quinta-feira, 13 de março de 2014

LOOK BACK IN ANGER

Ao folhear a poesia de Carlos de Oliveira, deparei-me com um poema intitulado Look Back in Anger, que por sua vez me remeteu para a peça homónima de John Osborne (n. 1929 – m. 1994), publicada em 1956. Não é difícil compreender a pertinência dos diálogos de Osborne, por colocarem o dedo na ferida num tempo em que o entretenimento, a diversão e o humor dissimulavam as cicatrizes de uma realidade nem sempre agradável de reflectir. Diz-se que o texto é de natureza autobiográfica, estando relacionado com o casamento infeliz do autor. O divórcio ocorreu um ano depois da estreia, tendo o sucesso da peça libertado Osborne de uma vida vulgar e sem história. Tornou-se um dos mais relevantes dramaturgos britânicos do pós-guerra. As atenções estão voltadas para Jimmy Porter, assim descrito: «He is a disconcerting mixture of sincerity and cheerful malice, of tenderness and freebooting cruelty; restless, importunate, full of pride, a combination which alienates the sensitive and insensitive alike. Blistering honesty, or apparent honesty, like his, makes few friends. To many he may seem sensitive to the point of vulgarity. To others, he is simply a loudmouth. To be as vehement as he is to be almost non-committal». Basicamente, trata-se de um provocador. Mas se abrirmos um buraco na superfície e formos ao fundo da sua personalidade, vislumbraremos algo mais complexo. Em parte, recorda-nos os cínicos clássicos – mas sem o lado lascivo, parece até um pouco conservador no julgamento que faz de terceiros. O que nele fere não é a honestidade, antes uma certa forma de pensar a honestidade. Isto é, o que nele fere é a precipitação das emoções, um certo descontrolo movido, talvez, por uma autocomplacência muito íntima, tão íntima que parece inexistente. A sua sinceridade não é auto-reflexiva e a veemência com que se dirige a Alison, sua mulher, acusando-a de coisas horríveis, é típica de alguém que se dá muita importância. Parece servir para si próprio, em doses residuais, a honestidade que não regateia para com os outros. Acusa Alison de ser pusilânime, fá-lo com a ironia típica do cinismo original, enquanto a mulher passa a ferro, prepara o chá, serve a refeição e ele se irrita, sentado e de pernas cruzadas, com a hipocrisia publicada nos jornais. Odeia a família da mulher tanto quanto parece odiar uma classe média que considera fútil e presunçosa, mas não nos oferece grandes motivos para o olharmos de modo diverso. «She writes long letters back to Mummy, and never mentions me at all, because I’m just a dirty word to her too». — queixa-se ao amigo CliffLewis. Mas a questão é: porque deveria Alison falar de Jimmy nas cartas que escreve à mãe? Não estará também a honestidade de um ser em perceber a sua inconveniência, o quanto pode ser desprezível para os outros e o quanto é insignificante no teatro do cosmos? Jimmy lembra o intelectual remoído com os males do mundo, embora imerso na sua inoperância, cativo de uma raiva tão burguesa quanto a indiferença dos burgueses. Age como uma criança, refugiando-se de trompete na mão a emitir sons tão desarticulados e inconsequentes como o seu próprio pensamento. A sua grande história são doze meses a assistir ao definhamento do pai, quando tinha apenas dez anos. Mas isto isenta-o de quê? Confere-lhe alguma superioridade? Onze anos passados sobre a bomba atómica, qual a verdadeira relevância destes dramas pessoais? Será justo provocar o sofrimento dos outros porque não aprendemos ainda a resolver o nosso próprio sofrimento? Talvez esteja convencido de que merecia uma vida melhor. Até que ponto a vida de uma pessoa é apenas fruto das circunstâncias?  Não querendo ser superficial, Jimmy é-o. É-o, precisamente, por culpa da sua arrogância, da sua incapacidade para afirmar a diferença em acções concretas, acções que transcendam a saturante futilidade das palavras disparadas contra tudo e contra todos. O clima tenso em que vive, os jogos psicológicos que alimenta, a tortura mental que exerce sobre a mulher são, ao fim e ao cabo, pontos de fuga da personagem que ainda não percebeu qual o papel que tem a desempenhar na tragédia da sua própria existência. Helena Charles, a odiada amiga de Alison de quem Jimmy acabará por se tornar amante, percebe-o melhor do que ninguém: «He was born out of his time. // There’s no place for people like that any longer — in sex, or politics, or anything. That’s why he’s so futile. Sometimes, when I listen to him, I feel he thinks he’s still in the middle of the French Revolution. And that’s where he ought to be, of course. He doesn’t know where he is, or where he’s going. He’ll never do anything, and he’ll never amount to anything». Portanto, a futilidade de Jimmy Porter, a sua inutilidade, é um problema de deslocação. Não está em sintonia com o seu tempo nem com o seu espaço, teve azar. Acontece aos melhores. Resta saber se tivesse nascido na Paris da Revolução Francesa não seria igualmente frívolo. É que “estas coisas” são universais, atravessam a História como uma espécie de genoma cuja beleza é e sempre será a indecifrabilidade.