terça-feira, 4 de março de 2014

E ACABADA A BELEZA?

Catatau é um desafio imenso de palavras inventadas, línguas diversas, dialectos. Protejo-me da leitura convencendo-me de que nada há para entender em Catatau, apenas o desfrute da linguagem. Percebe-se ali um Descartes no meio de monstros, rodeado de fauna e flora tropicais, atacado pelos fumos, perdendo as rédeas à lógica e ao pensamento. Mas isso vem mais do que se diz sobre o livro do que o próprio livro mostra, pois tudo em Catatau se mostra entre o caos do pensamento, numa atmosfera de paradoxos, ambiguidades, contradições que, entrado ali o leitor, perdem o sentido. Onde tudo é caos deixa de fazer sentido falar de caos, este transforma-se na própria ordem. Entre o mato selvagem, surgem resquícios de racionalidade. A páginas 109, isto: «Acaba a utilidade, fica a verdade, acaba a verdade, fica a beleza: não minta que bem conheço o contrário dessa história». Dizê-lo por outras palavras roubará significado à dança da língua. Acenamos com a cabeça um gesto de concordância, «acabada a utilidade, fica a verdade, acabada a verdade, fica a beleza»… E acabada a beleza, como é?

Sem comentários: