quinta-feira, 6 de março de 2014

BASEADO EM FACTOS VIRTUAIS

Não sei o que vou escrever a seguir, não o pensei. Enquanto lia Desligar e Voltar a Ligar (2011), peça escrita por Margarida Vale de Gato e Rui Costa, ocorreram-me imensas ideias e imagens que julgo estarem relacionadas, mais que não seja, por terem tomado forma num mesmo corpo. Generation X: Tales for an Accelerated Culture (1991) foi publicado quando a internet ainda era novidade e as de então novas tecnologias tornaram-se rapidamente obsoletas. Como outros no passado, a minha geração viveu e continua a viver uma revolução cujas consequências são imprevisíveis. Não sabemos onde nos levará a revolução tecnológica, mas torna-se evidente que nos tem levado para uma gradual e progressiva virtualização da vida. Facilmente se reproduz hoje o percurso de um homem seguindo-lhe os movimentos do MB, os acessos à rede, publicações nas redes sociais, utilização do telemóvel… A nossa vida é cada vez menos nossa, a concepção que tínhamos de vida privada esbateu-se, hoje tudo se publica, tudo pode ser público e facilmente somos controlados e manipulados através dos elos que vamos alimentando com as novas tecnologias. Ontem, ao ver dois filmes baseados em factos reais perguntei-me: o que há hoje de real nos factos? Será legítimo pensar que a nossa própria vida é baseada em factos reais? Depois do cinema, num bar, à minha frente uma mesa com cinco ou seis pessoas. Todas elas de telemóvel na mão, a fazer cócegas ao monitor com o dedo indicador. Durante o almoço, cenário semelhante. Este panorama de ficção científica é a realidade hodierna. O ovo que aparece na peça da Margarida e do Rui, enquanto metáfora do universo onde a virtualidade germina, é real, é a matriz (“Matrix”) que as 16 agências de serviços secretos norte-americanos denunciadas por Snowden dominam. Não obstante, sabemos que a virtualidade pode começar na depilação. Esse gesto banal evocado no início da peça relativiza o sentido verdadeiramente revolucionário do desenvolvimento tecnológico. No fundo, assistimos hoje a uma depilação generalizada da vida. Basta percorrermos as eufemisticamente denominadas redes sociais para o entendermos, tantas são as vidas maravilhosas que se partilham, os momentos magníficos que fazem de nós, gente comum, pessoas especiais aos olhos de outras pessoas comuns, como especiais são as vedetas que a imprensa cor-de-rosa vai mostrando em situações paradisíacas ou em momentos infernais que deificam o banal e fomentam a mitologia das massas. Mas por detrás do que se mostra há uma verdade indisfarçável. Por detrás da pele lisa há uma camada de pêlos com os quais nos é difícil viver, mesmo se formos discípulos de Jah. Essa camada de pêlos é a verdade, a verdade repleta de contradições e ambiguidades, a verdade dos equívocos e dos acidentes, a verdade insuportável, que não queremos ver, de um ser frágil e débil que não suporta a ideia de que está só, irremediavelmente só, na mais radical e limite das suas experiências: a morte. Esta verdade é a Utopia, o horizonte de que fala Galeano e na direcção do qual caminhamos, é a meta que Popper coloca para lá de toda a verosimilhança sem a qual nenhuma ciência progride. Alice diz: «Eu gostava de ter um corpo que pertencesse a um jardim. Um jardim não é bem a natureza, tal como o pomar e a nudez são ficções de escritores que ouviam vozes, eu nunca ouvi, mas já me doeram gemidos que não eram meus». Allan replica: «Não. Aqui começamos nós. (Olha à volta e o seu tom muda.) Bem. Precisamos de árvores. Negras. Abertas em secções transversais encharcadas de absinto, água-ardente-vida. Não precisas de me tomar à letra. Isto é para ser tomado nos corpos, eu já experimentei. As árvores ao escurecer masturbam-se. Os locais pensam que é o vento. A sua madeira aquece, às vezes acontecem incêndios». A peça continua, o palco estende-se, alarga-se, as personagens não são obras de museu, nem quando são humanas, mas a natureza será um dia, ela própria, peça de museu: jardim. Não há recomeço, por mais que apaguemos - e no mundo virtual a hipótese de delete é tentação permanente, como na vida real é solução sedutora -, ficará sempre uma semente esquecida no pântano da memória digital. Talvez, quem sabe (ficcionemos), se novas formas de vida chegarem à terra, não nascidas da terra, mas vindas da extraterra, novas e diversas formas de vida, homens sem pai nem lei nem esforço, sendo apenas sendo, porque as nossas vidas já não se baseiam em factos reais. São cada vez mais virtuais.

10 comentários:

Anónimo disse...

Posso ficar anónimo? Obrigado.

José A. disse...

Ainda eu, anónimo, posso? Gostei muito disto. Está dito.

José A. disse...

Ainda eu, anónimo ma non troppo. Gostei muito destas lembranças.

Anónimo disse...

Ainda anónimo, mas menos, posso deixar um laique?

J.

hmbf disse...

Saúde.

MJLF disse...

"Como outros no passado, a minha geração viveu e continua a viver uma revolução cujas consequências são imprevisíveis. Não sabemos onde nos levará a revolução tecnológica, mas torna-se evidente que nos tem levado para uma gradual e progressiva virtualização da vida." é mesmo. Saúde

hmbf disse...

Já agora,

12 anos escravo
Filomena

foram os filmes baseados em factos reais.

Anónimo disse...

Outra vez anónimo da cabeça aos pés:7 comentários:
Anónimo disse...
Posso ficar anónimo? Obrigado.
7 de Março de 2014 às 07:57
José A. disse...
Ainda eu, anónimo, posso? Gostei muito disto. Está dito.
7 de Março de 2014 às 08:07
José A. disse...
Ainda eu, anónimo ma non troppo. Gostei muito destas lembranças.
7 de Março de 2014 às 08:08.......................................................................................................
Bem, é que o número 7 é uma perdição (acidentalmente (?) dia 7, as O8.07, etc etc, ui, nunca mais ponho aqui os pés.
Saúde pelo menos até aos 77.

Belicious disse...

Bom dia,
Tem email para contacto?

Obrigada

hmbf disse...

universosdesfeitos@yahoo.com.br