussão deu azo a
disparos. Ninguém morreu, provavelmente porque no decorrer da polémica alguém
ter-se-á lembrado do imperativo categórico kantiano. Homens há capazes das
acções mais violentas pelos motivos mais insólitos. Em tempos, o escritor Max
Aub aproveitou o exílio mexicano para reunir uma recolha de confissões de
crimes a que chamou exemplares. Um exemplo aqui. Afirma Aub no prefácio: «Um Siciliano,
um Albanês, matam pelas mesmas razões que um Dinamarquês, um Norueguês ou um
Guatemalteco». Não discuto o objectivismo cultural nestas matérias. Porém,
julgo que matar por paixão à poesia retira ao crime gravidade. Oferece-lhe até
uma certa prosa. Nisto de crimes exemplares, voluntários ou acidentais (parece
um contra-senso, embora nem sempre o seja), não há como aqueles praticados com
sensibilidade literária. Alfred Jarry, que apreciava andar de bicicleta e beber
absinto (não necessariamente por esta ordem), disparou «dois tiros contra um
artista por não gostar da cara dele». Foi durante um almoço em casa de Maurice
Raynal. Do mesmo Jarry contam-se outras inúmeras histórias congéneres.
Cervantes terá sido chulo das irmãs, Genet era criminoso confesso, Rimbaud foi
traficante de armas e de escravos, Sade foi Marquês. Mas a cereja no topo do
bolo, passe a expressão, acontece com William S. Burroughs em Setembro de 1951.
Emigrado com a mulher no México para fugirem de problemas relacionados com o
cultivo de marijuana no Texas, Burroughs resolveu brincar a Wilhelm Tell com um
revólver na mão. Pediu a Joan Vollmer que colocasse um copo de vidro na cabeça
e disparou. Falhou o alvo. Vollmer caiu morta no chão. O filho dos dois faleceu
aos 32 anos encharcado de drogas e de álcool. Boas vidas.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
[AL SON DE LOS VIENTOS QUE VAN MURMURANDO]
Al son de los vientos que van murmurando,
al son de aquesta agua tan clara y tan pura
que va discurriendo sobre la verdura,
al son de las aves que se van quejando,
se va mi rabí y mi voz entonando
por que con las aves mis males quejemos;
lloremos con la agua por que suspiremos
al son de los vientos que van murmurando.
Ansí acordados los suspiros míos,
mis lloros y quejas crecerán los vientos;
y los de las aves, con los mis lamientos;
y con las mis lágrimas crecerán los rios.
Sean de aquí lejos los rios sandios,
todo devaneo de aqui se aleje,
huya el plazer por que salir deje
ansí acordados los suspiros mios.
Los bosques sombrios, los sombrios valles,
los montes, las peñas, mis lamentaciones
escuchen, y quebrense los corazones
oyendo; y oyanme los animales;
los hombres no me oyan y sean mis males
tan solamente al hombre encubiertos,
que a ellos huyendo busqué los desiertos,
los bosques sombríos, los sombríos valles.
Ay generación perversa y malvada!
no te maravilles si mi mal descubro
a las alimañas y de ti me encubro,
ca su crueldad ante ti no es nada.
Pasaron los hombres, la fe ya es pasada,
amor ya no reina, reinan niñerias.
Si oyeses mis daños, como te ririas,
Ay generación perversa y malvada!
Si vieses de lágrimas los mis ojos llenos
y llena la cara, y solo devidas!
El mal cativa las fuerzas caídas,
tornados en noches los dias serenos:
quan poco valdrian suspiros ajenos!
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
antes me ternías por simples y loco
si vieses de lágrimas los mis ojos llenos.
Vengan y lloren las Musas comigo,
y tomen gran parte deste mi dolor
y lloren siquiera con el su pastor
que está aquí tan solo llorando consigo.
Sabeis entre quantos contrarios letigo:
deseo d'un cabo, d'otro medrosia,
de todos la muerte; pues nesta agonía
vengan y lloren las musas comigo.
Ay, como fortuna me tiene rancor!
Que tapa la sierpe fuerte sus orejas
(ansí lo he oído dezir a las viejas)
en contra las vozes del encantador.
Natura ha puesto distinto y temor
en todo animal contra la su muerte:
en mí no lo puso! Ay qué dura suerte!
Ay como fortuna me tiene rancor!
Provió la natura que sordo naciese
el que nació mudo, porque no podría,
con aquellotro y malenconía,
oyendo, sufrirse que no respondiese.
Si estava tan cierto que oyendo, viese
turbarse mi ánima, que ver deseó
lo que ver no puede, triste, porqué no
provió la natura que sordo naciese?
Afin que no oyesen cantar las serenas,
los navegantes cierran sus oídos,
porque si las oyen, a esa hora adormidos
caen en la mar desde las entenas;
huyen de sus cantos por huyr sus penas,
segun que lo cuentan nuestros viejos tios.
Por qué no he cerrado, triste, oy, los míos,
a fin que no oyesen cantar las serenas?
Sá de Miranda, in Poesia e Teatro, selecção de Silvério Augusto Benedito, Ulisseia, s/d, pp. 75-77.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
OS VÍCIOS DO MUNDO MODERNO
Os delinquentes modernos
Estão autorizados a frequentar diariamente os parques e os jardins.
Munidos de poderosos telescópios e de relógios de bolso
Entram de rompante nos quiosques protegidos pela morte
E instalam os seus laboratórios entre as roseiras em flor.
Dali controlam fotógrafos e mendigos que deambulam por perto
Procurando levantar um pequeno templo à miséria
E havendo oportunidade chegam a ter um graxista melancólico.
Atemorizada, a polícia foge destes monstros
Em direcção ao centro da cidade
Onde rebentam os grandes fogos de fim de ano
E um valente encapuçado assalta duas freiras.
Os vícios do mundo moderno:
O automóvel e o cinema sonoro,
As discriminações raciais,
O extermínio dos peles vermelhas,
As manhas da alta finança,
A catástrofe dos anciãos,
O comércio clandestino de brancas perpetrado por sodomitas internacionais,
Em direcção ao centro da cidade
Onde rebentam os grandes fogos de fim de ano
E um valente encapuçado assalta duas freiras.
