terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O VINIL SOA MELHOR

Com um suporte essencialmente electrónico, os Depeche Mode conseguiram produzir um dos álbuns ao vivo mais marcantes de sempre: 101 (1989). Assim desmistificaram a ideia de que a sua música nascia e morria entre quatro paredes. Mais preconceito, menos preconceito, a electrónica tornou-se banal nos dias de hoje. Alguns DJs conseguem plateias mais vastas do que as tradicionais bandas de guitarra a tiracolo. A música dos Depeche Mode tem, no entanto, uma particularidade: apesar de florescer nos sintetizadores, enraíza-se numa tradição que faz dos blues e do gospel referências inalienáveis. Álbuns como Violator (1990) e Songs of Faith and Devotion (1993) tornaram explícito o que na década anterior tinha ficado implícito. Mas quem escute com atenção a primeira fase da banda, reconhecerá estas influências nos ambientes ao mesmo tempo catárticos e intimistas, nas tonalidades românticas sacadas pela excelente voz de David Gahan ou em algumas malhas que Martin Gore não recusou à guitarra. Fui vê-los a Alvalade em 1993, com casa reduzida a um mínimo espantoso, o palco colocado a menos de meio do estádio, aparato visual sedutor. Fui sozinho, fui feliz. Recupero agora, em gravação medonha de tão má, algumas imagens do dia e emociono-me. Hoje em dia, qualquer telemóvel de merda faria melhor. Mas não seria a mesma coisa. A música dos Depeche Mode também não.

Sem comentários: