segunda-feira, 26 de maio de 2014

#24


É hoje difícil falar dos Xutos & Pontapés sem sentir um certo embaraço. A longevidade da banda permitiu-nos assistir a um abastardamento do seu espírito fundador que teve alguns momentos verdadeiramente constrangedores. Não obstante, quem tenha chegado ao rock português através de 78/82 (1982) dificilmente escapará a uma profunda admiração pela banda de Zé Pedro, Kalu e Tim. Neste primeiro álbum, aos três de sempre juntou-se ainda a guitarra de Francis e algumas colaborações esporádicas. Não se pode pedir a nada nem a ninguém que mantenha eternamente a mesma energia, pelo que devemos olhar para o primeiro álbum dos Xutos apenas como um dos mais pujantes registos legados à história do rock made in terras lusas. Enraizados na cultura punk, os Xutos & Pontapés souberam ser fiéis a essa matriz sem se lhe submeterem integralmente. Um dos dados mais significativos desta realidade está no repertório psicanalítico que perpassa em muitas das letras do álbum inicial, mas também no modo como temas vulgares no universo punk e rock’n’roll (sexo, drogas, status quo político e social) se articulam com momentos inesperadamente tétricos. Musicalmente, não podemos dizer que tudo se resuma a rasgar três acordes até à exaustão. As percussões e os sopros de Dantes conferem à música dos Xutos uma outra sofisticação, assim como a capacidade de construir melodias agradáveis sobre ritmos nervosos. Escute-se este exemplo.

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