quarta-feira, 30 de abril de 2014

LIMPINHO, LIMPINHO

No ano passado morreram quase mais 24 mil pessoas do que as que nasceram, leio no Público. Há dias, lia que a emigração levou-nos um quinto dos trabalhadores qualificados. Em 2012, o número de emigrantes foi superior ao total de nascimentos. Ficam os velhos. Sem ter onde ir, o Governo vai às reformas dos velhos, quebra com os cidadãos um contrato que os sujeitou a uma vida de trabalho na esperança de uma velhice sossegada. Resume-se o sossego a contar tostões para sustentar famílias sobrecarregadas com o desemprego dos filhos, os que ficam, arrumados em casa dos pais, sem perspectivas de futuro. Ter filhos tornou-se uma ambição luxuosa, constituir família um pesadelo a evitar. Ganham com isto algumas empresas que se aproveitam das fragilidades sociais para imporem salários miseráveis e todo o tipo de abusos. Temendo o desemprego, os trabalhadores sujeitam-se a horas extraordinárias não pagas. É trabalho gratuito, uma actualização da escravatura. Algumas feridas dos bancos foram estancadas, as assimetrias agravam-se a toda a hora. Cada vez mais, um núcleo reduzido de pessoas detém toda a riqueza. A maioria sobrevive de migalhas. Milhares de licenciados arrastam-se por todo o tipo de actividades em condições precárias que oferecem aos mais jovens uma trágica realidade: estudar para quê? A sociedade estupidifica-se, desinteressada do saber e da cultura, para todo o efeito actividades inúteis que não levam a sopa à mesa. Quem pode, quem consegue, esquiva-se ao palco onde o drama é representado. Economia paralela subiu para 26,7% do PIB, um em cada dez portugueses comprou bens ou serviços na economia paralela, revelam as estatísticas mais animadoras e, como é óbvio, sempre eufemísticas nestes domínios. Uma classe política incólume enriquece à custa de favores, salta do Estado para empresas privadas numa promíscua relação de interesses. Prática reiterada à qual já nem se chama corrupção, são oportunidades de uma vida. Quanto à corrupção estamos falados, as prescrições aí estão nas parangonas da imprensa a dar nota da justiça que nos cerca. Uma justiça desvairada, enceguecida pelos pós mágicos dos grandes escritórios de advogados. Portugal não é para quem quer, muito menos para os portugueses, é para quem pode. Perante isto, que interpretação fazer dessa expressão “saída limpa” que envaidece o actual Governo? Saída limpa? Nesta imundície?

terça-feira, 29 de abril de 2014

[E ENTÃO UM DIA SERÁ CONTRA MIM]


E então um dia será contra mim
que toda esta gente encostada ao medo
voltará a sua solidariedade.

Alguns, é certo, mais impacientes,
ao minuto dez perderão todo o interesse
na morte que ali os trouxe,
farão uma roda cúmplice, contarão
anedotas de alentejanos e louras,
entre olhadelas ao relógio,
faz-se-me tarde, o diabo do padre
nunca mais vem.

Pelo contrário, aqueles que se perfilam
logo atrás de mim na desapiedada
cronologia da morte
manipularão preces sem pressa
tementes ao aviso: cras tibi.

Honesta e friamente laborais,
carpideiras rezarão, rasarão
a orla da morte com a sua piedade
- ciciada, para que não se ofendam
os ouvidos de Deus.

Entalado entre as minhas tábuas
não hei-de eu estar feliz?


A. M. Pires Cabral (n. 1941), in Como se Bosch tivesse enlouquecido (2003). «Velhos, prostitutas, burros, tílias, ciganos, emigrantes, ceifeiros, a realidade geo-humana de um país, de uma região desse país, atinge-nos sem qualquer colorido turístico, sem qualquer mítica da raça e, sobretudo, sem qualquer demagogia conteudística. Este último ponto é muito importante. A. M. Pires Cabral conseguiu, entre outras coisas, libertar o realismo na nossa poesia das peias da demagogia, da utilização de agregados humanos como «aquecidos» locais verbais de que a poesia se servia para que não dissessem que não estava atenta ao mundo. (...) Embora o movimento de ligação à terra e à memória se não perca nunca nos livros de António Manuel Pires Cabral posteriores a Algures a Nordeste [1974], há neles uma efectiva atenuação da busca de enfrentar explicitamente o seu mundo social e pessoal. Essa atenuação reside, sobretudo, nas tentativas de elaborar uma linguagem cujo peso estilístico se aproxime mais do jogo conceptual, de modo a criar (por aliterações, por cortes, pelo recurso à motivação vocabular) contextos mais intencionalmente polissémicos. (...) Contudo, a presença da vocação confessional e a veemência da atenção social, (mais ligada ao imaginário do naturalismo), ocultavam esta busca latente de um estilo em que o jogo verbal se sobrepusesse ao jogo dos sentimentos, das emoções e mesmo dos apelos. Está levantado o indicador de um outro processo da distanciação da subjectividade sentimentalizante». (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos)

THE SPIKES GANG (1974)

É frequente ouvir-se dizer que após duas décadas de ouro o western perdeu fulgor na década de 1960. No entanto, é precisamente nessa década que realizadores como John Ford ou Henry Hathaway assinam alguns dos seus melhores filmes. De Ford, convém lembrar The Man Who Shot Liberty Valance e Cheyenne Autumn. Já a Hathaway devemos The Sons of Katie Elder e o inesquecível True Grit. A década de 60 do séc. XX abriu com o melhor Sturges (The Magnificent Seven) e fechou com o melhor Peckinpah (The Wild Bunch). Pelo meio, há muita filmografia a explorar. Que dizer, por exemplo, da capacidade de reinvenção do género com os filmes de Sergio Leone? O spaghetti western abriu portas que ajudaram a manter vivo o estro herdado de outras épocas e a repensar métodos de produção. É verdade que a década de 1970 não tem grandes momentos para relembrar, à excepção dos magníficos Pat Garrett & Billy the Kid e The Outlaw Josey Wales. Sobram obras inferiores de John Guillermin, Lamont Johnson, Michael Winner, Ted Kotcheff, entre outros. É nos outros que encontramos duas obras especialmente emblemáticas da década: The Cowboys (1972), de Mark Rydell (n. 1929), e The Spikes Gang (1974), de Richard Fleischer (1916-2006). Comecemos pelo último. Fleischer talvez seja mais conhecido por filmes populares, mas desinteressantes, tais como Conan the Destroyer (1984) ou Mandingo (1975) – fonte onde Tarantino terá bebido para o seu Django Unchained. No entanto, com uma carreira iniciada ainda na década de 1940, tem no currículo obras admiráveis. Data de 1956 o filme Bandido, western que contava com Robert Mitchum (Man With the Gun, El Dorado…) no papel principal. Em The Spikes Gang recupera para a linha da frente Lee Marvin, que, apesar de ter arrecadado um Oscar com o cowboy destrambelhado de Cat Ballou (1965), ficou para a história do western como Liberty Valance. É precisamente o vilão de John Ford que Richard Fleischer ressuscita. O filme começa com Harry Spikes (Lee Marvin) agonizante, a esvair-se em sangue depois de ter sido baleado na sequência de um assalto. A fuga irá levá-lo aos braços caridosos de três jovens que, em segredo, cuidarão do famoso assaltante de bancos Harry Spikes. Rodado em Espanha, debaixo do mesmo sol que tornou famosos os filmes de Leone, The Spikes Gang enferma, porém, da inverosimilhança dos cenários. O Rio Grande mencionado no filme nada tem que ver com o imaginário sedimentado pelo filme de John Ford, a vegetação daquelas terras está longe da paisagem seca e árida que imaginamos na fronteira entre Estados Unidos da América e México. Mas nem é esse o maior problema do filme de Richard Fleischer. Há nele uma indefinição que o faz oscilar entre a passagem de testemunho de um fora da lei a três jovens extraviados e um folheto sentimental e moralizador sobre comportamentos desviantes na adolescência. O próprio enquadramento familiar e social dos jovens Will (Gary Grimes), Les (Ron Howard) e Tod (Charles Martin Smith) parece ter saído de um manual bafiento de Educação Moral, Religiosa e Católica. Neste aspecto, a personagem de Gary Grimes é particularmente desnorteante. Foge de casa para não ter que suportar um pai violento, recorda amiúde, em flashbacks momentâneos, as cargas de porrada que o pai lhe dava, mas no momento da morte, já moribundo e derrotado, sonha que está a correr na direcção dos braços abertos do pai e abraça-o:


Em vez de comover, o delírio ridiculariza a personagem. É como se o filme tivesse sido feito a pensar num domingo em família, para os pais poderem exemplificar aos filhos a inconveniência das decisões precipitadas e o perigo das más companhias. Mas se The Spikes Gang é um filme pedagogicamente falhado, ganha pontos quando o observarmos a partir da perspectiva de quem entra na vida adulta pela porta mais trágica. Spikes é uma ponte entre dois infernos. Por um lado, o inferno de uma vida familiar austera e entediante. Por outro lado, o inferno de uma independência agitada, instável, perigosa. O inferno do mundo do crime. A viagem que Will, Les e Tod empreendem arrasta-nos para um Velho Oeste que já não existe. Há no filme uma intenção revisionista que o torna interessante, sobretudo nas lições sobre o mundo do crime que Spike transmite aos jovens. No fundo, Lee Marvin ensina aos “três mosqueteiros” como se sobrevivia no trânsito sem regras do Old West. O código de honra revelar-se-á implacável: serão todos redimidos pela morte. Salva-se o filme, pois, pelo papel e pela interpretação de um grande actor. Marvin adopta os três jovens tanto por recompensa (pelo que fizeram por ele quando estava às portas da morte) como por si próprio. Eles, os três jovens amigos inseparáveis, serão o seu derradeiro testamento. É solidário tanto quanto se mostra calculista, é irónico e cínico, é cómico tanto quanto consternador, é um fora da lei como só ele sabe.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

ODE DO HOMEM DE PÉ


O que vês, escreve-o
Apoc., I, 11

Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo
pelos passos lentos como o rolar dos anos
pelos dias vulgares cheios de maçãs
pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco
pelas crianças mal vestidas para a vida
nos bicos dos pés te saúdo
pela paixão que transferiu campaspe
do amor de alexandre então dono do mundo
pra o coração de apeles pintor pobre
que tinha como dom o simples dom de olhar
por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos
pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo

Oh como o sofrimento purifica minha rua
Ele passa-nos as mãos por todo o corpo
desce por nós como um olhar de mãe
e a mais agasalhada vida vê-se nua

Voz justificação de toda esta arquitectura que somos
chove a meu lado atrás de mim na minha frente
Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva
peço o teu concurso para cantar a rua à chuva

Rua onde as casas olham quase com desgosto
aquela que a seu lado é demolida
onde eu pecador me confesso e agradeço
este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira
passadas já segunda terça e quarta
e poder erguer as duas mãos acima da terra
rua onde passaram os meus pais
onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos
onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã
e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi
rua onde tudo ganhei tudo logo perdi
onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores
e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações
que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças
onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de todos os dias
e muitas outras coisas que depois esqueci
rua que me levaste a tanto sonho vão
que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer
bem pouco basta minha rua para fazer feliz o homem:
acender por exemplo repentinamente a luz
na sala onde pairava um certo mal-estar
o que dissipa como que para sempre a sua triste condição
Ou então na morte do escritor amigo recitar
o elogio fúnebre de há muito preparado
que se haverá de matar ainda mais o morto
a ele vivo terá por força de o imortalizar

Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida
A inquietação que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz
quando de pernas excessivamente livres
cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos
quando se me exigia o sacrifício dos olhares
e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida
Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua
ao fim de ti nem há já esse pequeno almoço
aonde pelo menos qualquer coisa começava
Não disponho de alento para muitos anos
Sinto-me velho: nasci em 33 estamos em 60
vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar
incapaz de lutar mandar obedecer
como que fiquei sempre à espera da maioridade
É tempo de assistir aos funerais dos amigos
começo a estar bom para jazer
«bom é acabar» - dizia o vice-rei
Já sou de deus deixei de ter idade rua
ele passou a ser a minha própria idade
não me levou em conta o céu antecipado
e se algum dia porventura alguma criatura me moveu
o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua
Se título algum tive já me vai caindo
só deus é minha veste e minha história
Que ele me abra ó rua a porta da palavra

Agora que por fim alguém em sua voz me chama
pelos rostos presentes pelo grande ausente
que me livrou num tempo de injustiça por tudo
ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo

Ruy Belo (n. 1933 - m. 1978), in Aquele Grande Rio Eufrates (1961). «1961 é uma data complexa para a mais recente poesia portuguesa. Nesse ano seriam publicados os primeiros livros daqueles que se tornariam os dois mais importantes poetas surgidos nessa década: Aquele grande Rio Eufrates de Ruy Belo e A Colher na Boca de Herberto Helder, ambos editados pela Ática. (...) O jogo conceptual de referências ao cristianismo manifesta (...) a consciência heterodoxa de que é a falta de humanidade de Deus aquilo que provoca o afastamento do homem. Talvez resulte dessa falha o empenhamento profundo da sua poesia em relação ao mundo da vida, numa enumeração realista que nunca se aproximou dos esforços de imaginação e verbalização pós-surrealistas (isto não é um juízo de valor) que contaminaram grande parte da sua geração. A tradição neo-realista de atenção ao quotidiano colectivo e individual, misturada a um certo lirismo apiedado pelos mais solitários ou desprotegidos, ecoa na sua poesia, embora inscrita numa visão escatológica do homem onde um Deus, humanizado com o dos Evangelhos, acolhedor, atento e inexistente, metáfora de Si próprio, o espera ao fim. (...) A leitura do homem em função do seu fim (a morte, Deus) conduz à sua compreensão como ser metafisicamente solitário, mesmo na sua solidariedade. Essa solidão central é outro dos insistentes motivos da sua poesia. (...) Também uma presença, por vezes subtil, por vezes ácida, da ironia se distribui por muitas das constatações que faz de si e dos outros. (...) Este processo constitui um dos contributos mais importantes de Ruy Belo à nossa poesia: a corrosão por uma ironia não vincada, mas tenaz, sem sarcasmo, mas jocosa, da sentimentalização excessiva do mundo vivido e do sentido». (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos)

O COMEÇO DE UM LIVRO


domingo, 27 de abril de 2014

VASCO GRAÇA MOURA (1942-2014)


Escrevi sobre Laocoonte, rimas várias, andamentos graves aqui. Um poema acolá.

FRAGMENTOS TUNISINOS

Dada a impossibilidade do autor estar presente no convívio que teve ontem lugar no Museu Dr. Joaquim Manso – Sítio da Nazaré, foi-me solicitado pelos editores/amigos da Volta d’Mar que apresentasse Fragmentos Tunisinos (Fevereiro de 2014). Deixo abaixo reproduzido, de modo um pouco menos improvisado, o que disse ou pretendia dizer no decorrer de um encontro onde se estabeleceram pontes muito interessantes entre o desconhecido mundo dos fanzines (vide Geraldes Lino) e o menos conhecido do que por vezes se julga mundo da poesia.



Há quem diga que o título de um livro é aquilo que o encerra, devendo o mesmo ser a página derradeira da obra publicada. Mas tomemos de princípio o título da mais recente recolha de Amadeu Baptista (n. 1953), autor de uma das mais vastas obras da poesia portuguesa contemporânea com reconhecimento comprovado nos múltiplos prémios de que vem sendo objecto. É certo que no universo algo complexo da poesia portuguesa os prémios são, por vezes, vistos com desinteresse e até algum desprezo, não sendo, porém, de menosprezar a necessidade que impele o autor ao juízo dos júris. É assunto sobre o qual teríamos muito a dizer, embora seja mais importante sublinhar neste momento que, por ainda não terem sido premiados, estes Fragmentos Tunisinos ocupam um lugar especial na extensa produção de Amadeu Baptista.
O título aponta para um espaço geográfico concreto, a Tunísia, outrora um dos mais importantes centros comerciais do Mediterrâneo a partir da mítica cidade de Cartago. Desses tempos, restam ruínas e vestígios. Ou seja, fragmentos. Que a este conjunto de poemas se tenha dado o nome de fragmentos é uma feliz decisão, pois assim interpretados os poemas surgem também como testemunho do contacto com uma herança cultural da qual nos restam meros resquícios.
A poesia de Amadeu Baptista mantém desde sempre um diálogo muito profícuo com a história e com a cultura, estando pejada de interlocuções onde o legado civilizacional se vai compreendendo a partir dos seus elementos mais consistentes: textos sagrados, obras de arte, ruínas. No entanto, estas interlocuções não se processam com uma intenção epopeica. São, antes de mais, sublinhados de um tempo que passou e nos ajuda a contextualizar a negra miséria em que nos encontramos. É imaginando o grande edifício a partir das ruínas que dele restam que melhor compreendemos o tempo e, com ele, a história, a nossa enquanto povo mas também enquanto indivíduos. 
De resto, esta compreensão estende-se à percepção que temos dos efeitos do tempo no nosso próprio corpo. Elemento essencial nesta poesia, o corpo aparece emoldurado em ambientes contrastantes. Se, por um lado, ele suscita a expressão de um forte erotismo, por outro lado arrasta o verso para reflexões onde o que parece estar em causa é a ameaça de uma vitalidade que o corpo, por múltiplas razões, já não exibe. Sucede assim em livros anteriores, embora nos poemas deste Fragmentos Tunisinos tal contraste não esteja tão presente. A segunda pessoa a que frequentemente se dirigem surge tanto presente como ausente, não sendo clara a sua definição. 
E aqui cabe destacar a dedicatória que abre o conjunto: memória para al-Mu’tamid Ibn’ Abbâd. Poeta luso-árabe, al-Mu’tamid (Beja, 1040) personifica pela sua biografia a ruína de um homem, tanto pela trágica e histórica amizade com Ibn ‘Ammar como pelos últimos anos de desterro, presídio e miséria. Cito Adalberto Alves: «Entre a memória de um passado auspicioso e um amargurado presente vive al-Mu’tamid o seu drama pessoal, que exprime em versos de excepcional força lírica. Da adversidade faz uma elegia. Das tristezas do quotidiano extrai poesia: um bando de aves entrevisto das grades da cela; a grilheta que lhe rói o tornozelo…» (in O Meu Coração é Árabe). Creio que os Fragmentos Tunisinos de Amadeu Baptista, asseguradas as devidas distâncias, reflectem um sentimento similar. 
Ao lermos os 19 poemas, com títulos que convocam locais diversos da Tunísia (cidades, oásis, ilhas…), acompanhamos uma viagem que não ressoa apenas o deleite do turista embevecido com a paisagem — «Levo na Nikon os teus pés descalços / - os caminhos do sagrado / são insondáveis» (p. 25) —, sublinhando antes o sentimento ambivalente do nómada cuja errância é também uma profunda experiência de solidão, pela ausência e pela distância que experimenta face ao passado revisitado e ao presente vislumbrado. O léxico de alusões árabes disseminado pelos poemas apela à nossa imaginação, na mesma medida em que reconstrói paisagens das quais nos restam apenas fragmentos. Porque a viagem é também a experiência onde o imaginário desce à realidade:

