quarta-feira, 2 de abril de 2014

#15


Em 1997, um conjunto de músicos (a quem um dia Portugal há-de prestar a devida homenagem) reuniram-se para gravar um dos mais belos álbuns da história da música portuguesa. Rodrigo Leão e Gabriel Gomes conheciam-se dos Sétima Legião e dos Madredeus, onde também sobressaiu Francisco Ribeiro. O último, entretanto falecido em 2010, destacou-se como violoncelista. Gabriel Gomes no acordeão e Rodrigo Leão nos sintetizadores. A estes, juntou-se Margarida Araújo (viola) no projecto “os poetas”. O nome do projecto pode não ser o mais feliz, mas faz justiça ao conceito subjacente à produção do álbum entre nós e as palavras (1997). Sob a voz previamente gravada de trovadores portugueses consagrados, tais como Luiza Neto Jorge, Herberto Helder, Mário Cesariny, Al Berto e António Franco Alexandre, o que estes músicos fizeram é absolutamente precioso. Às palavras arrancaram ambientes musicais que podem ser comparados a uma espécie de descoberta do código genético dos poemas. Tudo funciona nestas composições como se não houvesse distância, separação, diferença entre as palavras convocadas e os ritmos, as melodias, os sons arquitectados. Mesmo quando surgem autonomamente, ou seja, sem a voz dos poetas, os temas assemelham-se a extensões naturais de uma mesma força expressiva. São um abrigo onde apetece recolher o corpo da voz. Falta referir um nome: Manuel Hermínio Monteiro, editor para quem a poesia valia. Simplesmente valia.

2 comentários:

Ivo disse...

Bastante recomendável também o mais recente Autografia, para o qual 'recrutaram' (a voz de) Miguel Borges, que em certos momentos me arrasta a consciência para um algures indefinido...

hmbf disse...

Ainda não ouvi.