segunda-feira, 24 de março de 2014

SER GRANDE É SER PEQUENO

Que não era útil à sociedade, chegaram mais ou menos a dizer-me. Desde quando o foram os poetas? A não ser como protesto.


Na manhã do Dia da Poesia, desloquei-me à escola da Beatriz para participar na semana de leitura. Preparei um programa composto por quatro poemas, de acordo com a efeméride então vivida. Ainda algo apreensivo com eventuais manifestações de fastio, fui rapidamente surpreendido pelo interesse demonstrado. À Aula de gramática, de David Chericían, seguiu-se O Arenque Fumado, de Charles Cros. A Beatriz ajudou-me depois na leitura de um poema de Shel Silverstein, justamente intitulado A Beatriz e o lindo pónei. Terminei com Porquê?, de Richard Edwards. Exceptuando o poema de Cros, todos os outros estão compilados na antologia O Tigre na Rua e Outros Poemas (Bruaá). Interventivos e com uma vontade enorme de interagir, os miúdos riram, fizeram perguntas, ressoaram versos, acompanharam o ritmo das palavras. Impressionante a predisposição para o absurdo, no imaginário deles tão compreensível como inaceitável na cabeça formatada e amesquinhada das pessoas adultas. Ser grande é ser pequeno, ser crescido é aceitar a beleza das coisas sem lhes cobrar valor, é perceber o avesso dos significados. A frase ao alto, de Ruy Belo, num ensaio posterior a Na Senda da Poesia, evocativo do poeta brasileiro Sérgio Pachá, aceita-se, mas mais uma vez fica aquém da compreensão da utilidade das coisas inúteis. A não ser que por protesto entendamos essa expressão partilhada da liberdade de pensamento e de sentir que é a poesia.

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