MEDENINE

Deito a cabeça na terra ocre sem fim
e sou um gigante,
troglodita.

Para que lhos compremos, as crianças atiram-nos aos pés
pequenos colares feitos de miolo de pão
- os passos da civilização jamais reconheceram os pequenos troféus.

Entre as embalagens de película fotográfica
e o par de camaleões que a rapariga patenteia
passamos nós, como cordeiros degolados.

Nem para a turista alemã
a fascinação cessa
- contém o palmar a floresta negra.

Trinta dinares pediu Mohammed
à turista inglesa
- e ninguém regateou.

São ainda mais vastos
os grandes perigos do deserto
sem a tua presença.

Em nenhuma medina vi à venda
o azul
dos teus olhos.



Amadeu Baptista, Fragmentos Tunisinos, Volta d’Mar, Fevereiro de 2014.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

HIDRA DE LERNA DESCEU A AVENIDA

Fui ontem para Lisboa com a intenção de comemorar os 40 anos do 25 de Abril. É uma tradição que prezo mais do que a noite de Natal. Tenho as melhores memórias do dia, às cavalitas ou de mão dada com o meu pai a descer a Avenida da Liberdade. Dantes, ia a família toda. Este ano, fui sozinho. Ontem à noite, no Terreiro do Paço, fiquei espantado com o que vi. As pessoas estavam aperaltadas, tinham-se vestido para sair à noite, foram a um concerto. Havia filas para a cerveja. Entre as Portas de Santo Antão e o Terreiro pouco vi que não me fizesse sentir deslocado, parecia estar na fila para um musical do La Féria no Politeama. O fogo-de-artifício não iludiu o incómodo. Estou a ficar velho e resmungão, espero das massas o que não é sequer sensato esperar. As pessoas estavam ali para se divertirem, eu também. Mas temos conceitos divergentes de divertimento. E a sensibilização para causas políticas urgentes, se pode fazer do folclore sensacionalista meio para chegar às pessoas, não pode transformar-se num esvaziamento completo, por afastamento e indiferença, do ideal, do discurso, da mensagem, da importância de fazer o outro entender a vitalidade do conhecimento e do pensamento, a importância de não reduzirmos a nossa existência ao espectáculo. Dançar e rir todos os dias, como queria Nietzsche, mas fazê-lo no exercício do pensamento e da reflexão, não simplesmente distraindo a exigência com fantochada, pão e jogos. Hoje a coisa também não começou bem, com a comunicação social a dividir-se entre os capitães no Largo do Carmo e os trampões na Assembleia da República. Não fosse Jerónimo a acusar o desabafo reaccionário de Cavaco, e teria sido tudo bafiento na casa da democracia. Discursos de circunstância, alentejanos a cantar para o senhor Presidente, o senhor Presidente a tocar violino para os portugueses, Durão Barroso na sombra, uma corte de arrivistas insensíveis e gatunagem incólume. A maior parte daquela gente, representada em Cavaco como símbolo da desvergonha, não me merece respeito algum. São responsáveis objectivos pela degradação do país. E se não me espanta não terem vergonha na cara, o mesmo não poderei dizer não terem na cara vergonha os portugueses que os elegeram e todos os outros que os alimentam no poder por pouco mais fazerem do que não quererem saber. É caso de estudo. Como certamente será a síndrome de Pedro que atingiu Vasco Lourenço. Há anos que o ouvimos: vem aí a violência, vem aí a convulsão social, mas ainda ao fundo do horizonte não se vislumbram incêndios. Quando vier, ninguém acreditará. Na rotunda do Marquês, em círculos infindáveis, lá estavam os dignos representantes da convulsão por vir. Hidra de Lerna descendo a avenida, em saudável civismo, cantando, apregoando, dançando. Ali, Garcia Pereira. Acolá, Rui Tavares. Aqui, Carmelinda Pereira. Além, Fernando Rosas. E entre as bandeiras da JCP e da Intersindical, os jovens socialistas, os gays, as lésbicas, associações sem fim, colectividades, reivindicações, desejos, manifestações para todos os gostos de quem não goste de Cavaco, Passos, Portas e troika Lda. No Rossio, lembram-se os valores de Abril e arriscaram-se até soluções. A luta continua. Do outro lado da praça, junto ao Teatro Nacional D. Maria II, os actores eram outros. Gritava-se: «A esquerda unida jamais será vencida». Disse-me Marta Raquel ser a voz do operário. E quem assim gritava empunhava cartazes com os rostos das esquerdas. Entre Rosa Luxemburgo, Marx e Lenine, Che e Robespierre, os poetas, Sophia, Natália, até Lou Reed, muitos, tantos. Nenhum deles, que eu saiba, operário. Esqueceram-se, porém, do Buíça, que é de quem mais precisamos. Assim a diversidade da esquerda, Hidra de Lerna descendo a avenida, que nunca mais será vencida, pelo menos, nesta sua variedade. Como o espectáculo, o de variedades, que somos todos nós maravilhados com o fogo-de-artifício enquanto na Assembleia da República uma reformada aos 42 anos e um Presidente sem culpa escutam atentamente Grândola Vila Morena na voz de um reverente coro d'alentejanos. De volta, no Expresso, Al-Mu’Tamid arrancou-me a lágrima derradeira:

Solta a alegria! Que fique desatada!
Esquece a ânsia que rói o coração.
Tanta doença foi assim curada!
A vida é uma presa, vai-te a ela!
Pois é bem curta a sua duração.

E mesmo que tua vida acaso fosse
De mil anos plenos já composta
Mal se poderia dizer que fora longa.
Que seres triste não seja a tua aposta
Pois que o alaúde e fresco vinho
Te aguardam na beira do caminho.

Que os cuidados não sejam de ti donos
Se a taça for espada brilhante em tua mão.
Da sabedoria só colherás a turbação
Cravada no mais fundo do teu ser.
É que, de entre todos, o mais sábio
É aquele que não cuida de saber.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

ESTRADA PARA LOS ANGELES

Se a lenda contasse, diria que o escritor norte-americano de origem italiana John Fante (1909-1983) foi o guia espiritual do escritor norte-americano de origem germânica Charles Bukowski (1920-1994). Para lá da vida de escritor, embrulhada entre romances, contos, argumentos para filmes nunca concretizados, houve um homem tragicamente perseguido por uma infância paupérrima e desenraizada. Herdou do pai pouco mais que uma fiel amizade ao copo, tão fiel que lhe desenvolveu problemas de diabetes culminados em duas pernas amputadas. Na nota biográfica que acompanha a edição portuguesa de A Confraria do Vinho (Teorema, 2007), Fante é impertinentemente tratado como alguém que desperdiçou o seu talento. Os livros aí estão, passados tantos anos, a provar exactamente o contrário. Talvez seja mania portuguesa, país de fados e sacrifícios remansosos, julgar que para se dar proveito ao talento impõe-se que a vida seja desperdiçada. Nem uma coisa, nem outra, mais ainda quando ambas andam tão interligadas. Acrescenta-se, então, uma sórdida vida de vagabundagem e ocupações várias como meio de sobrevivência. Sublinho também, da supramencionada nota, a referência a um suposto envolvimento «com as mulheres erradas». Tendo em conta o poço de virtudes que o escritor foi, é caso para questionar se terá John Fante sido o homem certo para Joyce Smart - com quem casou em 1937 e de quem nunca mais se separou. De resto, a mulher viria a ter um papel crucial na sua carreira quando, já cego e numa cadeira de rodas, era ela quem escrevia o que o autor ditava. Fante escreveu sobre a sua própria vida, sendo, porém, perigoso julgar que se limitou a escrevê-la. Há coincidências inegáveis: o catolicismo extremo da mãe, os anos de privações, uma vida familiar conflituosa, as ambiguidades da identidade italo-americana, a luta pela afirmação enquanto escritor, são temas presentes na obra como foram questões na vida. Não obstante, o tratamento irónico, com as pontas afiadas tanto para si próprio como para a comunidade envolvente, os exageros, as perspectivas alucinadas, a dramatização dos pormenores transforma esta escrita num terreno mais pantanoso do que à partida possa parecer. Não admira que Bukowski o endeusasse, tratando de encontrar para si mesmo um alter ego (Henry Chinaski) tal como Arturo Gabriel Bandini o foi para John Fante. Estrada para Los Angeles (Editora Objectiva/Alfaguara, Outubro de 2013), escrito em 1933 mas publicado apenas em 1985, foi o primeiro de quatro volumes hoje conhecidos como The Bandini Quartet. Os outros são Wait Until Spring, Bandini (1938) – A Primavera Há-de Chegar, Bandini, Edições Ahab, Setembro de 2010 -, Ask the Dust (1939) – Pergunta ao Pó, Edições Ahab, Outubro de 2009 – e Dreams from Bunker Hill (1982), inédito ainda na língua portuguesa. Estamos numa fase crucial do desenvolvimento da personalidade de Bandini, no exacto momento em que se liberta do cordão umbilical familiar para se dedicar à escrita. Perdido entre trabalhos de pouca dura, sustento da mãe e da irmã, Bandini ocupa o tempo a ler livros que não entende e cita com indisfarçável pretensiosismo. É um jovem pedante em busca de afirmação, que se vinga do orgulho ferido pelo calvário das frustrações matando caranguejos, formigas, moscas, imaginando-se senhor de vários impérios, excepcional entre os demais, com uma obstinação que, bem vistas as coisas, é tudo o que tem para não cair na teia da normalidade que vota à estupidez e à ignorância a maioria dos homens. Simpatizamos com as suas paranóias, com as suas ilusões e com as suas mentiras, com os seus esquemas, com a sua soberba, com o sua pedantice, porque não podemos senão comover-nos com a honestidade de uma prosa que não procura disfarçar a humanidade naturalmente contraditória do seu herói. A determinação com que assume o seu destino equivale à insensatez das suas acções, tornando-o, sem dúvida, especial num meio onde tudo o que se espera dele é que seja igual aos outros. E se consegue ser intolerante e cruel, tomado por um orgulho incomensurável, também é de uma timidez desarmante com as mulheres e de um pungente onirismo existencial. Humano, demasiado humano, como queria o seu mestre Nietzsche, tanto na raiva e no ódio como na paixão e na amargura.

