segunda-feira, 28 de abril de 2014

FAZER, EDITAR, PUBLICAR

O encontro que teve lugar na Nazaré, no passado dia 26, fez-me pensar sobre a experiência editorial. Hoje em dia, grande parte da produção artística que surge do ímpeto criativo de pessoas cuja profissão não está directamente ligada às artes - nem, por isso, dependente da comercialização dos seus trabalhos -, processa-se na Internet. Sítios personalizados, weblogs informais, páginas de Facebook são veículos legítimos e, por vezes, bastante eficazes no processo de comunicação entre autor e espectador (muito mais incógnito e impessoal no ciberespaço). Mas há qualquer coisa no papel que o mantém como suporte preferencial de autores/editores, porventura fascinados com uma ilusão de perenidade oferecida pelo suporte ou simplesmente interessados na preservação de um meio entretanto transformado em caixa de Pandora. Por outro lado, a Internet também facilita a divulgação e, por consequência, a distribuição do produto que se tem para oferecer. Foi já neste Novo Mundo pós-moderno que pude encomendar parte substancial da obra de Fernande Guerreiro, nomeadamente os títulos publicados entre 1977 e 1987. Entre eles, este curioso objecto:



Trata-se de duas folhas em formato A3, dobradas cada uma delas em 4 partes e encaixadas uma na outra. As faces encontram-se numeradas, facilitando o percurso de leitura como se se tratasse de paginação. Mas não é exactamente paginação, pois não existe propriamente página. Existe uma espécie de cubo plano, desdobrado. Que nome lhe devemos dar? E o objecto em si: será livro, folha, panfleto, caderno? Não me parece que estas dúvidas sejam tão relevantes quanto o gesto materializado na consecução do objecto. Houve uma vontade de fazer à qual se respondeu com um formato específico, de acordo com a mensagem pretendida. Também pela Internet, adquiri muito recentemente esta publicação das Edições 50kg:


As Edições 50kg têm-se destacado pela produção de objectos onde foi recuperada a composição em tipografia de caracteres móveis. O peso das palavras deixa o papel vincado, gesto que, hoje em dia, pode ele mesmo ser interpretado como poético. Numa mesma linha, as Edições Besouro, de Carlos Veríssimo, fizeram sair no Inverno de 2013 este os peixes melancólicos:




















A escolha do papel, a opção por uma composição manual com folhas cosidas e caracteres de chumbo, a distribuição de algumas imagens não impressas directamente na página, mas coladas em espaço a elas concretamente reservado, remete-nos para um tempo onde o livro não era objecto descartável, indiciando uma atitude de resistência à contemporaneidade que provoca nostalgia no leitor. Deste modo, o suporte transcende a sua natureza imediata e utilitária, metamorfoseia-se em poema. Veja-se este outro exemplo:



Drunk Walker, de Nuno Moura, foi composto por André Fragata. Uma página A3, dobrada em 16, cortada em três lados de modo a que possa ser aberta produzindo uma espécie de efeito concertina. Tudo desdobrado, temos os pequenos poemas distribuídos por uma das faces da página, pintalgados com pingos de vinho. Na outra face da página, uma belíssima ilustração de Cristian Garzaro. Aqui confluem texto, imagem, composição gráfica, para dessa confluência se formar um lago onde os olhos do espectador velejam com inexprimível alegria. Talvez próximo daquilo a que chamamos fanzine, este objecto de que se fizeram 99 cópias adquire um estatuto de raridade que o torna especial. E por falar em fanzine, tomem-se de exemplo estas duas produções artesanais nascidas da vontade criativa de Alexandre Esgaio:




Sangue na Guelra e É Fartar Vilanagem têm formatos diferentes, apontando os conteúdos para a ilustração e para a Banda Desenhada. De Sangue na Guelra fizeram-se 21 exemplares, capa cartonada, cosidos à mão, pintados à mão, numerados e assinados. São objectos raros na “tiragem” como na singularidade que patenteiam, exemplos de um fulgor poético (no sentido de fazer) onde o mais importante é encontrar espaço e tempo para um gesto materialmente desinteressado, um gesto onde o espírito, por assim dizer, pode exprimir-se sem restrições nem constrangimentos, uma acção onde à comunicação com o outro, sempre limitada e porventura ilusória, se prefere a comunicação com o mesmo, isto é, reencontro com esse impulso pré-histórico que tornou o homem das cavernas humano e que, alienado, torna o homem humano numa coisa pós-humana, escrava do consumo, intelectualmente debilitada, privada de liberdade, criativamente esterilizada. O primeiro público destes objectos é/são o(s) próprio(s) autor(es). Que outras intenções vislumbrar em centenas de publicações, mais ou menos artesanais, mais ou menos solitárias e solidárias, mais ou menos respeitáveis de um ponto de vista qualitativo que todos os dias vão encontrando porto nos multíplices formatos que o papel permite?

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