É hoje difícil falar dos Xutos & Pontapés sem sentir um
certo embaraço. A longevidade da banda permitiu-nos assistir a um
abastardamento do seu espírito fundador que teve alguns momentos
verdadeiramente constrangedores. Não obstante, quem tenha chegado ao rock
português através de 78/82 (1982) dificilmente escapará a uma profunda admiração
pela banda de Zé Pedro, Kalu e Tim. Neste primeiro álbum, aos três de sempre
juntou-se ainda a guitarra de Francis e algumas colaborações esporádicas. Não
se pode pedir a nada nem a ninguém que mantenha eternamente a mesma energia,
pelo que devemos olhar para o primeiro álbum dos Xutos apenas como um dos mais
pujantes registos legados à história do rock made in terras lusas. Enraizados na cultura
punk, os Xutos & Pontapés souberam ser fiéis a essa matriz sem se lhe
submeterem integralmente. Um dos dados mais significativos desta realidade está
no repertório psicanalítico que perpassa em muitas das letras do álbum inicial,
mas também no modo como temas vulgares no universo punk e rock’n’roll (sexo,
drogas, status quo político e social) se articulam com momentos inesperadamente
tétricos. Musicalmente, não podemos dizer que tudo se resuma a rasgar três
acordes até à exaustão. As percussões e os sopros de Dantes conferem à música
dos Xutos uma outra sofisticação, assim como a capacidade de construir melodias
agradáveis sobre ritmos nervosos. Escute-se este exemplo.
Sem comentários:
Enviar um comentário