terça-feira, 22 de abril de 2014

CORPO VISÍVEL


A esta hora entre os blocos de prédios enevoados a bela mancha diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos braços da sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina     extremamente caligráfica
onde a aventura do homem que devolve as palavras que lhe são remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentado seguido pelas aves que acordam a duzentos e mais metros de altura
o que não é ainda a grande altura
sim sim
            não não 
                        quem sabe

Dentro do grande túnel digo-te a vida
esta nuvem que vai para o centro da cidade leve e rosada como a proa de um barco
bateira que me traz os dados e a roleta onde no branco ou no preto devo jogar
jogando-me contigo
malmequer
bem-me-quer
ou muito     ou pouco
                                ou nada
o que só com as mãos pode ser soletrado
só nos teus olhos nos teus olhos escrito

Dentro do grande túnel digo-te a vida
o moço que há uma hora não fazia senão fumar cigarros
o mesmo que julgou ter a noite perdida que maçada
sempre encontrou o seu par lá vão eles já no extremo do outro lado da praça
ilustrando uma tese velha da idade do sol um tanto impertinente e desde logo minha
segundo a qual no amor toda a entoação da voz humana tende a reduzir o indivíduo receptor ao estado de serpente fascinada
sem que daí advenha a petrificação estrela cadente
ou qualquer outra espécie de perturbação durável

Eu digo que há tambores
mapa louco riscado sobre a areia
há o desenho de onda que atravessa o dorso da cigarra
há o gato tão limpo e ainda e sempre a lavar-se à soleira da porta - a tua porta
quando olhas para mim, a trave mais segura, dizes tu, da viagem -
e no vitral de tudo o que eu mais adoro
a dez mil metros de profundidade lá onde a carpa avança sem deixar qualquer rasto
há o campo selvagem dos teus ombros
espreitando contra a luz     na orla do rio     a nuvem de corsários
que sou eu
vestido de andaluz para o baile em chamas - digo o grande baile do século na ilha

O havermo-nos encontrado na horrível sala dos passos perdidos
é o que levarei mil anos a decifrar
o teu cabelo mapa onde tudo reflecte a ronda luminosa dos meus dedos
é o santo e a senha do percurso na sombra
o gesto com que voltas de repente a cabeça interrompendo o fio da meada sem que é engraçado hajam batido à porta entrado ou saído alguém
são os astros o sangue e os jardins de Brauner
e a tua mão posta em arco sobre a minha boca
é uma nova rosácea sobre o mar

Livres
digo Livres
e isso é não só a grande rua sem fim por onde vamos
viemos
ao encontro um do outro
a esta casa dorso de todas as casas e no entanto a única perfeita silenciosa fresca
mas e também as chamas que acendemos na terra
da floresta humana
não só ao longo dos álamos gigantes e das clareiras mais espectaculares - aí a memória é fácil -
mas na erosão física de cada folha no vento
tudo o que teve terá a sua vez connosco
a haver de nós a mesma dádiva recíproca
porque tu vês
de costas para a janela     tu que disseste:
                                   «vai haver uma grande guerra»
                                   «nenhum de nós eu sei escapará vivo»

vês tão bem como eu o pouco que isso vale, na muralha da china onde ainda estamos
nada é de molde a tapar por completo a figura de bronze enterrada na areia
o écran que floresce
como tu     como eu     nos tubos que dissemos
fizemos
faremos     acordar
                                                  até quando?

Amor

                           amor humano
amor que nos devolve tudo o que perdêssemos
amor da grande solidão povoada de pequenas figuras cintilantes
digo: a constelação de peixes rápidos
do teu corpo em sossego
seja ela a aurora halo multicor
seja o perpétuo real ceptro branco da noite
seja até porque não a luz crepuscular com o seu chapéu preto as suas hastes mudas

Começa a ouvir-se o canto da cigarra
sinal de que foi pisado o botão entre os limos
estão presentes ao acto todos os seres vivos e entre esses aqueles que nos foram queridos
na maré límpida que nos impele sabe o polvo dos mares até onde e se haverá regresso
em qualquer lado     a última janela fotográfica
as mãos do faroleiro
como a locomotiva no seu túnel
mas não há senão o teu rosto o teu rosto o teu rosto ainda e sempre o teu rosto
como é fácil     como é belo
                           A Vida Inteira     Meu Amor
                                                                    SOMOS NÓS

O cigarro do anúncio adoeceu deveras já não fuma o espaço
a uma certa velocidade calma
o atrito longo e agudo dos eléctricos moendo calhas
diz-nos que amanheceu
na sua torre de londres o relógio da estação do rossio adquire decidida importância
amanheceu     é óbvio     amanheceu
da nossa viagem ao país dos amantes já não resta senão esse penacho de fumo
que ameaça evoluir de acordo com a paisagem
uma fábrica     ou antes     na janela entreaberta
a mensagem do pássaro-extra-programa
que toca desafinado a fabulosa ária O Mundo Conhecido
e faz baixo cifrado com a diva local A Lágrima aos Leões

Agora somos pequenos e inúmeros e percorremos o espaço com gangrenas nas mãos
e intentamos chamadas telefónicas
e marcamos de novo e desligamos depressa
e tu pões uma écharpe sobre os ombros
e eu visto o meu casaco e saímos de vez
porque nós somos a multidão a que eu chamo
o homem e a mulher de todos os tempos áridos
e como sempre não há lugar para nós nesta cidade
esta ou outra qualquer que de perto ou de longe a esta se pareça

O regresso é sempre assinalado por esta negra actividade carfológica
verdadeiro sinal-emblema destes tempos
em que a evidência necessita de invólucro
para não morrer na estrada
junto às rodas do avanço a golpes de clarim reinvenção espantosa masculina da morte
ou nos carros do clube As Mãos no Sexo
junto ao qual     admira-te     vivemos
O problema não passa da sua fase primária:
um - o crocodilo
e dois - o clou do arame
se bem que esta velha raça de acrobatas anões
devesse dar por terminada há muito a sua nobre facécia sobre a cúpula em chamas
dividir o homem
pôr-lhe à direita a luz a assistência aplaude pôr-lhe à esquerda a sombra a assistência treme
de tal modo que a meio da operação cabalística
em silêncio e miséria em medo e melancolia o homem atinja bravo bravo bravo a imobilidade do sepulcro
após o que rocegagem do arlequim de plumas
e iluminação de todos os fósseis mais antigos

Convenhamos meu amor convenhamos
em que estamos bem longe de ver pago todo o tributo devido à miséria deste tempo
e que enquanto um só homem um só que seja e ainda que seja o último existir DESFIGURADO
não haverá Figura Humana sobre a terra
- A ensombração maligna de certas lágrimas quando a alegria é mais resplandecente
não deve ter outra origem
no centro do diamante o pequenino carvão venenoso é quanto basta para perder a vida
e no entanto nós meu amor partimos
livres e únicos no altar da estrela que só nós podemos
mas por este lado estamos presos à roda como a lapa não o está na sua rocha
e na cama-beliche desfeita da viagem floresce a sono solto uma flor especiosa
decor para a estrada pela esquerda alta da figura do Homem Sufocado
o homem que nos fala de apagador na mão doce chapéu cinzento rosto impenetrável
impossível sair impossível passar ele quer ir connosco até aos confins da terra

Contra ele meu amor a invenção do teu sexo
único arco de todas as cores dos triunfos humanos
Contra ele meu amor a invenção dos teus braços
maravilha longínqua obscura inexpugnável rodeada de água por todos os lados estéreis
Contra ele meu amor a sombra que fizemos
no aqueduto grande do meu peito              O MAR

Mário Cesariny (n. 1923 - m. 2006), in Corpo Visível (1950). «O surrealismo internacional teve um dos seus acasos mais felizes no facto de ter movido, no âmbito português, dois poetas que não eram meros prosélitos, António Maria Lisboa e Mário Cesariny. Empenhados na utilização duma sabedoria e de um enfrentamento do mundo que se cruzava com as teorias de Breton e com bastante do surrealismo ortodoxo, haveriam de lhe introduzir movimentações líricas específicas, bem como uma intenção discursiva, sobretudo em Cesariny, profundamente autónoma» (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos). «Cesariny, que é pintor além de poeta, salienta-se como principal animador e figura representativa da mais típica fase do surrealismo lisboeta (...). Logo nas suas primeiras produções há um certo rasgo e uma explosiva dessacralização referida a circunstâncias reais portuguesas que sugerem a continuidade de Cesário, do Pessoa mais lisboeta e de um neo-realismo auto-ironizado. São muito sensíveis os processos de escola: sequências anafóricas ou paralelísticas, por vezes de inventário caótico, e animadas por jogos verbais; a absurdez provocativa de pseudodefinições, pseudo-etimologias ou pseudomicromitologias; diálogos desconexos e outras formas de sem-sentido; paródia; exercícios de automatismo frásico; tentativas de poesia autográfica ou caligramática; e, de vez em quando, alguns versos certeiros de veemência passional, de sarcasmo, de relance sobre situações corriqueiras mais ou menos grotescas, sobre ridículos quotidianos (alheios ou próprios) e sobre experiências íntimas» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). 

RED RIVER (1948)