Os vícios do mundo moderno:
O automóvel e o cinema sonoro,
As discriminações raciais,
O extermínio dos peles vermelhas,
As manhas da alta finança,
A catástrofe dos anciãos,
O comércio clandestino de brancas perpetrado por sodomitas internacionais,
A bebedeira e a gula,
As Pompas Fúnebres,
Os amigos pessoais de sua excelência,
A exaltação do folclore a categoria do espírito,
O abuso de estupefacientes e de filosofia,
O amolecimento dos homens bafejados pela sorte,
O onanismo e a crueldade sexual,
A exaltação do onírico e do subconsciente em detrimento do senso comum,
As Pompas Fúnebres,
Os amigos pessoais de sua excelência,
A exaltação do folclore a categoria do espírito,
O abuso de estupefacientes e de filosofia,
O amolecimento dos homens bafejados pela sorte,
O onanismo e a crueldade sexual,
A exaltação do onírico e do subconsciente em detrimento do senso comum,
A confiança exagerada em soros e vacinas,
O endeusamento do falo,
A política internacional de pernas abertas patrocinada pela imprensa reaccionária,
O endeusamento do falo,
A política internacional de pernas abertas patrocinada pela imprensa reaccionária,
A ambição desmedida do poder e do lucro,
As carreiras de sucesso,
A fatídica dança dos dólares,
A especulação e o aborto,
A destruição dos ídolos,
O excessivo desenvolvimento do nutricionismo e da psicopedagogia,
O vício do baile, do cigarro, dos jogos de sorte,
Os pingos de sangue que costumam encontrar-se entre os lençóis dos recém-casados,
As carreiras de sucesso,
A fatídica dança dos dólares,
A especulação e o aborto,
A destruição dos ídolos,
O excessivo desenvolvimento do nutricionismo e da psicopedagogia,
O vício do baile, do cigarro, dos jogos de sorte,
Os pingos de sangue que costumam encontrar-se entre os lençóis dos recém-casados,
A loucura do mar,
A agorafobia e a claustrofobia,
A desintegração do átomo,
O humorismo sangrento da teoria da relatividade,
O delírio do regresso ao ventre materno,
O culto do exótico,
Os acidentes aeronáuticos,
As incinerações, as purgas em massa, a retenção dos passaportes,
A agorafobia e a claustrofobia,
A desintegração do átomo,
O humorismo sangrento da teoria da relatividade,
O delírio do regresso ao ventre materno,
O culto do exótico,
Os acidentes aeronáuticos,
As incinerações, as purgas em massa, a retenção dos passaportes,
Tudo isto porque sim,
Porque causa vertigem,
A interpretação dos sonhos
E a difusão da radiomania.
Como fica demonstrado,
O mundo moderno compõe-se de flores artificiais
Que se cultivam nuns vasos de vidro semelhantes à morte,
Está composto por estrelas de cinema
E sangrentos pugilistas que combatem à luz da lua,
Compõe-se de homens-rouxinol que controlam a vida económica dos países
Porque causa vertigem,
A interpretação dos sonhos
E a difusão da radiomania.
Como fica demonstrado,
O mundo moderno compõe-se de flores artificiais
Que se cultivam nuns vasos de vidro semelhantes à morte,
Está composto por estrelas de cinema
E sangrentos pugilistas que combatem à luz da lua,
Compõe-se de homens-rouxinol que controlam a vida económica dos países
Mediante alguns mecanismos fáceis de explicar;
Vestem-se geralmente de negro como os precursores do Outono
E alimentam-se de raízes e de ervas silvestres.
Entretanto os sábios, comidos pelas ratazanas,
Apodrecem nos sótãos das catedrais,
E as almas nobres são implacavelmente perseguidas pela polícia.
O mundo moderno é uma grande pocilga:
Os restaurantes de luxo estão cheios de cadáveres digestivos
E de pássaros que voam perigosamente a escassa altura.
Isto não é tudo: os hospitais estão cheios de impostores,
Para não falar dos herdeiros do espírito que fundam as suas colónias no cu dos recém-operados.
Vestem-se geralmente de negro como os precursores do Outono
E alimentam-se de raízes e de ervas silvestres.
Entretanto os sábios, comidos pelas ratazanas,
Apodrecem nos sótãos das catedrais,
E as almas nobres são implacavelmente perseguidas pela polícia.
O mundo moderno é uma grande pocilga:
Os restaurantes de luxo estão cheios de cadáveres digestivos
E de pássaros que voam perigosamente a escassa altura.
Isto não é tudo: os hospitais estão cheios de impostores,
Para não falar dos herdeiros do espírito que fundam as suas colónias no cu dos recém-operados.
Os empresários modernos sofrem por vezes o efeito da atmosfera poluída,
Junto às máquinas de tecer costumam cair doentes do espantoso mal de sono
Que, passado algum tempo, os transforma numa espécie de anjos.
Negam a existência do mundo físico
E vangloriam-se de serem uns pobres filhos do sepulcro.
Não obstante, o mundo foi sempre assim.
A verdade, como a beleza, não se cria nem se perde
E a poesia reside nas coisas ou é simplesmente uma miragem do espírito.
Negam a existência do mundo físico
E vangloriam-se de serem uns pobres filhos do sepulcro.
Não obstante, o mundo foi sempre assim.
A verdade, como a beleza, não se cria nem se perde
E a poesia reside nas coisas ou é simplesmente uma miragem do espírito.
Reconheço que um terramoto bem concebido
Pode acabar em alguns segundos com uma cidade rica em tradições
Pode acabar em alguns segundos com uma cidade rica em tradições
E que um minucioso bombardeamento aéreo
Arruína árvores, cavalos, tronos, música.
Mas que importa tudo isto
Se enquanto a maior bailarina do mundo
Morre pobre e abandonada numa pequena aldeia do sul de França
Arruína árvores, cavalos, tronos, música.
Mas que importa tudo isto
Se enquanto a maior bailarina do mundo
Morre pobre e abandonada numa pequena aldeia do sul de França
A Primavera devolve ao homem uma parte das flores desaparecidas?
Tratemos de ser felizes, recomendo eu, chupando a miserável costela humana.
Extraiamos dela o líquido renovador,
Cada qual de acordo com as suas inclinações pessoais.
Agarremo-nos a esta pelanca divina!
Ofegantes e arruinados
Chupemos estes lábios que nos enlouquecem;
A sorte está lançada.
Inspiremos este perfume enervante e destruidor
E vivamos mais um dia a vida dos eleitos:
Das suas axilas extrai o homem a cera necessária para forjar o rosto dos seus ídolos.
Cada qual de acordo com as suas inclinações pessoais.
Agarremo-nos a esta pelanca divina!
Ofegantes e arruinados
Chupemos estes lábios que nos enlouquecem;
A sorte está lançada.
Inspiremos este perfume enervante e destruidor
E vivamos mais um dia a vida dos eleitos:
Das suas axilas extrai o homem a cera necessária para forjar o rosto dos seus ídolos.
E do sexo da mulher a palha e o barro dos seus templos.
Pelo que
Crio um piolho na minha gravata
E sorrio aos imbecis que descem das árvores.
Pelo que
Crio um piolho na minha gravata
E sorrio aos imbecis que descem das árvores.
Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.
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Os mestres e as criaturas novas,
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
POEMA DO SENHOR (fragmento)
DÉCIMA SEXTA LIÇÃO
O Senhor Krixna disse:
1. - «Um coração puro e nenhum sinal de medo,
persistência no Yôga deste conhecimento,
autodomínio, caridade e sacrifício,
estudo dos Vedas mais ascese e rectidão,
2. não-violência, nem cólera, veracidade,
calma, renúncia e jamais calúnia,
compaixão pelos seres, ausência de desejos,
gentileza, modéstia e discrição,
3. energia, paciência, firmeza, higiene,
isenção de malícia e d'orgulho excessivo,
eis os dotes daquele que nasceu e medrou
pró destino divino, ó Grão Filho de Bhárata!
4. Arrogância, vaidade, hipocrisia,
ira, palavras brutas e também ignorância,
eis os dotes daquele que nasceu e medrou
com um destino assúrico, ó Filho de Prithá!
5. O destino divino dá libertação,
o assúrico só dá dependência, dizem.
Mas, não te aflijas, não, ó Filho de Pandu,
que tu nasceste, sim, pró divino destino.
6. Na emissão dos seres do mundo, há duas classes:
as divina e assúrica; já te ensinei
a que é divina, em pormenor; agora, escuta,
ó Filho de Prithá, em que consiste a assúrica.
7. Os humanos assúricos não sabem
quando devem agir ou não agir.
Higiene não têm, nem boa conduta
e neles não se encontra nada de verdade.
8. Dizem tais indivíduos vãos que o universo
sem Deus existe, e sem leis transcendentais,
e só originado pelo mero acaso
e por mais nada que não seja só desejo.
9. Firmados nesta concepção, perdidos homens
de mentes tão perdidas, débeis intelectos,
autores de más acções, surgem como inimigos,
vindos pra destruir este universo inteiro.
10. À mercê do desejo intenso, insaciável,
cheios d'hipocrisia, orgulho e mais luxúria,
com noções falsas adquiridas n'ilusão,
eles só actuam, cegos, com impuros votos;
11. e sempre possuídos por imensa ânsia,
que somente tem fim n'hora da morte,
seu supremo objectivo é gozar os desejos
co'a convicção de que não há mais nada;
12. presos em armadilhas-mil de vãs esp'ranças,
votados à paixão do desejo e da cólera,
eles tentam, por injustos meios, conseguir
riqueza só gratificante dos desejos.
13. - 'Isto foi, para mim, o lucro d'hoje:
já posso obter aquilo porque corre a mente;
e isto e mais ainda esta riqueza,
tudo isto será, por certo, meu também;
14. 'este inimigo, eis que foi morto por mim,
e os outros inimigos eu hei-de eliminar:
eu é que sou senhor e sou o gozador
e sou bem sucedido, feliz, poderoso;
15. 'sou rico e também de nobre nascimento.
Há alguém que se possa comparar comigo?
Dádivas, sacrifícios farei: estou contente.'
Falam assim os iludidos pla ignorância.
16. Por muitos pensamentos desviados,
envoltos numa rede d'ilusão,
do gozo dos desejos, prisioneiros,
hão-de cair no mais puro inferno.
17. Convencidos de si, rebeldes, orgulhosos,
avaros de riquezas, fazem sacrifícios
rituais, só de nome e por hipocrisia,
sem atender às prescrições dos santos Vedas.
18. Votados ao egoísmo e à insolência,
ao poder, ao desejo e mais à cólera,
tais invejosos só a Mim odeiam
nos próprios corpos e nos corpos d'outros.
19. Homens cruéis, envilecidos, tenebrosos
e viciosos, são por Mim lançados
à incessante roda das transmigrações
e para sempre nas assúricas matrizes.
20. Havendo entrado nas matrizes dos assuras,
esses, a Mim, jamais Me alcançam: iludidos,
de nascimento em nascimento, encaminham-se,
ó Filho de Kuntí, pra fim 'inda mais baixo.
21. A porta do inferno, que destrói
átma, é tripla: cólera, desejo
mais avidez. Deve-se, já, portanto,
abandonar tal tríade nociva.
22. Liberto destas três portas tamásicas,
ó Filho de Kuntí, um homem faz
o que é melhor plo átma, e, então,
por certo, vai direito ao supremo objectivo.
23. Quem age só segundo o seu desejo,
passando em branco as regras da Escritura,
não atinge jamais a perfeição,
tão-pouco f'licidade ou supremo objectivo.
24. Guia, portanto, pla Escritura, os teus passos,
sabendo como actuar ou como não actuar;
d'acordo com a ordem dada na Escritura
é que tu deverás proceder neste mundo.»
Aqui termina a Décima Sexta Lição, intitulada:
O Yôga da Distinção entre o Destino Divino e o Assúrico,
Diálogo entre Krixna e Ardjuna,
da Santa Upanixad do Poema do Senhor.
Vyassa, in Poema do Senhor / Bhagavad-Guitá, trad. António Barahona, Relógio D'Água, Novembro de 1996, pp. 201-207.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
FORTY GUNS (1957)
Apesar de ter sido escrito por Samuel Fuller (1912-1997),
Forty Guns/Quarenta Cavaleiros (1957) ecoa, a espaços, ambientes e personagens
que conhecemos de westerns anteriores. Tall in the Saddle (1944) e The Furies
(1950) são as referências mais evidentes, tendo Fuller requisitado para o papel
principal a mesma actriz que brilhou no filme de Anthony Mann. Barbara Stanwyck
encarna agora a personagem de Jessica Drummond, proprietária das vastas terras
do rancho Dragoon em Cochise County. A figura imponente desta mulher seduz-nos
desde a cena de abertura, com Jessica vestida de preto, montada no seu cavalo branco,
chefiando um pelotão composto por quarenta pistoleiros. É uma cena de tal forma
improvável que todo o filme parece ali caber. No primeiro plano, geral, vemos
apenas uma carroça a atravessar uma imensa paisagem, sendo o movimento acompanhado
pela deslocação da sombra de uma nuvem sobre a terra. O cinema de Fuller é de sombras, zonas obscuras e dúbias da mente penetradas por um olhar que
não enjeita a contradição nem cede à tentação de procurar explicar os mistérios
da alma humana. Na carroça vêm os irmãos Bonnell. Griff, o mais velho (Barry
Sullivan), Chico, o mais novo (Robert Dix), e Wes (Gene Barry). Param, tão espantados
como nós com o que vêem à sua frente. Jessica e os seus 40 cavaleiros passam
indiferentes à carroça estacionada no meio do trilho, Griff tenta controlar os
cavalos manipulando as rédeas, Wes e Chico protegem-se da poeira levantada pelo
batalhão de Jessica Drummond. Quando a poeira assenta, olham para o “tornado”
que por eles acabou de passar com um misto de admiração, encanto e alvoroço. Pelo menos é isso que os seus rostos transmitem. A partir daqui, o
filme desenrola-se na perspectiva de uma aproximação entre Jessica e Griff. Poderá
aquilo que os opõe vir a aproximá-los? Terá a fera feminina, aparentemente indómita,
alguém à sua altura para a fazer dobrar? Estas personagens de coração amuralhado
são idealizações sem tempo nem geografia, perseguem-nos para qualquer lugar. Scorsese
diz que o filme extravasa as fronteiras do western, Bénard da Costa chama-lhe
tragédia. Ora, o western é isto mesmo: o lugar onde a tragédia não conhece
fronteiras. Samuel Fuller, cujo primeiro filme foi I Shot Jesse James (1949), sabe isso como
nenhum outro realizador. À sua maneira, ele próprio experienciou situações
limite que só a linguagem poética, neste caso cinematográfica, pode exprimir. A
possibilidade da poesia depois do Holocausto está errada. O que nos deve fazer
pensar é como foi possível o Holocausto depois da poesia. Fuller oferece-nos
pistas para o pensamento. Mostra-nos um simples duelo a partir de dez ângulos
diferentes, sem no entanto nos oferecer de mão beijada o que virá a revelar-se
essencial no desfecho da contenda: o homem escondido por detrás do nosso olhar.
Aquilo que não conseguimos ver de imediato, o que os nossos olhos não alcançam é o acaso que trai as expectativas e determina a realidade. Estes jogos influenciam
igualmente a relação entre Jessica Drummond e Griff Bonnell. Entre ambos,
assistiremos a alguns diálogos inesquecíveis de um erotismo subtil onde a
sedução se pratica invariavelmente no sentido de saber quem exerce mais poder
sobre quem. Mas apenas quando ambos se confessam um ao outro - ela numa choça
onde se protegem de uma tempestade, espécie de santuário familiar repleto de
memórias, ele ao som de um piano melancólico -, ficamos a perceber que um deles
poderá vir a ceder. O amor faz das suas. No final, Jessica já não está rodeada
dos seus 40 homens nem sequer monta um cavalo branco. Veste um vestido claro e
corre na direcção de Bonnell, parte com ele para futuro incógnito. Resquícios
de misoginia não são para aqui chamados. Que tenha sido ela a ceder e não ele
é, para o efeito, irrelevante. Normalmente até acontece o contrário. Com
consequências nefastas, claro está.
UM PENSAMENTO PASSIONAL
Arendt, ainda jovem, encontra-se no gabinete de Heidegger. Diz-lhe: «Estamos
tão habituados a considerar a razão e a paixão como antagonistas que a ideia de
um pensamento passional, em que a ideia e o facto de se estar vivo se fundem,
me causa um certo espanto.» Olha para o professor com reverência, atemoriza-se, pede desculpa
e volta-lhe rapidamente as costas num gesto de fuga. Heidegger, complacente,
pede-lhe que não saia. A cena termina ali, salta de imediato para uma outra. Arendt abre a
porta do seu apartamento, escutamos passos apressados a subir escadas. Arendt
sentou-se na cama e olha para a porta aberta. Heidegger chega, entra, despe o
casaco, dirige-se a Arendt, ajoelha-se, deita a cabeça no seu colo e envolve a
cintura da aluna com os braços. Do gabinete de Heidegger para o quarto de
Arendt saltamos da razão para a paixão, e todo o filme de Margarethe von Trotta
sublinha este encontro entre realidades aparentemente antagónicas. Espanto semelhante paira sobre o julgamento de Eichmann e sobre as reacções à leitura que Hannah Arendt fez do
mesmo. Só podiam ser o que foram, o mundo não estava preparado para a fusão dos
opostos. Ainda hoje não está, tão mais fácil é viver com as certezas lógicas do
impossível. Mas o impossível aconteceu, foi tornado real, um homem abdicou de
pensar para simplesmente servir. O mal é isto, abdicar do pensamento, deixar de ser homem, prescindir da liberdade. Não faltam “eichmanns” ao mundo, os “burrocratas”
de Herberto. Mas muita falta nos faz um “pensamento passional”. Mostrem o filme aos caloiros.
UIVO (fragmento)
Para Carl Solomon
I
Vi os mais inteligentes da minha geração destruídos pela loucura, esfomeados histéricos nus,
arrastarem-se de madrugada pelos bairros negros à procura de uma dose danada,
hipsters com cabeças de anjos a arder pela antiga ligação celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,
que pobreza e farrapos e pedrados e de olhos encovados andaram até altas horas a fumar na escuridão sobrenatural de habitações degradadas flutuando sobre os cumes das cidades a contemplar jazz,
que exibiram os miolos ao Céu debaixo do metro de superfície e viram anjos maometanos cambalearem pelos telhados de bairros sociais iluminados,
que percorreram universidades de olhos gélidos radiantes com alucinações trágicas de Arkansas iluminadas por Blake rodeados pelos estudantes da guerra,
que foram expulsos das academias por doidos & publicaram odes obscenas sobre as janelas do crânio,
que se aninharam em cuecas dentro de quartos por barbear, incendiando dinheiro em cestos de papéis e escutando o Terror pela parede,
que foram presos de barbas púbicas de regresso por Laredo com um cinto de marijuana destinado a Nova Iorque,
que comeram fogo em hotéis de tinta ou beberam diluente no Beco do Paraíso, morte, ou que noite após noite levaram o lombo ao purgatório
com sonhos, com drogas, com pesadelos acordados, álcool e caralho e tomatos sem fim,
as cabeças repletas de incomparáveis ruas cegas feitas de nuvem e relâmpago vibrantes, aos pinotes rumo aos pólos de Paterson Canadá, alumiando pelo caminho todo o imóvel mundo do Tempo,
as solidades peiotianas de salões, auroras nos cemitérios de árvores verde-jardim, embriaguez de vinho sobre os telhados, o pisca-pisca das viagens alucinantes por semáforos-néon em vilas com fachadas de lojas, vibrações solares e lunares e arbóreas no meio dos estrondosos crepúsculos invernais de Brooklyn, urros cinzados e luz mental majestosa e gentil,
que se acorrentaram ao metro para a viagem infindável desde o Battery ao Bronx sagrado sob o efeito de benzedrina até que o ruído das rodas e crianças os atirou abaixo e lhes deu cabo da boca e lhes moeu o cérebro, despojando-os de brilho sob a lúgubre luz do Zoo,
que se afundaram toda a noite na luz submarina do Bickford's e flutuaram para longe e aguentaram a tarde de cerveja morta no desolado Fugazzi's, enquanto a desgraça crepitava da jukebox de hidrogénio,
que falaram setenta horas sem parar desde o parque até casa até ao bar até Bellevue até ao museu até à Ponte de Brooklyn,
um batalhão perdido de conversadores platónicos lançando-se pela varanda abaixo de escadas-de-salvamento de peitoris do Empire State de dentro da lua,
a tagarelar a gritar a vomitar a sussurrar factos e memórias e anedotas e choques de hospitais e cadeiras e guerras,
intelectos inteiros expelidos em reminiscências totais durante sete dias e noites com olhos brilhantes, e carne para a Sinagoga lançada sobre o passeio,
que desvaneceram para Zen-nenhures Nova Jersey largando um rasto de postais ilustrados ambíguos da Câmara de Atlantic City,
sofrendo de suores orientais e moeduras ósseas tangitanas e enxaquecas da China com ressaca de junk no sombrio quarto mobilado em Newark,
que à meia-noite deram voltas e meias voltas no recinto ferroviário magicando para onde haviam de ir, e foram, sem deixar para trás nem um coração partido,
que acenderam cigarros em vagões vagões vagões achincalhando pela neve fora rumo a quintas saudosas na noite anciã,
que estudaram Plotino Poe São João da Cruz telepatia e cabala-bop porque no Kansas o cosmos vibrara instintivamente aos seus pés,
que percorreram sozinhos as ruas do Idaho em busca de anjos índios visionários que eram anjos indianos visionários,
que julgavam estarem apenas loucos quando Baltimore luziu em êxtase sobrenatural,
que saltaram para dentro de limusinas com o chinoca de Oklahoma impulsionados pela chuva invernal que caía era meia-noite à luz dos candeeiros de uma pequena cidade,
que vaguearam por Houston saudosos e famintos à procura de jazz ou sexo ou sopa, e que seguiram o Espanhol brilhante para conversar sobre a América e a Eternidade, uma tarefa inútil, e por isso embarcaram para África,
que desapareceram para dentro dos vulcões no México sem deixar nada para trás a não ser a sombra de ganga e a lava e a cinza da poesia semeada em lareira Chicago,
que reapareceram na costa Oeste a investigar o FBI com barbas e calções e grandes olhos pacifistas sensuais realçados por pele escura a entregar folhetos incompreensíveis,
que queimaram os braços com pontas de cigarros protestando a névoa narcótica tabagista do Capitalismo,
que distribuíram panfletos Supercomunistas em Union Square a chorarem e a despirem-se enquanto as sirenes de Los Alamos os guinchava abaixo, e guinchava abaixo o Muro, e o ferry de Staten Island também guinchava,
que se foram abaixo e choraram em ginásios, brancos e nus e a tremer ante a maquinaria de outros esqueletos,
que morderam detectives no pescoço e guincharam de prazer em carros de polícia por não terem cometido crime algum a não ser a sua singular pederastia e intoxicação selvagem e fulminante,
que uivaram de joelhos no metro e foram arrastados de cima do telhado, acenando com genitais e manuscritos,
que se deixaram enrabar por motoqueiros religiosos, e que gritaram de prazer,
que chuparam e foram chupados por esses serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caraíba,
que pinocaram à noite de manhã no meio de roseiras e na relva de parques públicos e cemitérios disseminando o seu sémen livremente a quem quer que fosse, fosse quem fosse que se viesse,
que soluçaram até à exaustão tentando dar risadinhas mas que acabaram em lágrimas atrás de uma divisória num Banho Turco quando o anjo louco e nu apareceu para os furar com uma espada,
que foram obrigados a entregar os seus meninos-de-amor às três megeras velhas do destino a megera zarolha do dólar heterossexual a megera zarolha que pestanejava dentro do útero e a megera zarolha que nada faz senão abancar o cu e tesourar os fios intelectuais dourados no tear do artífice,
que copularam extasiados e insaciáveis com uma garrafa de cerveja uma namorada um maço de cigarros uma vela e caíram da cama, e continuaram sobre o chão e pelo corredor fora e acabaram desmaiados na parede com uma visão de cona e de esperma derradeiros a iludir o último jacto de consciência,
que provaram as pássaras de um milhão de catraias que tremiam ao pôr do sol e mesmo tendo os olhos vermelhos de manhã estavam prontos para provar a pássara do nascer do sol, exibindo as nádegas em celeiros e no lago, nus,
que andaram na má vida no Colorado dentro de uma miríade de carros nocturnos roubados, N. C., herói secreto destes poemas, homem-caralho e Adónis de Denver - bem-haja a memória das suas inúmeras ponteiradas com tipas em recintos vazios e nas traseiras de restaurantes, filas de cadeiras periclitantes em cinemas, no cimo de montanhas em grutas ou com empregadas de mesa macilentas em íntimos e solitários levantamentos de saiotes à beira estrada & especialmente dos solipsismos secretos em WCs de estações de serviço, & em becos de terras natal também,
que se extinguiram em vastos filmes sórdidos, foram transferidos em sonhos, acordaram para uma repentina Manhattan, e se levantaram do fundo de adegas ressacados com o cruel Tokay e com os horrores dos sonhos férreos da Quinta Avenida & camabalearam rumo a centros de desemprego,
que caminharam toda a noite sobre as docas de neve com os sapatos cheios de sangue à espera que uma porta no East River se abrisse para uma sala cheia de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas em cima das falésias de apartamentos no Hudson banhados pelos projectores bélicos azuis da lua & as suas cabeças serão coroadas de louro no oblívio,
que devoraram o cordeiro estufado da imaginação ou digeriram o caranguejo sobre o fundo lamacento dos rios de Bowery,
que choraram ao verem o romance das ruas com os carrinhos cheios de cebolas e música foleira,
que se sentaram dentro de caixas a respirar no escuro por baixo da ponte, e se ergueram para construir cravos nas suas águas-furtadas,
que tossiram no sexto andar de Harlem coroados de chama sob o céu tubercular rodeados de caixotes de teologia alaranjados,
que gatafunharam pela noite dentro às cambalhotas sobre encantações soberbas que na manhã amarela se transformavam em estrofes de barafunda,
que cozinharam animais podres pulmão coração pés cauda borscht & tortillas sonhando com o puro reino vegetal,
que mergulharam debaixo de camiões de carne à procura de um ovo,
que botaram relógios do telhado abaixo para votarem na Eternidade fora do Tempo, & durante a década seguinte levaram com despertadores na cabeça todos os dias,
que cortaram os pulsos três vezes sucessivamente sem sucesso, desistiram e foram forçados a abrir antiquários onde pensavam envelhecer e choraram,
que foram queimados vivos de fatos de flanela inocentes na Madison Avenue por entre disparos de versos de chumbo & a barulheira metálica dos regimentos férreos da moda & os gritos de nitroglicerina das fadas de publicidade & o gás-mostarda de editores sinistros e inteligentes, ou que foram perseguidos pelos táxis embriagados da Realidade Absoluta,
que saltaram da Ponte de Brooklyn isto de facto aconteceu e desapareceram desconhecidos e esquecidos no meio da confusão fantasmagórica das ruelas de sopa e dos carros de bombeiros em Chinatown, nem uma única cerveja de borla,
que em desespero se puseram à janela a cantar, caíram da janela do metro, saltaram para dentro do imundo Passaic, pularam para cima de negros, choraram pela estrada fora, dançaram descalços sobre copos de vinho partidos destruíram discos de jazz nostálgico alemão da Europa dos anos 30, que acabaram com o whisky e vomitaram a gemer para dentro da retrete ensanguentada, os lamentos nos ouvidos e o estrondo de apitos colossais a vapor,
que tombaram pelas estradas do passado numa viagem rumo aos relógios de corrida golgotiana da solidão prisional ou à incarnação de jazz de Birmingham,
que durante setenta e duas horas atravessaram o país de carro para descobrir se eu tinha uma visão ou se tu tinhas uma visão ou se ele tinha uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram rumo a Denver, que morreram em Denver, que regressaram a Denver & esperaram em vão, que olharam por Denver & amuaram e andaram solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo, & agora Denver tem saudade dos seus heróis,
que caíram de joelhos em catedrais sem esperança rezando pela salvação e pela luz e pelos peitos uns dos outros, até que por instantes o cabelo da alma se iluminou,
que arrombaram a mente à espera de criminosos impossíveis de cabeças douradas e o charme da realidade nos corações que cantavam docemente os blues a Alcatraz,
que se retiraram para o México para cultivar um vício, ou para as Rochosas para se oferecerem a Buda ou para Tânger para os rapazinhos ou para o sul do Pacífico para a locomotiva negra ou Harvard para Narciso para Woodlawn para a orgia ou sepultura,
que exigiram julgamentos de sanidade acusando a rádio de hipnotismo & ficaram apenas com a sua insanidade & as suas mãos & um júri anulado,
que atiraram salada de batata a conferencistas do City College of New York sobre o Dadaísmo e se apresentaram subsequentemente na escadaria de granito do sanatório com as cabeças rapadas e um discurso suicida arlequinado, exigindo uma lobotomia instantânea,
e a quem foi dado em vez disso um vazio concreto de insulina Metrazol electricidade hidroterapia psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue & amnésia,
que num gesto de protesto mal-humorado derrubaram apenas uma mesa de pingue-pongue simbólica, momentaneamente catatónicos,
regressando anos mais tarde realmente carecas com a excepção de uma peruca de sangue, e lágrimas e dedos, à visível loucura catastrófica nas enfermarias das cidades loucas do Leste,
os salões fétidos de Pilgrim State Rockland e Greystone, à pega com os ecos da alma, às cambalhotas pelos reinos-dólmen de amor nos bancos da solidão, o sonho da vida tornado pesadelo, os corpos petrificados, pesados como a lua,
com a mãe finalmente ******, e o último livro fantástico atirado da janela do bairro social, e a última porta fechada às 4 da manhã e o último telefone atirado contra a parede em resposta e a última sala mobilada esvaziada até à última peça de mobiliário mental, uma rosa feita de papel amarelo presa à cruzeta de metal pendurada no armário, e até essa imaginária, nada mais do que um pingo de alucinação cheio de esperança -
ah, Carl, se tu não estiveres a salvo eu não estou a salvo, e agora estás mesmo embrenhado na sopa de massinhas do tempo -
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados com um súbito flash da alquimia do uso da elipse do catálogo da métrica & da plaina vibrante,
que sonharam e incarnaram brechas no Tempo & no Espaço através de imagens justapostas, e encurralaram o arcanjo da alma entre 2 imagens visuais e juntaram os verbos elementares e puseram lado a lado o substantivo e o travessão da consciência a fervilhar com a sensação de Omnipotens Aeterna Deus
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e apresentar-se a ti mudos e inteligentes e a estremecer de vergonha, rejeitados mas confessando a alma, submetendo-se ao ritmo do pensamento das suas cabeças infinitas e nuas,
a batida do louco anjo e vagabundo soa ao mesmo Tempo, uma incógnita, e no entanto fixando aqui o que poderá ser dito no tempo que virá depois da morte,
e reincarnados se ergueram com as vestes fantasmagóricas do jazz à sombra da trombeta dourada da banda e sopraram o sofrimento da mente nua da América por amor num grito saxofónico eli eli lamma lamma sabacthani que estilhaçou as cidades até ao último rádio
com o coração absoluto do poema da vida talhado dos seus próprios corpos comestível daqui a mil anos.
Allen Ginsberg, in Uivo seguido de Kadish, trad. Paula Ramalho Almeida, Quasi Edições, Junho de 2002, pp. 15-24.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
A ARTE DE AMAR (fragmento)
O vinho
Eis que Líber convoca o seu poeta; também ele
ajuda os amantes e alimenta o fogo em que ele próprio se inflama.
A jovem de Gnossos vagueava, fora de si, por areais desconhecidos,
lá onde a pequena ilha de Dia é batida pelas ondas do mar;
o corpo cingido com uma túnica, tal como saíra do sono,
os pés descalços, soltos os cabelos cor de açafrão,
gritava a crueldade de Teseu às ondas ensurdecidas,
regando, com pranto que não merecia, o rosto delicado;
gritava e chorava, ao mesmo tempo; mas ambas as coisas lhe ficavam bem;
não ficou mais feia por força das lágrimas que derramava;
e logo bate, uma vez mais, com as mãos no peito delicado
e diz: "Foi-se embora, aquele malvado! Que há-de ser de mim?
Que há-de ser de mim?", repete. Soaram címbalos por toda
a praia e tambores tocados por mãos de espanto.
Ela desfaleceu de medo e susteve, de súbito, a palavra;
no corpo inanimado, nem uma pinga de sangue restava.
Eis as Mimalónidas, de cabelos caídos ao longo das costas,
eis a turba dos sátiros ligeiros, que precede o deus na corrida;
eis o velho borrachão, Sileno; a custo se aguenta na corcunda do jumento
e segura, com habilidade, as crinas a que se agarra;
enquanto persegue as Bacantes e as Bacantes lhe fogem e o procuram,
enquanto este cavaleiro desajeitado fustiga a montada com o chicote,
escorrega e cai de cabeça, de cima do jumento orelhudo.
Gritaram os Sátiros: "Levanta-te, força, levanta-te, pai!"
Já o deus, no seu carro, que havia coberto de tranças de uvas,
soltava as rédeas cor de oiro aos tigres que o puxavam.
E a cor e Teseu e a voz se esvaíram à jovem
e três vezes tentou a fuga e três vezes ficou tolhida pelo medo;
tremeu de pavor, tal como o vento bamboleia as espigas estéreis,
tal como treme, nas águas do pântano, a cana.
Assim lhe disse o deus: "Eis-me aqui, eu que te sou mais fiel que o cuidado!
Deixa de ter medo! Esposa de Baco, ó filha de Gnossos, hás-de tu ser!
Recebe o céu por presente; no céu, serás contemplada, como uma estrela;
muitas vezes há-de a coroa de Creta orientar a nau perdida."
Assim falou. E, para ela se não assustar com os tigres,
desceu do carro (cedeu a areia ao peso dos seus pés),
envolveu-a num abraço, pois de nada lhe valia resistir,
e partiu; de tudo é capaz, com ligeireza, um deus.
Há umas que cantam "Himeneu!", há outras que gritam "Évio! Evoé!"
Assim se unem no leito sagrado a noiva e o deus.
Por isso, quando colocarem diante de ti os dons de Baco,
e tiveres por vizinha, no lugar do lado, uma mulher,
pede ao pai Nictélio e às divindades da noite
que não façam com que o vinho te perturbe a cabeça.
Aí, muitos segredos poderás dizer, com palavras disfarçadas,
que ela há-de sentir serem-lhe ditos a si,
e escrever palavras de ternura com um pouco de vinho,
para que na mesa ela possa ler que é a tua senhora
e contemplar os olhos com os olhos que denunciam a chama;
muitas vezes, no silêncio, possui o rosto voz e palavras.
Procura ser o primeiro a arrebatar o copo tocado dos seus lábios
e, do lado por onde bebeu, bebe tu também;
e qualquer pedaço de comida que os seus dedos tenham roçado,
pede-lho; e, ao mesmo tempo que lho pedes, toca-lhe as mãos.
Procura agradar, também, ao marido da tua amada;
ser-vos-á mais útil, se se tornar teu amigo.
Se te calhar em sorte beber, concede-lhe, primeiro, a sorte a ele;
seja-lhe concedida a ele a coroa deposta sobre a tua cabeça;
quer seja menos que tu, quer seja teu igual, tenha ele a primazia em tudo,
e não hesites em apoiar as suas conversas;
seguro e frequentado é esse caminho, de enganar com nome de amigo;
por mais seguro e frequentado que seja o caminho, é culposo.
Assim o procurador alarga em demasia a procuração
e julga que lhe cabe indagar mais do que lhe foi mandado.
Dar-te-ei a medida certa no beber:
que cabeça e pés se mantenham capazes de cumprir a sua função.
Tem particular cautela com contendas provocadas pelo vinho
e com mãos demasiado prontas a lutas ferozes.
Assim morreu Eurítion, por beber à farta o vinho que lhe serviram;
mais própria é a mesa e o vinho para gostosos folguedos.
Se tens voz, canta; se tens braços elegantes, dança,
e com qualquer arte com que sejas capaz de encantar, encanta;
a bebedeira, tanto é nefasta, se verdadeira, como é útil, se fingida;
faz a tua língua murmurar, titubeante, sons balbuciados,
por forma a que o que fizeres ou disseres, mais desbragado que o normal,
seja tido na conta de vinho a mais;
e exclama: "Ventura a esta dama; ventura a quem com ela dorme!
Mas desventura", pragueja para os teus botões, "ao seu marido!"
Mas quando os convivas se levantarem da mesa e partirem,
a multidão, ela mesma te há-de dar espaço para te chegares perto;
mete-te no meio da confusão e chega-te a ela, de mansinho, enquanto caminha,
belisca-lhe o corpo com os dedos e, com o teu pé, toca o pé dela.
Ovídio, in Arte de Amar, trad. Carlos Ascenso André, Biblioteca editores Independentes, Maio de 2008, pp. 45-47.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
EU AMO AS PRAXES
É fácil um homem deprimir-se com a actualidade, ficando
apreensivo relativamente ao futuro. Também não é difícil deprimir-se com o
passado, aceitando com espanto a evidência histórica de, apesar de tudo, não
estarmos necessariamente piores do que já estivemos. O mundo é complexo,
assimétrico, aterrorizador. E ameaça-nos constantemente a salubridade
intelectual. Ficam os nomes a servir de exemplo. Túpac Amaru, herói peruano,
deu origem a um movimento revolucionário com o seu nome. Viveu e morreu no
século XVI, mas dois séculos depois um tal de José Gabriel Condorcanqui Noguera
autoproclamou-se Túpac Amaru II e partiu para uma guerrilha de oposição à Coroa
espanhola. Reivindicava o fim do trabalho escravo, distribuição das terras pela
população indígena, justiça social. Traído por dois dos seus oficiais, foi obrigado
a assistir à execução da família antes de ser torturado até à morte. O corpo,
esquartejado, foi espalhado por diversas partes do território que lhe era fiel.
Já no início do século XX, Augusto César Sandino insurgiu-se contra o domínio
americano na Nicarágua. Rotulado de “outlaw” pelos sheriffs do Norte, resistiu
com uma guerrilha onde reivindicava o impossível: a terra a quem a trabalha.
Traído por compatriotas com quem tentava negociar o fim da guerrilha, acabou
assassinado, segundo o executor, a mando do embaixador norte-americano. Da sua
luta nasceu o sandinismo, ideologia mãe dos exércitos de camponeses rebeldes
que, na origem, combatiam a política latifundiária. Nas terras que hoje se
conhecem como Uruguai, José Artigas (1764-1850) combateu espanhóis e
portugueses em defesa de uma reforma agrária que atraiu índios, escravos,
gaúchos, camponeses feridos na sua dignidade. Terra livre, homens livres, era o
lema dos perigosos revolucionários: «se decretaba la expropiación y el reparto
de las tierras de los malos europeos y peores americanos emigrados a raíz de la
revolución y no indultados por ella». Artigas pretendia repartir terras de
acordo com o princípio de que os mais infelizes seriam os mais privilegiados,
estando os índios no topo dos beneficiários desta reforma utópica. Sobrevive na
História latino-americana como uma figura ambígua e controversa. Depois há
Zapata, o carismático e quase mitológico Emiliano Zapata. O que pretendia este
Mexicano insubordinado? Ele e Pancho Villa queriam destruir para sempre o
monopólio da terra, realizando um Estado que garantisse o direito de cada homem
a ter um pedaço de terra que pudesse servir à sua subsistência. O Exército de
Libertação do Sul caiu com o desaparecimento do seu líder, traído e cravejado
de balas que, no entanto, não apagaram o mito. Todos estes homens tinham boas
intenções. As suas acções e, por consequências, as lutas que travaram podem ser
consideradas manifestos por uma maior justiça social. Traídos, assassinados,
restam como exemplos. Haverá quem os admire, haverá quem os despreze, haverá
quem discuta os méritos e os vícios do legado que outorgaram à marcha da
humanidade. Certo é que lutaram. Lutaram com o que tinham à mão, oferecendo o
peito às balas, por causas que nos parecem justíssimas. Causas semelhantes continuam
a inspirar imensas pessoas no mundo. As formas de luta são outras. Na Europa,
luta-se nas redes sociais. As redes sociais estão cheias de misantropos e de tipos
anti-sociais. Em África luta-se à catanada, luta-se todos os dias por uma
passagem para a Europa ou por uma semente que mate a fome. No Médio Oriente
luta-se à pedrada, enquanto os drones norte-americanos garantem o sucesso
meticuloso de intervenções militares civilizadas. Os jovens que amam as praxes
não querem saber disto para nada, preferem lamber as pedras da calçada a estremecer
com preocupações de justiça social. O mundo é assimétrico, terrivelmente assimétrico.
Assange e Snowden talvez sejam o que hoje mais se aproxima de Pancho Villa e
Emiliano Zapata. Quando as sementes estiverem todas patenteadas, poderemos
descansar em paz. A Monsanto encarregar-se-á de levar a felicidade ao mundo, matando
a fome dos activistas do Greenpeace. E o Al Gore escreverá mais um livro, que o
Dr. Soares se encarregará de citar, a Angelina adoptará mais uma pobre criança,
o Papa Francisco aproveitará a ocasião para lhe telefonar agradecendo o bem que
tem feito pelo mundo e os jornalistas darão notícia destes e de outros
acontecimentos, como o de um novo recorde batido por um surfista australiano
nas ondas da Nazaré… É fácil um homem deprimir-se com a actualidade, também não
é difícil deprimir-se com o passado.
NASCI ESBURACADO
Quito, 25 de Abril
Sopra um vento terrível.
É apenas um pequeno buraco no meu peito.
Mas sopra nele um vento terrível.
Tu não és para mim, pequena cidade de Quito.
Necessito de ódio, e de inveja, é a minha higiene.
O que me falta é uma grande cidade.
Um grande consumo de inveja.
É apenas um pequeno buraco no meu peito,
Mas sopra nele um vento terrível,
No buraco há (sempre) inveja, e também assombro e impotência,
Há impotência e o vento cheio dela,
Forte como os turbilhões.
Capaz de quebrar uma agulha de aço.
E é apenas um vento, um vazio.
Maldição sobre toda a terra, sobre toda a civilização, sobre todas as criaturas à superfície de todos os planetas, por causa deste vazio!
Disse um senhor crítico que eu não tinha ódio.
Este vazio é a minha resposta.
Ah! Como nos sentimos mal na minha pele!
Necessito chorar sobre o pão do luxo, da dominação e do amor, sobre o pão da glória que é exterior,
Necessito olhar através da vidraça da janela,
Vazia como eu, que não capta absolutamente nada.
Disse chorar, mas não, é uma perfuração a frio que fura, fura infatigavelmente.
Como furam um barrote de faia duzentas gerações de vermes legatárias dessa herança: «Fura... Fura.»
É à esquerda, mas não digo que seja o coração.
Digo buraco, não digo mais, é a raiva e eu nada posso.
Tenho sete ou oito sentidos. Um deles o da falta.
Toco-o e tacteio-o como se tacteia madeira.
Mas dir-se-ia antes uma grande floresta, dessas que já não se vêem na Europa há muito tempo.
E é a minha vida, a minha vida pelo vazio.
Se desaparece o vazio, busco-me, enlouqueço e ainda é pior.
Construí-me sobre uma coluna ausente.
Que diria Cristo se lhe tivesse sucedido o mesmo?
Há certas doenças que, se as curamos, nada mais resta ao homem.
Morre instantaneamente, era tarde demais.
Pode uma mulher contentar-se de ódio?
Então amai-me, amai-me muito, e dizei-mo
Escrevei-me, qualquer uma de entre vós.
Mas o que é esse pequeno ser?
Mal farei caso dele.
Nem duas coxas nem um grande coração podem preencher-me o vazio.
Nem dois olhos cheios de Inglaterra e de sonho, como se costuma dizer.
Nem uma voz canora que significasse completude e ardor.
Os arrepios acham dentro de mim o frio sempre a postos.
O meu vazio é um grande devorador, grande esmagador, grande aniquilador.
O meu vazio é algodão e silêncio.
Silêncio que tudo detém.
Um silêncio de estrelas.
Apesar de profundo, este buraco não tem forma.
As palavras não o encontram,
Patinham em redor.
Sempre me fascinou que aqueles que se julgam homens da revolução se sentissem irmãos.
Falavam uns dos outros com emoção: escorriam como sopa.
Isso não é ódio, meus caros, é gelatina.
O ódio é sempre duro,
Fere os outros,
Mas também dilacera continuamente o seu homem no interior.
É o avesso do ódio.
E não há remédio. Não há remédio.
Henri Michaux, do livro Ecuador (1929), trad. Margarida Vale de Gato, in Antologia, Relógio d' Água, Agosto de 1999, pp. 34-36.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
PHILIP SEYMOUR HOFFMAN (1967-2014)
Morreu Philip Seymour Hoffman, actor cuja simples presença
me levava a ver um filme. Fiquei fã depois de Happiness (1998), de Todd
Solondz, embora já me tivesse apercebido da sua versatilidade em obras de
interesse tão distinto tais como Boogie Nights (1997), de Paul Thomas Anderson,
ou The Big Lebowski (1998), dos irmãos Coen. Era o actor fetiche de Paul Thomas
Anderson, com quem trabalhou em praticamente todos os filmes: além do supracitado,
encontramo-lo em Sydney (1996), Magnolia (1999), Punch-Drunk Love (2002) e The
Master (2012). O Oscar, inevitável, chegou com Capote (2005). Dois filmes
menores onde apreciei especialmente o seu desempenho: no drama familiar The
Savages (2007), de Tamara Jenkins, e no thriller Doubt (2008), de John Patrick
Shanley. São dos tais que pouco valeriam não fosse a sua presença. Realizou
Jack Goes Boating (2010). Eternamente agradecido.
VALENÇA
Por outro lado, podes também perguntar-te de que vale ao
tempo ter ponteiros? Talvez como tu ele preferisse ter asas. Mas como tu ele
não voa, rasteja. E tem veneno nas horas.
O vento semeia o veneno para que dele nasçam muralhas. Geradas
na terra, afundadas na lama da história, iludem o desconforto das estações com
uma ideia de perenidade. Basta olharmos as árvores despedidas, fruto extinto…
…que o labor das mãos não renova. Estamos de vigia às águas
do rio, o lugar não visto dos mortos onde ninguém mergulha duas vezes. Nem a
sombra das árvores despidas.
Indiferente ao tempo, um gato solitário percorre seu
caminho. Queria como ele saber caminhar pausadamente. Nem voo nem pausa, apenas
um tremor desajeitado nos olhos que através dos olhos se mete no sangue e se
espalha pelo corpo. O veneno.
Não pensar, talvez. Libertar a vontade e o desejo dos
labirintos funestos do pensamento. Que tudo fluísse apenas como as águas do rio,
as nuvens do céu, os vapores do tempo imensurável. O som da trovoada.
Feliz por apenas ser. Nem sequer feliz, por felicidade não
haver nos nervos da terra, no sangue das pedras, no músculo da erva. Ser apenas
uma coisa que voa, como voam todas as coisas contentes de si próprias, salvas
da vontade, libertas da ambição.
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