É difícil determinar a influência exercida pelas histórias de Borden Chase (1900-1971) na construção de uma identidade americana. Membro da Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals, que se caracterizava por um fervoroso anticomunismo, Chase assinou alguns argumentos onde a coragem e a determinação dos homens do Velho Oeste é sublevada, fazendo a apologia de um individualismo que nem sempre pareceu neutral aos olhos dos realizadores com quem trabalhou. Já vimos como é complexo decifrar Vera Cruz (1954) de um ponto de vista meramente político, com as lutas pela independência mexicana secundarizadas face ao oportunismo dos mercenários que a Guerra de Secessão havia produzido. Backlash (1956) apontava para um drama familiar e The Far Country (1954) sublinhava o heroísmo do cowboy solitário, ainda que o final inflicta na direcção de uma solidariedade social que pode agradar tanto a gregos como a troianos. Pelo argumento de Red River (1948), Borden Chase recebeu uma nomeação para os Oscars. Curiosa nomeação. Na realidade, o primeiro western de Howard Hawks está repleto de “curiosidades”. Borden Chase não gostou que a sua história, inicialmente intitulada The Chisholm Trail, passasse a chamar-se Red River. Vislumbrava no título possíveis metáforas comunistas. O argumento acabaria por ser reescrito por Charles Schnee, que acrescentou à narrativa uma “ousada amizade” entre as personagens interpretadas por Montgomery Clift e John Ireland. Apesar de muitas cenas não terem passado na censura (prática corrente no mundo liberal, forçada pelo puritanismo dos mercados), são ainda hoje perceptíveis muitas das provocações saídas da cumplicidade entre Hawks e Schnee. Numa delas, Montgomery Clift trata uma ferida provocada por uma flecha espetada no ombro de Joanne Dru. Depois de retirar a flecha, chupa-lhe o sangue do ombro para expurgar possíveis venenos. O erotismo da cena é evidente. O que não será tão evidente é o facto de praticamente metade do filme ter sido filmado em estúdio, apesar de mais de 90% das sequências decorrerem a céu aberto. Feito notável, sobretudo quando estão em causa paisagens naturais onde o único elemento civilizacional são as armas que os cowboys transportam à cintura. O filme de Howard Hawks (1896-1977) é absolutamente excepcional, porventura um dos mais importantes de toda a história do cinema norte-americano. Com um plot que repercutirá em The Far Country, assim como em inúmeros westerns posteriores, este é o clássico dos clássicos quando pretendemos compreender a figura do cowboy. Estamos distantes do western urbano, com seus conflitos morais e legais, das vilas indefesas e perdidas no meio do nada, afastados das guerras da cavalaria, fora do circuito dos fora-da-lei… Red River acompanha a tournée de um grupo de cowboys, com uma manada de dez mil cabeças de gado, através do Chisholm Trail. Trata-se de um trilho que ligava o sul do Texas, então estagnado sob os efeitos da guerra, às linhas de comboio do Kansas, onde o gado poderia ser distribuído pelas terras prósperas do norte. Mais uma vez, a música de Dimitri Tiomkin (Duel in the Sun, High Noon, Gunfight atthe O.K. Corral, Rio Bravo, Last Train from Gun Hill) oferece um colorido romântico à acção, a qual aparece pontuada por separadores manuscritos que dividem sequências com inevitáveis saltos temporais. Entre o começo da narrativa e o início da viagem, decorrem cerca de 15 anos (condensados em cerca de 15 minutos de filme). A uma média de quinze quilómetros por dia, os 1000 quilómetros percorridos pelo grupo perfazem mais de dois meses em contínua viagem. Hawks quer contar uma história, embora o faça com um sentido artístico que não pode ser subvalorizado tendo em conta as limitações que a máquina de fazer de dinheiro de Hollywood então impunha aos seus artistas. São inesquecíveis os planos no interior de uma caravana que atravessa o Red River (evocação de Moisés a atravessar o Mar Vermelho), a sequência com o gado em debandada a meio da noite, a transformação da luz no decorrer das 24 horas de duro trabalho, cenas nocturnas alternando com cenas diurnas numa paleta de negros e claros que gera a ilusão de estarmos perante um filme colorido, noites chuvosas e manhãs solarengas, a transformação dos rostos de John Wayne e Walter Brennan (My Darling Clementine, Drums Across the River, The Far Country, Rio Bravo), amigos (quase) inseparáveis, ao longo dos anos, num elenco de luxo que conta tanto com actores experientes como com estreias promissoras. Temos, assim, velhos conhecidos de outras aventuras tais como Hank Worden (Duel in the Sun, Fort Apache, The Indian Fighter, The Searchers, Forty Guns, True Grit) e Noah Beery Jr. (Decision at Sundown, The Spikes Gang) ao lado de jovens promissores como Joanne Dru (She Wore a Yellow Ribbon), Harry Carey Jr. (She Wore a Yellow Ribbon, Rio Grande, The Searchers, Rio Bravo, Cheyenne Autumn) ou os irreverentes John Ireland (My Darling Clementine, I Shot Jesse James, Gunfight at the O.K. Corral) e Montgomery Clift. A presença de Montgomery Clift num dos principais papéis é especialmente relevante, sendo conhecido o mal-estar instalado durante as filmagens que a homossexualidade do jovem actor provocou junto de John Wayne e Walter Brennan. Mal-estar que, de resto, só pode ter ajudado à construção das personagens, que ao longo da narrativa desenvolverão conflitos sanados apenas numa cena derradeira com o wit clássico dos melhores westerns da década de 1940. Vale a pena rever, no entanto, uma sequência que marca o início da ruptura entre a personagem de John Wayne e o seu grupo de homens. A intransigência de Wayne transformá-lo-á num tirano desconfiado e paranóico, vítima de uma obsessão que encontra paralelo no capitão Ahab de Herman Melville. Red River também aceita esta perspectiva de uma odisseia fundadora de uma identidade nacional, na mesma medida em que questiona e problematiza a grande tragédia humana.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

DOMINGO


Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar...
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»...
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando por que seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!...
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina...
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
- porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!

Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!
Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casa de penhores...

Penso isto, e vou a grandes passadas...
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz...
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
- ao sol
como num ritual consagrado a um deus! -
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida...

Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras!
E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura...
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo muito natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia
até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos...
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bem feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés...
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
- rapaz, traz-me um café...
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
- Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol...
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
- ... no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caía um fio para a água...
... um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou...
... O pior é pensar:
que hei-de hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?... -
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.

Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!
Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou...
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes...
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó...
e tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!

Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 
Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!

Manuel da Fonseca (n. 1911 - m. 1993), in Rosa dos Ventos (1940). «Foi (...) um dos pioneiros da poesia neo-realista, onde encontrou os tons mais justos da frustração provinciana e burocrática» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes). «A sua poesia, como a sua obra de ficção, contribuiu como poucas para impor e prestigiar o neo-realismo, pela sinceridade admirável do seu tom desataviado, que desenvolveu notavelmente as virtualidades humanísticas da liberdade expressiva criada por Álvaro de Campos e Alberto Caeiro. De um regionalismo muito peculiar, que trouxe para a literatura, com verdade, a atmosfera típica das vilas do Alentejo, Manuel da Fonseca transcende-o, porém, pelo sentido simbólico, de transficguração poética, com que esse regionalismo é chamado a exprimir uma visão generosa da vida, através de uma dicção intencional, mas de um tom directo poucas vezes atingido com tão discreta emoção. Alguns dos seus poemas ficarão entre os mais comoventes do seu tempo, sem deixarem de ser, apesar de um muito pessoal e subtil anarquismo, exemplos superiores de um neo-realismo espontâneo, sem cálculos nem artifícios» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas).